quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A NÃO-EXPECTATIVA COMO SOLUÇÃO DO MAL-ESTAR CONTEMPORÂNEO

Um dos maiores problemas de nossa sociedade são as crescentes crises de depressão e solidão, cada vez mais presentes no cotidiano. Todo indivíduo, se não passa por algo do tipo, sem dúvida já passou. Se não passou, provavelmente passará. Se vier a não passar, sem dúvida deve conhecer um familiar ou amigo ou colega ou cliente que tem ou já teve um problema desse tipo. Tudo isso apesar de toda riqueza e tecnologia e globalização - que muitos achavam que aproximaria os seres humanos.

Vivemos numa Era na qual estamos cada vez mais interconectados e - paradoxalmente e aparentemente - solitários. Quantas pessoas rodeadas de "amigos" não alegam sofrer de solidão? Gente solitária em meio a uma multidão. Gente completamente desintegrada em meios que se dizem integradores.

Parmênides, que garantiu a boa governança de
sua cidade natal, Eleia, que se deixou influenciar
pelos seus pensamentos.
Os grandes centros urbanos estão se privatizando cada vez mais. Mesmo com uma onda de insatisfação, que clama por mais espaços públicos, mais tempo livre e menos dependência do capital, ainda se percebe a falta de iniciativa corporativa e governamental para atender as demandas de uma nova humanidade, que deseja nascer e se manifestar.

Todo discurso de integração na maioria das vezes não passa de algo vazio e sem sentido na prática. Parece que cada vez mais gente adere à fórmula de valorizar a forma e deixar o conteúdo em segundo plano. E me parece que os problemas não estão sendo resolvidos. Apenas encobertos. Problemas que desejamos resolver, mas nos desviamos pra valer. Então, eu penso, deve haver alguma coisa errada com tudo isso.

Nesse ponto eu me relembro dos estoicos*, que possuem uma filosofia de vida que diz: “Não coloque expectativas em nada e serás feliz." Faz sentido. Porque ao longo da vida, se formos relembrando os momentos e percebendo os detalhes de nossas amizades e relações e todos tipos de contatos, nos damos conta de que, talvez, a maior causa da maioria de nossos momentos de raiva e infelicidade emanam dessa expectativa - ou excesso dela - em relação a algo ou alguém. Pode ser um curso, uma faculdade, uma profissão, uma moça (ou moço), um amigo, um produto, etc. E não podemos mudar todas essas pessoas e cursos e objetos para satisfazer nossas expectativas. Logo, segundo os estoicismo, a melhor alternativa é deixarmos de lados todas expectativas.

Quando digo que o melhor é deixar as expectativas do lado, não quero dizer que devemos fazer as coisas sem ânimo. Nem que nossas amizades devem ter menos vida. Simplesmente devemos encarar todas as coisas como um algo a mais. E nos concentrarmos no presente. Nossa mente fica menos perturbada. Nos concentramos melhor em nossas atividades. Tudo flui. Isso é se tornar indiferente a tudo que é externo ao ser (a nós). Devemos nos adaptar à lei natural das coisas, nos encaixando harmoniosamente nesse todo que exite.

Marco Aurélio (121 d.C - 180 d.C), o
Imperador-Filósofo de Roma.
Seguia a escola estoica. 
De certa forma o pensamento estoico tem muitos pontos em comuns com o raciocínio de Pietro Ubaldi. Adaptar-se à sua realidade. A única diferença reside da crença deste de que existe uma inteligência suprema que sabe tudo e estabeleceu essas leis, enquanto aqueles creem não haver necessariamente essa inteligência. Ou seja, as coisas são simplesmente como são, e devemos nos adaptar da melhor forma a elas.

A filosofia de vida estoica demora para ser compreendida. E um pouco mais para ser implementada. Porque se trata de algo difícil. Algo que prego o não apego ao materialismo e mesmo aos sentimentos que possam dte deixar deprimido. Isso é difícil (não se apegar a nada).

Desde a nossa mais tenra infância nos habituamos - ou melhor, somos habituados - a desejarmos bens e possuir influência sobre pessoas, tendo-as sob nosso campo de controle. A apresentarmos ambição. Somos orientados para o TER. Ao passo que o SER é pouco enfatizado. E a conseqüência floresce ao longo dos anos.

Não ter expectativas em relação a muitas coisas tira uma bigorna enorme de nossas cabeças. Nos vemos preparados para qualquer imprevisto. Aliás, não haverá nenhum tipo de imprevisto. E isso permite que façamos nossas atividades em paz. Podemos concentrar nossas energias em uma coisa só. Não gastamos essa energia com preocupações, planos ou desejos de vingança.

Eu até acredito que muitas coisas que não acontecem em nossas vidas - e nós achamos que deveriam acontecer - podem ser uma oportunidade de crescimento interior. É duro ouvir isso quando muitas coisas parecem conspirar contra nós. Mas se você observar bem e com calma, verá que é verdade [adote a visão cósmica].

A vida das pessoas à sua volta não é tão maravilhosa quanto você ou eu imaginamos. Lembre-se que só vemos a casca das pessoas. E vice-versa. É o único que (a grande maioria) quer mostrar. E em público as pessoas gostam de manter uma certa aparência, por pior que seu jardim interior esteja. Por medo, na maioria das vezes. Mas se pararmos uns dias para sentar, constatar o movimento das pessoas num café, num restaurante, numa rua, num parque, num ônibus,....se pararmos para refletir, observando nuanças e gestos, será possível começar a ver o horror que existe na alma de muitos seres. Através de seus rostos e olhares e gestos. Se a boca não fala o corpo dará conta de mostrar a realidade. E se existe aparência de felicidade posso garantir que ela é efêmera. E a partir daí você se sente menos louco. E mais humano.

Não esperar nada pode ser a fórmula para solucionar os grandes males contemporâneos do ser humano (mas sempre tenha planos!).

Viver o presente ao invés de viver para o futuro.
Viver o presente ao invés de reviver o passado.
Viver o presente para viver.

Não se trata de não traçar metas. Nem de ignorar as lições da História. Se trata de dar o devido lugar aos acontecimentos e se concentrar no presente para que o passado se construa e traga memórias cada vez mais doces e gloriosas e o futuro seja sempre a morada de nossas utopias - que devem sempre se renovar. Porque esse é o objetivo da vida.

Nem nos meus textos coloco expectativas. Eu estaria matando-os se fizesse isso. Transformando os pobres coitados em algo que eles podem não ser.

Ser capaz de se adequar à realidade é um dos principais fatores para se atingir a felicidade, a meu ver. E isso inclui não depositar expectativas em nada externo, exceto sua própria pessoa. Logo, passamos a ter controle sobre nossa percepção do mundo e consequentemente sobre nosso estado emocional.

Estou tentando começar a praticar isso.

Pode render bons frutos futuramente...








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