terça-feira, 14 de outubro de 2014

QUANDO A VIDA DOS OUTROS MUDA A SUA VIDA. E VICE-VERSA.

“Os escritores são engenheiros da alma”. Uma fala proferida no filme A Vida dos Outros, que assisti pela enésima vez hoje. Bela frase. Pra mim pelo menos, já que sou engenheiro e gosto de escrever.

É incrível como um filme...um simples filme, é capaz de mexer com suas emoções de tal modo que lágrimas vertem pelos olhos à medida que os personagens vão vivendo e reagindo e (alguns) se transformando. E é essa capacidade (transformar) aquela que mais encanta no filme.

“As pessoas não mudam”, diz um político para um artista.

A arte expressa vontades e desejos e sentimentos que dificilmente somos capazes de expressar quando estamos na rua, na escola ou no trabalho. Não temos coragem. Nunca temos vontade no momento. E o momento da vontade nunca chega. Nunca...

Mas as pessoas mudam, eu digo. Elas mudam sim. E isso acontece quando se começa a ESCUTAR e COMPREENDER os ignorados e excluídos. Nossa visão muda. Nossos filtros se readequam e passam a deixar muita preciosidade passar pelos nossos ouvidos. Essa mudança interna – sua, minha, de todos nós – é lenta. Tão lenta que até hoje a ciência ainda ignora os mistérios que causam as mudanças mais influentes no ser humano.

A superfície é fácil de ser trabalhada. As camadas mais profundas exigem mais empenho, tempo, criatividade e – sobretudo – Amor. Só os exploradores da alma amadurecidos serão capazes de levar uma vida investigando esse caminho. Em tudo e todos. Todo dia.

Gerd Wiesler. Um homem bom. 
Que belo filme esse “A Vida dos Outros”!

Cada plano, cada cena...Tudo é meticulosamente planejado de modo a extrair e expressar o máximo de humanidade e sentimento. Dos personagens e do público. A trilha sonora se une aos sentimentos e desejos dos personagens formando uma harmonia quase sobre-humana. É um filme que aponta para a divindade sem citá-la. Secretamente. Mas o mais comovente é a crença – uma quase sapiência – na capacidade de transformação do ser humano.

Gerd Wiesler (ou HGW XX/7) é apresentado logo de início. Frio, metódico, inteligente e racional. Um ser humano (aparentemente) sem sentimentos e infalível. Sua voz monocórdica e precisa nos lembra um perfeito robô. No entanto, essa visão acaba sendo abalada no decorrer da projeção.

O trabalho de vigilância de um dos capitães mais brilhantes da Stasi (a polícia secreta alemã pré-queda do Muro de Berlim) acaba por ser um VERDADEIRO trabalho. No sentido evolutivo. Desperta-se uma consciência. Amplia-se sua visão do mundo e da sociedade. De repente a arte invade sua vida. Uma vida sedenta por mais, mas sempre impedida de se elevar por causa de uma falsa percepção de um ideal e de um mundo desejoso de se expressar.

Dizem que A Vida dos Outros é um conto de fadas, pois nunca houve um caso (registrado) de agente da Stasi que fez o papel de anjo da guarda de um cidadão “subversivo”. Talvez...A questão não é essa. O ponto é o seguinte: esse “conto-de-fadas” virou filme. E filmes são reais porque despertam emoções – que são reais...e INTENSAS. Emoções expressam desejos. As pessoas saem da sala (de casa, do quarto,...) se sentindo melhor. O mundo tem alguma esperança. Porque o ser humano...aquele ser visto como o menos humano, o mais robótico, o mais frio...se transformou. De uma forma magistral. Poética!

Mas a evolução é lenta, como já disse Pietro Ubaldi. Demoramos décadas, séculos, vidas, às vezes para sanarmos um ou outro defeito. Pequeno! E somos cheios deles.

Mas a salvação existe. Pode ainda não ser provada, mas filmes como A Vida dos Outros são um atestado do ardente desejo humano por melhorar. É uma obra que expressa a capacidade de evolver. Mesmo sendo ainda fantasia, já alegra.

Antes de fazermos, precisamos sonhar.

Antes de concretizarmos, precisamos agir.

Antes de agir, devemos conceber.

Para conceber, precisamos nos voltar para nós mesmos e travar uma guerra.

E com isso, após longas batalhas, teremos paz dentro.

E naturalmente, paz fora.


Essa é a sensação qu tive ao (re)ver A Vida dos Outros hoje.

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