sexta-feira, 15 de junho de 2018

Vegetarianismo: questão de maturação evolutiva?

Há tempos desenvolvi o assunto dos 5 A's essenciais à vida [1]. Um ser humano, para viver em sua plenitude, necessita apenas desses cinco elementos. Em sua plenitude. O que significa em quantidade necessária e suficiente (nem mais nem menos) e com a qualidade máxima, dando plenitude. Podemos destrinchar cada um deles, revelando tópicos científicos, vistos à luz da ciência, para comunicar melhor ao homem moderno qual a importância de se ter acesso a cada um deles. 


Estilo de vida saudável reflete na
aparência, na disposição, no humor, no
dinamismo. 
O 1º deles (ar) aponta para o aquecimento global, a poluição atmosférica e se liga profundamente com o ciclo da respiração, de inspirar e expirar; O 2º (água) é um dos tijolos fundamentais da vida, constituindo de 60 a 70% de massa do corpo humano. Ela aponta para o saneamento, o ciclo hídrico, a energia hidráulica, a nutrição; O 3º elemento (alimento) é diverso e múltiplo. Ele é o último dos elementos essenciais do ponto de vista animal, formando a tríade elementar que permite ao indivíduo sobreviver. Ele aponta para questões de saúde, nutrição, bem-estar; A partir daí tem-se o 4º elemento (abrigo), que é por vezes sofisticado na vida infra-humana (ex: colônias de formigas) mas não se revela tão indispensável quanto para o ser humano, que se desenvolve numa região de segurança. É onde se dão as atividades intelectuais, de reflexão, de educação, de socialização. É o que se associa à propriedade fixa, de direito, inalienável. É a extensão do corpo. Posse e local de descanso. Essencial à criação da família (propagação da espécie) à nível mais elevado; Até aqui se cumprem a 1ª e 2ª lei da vida (alimento e reprodução), que são tanto melhor cumpridas quanto mais saboroso o alimento e mais bela a mulher. Mas há uma necessidade a mais, que alguns já vislumbram, que vai além do plano do abrigo e das necessidades básicas de ingestão corpórea. Trata-se do afeto: ápice das necessidades. Indispensável para o desenvolvimento das ideias, da formação de valores, da criação de conceitos novos e de atitudes revolucionárias de vida, apontadas para a unificação. Assim temos o ser humano, cujas possibilidades se traduzem na plenitude dos cinco A's.

Gostaria de desenvolver a questão da alimentação, que nos toca de forma muito profunda, já que é um processo que ocorre com frequência e une as pessoas. Além disso, a nutrição se relaciona de forma profunda com a questão ambiental, a saúde e da eficiência energética. Temas centrais à ecologia, à medicina e à economia. Adicionalmente - e principalmente - trata-se de um aspecto que revela, a meu ver, um vetor evolutivo do ser. Logo, podemos adicionar ao estudo a questão espiritual, que vai muito além da abordagem ética. 

O aspecto do alimento em si já é mais sáttvico-rajásico.
Ao contrário de certos alimentos que são tamásicos.
Mais sobre as três gunas, veja em:
https://blavatskytheosophy.com/the-three-gunas/
Os três aspectos humanos (ambiente, saúde, energia) se inter-relacionam. Assim irei abordar o tópico de forma integrada, desmistificando alguns conceitos que as pessoas geralmente tem à primeira vista. Isso tem por objetivo apenas esclarecer do que se trata, sem visões parciais, e sim universais, sem âncoras em correntes de pensamento e tendências humanas. Ver-se-á que é uma questão de alinhamento com uma lei cósmica.

A primeira questão que alguém pode levantar é a necessidade do organismo humano ingerir determinados tipos de proteínas. Me parece justo ter isso esclarecido - já que a saúde é essencial para viver-se com qualidade. Eu vivo sem comer carne há dez anos e não senti nenhuma falta nutricional, seja em vitaminas, sais minerais, funcionamento celular ou disposição. Os últimos exames de sangue revelam que tudo está dentro das faixas da normalidade. Meu peso é baixo mas dentro da faixa considerada saudável. Meu organismo suporta esforços grandes - especialmente em termos psíquico-nervosos. Talvez venha daí a explicação de meu metabolismo hiper-acelerado. Como bem - nem muito nem pouco - e no entanto não apresento tendência de ganho de peso. Minha atividade física é elementar (caminhadas e pedaladas frequentes, para fins utilitários e ginástica de 20 minutos), com frequência dia-sim-dia-não, em média. 

O vegetarianismo / veganismo leva a um uso mais eficiente
do solo. Respeita a diversidade das espécies e evita sofrimento
desnecessário. Não é o que o sistema atual diz construir?
O intestino trabalha bem, já que a carne é de digestão lenta e os vegetais, legumes e grãos são digeridos rapidamente. Além disso a disposição - sinto - é acima da média, com menos necessidade de sono pós-refeições. Logo, em termos de disposição e indicadores corporais, tudo está em perfeita ordem. Adicione-se a isso a minha capacidade de manter um dinamismo fora do comum para tarefas além das obrigatórias (trabalho formal, manutenção do lar e lazer), criando textos de várias vertentes, desenvolvendo cursos inéditos e conversas profundas (e intensas), ler, estudar e refletir livros/filmes profundos, realizar doutorado, ouvir música e me exercitar. Essa energia a mais pode ser consequência tanto da alimentação frugal e vegetariana, do círculo de contatos selecionado (por sintonia) e da seletividade das tarefas. Dez anos de vegetarianismo não me afetou nada em termos de saúde e aparentemente melhorou minha disposição.

O próximo passo é definir os graus de vegetarianismo. De modo geral existem cinco categorias diferentes. O que as une é a ausência do consumo de carne de qualquer tipo: bovina, suína, caprina, aves, peixes, moluscos, etc. A diferenciação parte desde aqueles que aceitam ovos, leite e derivados e mel em sua dieta (ovolactovegetarianos) até aqueles que não aceitam nada de origem animal - inclusive o mel que as abelhas produzem. Estes últimos são denominados veganos.

Um vídeo da acadêmica Sabrina Fernandes [2] explica de forma cristalina o vegetarianismo/veganismo. O diferencial é a relação do veganismo com o anti-capitalismo. À primeira vista poderá parecer uma tentativa de concatenação forçada entre o ideal socialista de justiça social (lógica redistributiva) com a vertente ambientalista (lógica de redução da produção), que se dá pelo fato da moça ser ecossocialista, mas trata-se de uma relação real, que possui uma lógica férrea, conforme irei mostrar mais à frente. Recomendo que vejam tanto o vídeo extenso quanto o complementar da mesma autora [3].


Porque quando se fala em gado se usa o termo "indústria agropecuária"? Primeiro: a agricultura (o "agro") é o que sustenta a pecuária: o gado consome mais grãos do que a humanidade. Muito mais. Logo, a nossa agricultura serve muito mais como alimento indireto do que direto. O que leva a concluir que o bife que se come possui centenas ou milhares de quilos de grãos "embutidos", pois o boi / a vaca comeu muitas toneladas de grãos ao longo de seus 3~4 anos de vida. Segundo: nossa espécie não se alimenta mais de carne em função da necessidade, mas sim devido à fatores culturais (hábito / imposição familiar / crença na "força" e "vigor" que a carne dá) e uma lógica de consumo para manter o sistema econômico vigente - braço direito do paradigma capitalista - operacional. Vive se para comer - não se come para viver. Se aplica a todos alimentos, mas a carne tem um protagonismo muito grande. Por esses motivos se usa o termo supracitado: a pecuária "puxa" violentamente (demanda) o setor agrícola e a lógica industrial-produtivista. Esse é o primeiro ponto.

Já começamos a perceber o papel que a economia tem na questão do consumo da carne. Adicionemos a questão ambiental.

Segundo dados da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) a pecuária é responsável pela emissão de 14,5% dos gases de efeito estufa (metano, CH4) que causam o aquecimento global. Isso supera o setor de transporte. O metano, é bom lembrar, é o gás com maior impacto dentre todos, pois uma mesma quantidade (e aumento) de ppm's (partes por milhão) na atmosfera causa mais aumento de temperatura média global do que os demais gases (greenhouse gases), incluindo o dióxido de carbono (CO2) emitido pelo setor de transportes, que já por si não é muito eficiente.

"o metano é mais eficiente na captura de radiação do que o CO2. O impacto comparativo de CH4 sobre a mudança climática é mais de 20 vezes maior do que o CO2, isto é, 1 unidade de metano equivale a 20 unidades de CO2." [4]

A mesma fonte diz que o CO2 é o gás de maior emissão (78% do total), o que pode causar confusão para quem lê por cima. Lembrem-se: maior emissão é causa. maior impacto é consequência. São coisas diferentes. Logo, emitir 10 vezes menos ppm de CH4 do que CO2 no fundo significa que o primeiro está causando maior parcela de aquecimento do que o segundo. Ele é (digamos) muito mais 'letal' em termos de aumento de temperatura.

A Juliana do Boho Beautiful tem uma dieta vetorizada para
o vegetarianismo. E uma vida simples. 
Luiz Marques nos lembra que o aumento de temperatura global se dá de forma desigual: a água aquece muito mais lentamente do que a porção continental - devido à sua capacidade térmica, entre outros fatores [5]. Logo, concentra-se um maior aumento de temperatura nos continentes, - onde vive a humanidade - o que agrava a questão. Iremos sentir um aumento maior do que a média prevista, e isto irá afetar a produção agrícola, promover aumento do nível do mar, que por sua vez causará migrações em massa e deteriorar os sistemas produtivos mais ainda. É bom que saibamos disso. Pois quando certas coisas começarem a ocorrer, ao menos saberemos o porquê e poderemos apontar melhor os responsáveis: nós mesmos, em larga medida. Mas quem detém o poder talvez seja mais responsável, pois sabe e tem condições de reorientar os sistemas humanos, mas pouco ou nada faz para isso - pois é muito trabalhoso se pensar em mudanças profundas...especialmente de paradigma.

A questão hídrica é igualmente crítica.

"Quem se torna vegetariano ou vegano economiza água de maneira significativa: para se produzir um quilo de soja, são gastos 500 litros de água, enquanto para um quilo de carne bovina, são necessários 15 mil litros do líquido." [6] (grifos meus)

A lógica é simples. Podemos perceber a "produção" pecuária puxando o consumo de água (H2O), da agricultura, aumentando as queimadas (emissão de CO2) e trazendo malefícios para a saúde humana.

Até mesmo os onívoros admitem que o consumo excessivo é prejudicial à saúde. Muitos admitem que o excesso de carne é pior do que o não-consumo da mesma.

Ernst Gotsh tem 70 anos (parece?). Longe da atribulada vida
dos afazeres e obrigações forçadas, trabalha a terra com
alegria e criatividade. 
Outro argumento frouxo usado por alguns (para justificar os matadouros) é que 'se todos fossem vegetarianos haveria excesso de animais', e assim teríamos uma crise e seria necessário que alguém comesse os bovinos, os suínos, as aves e cia. No entanto me pus a pensar e imagino que, à época em que a nossa espécie "chegou" no planeta, não havia uma inundação de animais. A quantidade de bois, porcos, cabras, galinhas, etc estava estável e em equilíbrio - há milhões de anos creio eu. Logo, só se pode concluir o seguinte: nossa lógica de produção-consumo leva ao aumento da quantidade de animais. A quebra dessa lógica não faria aumentar o número. Talvez até diminua.

Mas se todos se tornassem vegetarianos e veganos do dia para a noite, haveria um forte impacto econômico inicial. Talvez o baque fosse muito forte, como atestam estudos [7]. É uma questão sistêmica que pode ser prevista com modelos*. O baque seria no impacto aos empregos (economia-social), que afetaria muito mais os pobres do mundo e os países pobres, levando à fome muita gente. Portanto o roteiro evolutivo que proponho deve levar em consideração uma transição gradual [8]. Mas ela deve se dar o mais rápido possível, e ser bem conduzida.

Quanto à questão ética, podemos simplesmente afirmar o seguinte: será que os animais precisam morrer em massa para que vivamos bem? Isso poderia ser verdade na pré-história, quando a dificuldade em certas regiões para se encontrar frutas era difícil - e então matava-se o animal para sobreviver. Hoje em dia isso não é mais necessário. Nossas técnicas de produção são modernas. Plantamos diversas culturas em grande quantidade. Temos conhecimentos para criar sistemas agroflorestais sintrópicos, com lógica de retroalimentação [9]. O filme abaixo dá uma visão da gravidade e poder de nossos tempos.


A questão biomássica bioenergética também diz algo - tentarei desenvolver isso em outro ensaio.

Quanto mais vemos em profundidade, maior
o nosso poder de alavancagem. Isso eu mostro,
ensino e propago. É o que posso fazer na
minha humilde posição. 
O capitalismo está profundamente relacionado à lógica do consumo de carne. Assim como à lógica do transporte individual. Assim como à lógica do consumo conspícuo de diversos bens e serviços.  Assim como à lógica de privatização de setores diretamente relacionado aos Direitos Humanos: como educação, saúde e segurança. Assim como à baixa intensidade de nossas democracias. Entre outros. É mister perceber isso e admiti-lo à raíz.

Não proponho nenhuma alternativa 100% esquematizada. Nenhum plano total. Proponho apenas a reflexão de cada um. E colocar esses temas em pauta, seja via cursos (extensão), via textos (blog), seja conversas, seja leituras profundas, seja postura firme e convicta de vida. Estamos realmente melhorando nossa qualidade de vida ao seguir o que a maioria segue? Ao nos deixarmos (inconscientemente) seremos sugeridos a ter um carro caríssimo (que traz gastos enormes), comer demasiadamente e mal, repor eletrodomésticos mais frequente do que o normal?

Estamos nos antípodas. A vida, como deve ser para alcançarmos a felicidade que tanto dizemos ansiar, passa pela mudança radical dos conceitos. Trata-se de uma mudança de paradigma. Do modelo mental para a estrutura sistêmica. Desta gerar-se-ão novos comportamentos. Estes farão coisas (eventos) fantásticos ocorrerem. Demora mas se concretiza. É preciso ter paciência. O bom-senso é  o primeiro passo.

Tratarei adiante da questão ambiental, que se relaciona muito com políticas públicas (democracia), movimentos sociais, transporte, alimentação, turismo, consumo de bens, entre outros. Desde já deixo uma matéria muito interessante da BBC que revela um estudo para lá de interessante feito por uma mulher [10].

Enfim, vegetarianismo é um dos fatores que apontam para uma possível maturação evolutiva?

Não o saberia dizer. Mas as evidências apontam que sim. Rohden afirmava a inutilidade da dieta moderna, repleta de excessos e carnes. Ubaldi também. Tinha inclusive uma alimentação frugal, restrita ao mínimo e indispensável para se manter vivo - era um verdadeiro seguidor de Francisco de Assis. Inclusive se formos investigar todos os santos, místicos e muitos gênios, iremos notar que sua alimentação era muito voltada para alimentos leves, mais próximos de nós na pirâmide da biomassa e bioenergia. O mercado para esse nicho cresce [11] e a tendência reforça o nível de conscientização da humanidade.

Se trata sobretudo de viver uma vida (um pouco mais) plena.

Referências:
[1] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2015/11/ar-agua-alimento-abrigo-afeto.html
[2] https://www.youtube.com/watch?v=VS4dJL5syRA
[3]https://www.youtube.com/watch?v=buBa0mylJyc&index=2&list=PLPZ4y7b7MwOsms0-ly6MNIFo2BUqfWyNG
[4]https://www.google.com.br/search?ei=frYjW4-1LMqcwASvypHYDQ&q=FAO+gases+efeito+estufa+do+gado&oq=FAO+gases+efeito+estufa+do+gado&gs_l=psy-ab.3...110988.115246.0.115435.0.0.0.0.0.0.0.0..0.0....0...1c.1.64.psy-ab..0.0.0....0.zcpxmnJIH-c
[4] http://www.oeco.org.br/dicionario-ambiental/28261-gases-do-efeito-estufa-dioxido-de-carbono-co2-e-metano-ch4/
[5] https://www.youtube.com/watch?v=6F4xbz5v0tE
[6] https://www.ecycle.com.br/component/content/article/63/3908-muito-alem-da-exploracao-animal-criacao-gado-promove-gastos-recursos-naturais-danos-ambientais-em-escala-estratosferica-emissoes-gases-uso-agua-terra-alimento-desmatamento-pastagem-residuos-contaminacao-exploracao-excessiva-fome-pesticidas-pegada.html
[7] https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-38129638
[8] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2018/01/roteiro-evolutivo.html
[9]https://www.google.com.br/search?source=hp&ei=J78jW9q-O8GawQS1xo3IAg&q=agricultura+sintr%C3%B3pica&oq=agricultura+sintr%C3%B3pica&gs_l=psy-ab.3...742.4409.0.4460.0.0.0.0.0.0.0.0..0.0....0...1c.1.64.psy-ab..0.0.0....0.G2Dle7ZjHM8
[10] https://www.bbc.com/portuguese/geral-42005695
[11] https://emais.estadao.com.br/blogs/comida-de-verdade/mercado-vegano-cresce-40-ao-ano-no-brasil/

Notas:
* Dou exemplos do tipo no meu curso de Iniciação à Ciência dos Sistemas (ICS), no IFSP-SJC.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Como mensurar o valor?

Riqueza é algo muito mais amplo do que se imagina. Ela não é apenas possuir muitos bens; Não se restringe tampouco a possuir uma renda alta; Vai além de ter uma empregabilidade de dar inveja; É mais do que possuir um currículo que atrai o mercado; Está além de possuir acesso a bens e serviços básicos (públicos), como saúde, educação e segurança; É algo que começa a ser compreendido com uma vida mais plena de significado. Assim percebe-se que independe do país em que se mora, do grau de escolaridade, do tipo físico, do meio, das influências culturais. Apesar disso, esses fatores influenciam muito no destino do indivíduo. 

A percepção mais apurada do cosmos dá uma sensação de paz que nenhum artifício humano seja capaz de dar. É a sabedoria a verdadeira riqueza. Dificilmente mensurável por ferramentas e métodos relativos, que apenas detectam coisas do mundo. A sabedoria escapa-lhes, pois ela opera a partir de outros pontos de apoio e situa a meta da vida em outras regiões. Como mensurar esse valor supremo? 

Não podemos. No entanto é possível ter uma ideia do que se trata. Basta observar o modo como algumas pessoas conduzem suas vidas. Se for de modo refletido, sem se abalar ou animar por opiniões, "conselhos" e tendências do meio, será uma ascensão em que o produto final de cada ciclo é sempre paz maior, pelo melhor caminho possível. Se for irrefletida, deixando-se guiar pelo ego corpo-mente-emoções, será um caminho sem grandes dores de cabeças subjetivas, gozos objetivos porém momentâneos, mas cujo fim é sempre ter se chegado a um desgaste desnecessário. Têm-se a sensação de tempo desperdiçado, vida desperdiçada, oportunidade desperdiçada...Essa percepção leva anos para vir à tona. Quando vem, é tarde, e só resta ao ser amargura e (no pior do caso) desespero. Mas sempre sente-se a perda.

"Afeto não se mendiga". Ele é suprema riqueza. Além do
mérito. Livre do medo. Inteligência suprema. Intuição. 
A grande astúcia da humanidade é esconder a questão, de modo a não enfrentá-la com cara e coragem. Por essa via navegam bilhões. Com sucessos relativos e fins amargos. A inversão desse modelo mental é suicídio num mundo desprovido de proteção social e compreensão afetiva. No entanto alguns o seguem.

Tendo exaurido as possibilidades do mundo (fama, riqueza, sexo, droga e prazeres diversos), pessoas se conscientizam e começam a trilhar rumos diferentes [1,2]. Mudam de orientação. O vetor passa a apontar para outro sentido, com pequena intensidade - o que já é algo impressionante para o mundo, que vê mais os efeitos superficiais e formas de se divertir com isso do que um alerta para o despertar. Isso é verdadeiramente mágico para quem o vivencia.

Experiências místicas são vividas em vários graus. É uma experiência comum da espécie humana. Acessível a todos que estejam dispostos a sacrificar seu eu humano para um eu superior, universal, que não se identifique com seu corpo e nome e títulos e endereços. No entanto é difícil iniciar essa jornada interior - o meio dificulta, apesar de intimamente ansiar, pois sente que nesse mistério abissal reside as chaves da paz e do progresso.

A tristeza é o que nos coloca em contato
com nosso Eu superior. Ela não é ruim.
Ela deve apenas ser bem encarada, bem
trabalhada. Assim renascemos das
"cinzas". Essa é a ressurreição tal qual
Cristo nos revelou.
Perceber o que lhe ocorreu é difícil, uma vez que a memória é curta (anti-retrospectiva histórica) e fragmentam-se os acontecimentos e conceitos. Tudo se esquece ou se confunde. Resta fumaça e dúvida. Atribuímos as grandes viradas da nossa vida à sorte ou ao azar. Sempre é uma questão do acaso. Tudo que extrapola os limites de nossas capacidades é relegado ao caos que operou a nosso favor. É o que alguns denominam mistério. Aqueles que começam a sentir algo a mais em eventos que se executam ordenadamente, contra todas as possibilidades e forças do mundo. Esse mistério dá vertigens mas encanta, pois é nele que se sente a presença de um imponderável que guia todos os ponderáveis. De uma unidade que harmoniza no plano geral, criando uma ordem sempre mais alta, enquanto nós, pobres criaturas presas à razão analítica-empírica, julgamos poder ter controle sobre as forças da vida.

É nossa ignorância de uma lei superior que nos faz desobedecer constantemente princípios universais. E assim mergulhar em banhos de dor individuais e coletivos. Quem já percebeu se cala e se alinha ao esquema geral do universo. Os fenômenos já lhe falaram. O ser captou a harmonia da física nas ondas do oceano e nos vendavais do céu; já percebeu o maravilhoso dinamismo da diversidade na fauna e na flora, desde seu jardim até as grandes florestas, desertos, mares, montanhas e vales; já percebeu o porquê da gênese das organizações humanas, com seus paradigmas e sistemas; explicou o porquê das religiões e sua evolução; sentiu a divindade na arte; tocou nos mistérios da vida vivendo reta e sinceramente, independentemente dos resultados humanos. Sentiu Deus em todos momentos. Se fundiu à sua vontade. Não é possível recuar, por mais prazeroso que pareça. Sofre-se sim. Mas sofre-se cantando um cântico de rouxinol. Sofre-se diversamente, fazendo uso da dor para mergulhar mais à fundo na questão universal, da vida. Para valorizar cada vez mais o que o mundo atropela e ignora. Assim fica-se rico, pois vê se a riqueza onde as massas humanas - seja elite, classe média ou povo - nada veem. Pisam e passam sem dar a mínima atenção.

Esse bebê não transmite medo. É lindo.
Eleacaba de vir de uma região (de
consciência) em que a vida possui
menos atrito. Sua involução é o que
o faz retornar. E assim será até o dia
em que atingir a iluminação.
Como é possível mensurar aquilo que sequer admitimos como real? Aqui que não é vivido?

Até hoje o Evangelho foi apenas difundido em discurso. Pouquíssimo foi praticado. Pouquíssimo compreendido. 

Quanto mais vivo mais constato e mais compreendo os automatismos humanos. O interesse de alguns vai apenas até a fronteira de sua zona de conforto, seus rituais, seu sistema de valores e crenças. Fala-se, "eu vou", "eu quero", "quero saber mais", mas sempre a execução efetiva da palavra é adiada para uma data incerta e inexistente. Dá-se a atenção suficiente para não mostrar essa realidade. Mas nada além, pois não adianta depositar expectativas naqueles que ainda não estão prontos para atravessar o portal do auto-conhecimento. As pessoas têm necessidade de passar por suas experiências pessoais. Têm necessidade de sentir que os métodos do mundo tem um fim, e que este se apresenta como amargura e desilusão. Uma sensação de vazio. A duração é longa - portanto se você começa a perceber uma realidade mais profunda, não coloque suas expectativas na superfície, apenas viva a sua profundidade. 

Devemos cuidar dos outros primeiramente cuidando de nós mesmos. É a lei da fome e do amor que Ubaldi cita. Após termos o necessário de ambos, podemos começar a seguir a terceira lei (evolução). Essa é a mais necessária atualmente. Porque passamos por uma fase de transição que clama por uma ascensão dimensional, de consciência. É preciso difundir os novos conceitos, passar experiências de vida, não ter medo de ser quem você (realmente) é. Entrar em contato com nosso lado negativo para vencê-lo através da compreensão do porquê dele brotar. Pouquíssimos o fazem - infelizmente. E enquanto houverem métodos humanos, de sinuosidades, para serem exauridos, assim o será. Mas isso pode ser fatal e levar a problemas seríssimos para o ser.

Não se mensura valor, sentimo-lo.

Saímos do plano racional para viver de acordo com a intuição [3]. Só assim percebemos o valor. Podemos de certa forma trazer essa sensação para o plano da razão, mais baixo, limitado, segregado. Para isso devemos deformar ao máximo, no sentido positivo, nossas capacidades humanas. Ir contra a tendência que a genética nos impôs [4], contra as limitações dos meios [5], contra a história acumulada das experiências de fracasso. Por quê? Porque são essas experiências que afirmam que estamos cada vez mais próximos de cumprir o nosso destino. Que podemos estar prestes a atingir o cume da montanha, onde a partir daí o fluxo é natural, poderoso, e glorioso. A História revela a evolução humana através dos saltos de fé de pouquíssimos escolhidos, que não se infectam pela mentalidade comum. 

Todos caminhos iluminados pela sabedoria convergem para um ponto ômega.

Precisamos todos iniciar esse caminho. Caminhos diferentes, mas com um propósito comum. Ver as relações e ajudar a edificá-las é o meio.

Força e Fé.

Referências:
[1] https://www.youtube.com/watch?v=_bKQXmvdr8o
[2] https://www.youtube.com/watch?v=9l__WLzzR7E
[3]https://www.youtube.com/watch?v=OPR3GlpQQJA&list=PLMKa2lqm66pUrD3At1-kFN8LTAXKWZ4ru&index=1
[4] https://www.youtube.com/watch?v=ll5qiWa6YDk
[5] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2014/11/validar-teoria.html

domingo, 10 de junho de 2018

Liberdade dá Sergurança

Há muito tempo falei sobre o aparente dilema liberdade-segurança, tão bem colocado por Zygmunt Bauman em sua extensa obra sobre o mundo líquido. Concordei com a relação conflitante entre as duas grandezas tão ansiadas pelo ser humano, mas coloquei uma observação: esse conflito não é permanente, e tende a evoluir para uma relação cada vez mais expandida, na qual os dois anseios humanos tendem a ser cada vez maiores - apesar de manterem uma variação inversamente proporcional um ao outro. 

Safatle discorre sobre essa questão no programa Voz Ativa [vídeo abaixo], dizendo indiretamente que Bauman não está absolutamente correto, mas que ter mais liberdade te dará mais segurança.



Tendo visto essa realidade (liberdade-segurança) sob dois aspectos (Bauman-Safatle), posso começar a construir uma imagem um pouco mais próxima dessa relação dinâmica entre ambas. Rohden trata do tema também, dizendo que devemos ser livremente seguros e seguramente livres - isto é, não há qualquer contradição entre ter 100% de segurança e 100% de liberdade. Isso derrubaria a tese de Bauman (com suas relações do tipo 40-60, 70-30, 50-50, 100-0, 0-100,...) e iria mais longe do que o Safatle colocou. 

Por quê mais longe?

Quando foi afirmado que mais liberdade dá mais segurança, Vladimir observou a questão do ponto de vista social (externo), partindo do pressuposto que o indivíduo fará essencialmente o melhor uso possível do livre-arbítrio se lhe for dada condições de deliberar sobre assuntos que digam respeito à sua vida, direta ou indiretamente. Mas em muitos casos essa capacidade é limitada pelo campo de visão do indivíduo. O que ele considera 'bom' o é apenas até certo ponto. Não quero por isso chancelar o discurso daqueles que apoiam avidamente o elitismo dos 'especialistas', que devem decidir o que é melhor para a sociedade sem jamais consultá-la. Digo apenas que devemos perceber que a condição de libertação é a conscientização.

Bertrand Russell (1872-1970). Uma
mente que chegou na fronteira da razão,
apontando para uma realidade mais
interessante. 
Quando estamos ancorados a automatismos que sabemos, conscientemente, não serem bons, - apesar de inscritos na legalidade jurídica e cultural - tendemos a construir um autopoliciamento mental que sempre nos alerta da necessidade de frearmos. Assim passamos a ser tolerantes com as regras e leis do mundo que inibem a liberdade. Mas se essas restrições não houvessem para alguns indivíduos, eles fariam bom uso desse campo aberto. Vejamos um caso prático.

Se observarmos a jornada de trabalho no mundo e confrontarmos essa imposição legal com a eficiência da economia e o bem-estar das pessoas, iremos constatar a inutilidade de tantas horas perdidas ao longo do ano [1]. Antes do Domenico De Masi, Bertrand Russell já havia se aprofundado na questão com  obra Elogio ao Ócio [2]. Discorre em poucas páginas sobre a irracionalidade de se aplicar uma jornada longa, que nem sequer do ponto de vista produtivo é utilitária se mantida indefinidamente. No entanto muitos creem que 'mente vazia é oficina do diabo'.

De fato, o ser humano ocioso tende a se degradar com o tempo. A questão é definir o que é exatamente a 'mente vazia' do famoso ditado. Será deixar de ficar 10~12 horas num escritório? Ou num balcão de mercado? Ou na rua vendendo chips de operadoras? Ou em diversos cargos burocráticos, repetitivos ou que ameaçam formas de vida? Porque existem inúmeras ocupações remuneradas (algumas muito bem inclusive) que não criam nenhum valor útil, ao passo que pessoas que preenchem sua vida com significado acabam não sendo reconhecidas pelo sistema econômico, sendo relegadas ou ao desemprego ou à baixa remuneração - além de serem motivos de chacota de parte da sociedade. Pense nos cientistas humanos, sociais, pesquisadores de institutos, professores(as) da maioria das redes, artistas, filósofos, operários competentes, entre outros. Seu valor não se reflete nas políticas de carreira, vagas, reajustes, reconhecimentos (oficial ou não), salário, voz política, entre outras questões.

Dessa maneira devemos separar os vocábulos 'emprego' e 'trabalho'.

O primeiro é uma ocupação remunerada e juridicamente reconhecida pelas instituições (e, em larga medida, sociedade), que cada vez mais é repudiado pelo íntimo humano, que não se realiza com um horizonte de expectativas tão limitado. O segundo é criação de valor, cansativo porém dinâmico e alegre, que dá sensação de tempo que voa, sem foco no externo, mas mergulho em concentração e intensidade de execução. Em muitos casos não é reconhecido - se é, há poucas vagas.

A intuição, como um relâmpago, vem
impetuosamente. Seu efeito posterior
é o som do trovão, que abala com sua
força. O som filho de uma visão possui
a força da criação.
Pode-se criar - e muito - fora do contexto 'emprego'. Quando-se está deitado num sofá, é possível a mente estar a mil, relacionando conceitos, eventos, pensando em soluções para questões práticas ou simplesmente tentando entrar num estado de meditação, esvaziando a mente para a recepção de algo. Quando se está em casa de pijama (ou num parque, num bistrô ou coisa do tipo) pode-se estar pesquisando, resolvendo problemas de uma tese, elaborando um curso, redigindo um texto, criando uma avaliação, cozinhando uma nova receita, ouvindo música, conversando intimamente, assistindo um filme, refletindo, lendo, consertando algo, tentando criar algo novo, nunca visto. Esses valores criativos devem vir à tona. Às vezes aí é que se encontra a verdadeira vida. A criação plena, intensa, incessante e livre. Uma criação que obedece leis férreas, leis interiores, mas necessita de liberdade externa das instituições. Necessita que a sociedade compreenda, deixando o criador ou criadora em paz, com certo conforto, para que possa impor a si mesmo uma condição de busca. Desordenadamente tenta-se criar uma ordem diversa, própria, que se enquadre no seu momento pessoal e saiba manifestar potencialidades latentes. Desse ponto de vista liberdade é segurança. Liberdade razoável - de tempo e financeira - dá a segurança de poder, com sua consciência, ensaiar novas formas de vida - ou ao menos refletir profundamente sobre elas. O mundo inconscientemente anseia por isso, e olha de modo singular para aqueles que vivem segundo outros princípios, sem medo de criar núcleos de criação - oásis de paz mergulhos em mares ruidosos.

Como se criam esses núcleos? De vários modos.

O primeiro passo é valorizar todo ato pequeno, por mais insignificante e impotente que pareça. Se a intenção for sincera e a perseverança profunda, o resultado é certo.

O segundo é fazer uso de toda experiência - especialmente as mais desagradáveis - para extrair significados mais profundos da existência, e reforçar o estofo moral. Não sentir medo de uma atitude que parte do íntimo é essencial.

As construções que ecoam pela história e cumprem uma função de valor substancial tem sua gênese em inquietações agudas, que geram comportamentos diferenciados e conduzem o ser por caminhos que por sua natureza se destacam da mentalidade comum. Esse voo assusta, pois gera distanciamento. Mas logo se percebe que não se deve abortar a decolagem.

Sem terreno sólido para se apoiar, perde-se a compreensão humana, e com isso busca-se um ponto de apoio - acima, no imponderável. Não se vê nada, mas sente-se algo. Assim se constrói um novo modo de caminhar na vida. O centro de gravidade se desloca para planos mais altos. Vê-se a longo prazo e considera-se as relações antes desconhecidas. Isso dá mais segurança nesse voo livre.

É preciso desenvolver uma sensibilidade psíquico-emocional controlada para sentir a liberdade da vida simples. A maior (e única) riqueza está além da potência, da velocidade, das posses e dos reconhecimentos terrenos. Ela é um 'nada' que cria tudo que valorizamos. Ela é imperecível, intransferível e inviolável. Dificilmente descritível - facilmente percebida. Os semblantes radiantes dão uma ideia do mundo novo.

Deseja-se menos, percebe-se mais.
Informa-se menos, investiga-se mais.
Distrai-se menos, concentra-se mais.

Sente-se seguro com a nova visão, os novos conceitos. Muitas muletas são abandonadas. Religiosas, financeiras, emocionais, políticas. Usa-se o necessário. Fins passam a ser meios. Surge novo objetivo. Meta mais alta e poderosa.

O conhecimento da verdade liberta. Essa é a verdadeira liberdade - aquela provinda do contato com a verdade. Esse tipo de liberdade dará toda segurança ao ser. Assim, ousará inteligentemente.

E assim cumprirá sua função.

Referências:
[1] https://outraspalavras.net/capa/a-sociedade-dos-empregos-de-merda/
[2] 1935, In Praise of Idleness, London: George Allen & Unwin.

sábado, 9 de junho de 2018

Cap 14 e 15 - Estudo da fase matéria (continuação, AGS)

Nenhuma das três formas consegue isolar-se por completo, sempre trazendo em si implicitamente o aspecto de seu involução (passado) e porvir (futuro). 

"Vedes que, em realidade, nenhuma das três formas – α, β, γ – consegue isolar-se completamente; todas sempre trazem em si traços de suas fases precedentes." Cap. 14, AGS.

Observamos isso claramente se pegarmos nosso sistema nervoso cerebral. O pensamento se manifesta graças a um aparato físico-nervoso em que a matéria exprime em si a ideia que a anima - volta-se sobre si mesma. Em nosso estágio (e mundo) involuído, o pensamento só sabe exprimir-se como energia que movimenta a matéria inerte. Por isso β reveste todas as formas (tente localizar um ponto do universo em que não haja fluxo de energia).

O véu do mistério do éter, esboçado pelos gregos antigos, é removido quando a Voz fala: 

"O éter, que é para vós mais uma hipótese do que um corpo bem estudado, escapa às vossas classificações porque quereis reconduzi-lo às formas de matéria conhecidas por vós, enquanto ele é uma forma de transição entre matéria e energia."  Cap. 14, AGS.

Adentrando nas individuações de γ apresenta-se a série estequiogenética e qual sua gênese e destino. Nós humanidade conhecíamos apenas 92 elementos na época (1932), mas foi dito que iríamos descobrir outros elementos, 'criando' muitos deles - o que de fato ocorreu. Explica que a condensação das ondas energéticas leva a uma trajetória fechada, culminando na matéria, e cujo retorno se dá por desagregação atômica dos elementos mais instáveis (pesados).

"Estabelecemos que a fase γ engloba as individuações que vão do hidrogênio ao urânio, dentre as quais vimos que conheceis 92. Elas representam o ciclo que parte de β por condensação e volta a β por desagregação."  Cap. 15, AGS.

Através da análise espectral pode-se conhecer a composição química dos corpos celestes. Aqueles classificados como mais jovens (nebulosas) emanam luz branca (luminosidade), sendo mais quentes, cujo espectro no ultravioleta é mais intenso do que nas outras faixas. Isso aponta para uma estrutura composta de elementos atômicos de baixo peso, revelando a presença quase exclusiva de hidrogênio (H). Logo, no mundo da matéria, podemos associar juventude a hidrogênio abundante. Esses corpos são geralmente desprovidos de condensações sólidas. Apenas com o envelhecimento avança-se em γ , resultando em elementos mais complexos, criando corpos sólidos. O nosso Sol é um exemplo disso: encontra-se em fase madura, emite luz amarelo-laranja. 

O aumento do peso específico é inversamente proporcional ao surgimento das manifestações dinâmicas. Logo, matéria e energia, em seus extremos, se transmudam entre si. Nosso sistema solar já é velho em termos de matéria, e portanto esta fase já se encontra estabilizada. A substância agora está com seu centro de gravidade (CG) em β, rumo a α (gênese da vida). Apesar dessa progressão do CG de atuação, existe um longo rastro que deixa a vida nascente (ainda) refém do substrato físico para se manifestar e evoluir em si mesma. Daí a impossibilidade de desacoplarmos pensamento puro da estrutura nervosa-cerebral. Isso é tarefa de maturação íntima, cujo controle escapa dos nossos esquemas racionais. 

A matéria também é dotada de inteligência - de outro tipo. Não à toa ela segue leis precisas de seu horizonte de assimilação - tal qual nós humanos seguimos leis, apenas que em outro plano evolutivo. Apesar de estarmos sujeitos às mesmas leis que a matéria inanimada, somos capazes de, temporariamente, 'anular' as leis que governam nosso corpo físico. Por exemplo, através dos aeroplanos conseguimos 'vencer' a lei da gravidade. Trata-se de fazer uso de propriedades geométricas e dinâmicas (escoamento), direcionando a energia de acordo com interesses particulares. Mas trata-se de uma superação relativa, que possui um seu preço (prazo e custo) que se faz evidente. Essa natureza de superação à custa de uma degradação, que acaba por vencer, atesta o caráter relativo de nossa existência, dizendo: 'há uma limitação'. Ela aponta para os movimentos fenomênicos, que será discorrido mais á frente. 

"Em seus vastos aspectos de γ, β e α, a substância ω segue sempre a mesma lei. Assim também, no mundo químico, temos algo como uma personalidade, constituída por uma incoercível vontade de existir em sua própria forma e de reagir a todos os agentes externos que pretendam alterá-la. A química delineia exatamente o modo como se comportam esses indivíduos químicos." Cap. 15, AGS.

"Quando vossa consciência tiver encontrado meios para agir mais profundamente na estrutura íntima da matéria, vereis multiplicar-se o número das espécies químicas compreendidas na mesma classe e o número das variedades da mesma espécie. Podereis, então, influir na formação das espécies químicas, como agora influís na formação de variedades biológicas vegetais e animais." Cap. 16, AGS.

Isso já ocorre. Novos elementos foram criados por nós, estendendo a tabela periódica.

Nos próximos capítulos (16 a 19) iremos aprofundar esses conceitos, observando como a química se relaciona com o monismo.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Novos Rumos

"- Professor Vladimir Safatle, a democracia brasileira fracassou?
- Sim, com certeza. "


A democracia dita liberal e representativa que conhecemos é, como bem se sabe, limitada em vários aspectos. Ela se consolida no ocidente a partir do fim da 2ª Guerra Mundial (1945) nos países industrializados, e se instala tardiamente nas repúblicas latino-americanas a partir das décadas de 1980 / 1990. No caso brasileiro a Nova República completa 30 anos, e se inaugura de forma ambígua, pois assim como estabelece um marco progressista importante (Constituição Cidadã, 1988) se mantém ancorada nos porões do passado, não reconhecendo os crimes da ditadura - coisa que todos os países irmãos fizeram. Dessa forma inicia-se um ciclo deformado.

O Congresso nacional foi (digamos) estruturado desde o princípio desse ciclo para operar com base no financiamento. Existe uma cultura parlamentar que se concretizou ao longo dessas três décadas, operando de modo flexível. Flexível no pior sentido do termo. E assim obrigando qualquer governante que ocupasse o cargo executivo a lidar com essa barreira de interesses pulverizados, inflexíveis a qualquer mudança em seu modus operandi, exigindo uma farta compensação política em troca de votos. Aí se percebe que o dito mensalão é prática de todos aqueles que ocuparam a presidência, sem o qual jamais seriam capazes de governar (minimamente) o país. Dessa forma o que a sociedade brasileira descobriu recentemente é uma prática comum da Nova República.

Vladimir Safatle descreve em termos substanciais o fenômeno que ocorre em nosso país, na Rádio Blink, mostrando que os afetos possuem uma sua razão própria, e portanto não podem ser eliminados do campo das possibilidades (vídeo abaixo). Explicarei isso mais adiante.


A culpa não é daqueles que criaram essa manobra. "Culpa" inclusive não é uma palavra muito adequada. Usemos "problema". O problema é a estrutura do sistema político, que é podre e não permite de modo algum a implementação de projetos desenvolvimentistas, pois esse vai contra aqueles que financiam e sustentam os servos*. O máximo que se pôde fazer em termos econômicos e sociais foi feito nos últimos 15 anos, mas com grandes limitações. 

No curso que leciono** introduzo o conceito de realimentação, que nada mais é do que uma lógica (fluxo de informação) que altera o modo de um sistema responder ao meio em função de uma meta desejada (referência) e como ele age presentemente. A diferença entre ideal (referência) e real (saídas atuais) é o que irá determinar a intensidade da "política de realimentação". Ela pode ser tanto positiva quanto negativa. 

A primeira está para transformação, mudança rápida, crescimento / decaimento exponencial. 
A segunda está para estabilidade, acentuação das diferenças, atingir uma assíntota. 

Inicio com os conceitos, depois mostro como modelar em termos diagramáticos e matemáticos. Dou exemplos simples, palpáveis - ciências naturais e tecnologias. Mais adiante - parte final do curso - eu cito exemplos mais complexos, relacionando a terminologia com políticas públicas. 

Tomemos como exemplo as políticas que visam a redução de desigualdade

O que foi feito com programas assistenciais (Prouni, Bolsa Família, Fies, Minha Casa Minha Vida, etc) foi a introdução de realimentações negativas no sistema-Brasil. Mas são realimentações fracas e limitadas - mas no entanto muito importantes para eliminar a miséria! Isto é, visa puxar quem está mais em baixo para cima - mas não auxilia a puxar quem pouco produz e drena enormes recursos do planeta para baixo: a plutocrcia nacional. Isso ocorre porque não se mexeu nas realimentações positivas que reforçam e aumentam a desigualdade, seja de oportunidades, de renda e de vida:

  • Sistema Tributário.
  • Sistema Político.
  • Sistema de Saúde.
  • Sistema Educacional.
  • Sistema de Segurança.

Se o setor público não assume esses sistemas em sua integridade, as limitações se revelam em pouco tempo - conforme vimos em 2013, com a falência da política de conciliação. Os limites de lulismo são dados pela rigidez da estrutura de um sistema que se recusa a se alterar substancialmente. 

Incorporar 40 milhões de pessoas ao mercado de consumo é essencial e bom. Essencial do ponto de vista econômico - bom do ponto de vista humano, ou mesmo cristão. no sentido mais forte do termo***. Mas isso em si está muito longe de construir um país decente. É necessário mexer profundamente nos cinco sistemas acima citados, tornando-os públicos, universais e fortes.

Do primeiro e segundo (tributação e política) ter-se-ia os recursos para financiar - com folga - os três últimos. Apenas a desoneração fiscal praticada pelo último governo garantiria mais de R$ 450 bilhões [1], superior ao orçamento do SUS e do MEC. O vídeo abaixo mostra a dimensão do absurdo em termos tributários.


Não existe país desenvolvido no mundo que tenha atingido seu grau de desenvolvimento humano sem uma tributação progressiva. A taxação é justificada por inúmeras razões. Trata-se de demandar da elite arcaica e medieval do país que seja implementado (pasmem) o capitalismo desenvolvimentista que EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, entre outros, aplicaram ao longo das décadas de 1940 a 1980. Nossa elite é feudal - nem sequer capitalista é. Com tamanho atraso é verdadeiramente impossível sequer discutir ideias socialistas, que apenas jovens evoluídos conseguem desenvolver [2].

Diversos dados revelam que a população norte-americana não tem ideia da distribuição de riqueza e renda em seu próprio país [3], e que ela é perversa. O vídeo de Outraspalavras mostra o caráter desigual de nosso sistema tributário. Nele, lucros e dividendos não pagam imposto. Mega-heranças (da ordem de centenas de milhões, dezenas de bilhões) pagam quantias pífias. Aplicações financeiras altas pagam muito menos do que trabalho assalariado. Uma faixa máxima de 27,5%, que atinge seu zênite já a partir de R$ 4~5 mil mensais, mostra a falta de bom senso, fazendo o trabalhador que ganha 5, 10, 15 mil pagar proporcionalmente o mesmo que aquele que ganha 200 mil 300 mil ou mais (por mês). Vários países possuem mais faixas, com tributação pesada para rendas absurdamente altas. Aquele que ganha seus R$ 18 mil mensais ou menos (cerca de 99% da país) não deveria se assustar com uma verdadeira reforma tributária, pois não seria prejudicado [4]. A isenção cresce exponencialmente quando chegamos nos 2,0%...1,0%....0,2% mais aquinhoados do país. Trata-se de uma verdadeira aberração que é invisível para muitos setore. s da classe média e dos pobres. Uma renda per capita de R$ 5 mil está muito longe de representar um privilégio, segundo a Oxfam [5].

Reduzir a pobreza é condição necessária mas não suficiente para reduzir desigualdade social. Fica cada vez mais claro que o problema é complexo e exige atuar em frentes diversas [6]. Se explicitar essas questões é considerado heresia no meio público (família, trabalho, sociedade,...), tem-se aí um atestado de que o grosso do país foi anestesiado e reproduz conceitos superficiais.

Conter a marcha do progresso tem seu preço. A vida clama por evolução.

Crime contra a humanidade não é anistiável. O Brasil não fez o julgamento nem a prisão de seus algozes dos tempos da ditadura. Nossos vizinhos fizeram. Isso demonstra o grau de atraso institucional e a miséria cultural da sociedade. Existem bolhas de exceção, claro, mas não constituem massa crítica. Isso é, o número da qualidade não é suficiente para fazer frente à ignorância da quantidade. Essa mudança (conscientização) é lenta. Por isso não se pode esperar muito da média humana - mas apontar os caminhos vagarosamente, via atitude, cursos, escritos, forma de vida, relacionamentos, entre outras coisas, é imperativo categórico.

É preciso se libertar das visões fixas. Adentrar na era do
dinamismo em busca de formas de vida mais adequadas
à espécie. É preciso viver de forma orientada e coerente.
Acima da razão, a intuição. Pascal, santo e gênio,
percebeu isso.
O medo é outra questão central. Ele paralisa as pessoas, deixando-as completamente impotentes face aos desafios que surgem. Permitir que a inércia das convenções multimilenares domine nossa vida é morrer espiritualmente. Uma população deve buscar o progresso porque dificilmente os poderes estabelecidos farão o que se deve de boa vontade. Todos países que possuem um grau mínimo de civilização (apenas em suas fronteiras, claro) passaram por um longo processo, pautado por uma série de violências. Essas foram (infelizmente), o fato-chave que permitiu a consolidação do desenvolvimento humano efetivo. Da Roma Antiga ao Estados de Bem-Estar do século XX, foi assim [7]. Não se trata de invocar a brutalidade, mas constatar que a morbidez espiritual humana leva a situações catastróficas. Eventos que a própria civilização diz se horrorizar, mas que se empenha em construir, de forma lenta e gradual. Por que isso ocorre? Porque não temos visão de longo prazo. Visão sistêmica. Já discorri sobre o pensamento sistêmico aqui [8]. É importante saber do que se trata antes de avaliar (traduzindo: leia, estude, reflita e sinta...antes de pensar coisas).

Poderia ficar aqui discorrendo sobre a questão da saúde, mas um artigo ilustra muito bem as questões que devemos colocar em pauta [9]. O setor público é essencial tanto para garantir eficiência econômica quanto direitos humanos. Como se vê pelo gráfico do artigo [9], não se trata de um ou outro, mas sim ambos. EUA, com seus convênios médicos mafiosos e sua riqueza enorme mal aproveitada, é ponto fora da curva - em sentido negativo, vale lembrar. 

Se discutir um sistema público de saúde, educação, segurança é comunista, então recomendo o estudo dos estados liberais da Europa Ocidental e EUA das décadas de 40, 50 e 60. Foram altamente comunistas segundo esse conceito. Precisamos nos situar na fenomenologia universal antes de emitir opiniões. 

Safatle explicita questões muito profundas que sempre senti ao longo de minha vida - por isso meu encanto com suas palavras. Trata-se de sintonia intuitiva em contanto com uma verdade mais próxima ao absoluto - e não de uma seita de seguidores interesseira,presa no relativo, com uma visão restrita e limitada.

A democracia admite uma dissociação entre lei e justiça. Porque a justiça é do Ser humano, e portanto está em constante mudança (evolução) em seus pontos mais iluminados da civilização. Por outro passo, a lei é a institucionalização de justiças passadas, sendo engessada (letra) que demanda constantes reconstruções para se adequar ao grau evolutivo da espécie que faz uso dela. Possuir um sistema eficiente demanda demolições e reconstruções periódicas de suas instituições. Isso passa pela reformulação dos conceitos. Por exemplo, convido o leitor a se aprofundar no conceito de "trabalho" (o que é exatamente?). Domenico De Masi pode ajudar nessa questão [10].

Falar em nome da justiça mesmo contra o direito é uma ideia ainda muito avançada para nossos tempos. Mas é imperioso que as pessoas corram atrás dessa (digamos) 'atualização interior'.

A violência política não trata da destruição do outro, mas da resistência a autoridade. John Locke, um filósofo liberal, justificava o uso de métodos violentos contra um poder que não mais atende as necessidades do povo - e da vida. Mesmo o protestantismo admite a insurreição popular contra governos que não representam interesses coletivos. Hoje em dia podemos estender isso para o campo ecológico. Porque trata-se de uma violência institucionalizada, como a que vem se desenvolvendo no Brasil, onde se naturaliza a grotesca desigualdade social. Isso é inadmissível em qualquer sociedade democrática, porque fere o próprio conceito de democracia. 

A polarização é um processo natural quando se dá a exaustão de um modelo. Mantê-lo artificialmente só dá força a esse desequilíbrio. O problema do Brasil é que apenas um dos lados (extrema direita) se organizou - de certo modo - e assim consegue colocar pautas que vão capturando uma vasta gama de grupos. O outro extremo (esquerda radical) não está sendo capaz de forjar pautas e balancear esse dinamismo de grande envergadura que se abre desde 2013. É aí que entra a questão dos seres mais evoluídos, que desde a mais tenra idade já começam a atuar de modo intenso, orientado e profissional [11]. Esse desequilíbrio gera um impasse à medida que persiste, pois fica-se cada vez mais difícil fazer o contraponto num meio em que apenas um extremo está se ampliando e intensificando.

Esse dualismo é natural em momentos em que modelos de conciliação se esgotaram. Não é mais possível ter acordos formais que colocam panos quentes em formas de vida alternativas e questionadoras. Não é mais possível fingir que diferenças entre pessoas e grupos não existam.  Elas devem ser explicitadas (a) e trabalhadas (b). A imaturidade humana em lidar com essas questões está atrasando a nossa evolução. Dores enormes virão para queles que não se preparam. 

"Existe uma racionalidade nas paixões."
"Elas expressam adesões a formas de vida que são distintas."
"Não existe uma gramática comum dentro da sociedade." 
[Safatle, Vladimir]

Isso nos remete a (Blaise) Pascal. O caminho da argumentação é limitado e já há estudos que comprovam isso [12]. Nós não temos uma base racional-sistematizadora-analítica capaz de forjar uma gramática universal. A própria razão não é calcada em universalidade conceitual, mas em segregação para atender interesses específicos de áreas do saber, teorias, profissões, grupos, nações, religiões e etnias. Quem prova que Deus existe é ateu. Deus não se prova. Deus se Sente e se Vive.

"Uma sociedade que tem medo da divisão é uma sociedade doente."  
[Safatle, Vladimir]

É preciso criar espaço que permita as pessoas falarem de suas divergências. Eu percebo essa limitação em todos ambientes - com vários graus de intensidade. Crio alternativas onde é possível: no Lar, com parte pequena da família, com cursos de extensão, neste blog e - acima de tudo - na atitude de resistência a uma vida limitadíssima que se apresenta e se impõe ao mundo.

É preciso tomar novos rumos. Mas isso parte do íntimo do ser. 

Observações:
* Os parlamentares, com honrosas exceções
** Iniciação à Ciência de Sistemas (ICS)
*** Por cristão me refiro ao espírito fraterno que todo humano possui, e não à ordem religiosa formada, com suas hierarquias, formalismos e dogmas.

Referências:
[1]https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/09/1678317-dilma-deu-r-458-bilhoes-em-desoneracoes.shtml
[2] https://www.youtube.com/watch?v=p9hbj8Z1Ttk
[3] https://extranewsfeed.com/taxation-is-justified-bbd0108254d2
[4] http://justificando.cartacapital.com.br/2018/01/02/quando-cobramos-dos-mais-ricos-nao-estamos-falando-de-voce/
[5]https://www.oxfam.org.br/?gclid=EAIaIQobChMIrNGzv8682wIVkgqRCh1zBwnEEAAYASAAEgLHmvD_BwE
[6]http://justificando.cartacapital.com.br/2017/10/14/basta-reduzir-pobreza-para-combater-desigualdade-social/
[7] http://www.bbc.com/portuguese/geral-42723741
[8] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2018/03/pensamento-sistemico-ponte-entre.html
[9]https://www.google.com.br/search?q=Universal+healthcare+means+freedom%2C+not+slavery&oq=Universal+healthcare+means+freedom%2C+not+slavery&aqs=chrome..69i57.347j0j8&sourceid=chrome&ie=UTF-8
[10] https://www.youtube.com/watch?v=MSEUPqHnv14
[11] https://www.youtube.com/channel/UC0fGGprihDIlQ3ykWvcb9hg
[12] https://www.cartacapital.com.br/revista/948/cientistas-franceses-contradizem-descartes-o-pai-do-racionalismo

sábado, 2 de junho de 2018

Deus Legisla, o Diabo Executa, Cristo Julga.

Esse blog é um princípio de unificação. Logo, ele opera de modo estranho para alguns. Algo não-planejado mas que é capaz de construir uma cadeia de pensamento que torna os descrentes um pouco menos céticos, e os simples e débeis um pouco mais preparados para o mundo. Aproxima, portanto. 

Somado a isso há a imperiosa necessidade de síntese impetuosa sem se afastar demasiadamente das imposições da análise. Isso tensiona quem transmite e exige um modo diverso de produção. Desencadeia-se uma nova maneira de transmitir - e um revolucionário modo de perceber as coisas. 

Horizonte vasto em demanda de verticalidade profunda.
Já falei diversas vezes da mecânica do milagre [1] e do processo multimilenar que a humanidade atravessa [2]. Despejei de jato uma definição de monismo [3]. Mergulhei no significado de obras cinematográficas de sucesso comercial [4, 5], realçando o misticismo subjacente na miscelânea de atos, efeitos e significados, e expus a arte de saber viver no mundo sem pertencer a ele [6]. Muitas outras coisas foram ditas. E só o foram por terem sido sofridas e - algumas - sangradas em vida. Assim - e apenas assim - se pode construir algo minimamente útil, de real significado neste mundo, capaz de despertar a vida dos outros e a sua própria. 

Sabe-se do monoteísmo que Deus legisla. Ele cria as leis que regem tudo que conhecemos - e conheceremos. Para ser mais preciso, Ele cria a Lei (Sua Lei), Absoluta, que se manifesta numa multiplicidade de leis no relativo, e que nós progressivamente tomamos conhecimento à medida que evoluímos. Como o Deus está além do espaço-tempo, não se fala "criou" e sim "cria". Apenas no AS* é possível cometer o absurdo de seccionar conceitos além de nossa capacidade. Mas é a única maneira de iniciarmos uma aproximação com o estado original. Sendo assim prossigamos.

O Caminho é um, mas há várias formas
de percorrê-lo.
Deus é a Lei no sentido em que está em sua 'natureza' (digamos assim) a ordem e harmonia. O Diabo não é o oposto de Deus, mas sim a pulverização máxima da revolta que esta assume em cada ser. Trata-se de uma criatura que nega e domina no 'espaço' que lhe é reservado (dimensões inferiores, sendo a nossa uma delas). E em resposta...não há resposta. Deus aceita a livre escolha de suas criaturas - até a mais rebelde delas. Por que? Porque ele domina as dimensões, inferiores e superiores à nossa atual, e sabe que nada de Sua Substância é ('será', para nós) perdida, e que todas individuações estão amparadas por sua Lei, fonte inexorável de sabedoria e previdência, que dá a providência para seus filhos mais perseverantes, no momento exato, compatível à sua missão [7]. Atingir uma consciência monista é isso.

O monista tem uma concepção metafísica da Divindade.
Ele vê Deus no diabo e o diabo em Deus - apesar de Deus ser muito mais do que o diabo.

"Eu e o Pai somos um. Eu estou no Pai e o Pai está em mim. Mas o Pai é maior do que eu."
[Jesus, o Cristo]

Por isso o diabo é livre para executar. Ele é muito afeito à ação, e é aí que se destaca. Mas sua atuação é circunscrita pela Legislação Cósmica. Conforme já mostrei em detalhes [8], a implementação só tem força se embasada por processos superiores que a orientem. 

Quanto à Cristo, ele não julgou a mulher adúltera. Mas o nosso Cristo interno (Eu divino) julga nossa persona (ego humano) a cada atitude que demonstre conformidade com a execução diabólica que - no momento - rege o mundo. Mundo mudo ao bom senso. Mundo desgovernado. Esse julgamento é o chamado pela retificação da alma, que se desviou da lei cósmica. Dessa forma estabelece-se um jogo no qual somos prisioneiros até o momento de integração à Lei. Nossa involução nos prende ao executor barulhento, convincente e atraente. Nossa ascensão depende de um pacto com o Deus imanente (Cristo), que poderá operar plenamente com o Deus transcendente (Divindade). E dessa união suprema re-estabelecemos a integridade. A Gita e outros textos sagrados dizem: "Estar no seio de Brahma". 

Esse jogo não é sério em si - o processo de se libertar dele é. Há uma nuança no modo de perceber as coisas. É nela que reside a chave para o discernimento

Temos assim a dança dos três poderes em seu aspecto metafísico, mais abstrato porém mais potente. A Grande Batalha ocorre na profundidade. Aí nasce tudo...

Referências:
[1] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2017/09/mecanica-do-milagre.html
[2] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2014/11/um-ciclo-duas-fases-piramide-expansiva.html
[3] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2015/06/monismo.html
[4] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2015/10/v-em-busca-da-verdadeira-unidade.html
[5] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2015/06/matrix-uma-visao-mistico-cosmica.html
[6] https://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2014/10/saber-viver-no-mundo-sem-ser-do-mundo.html
[7] https://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2015/11/a-lei-de-deus.html
[8] https://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2017/12/exercicio-de-conjugacao.html

Observações:
* Anti-Sistema (AS): nosso Universo físico-dinâmico-psíquico decaído.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Cap. 10 a 13 - Estudo da Fase Matéria, 1ª parte (AGS)

A forma menos sutilizada da substância assume - em nosso universo - a denominação "matéria". É ela a manifestação mais bruta de princípios superiores, que regem seu desenvolvimento através de leis físicas inexoráveis, tal como a da gravidade, da condução de calor, da acústica, da desintegração atômica, entre outras. A matéria obedece as leis mais rudimentares de nosso cosmo de forma determinística, não sendo capaz de se emancipar dos princípios que a mantém refém, sendo portanto o ponto de involução máxima do Universo trifásico em que existimos - falarei dessa característica trina posteriormente.

Vimos que atualmente nos encontramos em fase ascensional (γ→β). Parte-se do ponto de maior condensação da substância para em consequência atingir sua degradação, dando gênese a uma nova manifestação: a energia. E com isso nasce o tempo tal qual o conhecemos e sentimos.

"Chegareis, como vos disse, a produzir energia por desintegração atômica, ou seja, a transformar matéria em energia.

Conseguireis penetrar com vossa vontade na individualidade atômica, produzindo alterações em seu sistema." Cap. X, AGS


Nossa jornada iniciar-se-á na juventude da matéria, com suas
formações macro (nebulosas). A partir daí seremos arrastados
pelas vias do transformismo. Esse é o convite de Sua Voz.
As implicações de tal descoberta irão muito além das aplicações práticas imediatas, sentidas em forma de destruição (bomba nuclear) e bem-estar social via geração energética (usinas nucleares). A partir do bombardeio do núcleo atômico e suas implicações a humanidade irá ter dentre suas fileiras de espíritos e mentes mais inquietos progressistas incessantes. Serão almas diversas, cada qual com sua formação profissional, história de vida, classe social, sexo, constituição genética e prática cultural, que irá buscar o princípio pelo qual o fenômeno atômico ocorre, e desnudará o mistério a partir de analogias, vivência e implicações, buscando situar o acontecimento na grande corrente histórica do progresso humano, cujo vértice é a libertação da ignorância. Leia mais antes de julgar...

A solução de problema físico-químico, de ordem material, traz junto consigo, em germe, um novo problema, em forma filosófica, que demanda por espíritos com grande capacidade de abstração - e igualmente, vivência. Isso é ignorado até o ponto em que a aplicação do novo "invento" começa a ser visto como algo destituído de sentido se não orientado por um princípio superior, íntimo, que está no ser humano escondido.

O modelo atômico se desenvolve à medida que os instrumentos de medição e as ferramentas (métodos, teorias, saberes) aumentam seu espectro de detecção. Assim passamos do átomo contínuo e estático de Dalton (esfera sólida), e depois de Thompson ("pudim da passas"), para o descontínuo e dinâmico de Rutheford (sistema planetário). Este seria detalhado por Niels Bohr, que introduziu os níveis de energia definidos - e a partir daí nasce a Física Quântica. Chega-se à conclusão não apenas que no átomo não apenas domina o espaço vazio, mas que a posição dos elétrons é uma probabilidade que depende do seu vetor velocidade - e vice-versa.

Modelo atômico de Rutherford-Bohr. Séculos para
sofisticar. Instantes para potenciar novas descobertas. 
A solidez é uma impressão causada pelas incríveis velocidades das partículas da eletrosfera. Esta tem "planetas" em órbitas indefinidas pelos nosso instrumentos. Em suma: a nova ciência quântica nos dá a limitação de nossas possibilidades racionais. Mas nos deixa tão mais sedentos por uma solução, nem que mínima, e intrigados, que a onda de adeptos (profissionais ou não) só cresce com o passar dos anos. Chega-se a conexão de espiritualidade com fenômenos quânticos [1]. Junto com essa confirmação empírica a consciência humana começa a sentir e viver de acordo com o princípio recém-descoberto, que aponta para a dinâmica da (dolorosa, misteriosa mas gloriosa) imperfeição, abandonando cada vez mais a estática da (incompleta) perfeição.

"Com a nova civilização mundial que está por surgir, a humanidade viverá então num mundo dinâmico." Cap. X, AGS

As confirmações já vêm ocorrendo de forma inquestionável em vários campos. Desde um sociólogo e filósofo de renome, com sua obra de mergulho no mundo liquefeito [2], até a gênese da ciência de sistemas, com expoentes de todos campos [3], alguns vencedores do Prêmio Nobel. Esse dinamismo não apenas significa progressão de ideias e revisão de conceitos, mas acima de tudo desconstrução de visões de mundo profundas, arraigadas em nosso subconsciente. Isso nos conduz à interpretação radical da realidade.

No aspecto geral (média universal) nosso universo já está na fase de envelhecimento da matéria (γ).

"Viveis num ponto relativamente velho do universo, e vossa Terra representa o período γ não no início, em sua primeira condensação, ainda próximo da energia, mas no fim, ou seja, no princípio de sua fase oposta, a desagregação, o regresso a β."  Cap. X, AGS

"Em vossa fase de evolução, a Lei vos abre o caminho através da passagem γ→β, e não de β→γ. Em outras palavras, o problema da desintegração atômica é solúvel para vós, não nas formas mais longínquas e menos acessíveis da condensação das nebulosas, mas naquelas da desintegração das substâncias radioativas." Cap. X, AGS

Existe um caminho natural que possibilita o progresso. Quando a marcha humana se alinha ao momento fenomênico do universo, descobertas se dão. Deve-se sentir o transformismo que rege tudo e todos, de todas formas, a todo momento.

Nossa expressão e emoção se ligam à manifestação da matéria.
Nela - mas não apenas - buscamos inspiração.
Iremos superá-la. Mas no momento vivemos nela.
Não há um movimento α→β→γ seguido de um γ→β→α. Tudo ocorre a todo momento (simultaneidade). É apenas a partir de um relativo que as coisas aparecem em sua manifestação sequencial. Isso é apenas uma impressão criada pelo estágio evolutivo hodierno. O ser humano irá aprender a superar essa limitação. Para isso deve abrir seu íntimo para o fenômeno 'vida'. Deve aprender a apreender o significado das leis. Auscultar a Voz do Silêncio [4].

Reflitamos: "Deus está, assim, onipresente em cada manifestação. Se assim não fora, como vos seria possível a observação de tais fenômenos, que certamente não poderiam ter esperado na eternidade para existirem e se mostrarem a vós exatamente no instante em que também nascestes e desenvolvestes em vós os sentidos e uma consciência que a eles se dirigem?Cap. XI, AGS

Leia. Releia. Depois pare e tente compreender com a mente. Viva um pouco. Caminhe, cozinhe, trabalhe e converse. Observe os outros. Pegue novamente. Reflita em nível mais abstrato, se libertando um pouco das imposições lógicas que as escolas e academias tanto inculcam em nossa mente racional. Sinta...

A cadeia de causalidade é uma ferramenta racional para compreendermos os fenômenos que nosso espírito assimila e admite como realidade. Mas ela em si não é a última verdade. Sua Voz aponta para a transcendência iminente do paradigma dominante. Do racional-analítico para o intuitivo-sintético. Daí nascerá a nova humanidade descrita por Ubaldi [5].

A matéria, encarada do ponto de vista estático, se individua em diversos elementos. Na época do tratado, eram 92 [6] - do Hidrogênio ao Urânio. O que distingue cada elemento é o número de elétrons, ou seja, o aspecto dinâmico aponta para a visualização estática. Outro ponto: por mais que decomponhamos o núcleo atômico jamais chegaremos ao último termo: pelo simples fato de que ele não existe (em nosso concebível).

"Disse que os elétrons giram ao redor do núcleo. Ora, nem mesmo o núcleo é o último termo; em breve aprendereis a decompô-lo. Porém, por mais que procureis o último termo, jamais o encontrareis, porque ele não existe." Cap. XII, AGS

Por que não existe? Pelo simples fato de nosso Universo ser trifásico ω=(α=β=γ), e portanto não admitir realidades que extrapolem os limites de manifestação da substância, seja em sentido involutivo, seja em evolutivo - retornarei esse conceito em outro ensaio. Por essa razão somente progrediremos nossos estudos da fase matéria quando adentrarmos na fase energia, em sentido evolutivo, que é um retorno conceitual do que está ocorrendo de forma natural no cosmos. Pode ser realmente alucinante mergulhar nesses conceitos, mas faz sentido quando vemos à fundo a vida.

O princípio que a matéria obedece é o mesmo que nós, humanos, somos levados a seguir de forma mais sofisticada. Em sua essência o fenômeno de transmissão de energia que o Sol realiza a seu conjunto de planetas orbitantes é uma doação. Até na bruta matéria vê-se o amor. O Universo é um canto infindável de amor, cuja manifestação tende a se tornar cada vez mais límpida, livre e libertadora. Não pode-se negar o que o coração admira.

Assim o indivíduo progride, juntamente com sua companheira de viagem, a matéria, que o sustenta enquanto há necessidade.

Referências:
[1] GOSWAMI, Amit. Programa Roda Viva, 12/03/2001. Link: https://www.youtube.com/watch?v=EgAPwSWuRog
[2] BAUMAN, Zygmunt. Link: https://www.youtube.com/watch?v=7P1MAZXFVG0
[3] PRIGOGINE, Ilya; MARIOTTI, Humberto; CAPRA, Fritjof; MORIN, Edgard. LORENTZ, Edward.
[4] BLAVATSKY, Helena. Link: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Voz_do_Sil%C3%AAncio
[5] UBALDI, Pietro. "A Nova Civilização do Terceiro Milênio". Link. http://www.aeradoespirito.net/Livros3/PietroUbaldiANovaCivilizacaodoIIIMilenio.pdf
[6] Á medida que o tempo passou novos elementos foram obtidos artificialmente, como o Plutônio, Uruntrium, Moscóvio, Tennessino, entre outros. 

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Cap. 7 a 9 - Constituição e Telefinalismo do Universo

O Universo é um todo que pode ser percebido em três aspectos essenciais: como estrutura ou forma (matéria); como movimento ou vir-a-ser (energia); como princípio ou lei (espírito). Daí se segue que todos eles são contíguos e se inter-relacionam através de transformações, seja no sentido evolutivo, da matéria ao espírito, quanto no involutivo, do espírito à matéria. 

Esses três aspectos diferentes (na forma) de ser são denominados de estático, dinâmico e mecânico

"O aspecto estático nos mostra o universo em sua estrutura e forma; o aspecto dinâmico, em seu movimento e vir-a-ser; o aspecto mecânico, em seu princípio e em sua lei. Mas esses aspectos são somente pontos de vista diferentes do mesmo fenômeno. Os três coexistem sempre, em toda parte, e os encontramos conexos." AGS, Cap. VII

O "fenômeno" é Ômega, ou Deus. Por serem manifestações de algo além de sua abrangência, são coordenados por essa força que tudo rege. Assim explica-se que de um ponto de vista universal, tudo é ordem. Estar conceptualmente acima das barreiras do mudo sensório e da mente garante domínio sobre os sentidos e o pensamento, garantindo a orientação na vida.

"Se podeis mover-vos, agir e conseguir qualquer resultado, é porque tudo em torno de vós se move com ordem, de acordo com uma lei, e nessa lei tendes sempre confiança, porque só ela vos garante a constância dos efeitos e das reações." AGS, Cap. VII

Tudo que fazemos é baseado nessa confiança. Somos movidos baseados pelo que conhecemos. Nossas metas e nossos atos são restritos e balizados pelo conhecimento próprio do universo. Não apenas o físico, desde as nebulosas aos átomos, mas igualmente às formas de vida, relações, culturas até ao campo moral. Esse conjunto que conhecemos por 'universo' engloba o tangível e o intangível, o determinístico e o livre. É o que é em termos sensíveis e no pensamento. 

O que não tem preço está além das quantificações humanas.
Por estar em outro plano, não exige recompensa. É graça
na contemplação. É glória na conquista.
Toda desordem está contida numa ordem maior, de forma que o caos só ganha tal denominação para as mentes presas ao mesmo plano no qual aquele se manifesta. Quem ascende em consciência vê o determinismo maior que guia as caóticas vias e vidas humanas, repletas de tentativas e erros - o método de aprendizagem típico do plano racional-analítico, que tateia num mundo de fenômenos vistos de forma isolada. Nossa ciência ainda caminha para a fusão entre infra-humana e humana, que colimará na aceitação do supra-humano. Assim a divisão entre mundo natural e mundo humano será menos demarcada por convenções que satisfaçam egos de estudiosos e interesses de grupos, e mais vista como uma simples ferramenta para compreensão instantânea de uma mente (ainda) limitada. As religiões serão permeadas do monismo, que não apenas vê unidade mas permeabilidade total de Deus no universo. Um Deus imaterial, não-manifesto, além do bem e do mal, além das relatividades humanas, que no entanto se manifesta nelas e usa ora uma oura outra para nos aproximar cada vez mais do absoluto. 

"A ordem, vo-lo disse, não é rígida, mas apresenta espaços elásticos, contém subdivisões de desordem, imperfeição, complica-se em reações, mas permanece ordem e lei no conjunto, no absoluto." AGS, Cap. VII

A elasticidade da Lei não é fraqueza, porém respeito às criaturas. Respeito é a prática de atitude que evidencia o Amor. Entre o determinismo da Lei divina e o livre-arbítrio humano existe uma arena de experimentações fantástica que nos deixa completamente perplexos. É aí que o humano se vê diante de um abismo. Pouquíssimos ousam avançar, percebendo pontos de apoio. São os construtores da via mestra. Ousam inteligentemente. Suam e sangram. Choram e gritam. Mas que belo grito! E que choro doce! É a melodia da dor que se transmuta em experiência interior - conquista apenas individual. É a glória despercebida. É o tesouro inalcançável por quem se nega a subir de plano. 

Quem não vê riqueza nos valores internos não irá reconhecê-los. Enquanto estes forem vistos como um mero objeto de uso, elogio ou agradável admiração, o tempo é perdido e a dor se intensificará. Aquele que ascende deve ser o alerta que nos obriga constantemente a seguir o caminho. Admiração silenciosa, trabalho discreto e potente. 

Glorificar não é fazer ruídos exteriores e criar eventos enfastiantes, mas enxergar a própria alma no espelho da vida e seguir a consciência sem se afetar pelo ambiente. É viver de acordo com princípios superiores, que só mostram os frutos após muitos anos e decênios. 

Resumidamente temos que:

Matéria pode ser denominada ação, estrutura ou forma.

Energia pode ser denominada vontade, movimento ou vir-a-ser.

Espírito pode ser denominado pensamento, princípio ou lei.

São três aspectos do nosso universo trifásico. De cada um deles podemos obter vários constituintes. Da tabela periódica sabemos dos múltiplos elementos fundamentais (átomos), que se agregam e moléculas. Dos tipos de comprimentos de onda sabemos as diversas manifestações energéticas (luz, calor, eletricidade, som, gravitação,...). Das leis que determinam as relações entre o mundo biofísico e humano temos uma ideia do que é a lei. Estamos descobrindo cada vez mais a natureza dos elementos, chegando a perceber na especificidade dos estudos a ponte que une as manifestações da substância. Assim se progride, assim se encanta. 

"O universo resulta constituído por uma grande onda que de α, o espírito (puro pensamento, a Lei, que é Deus), caminha num devenir contínuo, movi-mento feito de energia e vontade (β), para atingir seu último termo, γ, a matéria, a forma. Dando ao sinal “→” o sentido de “vai para”, poderemos dizer: α→β→γ." AGS, Cap. VIII, A Lei

A Voz usa três letras para denominar cada fase. E mostra o primeiro semi-ciclo, que vai do pensamento à sua materialização. Posteriormente diz que nosso universo, no seu conjunto, está em sua fase evolutiva, ou seja, γ→β→α

Estamos em trajetória ascensional, demandando pelo reequilíbrio da descida involutiva. É a segunda onda (evolução, ou espiritualização da matéria), compensadora da primeira (involução, ou materialização do espírito). Toda atitude humana alinhada com esse grande progredir universal tende a se tornar referência dos séculos e inspiração das mentes e corações. 

"A segunda onda, de regresso, é a que vos interessa e viveis agora, refere-se à evolução da matéria até às formas orgânicas, à origem da vida; com a vida, tem-se a conquista de uma consciência cada vez mais ampla, até à visão do Absoluto. É a fase de regresso da matéria, que, por meio da ação, da luta, da dor, reencontra o espírito e volta à ideia pura, despojando-se, pouco a pouco, de todas as cascas da forma." AGS, Cap. VIII, A Lei

Todo transformismo orbita em torno do eixo diretor da
evolução. Deus é o centro que tudo atrai e coordena. 
Após estabelecer esse quadro universal, desconcertante para a (imensa) maioria das mentes, presas ao imediado dos seus problemas profissionais e ao lufa-lufa cotidiano de sensações, Sua Voz finca o "pé" em nosso mundo concreto, antecipando a descoberta da energia atômica, isto é, o meio adequado de se converter matéria em energia (γ→β).

"Estas simples indicações já esboçam a solução de muitos problemas científicos, como o da constituição da matéria, ou como o da possibilidade de, por desagregação, extrair dela, à semelhança de imenso reservatório, a energia, que não seria senão a passagem de γ→β. A energia atômica que procurais existe, e a encontrareis.AGS, Cap. VIII, A Lei

Isso foi escrito em 1932 - seis anos antes da descoberta, por Otto Hahn e Fritz Straßmann, em Berlim [1].

A Grande Equação da Substância é a ilustração simbólica desse ciclo involução-evolução. É um ciclo que orbita em torno do Todo (Ômega), em várias escalas que se ordenam em escalas maiores, e assim por diante. O movimento menor é regido pelo maior. Cada queda aponta para uma ascensão. Cada pico atingido requer uma queda para assimilação. Isso será retomado adiante.

Referências:
[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Energia_nuclear