domingo, 1 de dezembro de 2013

BARBÁRIE, REALIDADE E UTOPIA

Já é cada vez mais certo: o mundo sempre progride. Para melhor, claro. Por mais difícil que seja aceitar isso, é verdade. Pelo menos eu tenho essa percepção. E é muito simples de perceber isso. Mas nossa visão deve ser cósmica para visualizar dessa forma

Há cem mil anos nós (nossa espécie) era nômade. Vivia em cavernas e caçava criaturas mais pesadas - ou não - para obter o necessário para a subsistência. Além disso devia haver alguma contemplação primitiva da natureza (como deitar à noite e olhar as estrelas numerosas, que na época não eram ofuscadas pela excessiva iluminação artificial), atividades sexuais (bem selvagens), e jogos bem simples (como emitir sons, puxar cabelos e coisas do tipo...não sei...não me formei em antropologia). A questão era a seguinte: a vida era dura e crua. Mas era simples e não haviam milhares de facilidades tecnológicas nem escrita nem coisas que hoje em dia preenchem a vida de bilhões de pessoas (mesmo as mais pobres e miseráveis).

Com o passar dos anos (e séculos, e milênios) surgiram vários inventos que facilitaram a vida das pessoas: desenvolvemos o primeiro tipo de propulsão, que foi o cão, cuja importância para a locomoção em regiões glaciais ou que sofreram a influência da era do gelo (como naquele desenho com o esquilo) foi fundamental para a disseminação do ser humano pelo globo. Depois veio a descoberta do fogo, que facilitou a cocção dos alimentos, permitindo o desenvolvimento do cérebro e servindo de proteção para os predadores e também iluminando as cavernas, permitindo que ficasse tudo claro lá dentro e os homens pré-históricos pudessem começar a pensar "poxa! agora é claro aqui e eu não estou com sono e posso ver tudo e a cara de meus colegas e posso fazer coisas diferentes". E assim surgiram as pinturas, a primeira forma de arte manifestada pela nossa espécie.

E veio a domesticação dos outros animais, que permitiu o acúmulo de alimento (porco), o leite (cabra) e a tração de grandes volumes (boi).

Também surgiu o arco-e-flecha, que possibilitou uma enorme economia de energia e segurança. Pela primeira vez era possível obter o alimento sem o risco de se expor. Era o refinamento da técnica de caça.

A seguir veio a agricultura, que foi uma das maiores mudanças de todos os tempos. Com ela nossa espécie deixou de ser nômade, permitindo o desenvolvendo uma vida sedentária. Não havia mais a necessidade de correr atrás do alimento. Não estávamos mais sujeitos às mudanças climáticas. Ou melhor, estávamos sim, mas já era possível nos planejarmos, uma vez que as estações são cíclicas e era possível prever as colheitas e estocar alimentos para períodos de aridez. Eis a sacada! Planejamento. Com o planejamento se tornou possível desenvolver outras atividades, tendo em vista ganhos de longo prazo.

Surgem cidades e com elas escolas, governos, templos, etc. E tudo melhora. No plano intelectual surgiram a Astronomia, a Matemática, a Medicina, o Direito, a Filosofia, etc. Isso possibilitou o progresso intelectual da humanidade, que criou diversas instituições e sistemas ao longo dos séculos vindouros. No entanto, em termos morais, houve pouco - quase nenhum - progresso.

Uma das maiores mudanças que nossa espécie sofreu foi ocasionada pela Revolução Industrial, no final do século XVIII. A partir dela, a vida das pessoas começa a mudar radicalmente. Para pior, na grande maioria dos casos. E aí forma-se o que a gente conhece como classe operária.

Olhar além sempre.
A desculpa dos patrões para tamanha exploração - da energia, do tempo e consequentemente da dignidade - era a seguinte: esse era um bem para todos, pois os pobres - especialmente as crianças - com tempo livre, poderiam facilmente se desviar do caminho reto da vida, recorrendo à bebida, ao fumo, à prostituição e ao roubo. Claro! Passando 14 horas por dia dentro da fábrica isso não iria ocorrer. Mas...se a criança permanecesse ESTUDANDO, dentro da escola, por um período semelhante, o resultado não seria o mesmo? Aliás, não seria MUITO MELHOR estudar do que trabalhar, para que no futuro essas crianças tivessem condições de trabalhar dignamente? É claro que os patrões devem ter desviado desse assunto de alguma forma, afirmando que a escola não movimenta a economia ou coisa do tipo. E mesmo se naquela época isso fosse verdadeiro em parte, para os tempos de hoje isso se aplica cada vez menos - e segundo diversos especialistas, tenderá a acabar por completo.

A verdade é que por muitos anos (décadas, e agora séculos) ecoou essa desculpa. E agora, em pleno século XXI, muita gente continua acreditando que deixar as pessoas com mais tempo livre acarretaria em vagabundagem. Isso não condiz com muitos casos que eu conheço. Porque houve uma democratização não apenas dos recursos, mas também da informação. E - por incrível que pareça - as pessoas estão mais inclinadas para o conhecimento. É um fenômeno mais difundido. Já se vêem pessoas tendo conversas que consideram prazerosas mas que (ao mesmo tempo) trazem junto um profundo senso investigativo. É impressionante. E gente cada vez mais inclinada a ocupar seu tempo livre de forma extremamente útil - ouso dizer que de forma infinitamente mais produtiva do que muitos fazem dentro de caixas de concreto ou sob as intempéries.

O que alguém classifica como barbárie, realidade ou utopia é função de diversas variáveis. Se trata de algo relativo.

O que é considerado nefasto atualmente era prática comum há alguns séculos (queimar hereges, por exemplo). O que é considerado utópico hoje amanhã pode ser considerado normal. E na mesma época, vemos no globo diversos povos com posturas diferentes sobre as mesmas questões. Mas devemos ter cuidado em classificá-los num grau evolutivo.

Eu acredito que não é possível classificar um povo, um grupo, uma nação, e mesmo um indivíduo de forma absoluta. Aliás, se nem um indivíduo pode ser enquadrado numa categoria absoluta de bom ou mal, - pois todos somos compostos por uma miríade de vetores que representam virtudes a serem desenvolvidas, cujas magnitudes são diferentes e variáveis, e que estão (muito) longe de atingir a intensidade máxima - muito menos podemos classificar um povo de bom ou mal. É claro que existem povos com uma forte inclinação para tendências boas ou más. Mas nessa análise estamos considerando um ou outro aspecto específico. Portanto devemos ter uma visão completa daquilo que estamos avaliando para não corrermos o risco de cairmos em contradições catastróficas.

Podemos analisar a humanidade como um grande organismo vivo, composto por diversas células (pessoas), cada uma com uma função específica (profissões). Esse organismo vivo opera sobre o planeta, transformando-o em prol do benefício coletivo (pelo menos teoricamente). Sob essa ótica é evidente que, para o organismo funcionar bem como um todo, cada célula deve trabalhar em prol de um objetivo comum. Não quero dizer com isso que devemos nos submeter a um regime autoritário (corporativo ou estatal), e sim que existe um grande princípio que todos devem seguir - pelo seu próprio bem. Hoje e futuramente. Esse princípio já começa a ser compreendido por alguns seres, e parece que veio para ficar.

Sendo cada célula especializada em uma função, e sendo todas funções imprescindíveis para a saúde do organismo, chega-se à conclusão de que se um grupo de células com funcionalidade comum está em risco, todas outras devem agir para ajudá-la. Caso contrário o organismo morre, arrastando para seu leito todas as células - todas.

Da mesma forma, se uma parte do organismo opera de forma mais eficiente, é sensato que outras partes comecem a se inspirar e reproduzir o exemplo.

A humanidade, em busca de um suposto progresso, tentou estancar todas tentativas de melhoria na qualidade de vida. Isolando, classificando e propagandeando negativamente. Ao mesmo tempo, todas ações sedutoras, mas cheias de vícios, foram reproduzidas e colocadas num pedestal de exemplos a serem seguidos. E o resultado desse comportamento é o que se vê nos jornais - sensacionalistas em sua maioria- nos programas de televisão, nos relacionamentos fundados na matéria, e etc.

Enquanto a humanidade não RECONHECER seu atraso. Enquanto a humanidade não reconhecer e COMPREENDER as causas de seus problemas mais desesperadores, a trilha do Progresso estará limitada para o coletivo, e dificultada para as poucas almas iluminadas - ou em busca de iluminação.

Não há mais motivo para tanto sofrimento.



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