domingo, 13 de outubro de 2013

POR QUE A CIÊNCIA E TECNOLOGIA ESPACIAL É IMPORTANTE


Estação Espacial MIR.
Não escrevo esse artigo como especialista e sim apenas como uma pessoa que teve uma breve (mas intensa e prazerosa) vivência no setor espacial brasileiro. Como estudante de pós-graduação.

Bom, a primeira coisa que vem à mente de alguém quando se fala em foguetes e satélites e estações espaciais e coisas do tipo é uma espécie de misto entre fascinação e temor. Fascinação por ser algo que nos leva aos mais elevados limites científicos, tecnológicos e – por que não – filosóficos e religiosos. E temor porque tudo isso está aparentemente além da nossa capacidade de compreender.

Mas afinal de contas, qual é a relação entre o desenvolvimento da C&T espacial e nosso dia a dia?

Na incessante procura da “conquista” do espaço, milhares de benefícios tecnológicos acabam e acabaram migrando para a sociedade. Alguns com objetivos nobres, outros nem tanto. Mas a aplicação pouco judiciosa dos recursos não desmoraliza a natureza deles em si. Mas sem dúvida desmoraliza aqueles que usam esses recursos para tirar vantagem de seus semelhantes e outras formas de vida.

À medida que os processos e conceitos científico-tecnológicos que permeiam o desenvolvimento de um produto aumentam, o preço do mesmo começa a se elevar na mesma proporção. Logo, se este produto tiver uma utilidade fundamental, seu comércio se torna mais vantajoso. Isso é muito visível no setor aeroespacial, exemplo máximo de tecnologia de ponta – juntamente com o setor de biotecnologia, materiais e computação.

A tabela abaixo revela a importância de se investir em áreas que produzem produtos de alto valor agregado.

Segmento
US$ / kg
Agrícola
0,30
Automotivo
10,00
Eletrônico
100,00
Defesa
200,00
Aeronáutico
1.000,00
Espaço
50.000,00
Fonte: Associação das Industrias Aeroespaciais
do Brasil.

O que isso nos revela? Nos revela que, se alguém detém a capacidade de gerar produtos de alto valor agregado, pode adquirir outros produtos menos tecnológicos em quantidades muito grandes com a venda de apenas poucos componentes sofisticados. Construa e venda um satélite bom de 500 kg e US$ 25 milhões estarão disponíveis em seu caixa. Com esse dinheiro é possível comprar 83.000 toneladas de grãos para alimentar a sua comunidade. Considerando que uma pessoa se alimente de 1 kg de grãos por dia – só para efeito de simplificação – é possível alimentar 227 mil pessoas por um ano inteiro.

O problema de tudo isso é que para possuirmos um setor de ponta desenvolvido e saudável, existe necessidade de se investir muito nele. Especialmente em seus primeiros anos de vida. Tal como um bebê, que jamais poderá se revelar alguém capaz de gerar algo para a sociedade se não receber um constante incentivo (material e espiritual) por parte de seus pais e – por que não – da comunidade próxima. Ou seja, o resultado é de longo prazo.

E como investir?

Bom, a primeira coisa seria a geração de empregos estáveis, com remuneração e reajustes condizentes e a possibilidades de crescimento acadêmico-profissional-social na área espacial. As pessoas precisam ver um sentido e um horizonte no que fazem. E a geração de empregos na área deve ser a uma taxa que permita a manutenção do "knowhow" adquirido ao longo dos anos.

O segundo passo – considerando o primeiro já consolidado – seria o fomento a Bolsas de pesquisa de valor digno, além de uma constante divulgação por parte de órgãos públicos e por pessoas que trabalham em áreas correlatas da importância da área espacial.

O terceiro passo – e de mais longo prazo – seria incorporar ao sistema educacional uma série de tópicos que permitam relacionar essas tecnologias fantásticas com o que as crianças começam a aprender nas salas de aula. Isso inclusive poderia servir de trampolim para a criança buscar outras áreas (igualmente fantásticas) para atuar na sociedade.

Sabe-se que o setor espacial é pluridisciplinar e é possível trabalhar nele (ou com ele) das mais diversas formas. Geólogos são importantes para criar métodos que descrevem os fenômenos magnéticos e gravitacionais em nosso planeta; matemáticos e cientistas da computação criam métodos numéricos, programas, analisam fenômenos e permeiam todo desenvolvimento tecnológico; químicos, físicos e engenheiros de materiais descobrem novos materiais e aplicam-os em componentes para serem mais eficientes; engenheiros em geral pesquisam e desenvolvem novas tecnologias de propulsão, controle, equilíbrio térmico, aquisição e transmissão de dados, geração e distribuição de energia, entre outros; astrofísicos desvendam fenômenos dos confins do Universo para que um dia possamos ver alguma aplicação prática nos mesmos; biólogos fazem experimentos em condições inimagináveis na superfície terrestre; antropólogos e sociólogos, através das mudanças climáticas, que afetam a geração de energia, levando a uma alteração na dinâmica da economia, que por sua vez muda os investimentos sociais, analisam os impactos sócio-culturais; e por aí vai. Nada nem ninguém está isolado.


Mas essas mudanças só podem ser implementadas com muita vontade política. E o que nós, meros mortais, podemos fazer, é divulgar o conhecimento e resistir à inércia alienadora sempre que necessário. 

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