quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O PODER SUTIL DOS ESPAÇOS PÚBLICOS

Muita gente encontra um pouco de felicidade quando menos se espera. São pessoas que usualmente não se manifestam de acordo com sua natureza em ambientes onde se espera que ajam naturalmente. Porque são seres com modos de agir e sentir muito particular e, apesar de serem às vezes (muitas vezes) forçados a agir "normalmente", porque "as coisas são desse jeito", das duas uma: ou se conformam à (triste) realidade, traindo sua essência em detrimento de uma menor perseguição ou sondagem; ou se adaptam, mudando algumas coisas ou evitando certos ambientes quando podem, continuando sendo vistas como estranhas e com alguma patologia. E, o mais triste de tudo: muitas pessoas assim passam grande parte - ou toda - de suas vidas sem poderem fazer o que gostam porque nunca tiveram uma orientação adequada da família ou da sociedade, nem tiveram tempo suficiente. Mas existem lugares adequados para esses tipos.

Desde que me formei resido em minha cidade (praticamente) natal, SJC. E por me encontrar numa situação material relativamente confortável - em relação a muitas pessoas miseráveis desse mundo - venho tendo uma certa disponibilidade de tempo. Essa vantagem provou ser particularmente útil pra mim porque, na minha opinião, esse tempo foi muito bem empregado. E sem necessidade de grandes gastos.

Venho frequentando espaços abertos como parques e centros culturais. E posso atestar que, em um período de três anos, conheci e fiz amizades dos mais diversos tipos nesses lugares. De classes sociais, raças, faixas etárias, gêneros, escolaridade e gostos de todos tipos. Ontem mesmo, por exemplo, ao ir ao Parque Vicentina Aranha fazer exercícios e depois tocar um pouco (do pouco que sei) de piano, me deparei com um rapaz que estava tocando o instrumento de forma agradável. "Não sei ler partitura. Aprendi tudo ouvindo e por meio desses tutoriais na internet.", ele me disse, quando perguntei sobre sua formação musical. E trocamos idéias sobre música e outras coisas.

O caso do parque foi apenas um entre dezenas que ocorreram ao longo dos últimos meses. E dessas dezenas, uma parte considerável se tornou mais do que simplesmente um conhecido - ou mesmo um colega. Fiz verdadeiras amizades. Pessoas igualmente livres, que agiam de acordo com sua essência, foram aparecendo com o passar dos meses.

Gente que me escutava, que não tinha preconceitos, me convidava para ir a lugares e não tinha medo de gritar no meio da rua para me dar um simples "oi". E que compreendiam e aceitavam o meu jeito de ser. Para retribuir à altura, eu também procurei escutar, ouvindo seus problemas e sonhos e idéias; cumprimentar; ajudar e compartilhar um café de vez em quando.

É claro que é possível fazer amizades (e grandes) em ambientes institucionalizados. Eu mesmo consegui fazer muitas e boas. Mas a questão é que nesses ambientes sempre existe uma pressão invisível que inibe a manifestação do ser, por motivos materiais. E a interação entre tipos diferentes sempre fica reduzida por motivos de obrigações, ou para não desagradar a maioria dominante, que usualmente (e infelizmente) apresenta um pensamento e comportamento que em sua essência não tolera o diferente. Ou melhor, que o tolera até um grau dito aceitável. E não se pode manifestar a sua opinião abertamente, por mais argumentos e capacidade de sintetizar uma ideia que você tenha, pois existe o risco de uma espécie de exclusão que sempre permeia ambientes institucionalizados. Isso felizmente não existe em espaços públicos. Por que? Porque existe LIBERDADE.

Mas talvez o mais fascinante em buscar alternativas desse tipo é que essa própria busca é uma espécie de luta contra o sistema vigente. Luta pacífica, não-agressiva. E resistência. Resistência prazerosa para o ser sensível. E imperceptível para os gigantes do negócio. Muitos ganhos para a alma, pouco gasto e preenchimento do tempo de forma útil.

Ao imprimirmos nossa personalidade em espaços abertos descarregamos as tensões do cotidiano - permeadas por longas e exaustivas jornadas de trabalho e dívidas infindáveis - de uma forma saudável. E passamos a existir para alguém. E outros passam a existir para nós. E se trata de um fenômeno dinâmico, que vai metamorfoseando com o passar das semanas, meses e anos. Seguimos uma trajetória circular. Mas ascendente. Como uma mola que, a cada volta em sua trajetória, sobe um pouco na vertical.

Diversão, estudo e trabalho não estão necessariamente atrelados a gastos altos, sofrimento e confinamento, respectivamente. Na verdade, para a pessoa consciente e com alguma meta firme na vida, essas coisas podem se manifestar de forma mais construtivas no espaço público. E essas pessoas, para poderem usufruir desses espaços, necessitam de um certo tempo para se desenvolverem neles. E energia.

E já estudei a História humana repetidamente. E pelo que percebo vejo que a melhor forma de sermos uma sociedade centrada no sócio-cultural e na democracia (no verdadeiro sentido da palavra) é nos conscientizando internamente. Trabalho interior antes.

Quem já sabe, que continue o caminho, dando o exemplo. Não há nada de atraente no modo de vida material. Por mais que pareça, é tudo mera ilusão criada por uma elite alienada e poderosa.


Vamos para as ruas viver e valorizar a vida.

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