quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Estamos na trilha errada

Quando o autor empolga, nada o segura. Nem o calor e seus efeitos, nem o cansaço, nem a doença, nem qualquer outra coisa que se apresente diante dele. Ele prioriza o que sente como missão - ao mesmo tempo que se realiza cumprindo-a. Eis que logo após apresentar um estudo sobre a sustentabilidade planetária, mostrando tendências da civilização, vem a ideia de deixar o tópico ainda mais claro para o público, tornando mais vivo o que foi apresentado anteriormente.

As pessoas não enxergam com clareza certas coisas porque não lhes é conveniente. Seu modo de vida seria tremendamente abalado se tivessem de aceitar em seu imo certas observações. Certos preceitos. Seria necessário reformular tudo que julgavam saber com certeza. Seria necessário reestruturar sua vida. Radicalmente. E isso demandaria um esforço que muitos receiam. Esforço titânico. E um estofo fora do comum. 

Vamos começar aos poucos para construirmos a ideia de forma ordenada, sem dar aparências de imposição de opinião. Vou passar a visão que já tenho intuitivamente, desde minha adolescência, da forma mais racional, lógica, concreta, científica, imparcial e universal. Porque não adianta apelar para o sentimento sincero (que exige uma consciência mais intuitiva, de síntese, do que racional, de análise) das pessoas: elas exigem evidências, argumentações, lógica, provas e etc. Estamos num mundo de resistência ao transformismo íntimo da substância. De um ceticismo escravo de um comodismo de gozos. E por isso é mister fazer-se claro (claríssimo).

Vamos lá...

Todo o sistema econômico se apoia no substrato material, energético e vivo do planeta. Esses três elementos são a base de qualquer tipo de economia. Não existe economia sem recursos, sem energia, sem transformações, sem deslocamentos e sem trabalho humano. Então, além desses elementos-base (matéria viva e não-viva + energia), há o ser humano que, através de sua mente e habilidades, cria ferramentas e máquinas e algoritmos e inteligências artificiais e construções e saberes que geram um corpo de conhecimento - que se atualiza incessantemente, acompanhando o grau de consciência da média de um povo, nação ou humanidade. Pode observar qualquer coisa que ocorre neste planeta: não tem como existir uma economia imaterial. 

Sim: podemos ter uma economia intangível, imaterial, em que 90 ou 95 ou 98% do PIB seja oriundo de serviços e bens virtuais. Isso no entanto nunca será 100%. Porque nós temos corpos e comemos e fazemos necessidades e nos limpamos e queremos certo prazer e temos doenças e ficamos gripados e precisamos de experiências sensoriais e nos movermos e muito mais. E esses 10% ou 5% ou 2% que restam do PIB de uma economia dessas, apesar de representarem pouco no balanço econômico, são fundamentais para que os outros 95 ou 98% existam. Isso é muito claro para você e eu, meu amigo. Porque somos pessoas pensantes, razoáveis, em busca de uma verdade (e vivência) mais profunda. Mas para muitos economistas, que estudam e atuam e são responsáveis por influenciar o destino de muita gente com seu trabalho e pesquisa e decisões pontuais, o que eu acabei de lhe mostrar é irreal. Não deve ser considerado nos modelos. Porque sempre existe uma solução mágica (para eles) para contornar os problemas. 

Vejamos o diagrama abaixo, da economista Kate Raworth - que não tem a mentalidade do grosso dos economistas.

Fig.1: Diagrama sintético do sistema Terra-Biosfera-Sociedade.

Ele é auto-explicativo. Percebam que sem as entradas externas (do Sol e da Terra) não temos economia e consequentemente desenvolvimento e criações humanas. Sem estrela e planeta, sem civilização. E sempre será gerado resíduos e calor. Sempre. 

Tem economista que modela e simula e planeja e prevê tendo por base que nosso mundo é de fantasia. "Plim!", e aparece uma maneira de eliminar resíduos sem nenhum esforço, sem nenhum custo, sem nenhum sacrifício. Um livro muito bom que mostra como todo o sistema econômico foi estruturado a partir de premissas errôneas é este aqui [1]. Segundo alguns que leram, é um verdadeiro tour de force do autor para demonstrar o porquê de termos crises constantes desde o século XVIII - a despeito de todos esforços em mitigá-las e tentar evitá-las.

Por quê não conseguimos eliminar os problemas?

Simples: porque não existe solução possível e definitiva dentro de um paradigma cujo conjunto de premissas estão equivocadas a respeito da natureza (infra-humana e humana).

Para o economista padrão de nossos dias é tudo uma questão de troca de mercadorias. Oferta e demanda. Basicamente. Resíduos, degradação da energia (=entropia), perda de biodiversidade, aquecimento global e coisas do tipo são problemas inexistentes para esses seres. Porque podem ser resolvidos com tecnologias novas, com ajustes financeiros. Tal qual o mundo das religiões ocidentais monoteístas-criacionistas, o mundo dos economistas é bem simples. As soluções são diretas e efetivas. E muitos creem nesse mundo porque lhes é cômodo. 

Pensar (de verdade) dá muito trabalho.

Quando eu crio valor, preciso converter uma forma de energia em outra - e nesse processo há perda de qualidade da energia, o que chamamos de aumento de entropia. Levo caixas de um lugar para outro, gastando minha energia, e em troca ganho uma quantidade de dinheiro. Esse dinheiro posso usar para comprar alimentos (e repor a energia perdida no serviço e naturalmente, pelo simples funcionamento do corpo), que servirão para mim e minha família, por exemplo. Se eu tiver sido bem pago, posso usar o adicional para comprar um produto pela internet (ex.: um livro), cuja produção exige energia e material, e cujo transporte exige energia e material também - além do trabalho de um ser humano, que está dando parcela do seu tempo para satisfazer uma necessidade que considero importante. Tudo isso envolve energia. 

Até o século XVIII a produção de bens era escassa. Não havia conforto para muitos. Materiais especiais não existiam. Transportes de grandes volumes era inviável. Até mesmo a revolução da internet, da comunicação, digital, das redes, não poderia ter ocorrido - mesmo tendo o conhecimento de hoje - porque era necessário possuir os materiais e as fontes de energia. Pare para pensar nisso um pouco.

Eu me dedico de corpo e alma para divulgar a visão monista de mundo (em especial através da obra de Ubaldi) porque ela se encaixa perfeitamente em todos assuntos que trato aqui (e muito mais). 

Vejamos a Grande Equação da Substância:

Fig.2: Equação da Substância em seu aspecto de irradiação tríplice.

Veja bem a ilustração: ela nos diz que a substância (ômega) equivale às três formas de manifestação em nosso universo decaído (AS). Essas formas são matéria (gama), energia (beta) e espírito (alfa). Suas dimensões características são, respectivamente, espaço, tempo e consciência. Isso diz que aqui (em nosso universo), no nível manifesto ou superficial, tudo é local, sequencial e relativo

A Mecânica Quântica já aponta para uma realidade mais profunda. David Bohm fala sobre variáveis implícitas. O que isso significa é que a realidade, em sua essência, é constituída de um substrato que nossos instrumentos são incapazes de detectar e nossa mente é impotente para conceber. Logo, ignoramos esse aspecto (ainda). Mas cedo ou tarde, seremos forçados a levar a sério o que foi apresentado pela revelação de Ubaldi e pelo pensamento de grandes mentes e corações.

Essas três formas que a substância assume em nosso universo interagem entre si a todo momento. Elas surgem "juntas" e são intimamente jungidas em sua estrutura, em sua dinâmica e possuem uma finalidade. Falo sobre tudo isso porque quero ressaltar que a informação (que podemos ver, grosso modo, como um aspecto inicial de alfa, ou espírito) depende do substrato físico (matéria e energia), para se manifestar e fazer valer o seu conteúdo. Em suma: nosso mundo tecnológico, digital, de comunicação, de redes, não existe sem uma alimentação contínua de energia e renovação material. É como se estivéssemos construindo uma pirâmide e quiséssemos chegar ao topo (estilo Torre de Babel). Quanto mais alto, maior a sofisticação. Mas tudo depende da base. Sempre, até o fim dos tempos - mesmo que cheguemos mais e mais alto.

Poderia ficar escrevendo páginas desse aspecto, trazendo as três gunas do hinduísmo, ou as ideias do taoísmo. Mas foge do escopo deste ensaio. O importante é ter consolidado essa ideia de hierarquia, interdependência e contiguidade entre esses elementos. 

Quando começa a Rev. Industrial (econômica) a questão material começa a mudar radicalmente. Aliada ao Iluminismo (valorização do pensamento e conhecimento racional) e a Rev. Francesa (política), nosso mundo sofre uma transformação sem igual. Apesar de se dar aos trancos e barrancos, no geral as condições de vida melhoram. Ganhamos mais opções, vivemos mais e melhor, temos acesso a informação como nunca antes, crescemos em muitos aspectos. Até mesmo se torna possível, para alguns, adquirirem uma sensibilização para a realidade interior. São duzentos anos de transformação vertiginosa. Mas a questão é que tudo isso era (e é) sustentado por uma base limitada, que ainda por cima traz abalos profundos na biosfera e na geosfera. 

Toda energia que obtemos de uma empreitada deve ter descontada o quanto de energia foi gasto para obter essa "nova" energia. Essa é a energia líquida. E quanto mais isolado, inacessível, o recurso, mais energia é requerida. A tal ponto de todo método ficar inviável e nos aproximamos de um retorno próximo a 1:1. Na verdade muito antes disso a coisa já se torna economicamente desvantajosa. 

Nossa civilização depende de fontes fósseis. As civilizações antigas não tinham esse problema. Elas tinham outros que a nossa contornou - às custas de gerar um outro problema. Resolvemos problemas mais psíquicos sem no entanto nos atentar que estamos ancorados numa armadilha física. Isso é bom. Progredimos. Mas não podemos ficar nesse degrau por muito tempo. É preciso agora resolver o problema físico para que o psíquico (espírito) possa desabrochar. Isso passa por resolver a questão energética e ambiental (fortemente jungidas) - e depois a de justiça social.

Fig.3: O desgaste que tanto fizemos ao planeta e a nós mesmos deverá servir para expandirmos nossa consciência. 
Assim estamos cumprindo o semi-ciclo de beta para alfa, ou seja, da energia para a vida para o espírito.
Gerando qualidade intangível com a deterioração da quantidade tangível.

A tese de sempre ser possível substituir um recurso por outro dos economistas está furada porque se isso é feito, o substituto é geralmente de menor qualidade e mais caro. Um beco sem saída. 

A tese de que a escassez de um produto básico o torna caro, e que para resolver isso basta produzir mais dele para barateá-lo novamente, é furada. Porque demanda energia e material, que se tornam cada vez mais caros à medida que se avança na esteira do tempo. O planeta é finito - logo, os recursos também. Quem estudou Ubaldi sabe: vivemos no Anti-Sistema, que é finito...

O problema dos homens de finanças é que eles não enxergam a realidade integral (não querem). E com isso ofendem a essência da vida e os princípios evolutivos. É uma pena, pois poderiam aplicar seus conhecimentos de modo a ajudar essa transição - e não mais dolorosa. 

A Arábia Saudita precisa manter o preço do petróleo alto para sustentar seu modo de vida insustentável - que entre outras coisas exige importar alimentos e dessalinizar água a altíssimo custo energético. Dá para perceber que eles vivem na ilusão-mor. Uma fantasia que irá acabar logo. 

Os preços da energia elétrica já começam a subir na Europa [2, 3]. E com isso, apagões. E com apagões, revoltas. Caos crescente. Que demanda controle crescente em nosso paradigma político. Que demanda desgaste de todos os tipos - e menos tempo ainda para pensar no que causa tudo isso...Parece uma armadilha que nos impede de pensar: quanto pior fica (e pior vai ficar), menos condições para ver à fundo o que realmente acontece. É triste. Mas chegará um momento em que as pessoas verão que não resta nada a fazer a não ser ir à fundo nessas questões. Até aí muito será perdido - mas o importante não é continuarmos sendo involuídos que gozam, mas sermos evoluídos, nem que sofredores. 

Dada a realidade presente, as fontes renováveis não são a salvação da humanidade. Nem sequer um amortecedor bom. Elas seriam se começássemos a reduzir a economia desde 1970. Mas, ainda assim, apenas um amortecedor. Os motivos eu apresentei aqui [4] e aqui [5].

Percebe, meu amigo? A questão exige algo muito mais interior do que exterior. É gostoso acreditar que uma coisa externa (tecnologia nova, novos processos, novos materiais, até mesmo novos rearranjos) irão resolver nosso problema definitivamente. Mas não. Porque um mal psíquico só pode ser resolvido no campo psíquico. É preciso mudar a forma mental. 

Além de tudo isso, é preciso lembrar que a extração cada vez mais desesperada só piora a situação e nos força a nos prepararmos para um declínio (iminente) de um ponto mais alto: a água doce fica inutilizada com a extração de minérios como o cobre, por exemplo - essencial para nosso sistema. Os motivos podem ser encontrados na fonte principal, logo aqui [6]. Obs.: veja os cinco pontos dessa dinâmica para compreender o porquê disso.

É uma realimentação positiva. Ou seja, quanto mais intenso num sentido, mais no outro, fazendo a amplitude dos preços de itens fundamentais (commodities) aumentar cada vez mais.

Fig.4: Super-ciclos dos produtos básicos da economia. Fonte: [7]

Vamos entender esse gráfico (Fig.4).

Ele mostra a variação percentual em relação a um valor-base de quatro variáveis fundamentais de nosso sistema econômico: petróleo, metais essenciais, matéria-viva e produtos agrícolas. Eu, como engenheiro e professor de engenharia, vejo quatro variáveis cujos preços oscilam periodicamente. E a amplitude cresce a cada ciclo. Isso é um sistema com realimentação positiva (instável). Como as variáveis são finitas (e nossos bolsos, limitados), a expansão da amplitude dos preços não pode se perpetuar para sempre. 

Mas o gráfico está um pouco confuso. Há quatro variáveis - cada uma com uma cor. E três delas parecem nem oscilar tanto. No entanto, não se esqueça meu amigo: elas estão profundamente relacionadas. O comportamento da mais proeminente tende a ditar a marcha geral do quatrilho. Então pode ser observada a mesma realidade num novo gráfico.

Fig.5: Super-ciclos dos produtos básicos da economia. Fonte: [7]

O gráfico acima (Fig.5) soma os ciclos das quatro variáveis (quatro em um). Ele dá uma curva, que revela a tendência geral. A soma faz sentido, pois as variáveis estão acopladas (= relacionadas entre si). 

O que vemos agora são os super-ciclos de nossa economia global. Já tivemos três e estamos vivenciando o quarto. Nosso sistema econômico não possui amortecimento algum. E além disso, ele se auto-excita, fazendo as oscilações crescerem de amplitude. Essa auto-excitação é inerente à lógica econômica por motivos que não cabem neste ensaio. Ela tem a ver com atrasos (delays) - algo que sempre existe no mundo físico.  

Um conjunto de variáveis finitas não pode crescer oscilando para sempre. Os preços não podem oscilar sem controle. Num dado momento, algo vai romper. Não se sabe exatamente quando, nem de que forma. Mas tudo indica que em algum momento desse século, o tensionamento da estrutura sistêmica irá fazer com que as fibras basilares de nossa sociedade sejam rompidas, com consequências psicológicas que nem sequer podem ser imaginadas. 

Meu trabalho na vida e aqui (que é um dos muitos aspectos de minha vida) é relacionar essa realidade com os princípios gerais do universo. 

Espero estar cumprindo essa missão. 

Referências:

B. This cannot possibly end wellLink: <https://thehonestsorcerer.medium.com/this-cannot-possibly-end-well-9d3ae48a488e>

BEINHOCKER, Eric D. The Origin of Wealth: The Radical Remaking of Economics and What it Means for Business and Society Paperback – September 14, 2007. Link: <https://www.amazon.com/Origin-Wealth-Remaking-Economics-Business/dp/1422121038>


Sustentabilidade - parte 2

No ensaio anterior sobre o tema foi dado um panorama geral da matriz energética global. Relacionamos desenvolvimento, finalidade da vida humana, condições ideais para esse desenvolvimento e finalidade, e alguns detalhes pouco percebidos pelo público em geral. Assim foi dado um significado mais exato do que entende-se por sustentabilidade. O ponto mais importante é perceber que a criação de facetas do novo (que sustenta novo modo de vida) depende do velho (que polui e degrada). E que energia é a base do desenvolvimento humano, mesmo quando atinge-se um estado como o nosso, de bens e serviços menos físicos e mais digitais.

Fig. 1: "Ninguém pode te fazer mal sem sua permissão. A sua felicidade depende de uma pessoa - de você mesmo."
O mesmo se aplica no campo coletivo. A humanidade não é vítima das forças do planeta - ela não soube compreender sua dinâmica e com isso abalou equilíbrios vitais. É preciso compreender...

Agora é momento de, dadas as circunstâncias em que nos colocamos, vislumbrar alternativas para realizar essa transição - como indivíduo e como espécie. Tarefa titância a ser feita por todos muito em breve. 

Como se sabe, a crise política e econômica é efeito da questão energética. E esta é um problema causado pela forma mental humana, que forjou uma lógica sistêmica inadequada a longo prazo. Uma lógica insustentável, que deve ser abandonada o quanto antes para não sermos varridos da face do planeta. A afirmação é grave porque a forma mental dominante é tão teimosa quanto ignorante. 

Questões como essa deveriam ser pensadas e discutidas em grupos com afinco e responsabilidade. Isso geraria atitudes e ações coordenadas da sociedade. Com uma pitada de visão espiritual, o medo de coerções não seria capaz de abalar um povo que toma rumo de seu destino. Porque as pessoas saberiam que o que interessa não são as aparências nem o domínio das coisas, mas a essência e o controle de si mesmo. Um projeto comum nasce e as fileiras se avolumam (quantidade) e adensam (intensidade) naturalmente, criando assim uma massa crítica - e não amorfa. 

É preciso matar o passado para fazer nascer o futuro. Por mais doloroso que seja. É assim que a natureza infra-humana opera. Ela destrói coisas magníficas sem piedade, porém reconstrói ainda mais belo e melhor, num ímpeto de criatividade e vitalidade incessante. 

Nos habituamos a um modo de pensar que não dá resultados realmente úteis. Mas por ser a única maneira de concebermos as coisas, persistimos, variando os modos - mas jamais conseguindo alterar os princípios. Exemplo 1: o trabalho. Acreditamos que mais tempo num local específico, associado a um cansaço, sofrimento, é o que é trabalhar, gerar riqueza. No entanto, estudiosos e pessoas vêm percebendo de forma mais clara que isso não tem sentido. A riqueza é cada vez mais imaterial, sem vínculo ao seu "criador", e tanto mais beneficiará a todos quanto mais difundida for. Mas não apenas isso, mas também filtrada, assimilada, trabalhada e expandida. 

Fig. 2: Nós somos pequenos em termos físicos. Mas é no reconhecimento dessa pequenez que mergulhamos em 
aspectos que demonstram nossa grandeza. Assim parte-se da valorização da matéria para a contemplação das ideias.
Ideias que apontam para uma vivência do espírito para recuperar uma perfeição perdida. 
Fonte: Michael L. Hiraeth Pixabay

Para o evoluído, muitas coisas que ocorrem hoje em dia não tem sentido. Exemplo 2: alimentação. Tem sentido privar pessoas de alimentação saudável porque elas não tem dinheiro e/ou estão desempregadas? Qual o ganho econômico disso? Ter de sustentar massas de miseráveis, que podem difundir doenças, que podem se revoltar, que não conseguem contribuir para o coletivo porque precisam apenas sobreviver em meio à barbárie de uma vida de perseguição, exclusão, humilhação...As condições econômicas não gerariam empobrecimento real de ninguém para dar dignidade aos desabrigados, aos refugiados, aos famintos, aos doentes, aos privados de um mínimo de instrução.

Uma sociedade incapaz de recompensar trabalho de verdade e ainda não gerar empregos em quantidade suficiente não tem o direito de associar aquisição de bens básicos com emprego ou posses. Devemos redefinir o significado de trabalho e aprofundar o significado de riqueza. Devemos saber consumir para não poluir - a alma e o ambiente. Devemos nos desgastar fisicamente pelas coisas que constroem valores eternos. Nada mais, nada menos. 

A energia é uma questão fundamental para o desenvolvimento da humanidade, como percebemos. E dada a nossa situação, seremos forçados pelas circunstâncias da história (que nós mesmos buscamos nos colocar) a realizar feitos inimagináveis. Faremos milagres. Ou melhor, o que antes era encarado como inviável e inaceitável, será colocado como meta e buscado com disciplina e criatividade. É uma questão de sobrevivência não apenas da pessoa, mas de espírito. O despertar de uma consciência latente, de profundidade (intuição), que é sábia e guia a consciência de superfície (razão), que executa. A execução será tanto mais efetiva quanto mais for permitido à intuição coordenar o processo. 

Vamos voltar às bases concretas.

Um artigo muito bom explica em linhas gerais os porquês de não podermos depositar nossas esperanças no que as propagandas falam [1]. Ele começa enumerando os diversos materiais que são a base de nosso modo de vida, e desnuda a situação de cada um deles. De forma resumida:

1. Concreto. Usado para construir casas, estradas, pontes, represas, etc. Para obtê-lo, precisamos fazer mineração de giz, calcário e argila. Depois, aquecê-los a 1450 °C, que é feito usando gás natural ou carvão (muita energia!). Com renováveis não conseguimos atingir essas temperaturas. Esse é o vínculo forte que dá primazia aos combustíveis fósseis. Eles são essenciais ao modo de vida atual. 

A areia - que é base do concreto - também é um recurso não-renovável. E cada vez mais escasso. Inclusive sua extração desmedida e desesperada vêm causando problemas sérios de erosão do solo por todo mundo. Há documentários que tratam especificamente o tema (busquem e encontrarão, agora não me recordo). 

E o concreto não é um material durável. Observe o quão caducáveis são nossas construções. Ou seja, o ritmo de extração, produção e construção deve ser muito intenso, piorando ainda mais a situação energética da humanidade.

2. Ferro e aço. Outro elemento basilar. Todo maquinário de produção, veículos e prédios grandes. Painéis solares e baterias também dependem de aço (a quantidade de aço nelas é relativamente grande). Vincula-se assim fontes renováveis com aço, que por sua vez demanda alta quantidade de calor (=energia) para ser produzido, o que significa alguma fonte fóssil. São 1538 °C para derreter e formar a liga.

A produção de hidrogênio (H2) é muito ineficiente em termos energéticos. Resistência elétrica? Poderia ser gerada essa temperatura por ela, sim. Mas seriam necessários muitos (muitos, muitos) painéis solares ou espelhos solares. Além disso, eles fornecem energia de modo intermitente. E o carvão, apesar de aquecer, libera impurezas. Esse processo poderia ser melhorado, mas sempre à custa de mais energia - o que é cada vez mais difícil num futuro próximo. 

3. Outros materiais. Problemas semelhantes surgem quando observamos vidro, cerâmica e fertilizantes agrícolas. A metalurgia e a química também dependem de altas temperaturas para seus produtos. Calor de uma fonte estável. Porque se a fonte for intermitente (baseada em renováveis), o fluxo de energia para e volta, para e volta, em ciclos, e com isso o material sendo produzido (viga, barra, produto químico, etc.) irá entupir as tubulações ou solidificar nas chaminés, estragando toda infraestrutura. Seria necessária reprojetar e reconstruir toda infraestrutura industrial do planeta.

"Meu Deus!", você pode estar pensando. "Vamos morrer!?". Não, meu amigo. Apenas teremos de nos adaptar gradativamente a um novo modo de vida. Será preciso matar seu eu consumidor, acumulador, de aparências, centrado numa vida de propaganda de margarina. Você mata seu eu inferior e desperta aos poucos seu Eu superior. Você consegue. Eu consigo. Nós conseguimos. Basta aceitar a realidade.

4. Produtos derivados do petróleo. Esse produto é uma fonte de energia mas também um material. Se tornou a base de muitas roupas e equipamentos e coisas que armazenam alimentos e bebidas e etc. Polímeros que permeiam muitas das maravilhas modernas também estão no rol dos recursos finitos. 

Nesse ponto você e eu ganhamos uma certa maturidade acerca do tema. É claro que devemos nos informar melhor sobre certos detalhes. Mas a visão geral está aí, dada, baseada em vozes sérias e competentes que se preocupam com a vida nesse planeta. 

Fig. 3: Não precisa ser assim - mas pode ser assim também. O importante é sentir que as
suas condições são propícias para a sua evolução (interior) e não ofendem de nenhum modo o meio.
Inclusive seu corpo, sua mente, sua família.

Precisamos nos relacionar com os objetos de maneira distinta. E igualmente com as pessoas. É preciso conceber novas formas de trocas. É preciso compartilhar aquilo que não tem sentido exibir ou armazenar. É preciso usar muito bem cada item, dando valor além de sua materialidade limitada. É preciso ganhar estofo psicológico para viver uma rotina menos dependente de coisas que não estarão aí por muito tempo - isso inclusive vale para pessoas.

Temos muito a aprender com esse decréscimo energético e material. É a oportunidade de começarmos a pensar numa nova civilização, cujo foco será muito mais o progresso da espiritualidade do que do bem-estar. 

Segundo a fonte consultada (ver referência), estamos no pico da civilização humana como um todo: jamais houve uma oferta tão grande de recursos, energia, produtos, comodidades e possibilidades. E jamais haverá. Antes era escasso - depois também será. Mas entre o antes medieval e o depois futurista, há a possibilidade de um despertar presente. Um despertar que extraia o melhor das condições, usando tudo possível para melhorar o espírito. Ganhar experiência de vida, saberes, intuições, habilidades, aprendizado, para sedimentar na consciência de profundidade. 

Agora é momento de semear uma visão monista do todo. O que não será destruído é aquilo que tem valor substancial. Aquilo que pode ser "levado" consigo nas inúmeras idas e vindas. É preciso construir algo que vá sobreviver a essa transição. Algo que não dependa de cadeias de produção, grandes quantidades de energia, de tecnologia hiper-sofisticada. Essa é a única construção que vale a pena nos dias atuais. 

Agora vamos aos termos concretos: o que você e eu podemos fazer?

Primeiro, é preciso ter plena consciência do que tudo isso significa. Qual será nossa orientação de vida daqui para a frente? Quais as prioridades? Qual os planos de longo prazo? (10, 20, 30, 40 anos) Em que habilidades investir? Como mudar a forma mental para viver de modo menos dependente de eletrônicos, com menos acesso a transportes, com menor variedade de serviços e bens?

Segundo, é precisamos usar nossos empregos bem. Como assim? Devemos poupar o que for possível e comprar o que é útil. Investir em novas habilidades, adquirir conhecimentos, desenvolver uma percepção mais apurada sobre a realidade - em todas suas dimensões. E, claro, aproveitar de modo equilibrado as benesses de nossos dias (para quem as tem). 

Fig. 4: Seres diferenciados transmitem vibrações diferentes. Se harmonizam com o simples e perfeito.
Seu olhar é mais profundo. Suas atitudes, mais seguras. Seus atos, mais pontuais. Seus efeitos, mais duradouros.
Fonte da imagem: Unsplash [2].

Poucas são as pessoas que possuem uma vida privilegiada, com tempo e recursos. Não me refiro a super-ricos, mas a pessoas cujas vidas possuem uma configuração que lhes dê tempo para pensar, para pesquisar, para o lazer, para planejar coisas de seu interesse, para caminhar, para fazer compras, para meditar, para orar, para se exercitar, para consultar seu médico, para cuidar de sua higiene adequadamente, para cultivar amizades, para realizar estudos, para ler, para ouvir música, para fazer amor, para viajar, para conversar, par debater, para ousar. São poucos, mas existem. Em larga medida essas condições são resultado de uma construção que perpassa vidas. Vem como uma recompensa por um esforço de planejamento e execução, que forja um microcosmo dentro do meio (uma bolha boa) cheia de possibilidades. Isso deve ser aproveitado ao máximo. Deve-se descobrir como aproveitar essas condições. 

As pessoas que construíram seu meio são seres relativamente isolados. Num mar de criaturas que se deixam levar pela força do número (quantidade), das opiniões e das aparências, elas se destacam por sua singularidade. Pela sua graça e coragem. Pela sua inteligência distinta - mais intuitiva do que racional, porém também esta. Suas rotinas são mais flexíveis e livres. Seus gastos, mais orientados. Seu vigor, maior. Sua criatividade, crescente. Suas experiências, diversificadas apesar de simples: elas não requerem grandes barulhos, muitas pessoas, locais distantes para conseguirem ter uma nova percepção do cosmos. São, a meu ver, núcleos embrionários de indivíduos que deverão compor uma nova civilização. São de muitos tipos (extremamente diferenciados, mesmo entre si), porém apresentam características em comuns. Características essas que devem ser os pilares de uma nova civilização.

Como seria uma civilização ecológica? Uma fonte pode nos dar algumas pistas de seus princípios [3]. Vamos mostrar como eles coincidem com as diretrizes apontadas por Sua Voz na Grande Síntese.

1. DIVERSIFICADA= "A system’s health depends on differentiation and integration."

2. EQUILIBRADA = "Every part of a system is in a harmonious relationship with the entire system."

3. HIERARQUIZADA = "The small reflects the large, and the health of the whole system requires the flourishing of each part."

4. RETROALIMENTADA ="Regenerative and sustainable flourishing into the long-term future."

5. SUBSIDIARIZADA = "Issues at the lowest level affect health at the top."

6. SIMBIÓTICA = "Relationships that work for mutual benefit."

O princípio da diferenciação (1º momento) para posterior reorganização, com integração (2º momento) está muito claro em AGS. De fato, o pensamento sistêmico nos revela que a resiliência está intimamente relacionada com a diversidade. 

O equilíbrio é outra Lei universal, bem destacada em AGS. Não há nada (nada) isolado no Universo. Nem indivíduo, nem fenômeno, nem coisa, nem ideia, nem coletividade. Tudo possui uma relação com o todo. Uma relação dinâmica que aponta para uma progressividade, rumo a uma meta (destino). Um regresso a um não-local, atemporal, no Absoluto. Tem relação com o aspecto dualista do cosmo, que aponta para polaridades que interagem continuamente, em todos os níveis, de todas as formas, a todo momento, co-evoluindo.

A hierarquia é natural e uma característica sistêmica. O que está em cima é como o que está em baixo, e vice-versa, já dizia um dos sete princípios herméticos. Sua Voz deixa isso cristalino, e explica cientificamente, com a linguagem moderna seu significado: trata-se de uma organização fractal, em que o pequeno reflete e depende do todo - e o todo expressa os pequenos e depende deles também. Logo, todos seres devem ter o necessário para cumprir sua função.

A realimentação implica que há uma comunicação saudável entre as partes. Isso requer compreensão e interação (profunda) contínua. Ela viabiliza o caráter cíclico de uma civilização, que assim passa a seguir o fluxo dos movimentos fenomênicos. Esses movimentos são constituídos de: ciclos, oscilação e progressão. É a trajetória evolutiva em nosso Universo. É geral, e portanto uma civilização só se beneficiaria ao se alinhar a esse princípio.

Subsidiarização é uma aspecto de solidariedade. Pois num sistema verdadeiro, tudo é orgânico e portanto há necessidade de auxílio constante. Assim que a parte mais saudável percebe que outra parte está com algum problema, ela se apressa em socorrê-la. Algo bem diferente da lógica do mundo presente. Mas no entanto não há saída para nossos problemas se não adotarmos essa filosofia de vida.

A simbiose ocorre quando ambas as partes são beneficiadas com uma interação. Não precisa ser na mesma moeda, quantidade ou imediata. Mas deve ser uma retribuição de mesma qualidade. Isso aponta para substância. Construindo relações simbióticas estaremos reproduzindo um dos aspectos da Lei de Deus. Reproduzindo esse aspecto, estaremos nos alinhando. Nos alinhando, evitaremos contratempos - a Lei não precisara atuar para nos corrigir, e a dor diminuirá. Simples, certo? A implementação é que é (ainda) difícil, penosa.

Por quê? Porque ainda não percebemos a vantagem que isso nos trará.

No livro The Limits of Growth (1972) foram simulados vários cenários possíveis para nosso século. Trago aqui um deles em forma gráfica.

Fig. 5: Previsão obtida pelo Clube de Roma, revelando o progredir das variáveis de nossa civilização.
Fonte: [4]

Perceba que estamos chegando num ponto de máximo, com consequente queda. As dinâmicas se interrelacionam - as variáveis se afetam. A disponibilidade de alimento (per capita) diminui, assim como a produção industrial. Isso afetará o modo de vida de todos. Uma configuração social mais avançada precisará ser implementada se quisermos construir algo melhor nos futuros séculos e milênios. E pode ter certeza, meu amigo, que para isso se dar será necessário abraçar o aspecto mais abstrato, mais espiritual, mais singelo, da existência. Porque na verdade, o que é visto pelo involuído como abstrato é a realidade mais concreta que existe - e a concretude de hoje é apenas um efeito final de uma forma mental situada no plano hiperpsíquico. 

Perceba que a poluição também irá diminuir -forçosamente, pois sem recursos naturais não há produtos industrializados (ao menos não na quantidade que muitos fantasiam). E sem essa saída industrial a poluição cai. É aprender por força das circunstâncias (via dor, como Ubaldi nos mostrou).

Uma outra figura nos dá ideia de como reduzir a pegada ecológica está abaixo.

Fig. 6: O que fazer para reduzir seu impacto no planeta. Fonte: [4].

Sim, meu amigo, é sobretudo uma questão demográfica: se quisermos manter um nível de vida aceitável para tudo e todos, é imperativo ter uma mentalidade de que devemos ser naturalmente mais controlados em termos de natalidade. 

Qual é o maior impacto para o clima no planeta Terra? São os carros? São os aviões? As indústrias? As termelétricas? As centrais nucleares? A dieta da carne? Na verdade o que gera cada mal em cada campo é o ser humano - dado seu atual nível de consciência. Por isso ter um filho a menos é o que causará maior impacto para melhorar as condições climáticas em nosso planeta. Nossa inconsciência nos torna a gênese de nossos males, que se manifestam em várias facetas (todos itens abaixo do primeiro).

Calma, meu amigo. Não estou pedindo para você se suicidar ou rezar pela guerra ou uma catástrofe sanitária ou qualquer coisa do tipo. Estou apenas apontando que devemos adquirir uma mentalidade mais madura da realidade. Não significa não ter filhos, mas tê-los dentro de suas capacidades de criá-los (e da sociedade albergá-los); significa ter filhos pensando que vocês deverão trabalhá-los, passando valores eternos e substanciais, que os tornem cidadãos do Universo; significa perceber que a finalidade última da vida não é se reproduzir o máximo possível (mesmo que as condições permitam) nem comer o máximo e conquistar posses, mas evoluir - coisa que eu já expliquei o que é no ensaio anterior. 

O colapso é algo iminente, porém é um processo. Sendo um processo, temos um certo tempo para irmos nos adequando à nova realidade. Ao longo de nossas vidas - e da vida de nossos filhos - muitas mudanças deverão ocorrer. São tendências, não certezas. Porém, muito prováveis. 

Um erro que NÃO deve ser repetido nos próximos séculos e milênios e além é vincular o sistema financeiro à economia real. Quando recompensamos com riqueza uma atividade que não gera riqueza, estamos distorcendo coisas. Comprar e vender ações não é algo produtivo e não deveria enriquecer. 

Você pode dizer que a pessoa está tendo um trabalho imenso ao estudar, gastar tempo e recursos para saber quando vender e quando comprar; que ações comprar e vender; em que quantidade e etc. De fato, dá muito trabalho fazer day trade de forma a viver dele. Mas isso não significa que a atividade seja socialmente útil. É apenas individualmente útil - às custas de uma dívida que se coletiviza e será paga no futuro pela sociedade como um todo. Sendo assim, até mesmo o indivíduo está se endividando - uma vez que terá uma parcela do débito coletivo.

Não entrarei em detalhes porque o ensaio se alongaria demais. No entanto, convido você, meu amigo, a estudar as relações e a dinâmica disso que foi dito mais à fundo. Chegarás à conclusão de que se trata de uma atividade insustentável. 

Essa cisão entre economia real e finanças virtuais ocasionará uma ruptura do sistema econômico. O preço do alimento será maior, e o desemprego irá explodir para níveis ainda maiores do que os atuais. Com isso a população irá diminuir - é o que digo, ou fazemos o certo por bem, ou por mal...

Com os recursos minguando rapidamente (minérios e fontes de energia), o que temos de infraestrutura (pontes, túneis, fábricas, casas, apartamentos, praças, pontes, rede elétrica, etc.) irá deixar de ser substituída. Uma lenta deterioração de nossas construções ocorrerá. A manutenção será cada vez mais cara até o ponto em que ficará inviável qualquer reparo. Mais apagões ocorrerão devido à não-manutenção (sim, meu amigo, a rede elétrica, para transmitir, precisa de materiais, que para serem colocados e produzidos dependem de energia...).

A partir de 2030 ou 2040 teremos de buscar independência da rede de energia. Será cada vez mais comum pessoas esquematizarem pequenos aerogeradores domésticos, baterias. Quem puder irá aproveitar água das chuvas e pequenas quedas d'água. Não terá muito mais sentido consumir muito de internet - as pessoas não terão tempo para navegar nas redes sociais. Os eletrônicos deverão ser parte cada vez menor em nossas vidas (por realidade social e condições materiais). Um futuro pouco tecnológico. Para alguns é a morte. Para outros, a oportunidade de despertar mais...

Noah Yuval Harari irá se decepcionar ao perceber que a humanidade não encontrou uma fonte milagrosa para continuar se perpetuando nos moldes hodiernos. Em seu livro Sapiens, ele destacou que provavelmente a humanidade encontrará alguma maneira de obter mais energia e recursos. Afirmava assim, tranquilamente, baseado nos saltos históricos dos últimos século e milênios. Viu as coisas como lineares. 

Guerras grandes serão inviáveis por falta de materiais e recursos. Sem energia não há destruição via guerra. Sem manutenção não há ataques grandes, coordenados e vigorosos. Ponto para a Lei.

A biodiversidade irá minguar em latitudes equatoriais. Em outras também, mas o maior impacto será sentido na região do equador. 

A natalidade minguará por opção de não ter filhos (ou ter menos) mais do que por mortes - quem irá querer se reproduzir sem renda fixa ou condições adequadas? Haverá muito trabalho a ser feito para manter a vida. 

Deverão surgir comunidades que se baseiam em energia dos ventos e solar. Tudo deve ser local e orgânico. Agricultura de larga escala, impossível. Poucos eletrônicos. Pouca internet. Será um tempo mais natureba. As pessoas deverão saber ocupar o corpo e a mente e o espírito de forma criativa. Ponto para a Lei. 

As pessoas serão forçadas a se distraírem com coisas que outrora ignoravam. Quem sabe nos poucos momentos de acesso que tenham encontrem uma série de ensaios que apontem para diretrizes de uma nova civilização. Um espaço virtual que já estava colocando os alertas, as diretrizes, os princípios gerais do ser e do cosmos. Quem sabe...

Após a metade desse século é difícil saber exatamente o que acontecerá. Convido o leitor a ler a referência principal, que faz uma previsão para os próximos milênios, em linhas gerais. 

De tudo isso o que mais me interessa é extrair os aprendizados que possam nos levar a uma nova civilização. Centrada no espírito. Isto é, com uma consciência mais profunda dos fenômenos. Que saiba da fenomenologia universal e que se importe em compreendê-la cada vez mais à fundo. Que aplique em seu quotidiano os grandes princípios diretivos da vida. Que seja moral sem aparentar. Que seja amorosa sem forçar. Que seja eficiente na raíz. Que seja evoluída nas atitudes e nos atos. Que seja criativa nas combinações e superações. Que seja verdadeiramente nova.

Quem sabe...

Luiz Marques deu uma aula que mostra o que ocorrerá e o que podemos fazer para a transição ser mais suave.

Referências:

B. True sustainability - part 2. Link:<https://thehonestsorcerer.medium.com/true-sustainability-part-2-d275e7c9be6b>

JEREMY, Lent. Whats doe's an Ecologycal CIvilization Looks Like? 16 Fev, 2021. Link: <https://www.yesmagazine.org/issue/ecological-civilization/2021/02/16/what-does-ecological-civilization-look-like>

MARQUES, Luiz. CONSTRUINDO O SOCIALISMO AUTOGESTIONÁRIO | AULA 2 - SOBREVIVER AO CAPITALOCENO. Link: <https://www.youtube.com/watch?v=UPg5zRjbXbI>

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Sustentabilidade - parte 1

Temos pouco tempo (disponível) para pensar. Ou melhor, dadas as obrigações impostas (muitas delas sem real utilidade), nos é muito laborioso observar o que acontece à nossa volta. Não paramos diante de certas máximas proferidas a todo momento - pela mídia, pela sociedade, nas famílias - para ver se elas estão de fato corretas. Isto é, não identificamos erros conceituais, na base, de muitas afirmações que são divulgadas sem medo a todo momento. Uma dessas afirmações envolve a questão da energia, de nosso ambiente (geosfera, biosfera e noosfera) e, consequentemente, da sustentabilidade.

Fig.1: Para fazer o correto, é preciso pensar corretamente. Para pensar corretamente, é preciso ver à fundo. 
Para ver à fundo, é preciso fazer o que não se faz. Para fazer o que não se faz, é preciso ousadia inteligente.

Paremos para analisar a situação: 

Mais de 85% de toda (eu disse toda) energia consumida pela humanidade provêm de fontes fósseis (não-renováveis). Carvão mineral, gás natural e petróleo representam praticamente a totalidade desse grupo. Eletricidade representa 25% de toda energia consumida. E desse um quarto (25%), apenas uma pequena porção é produzida por fontes renováveis. Além disso, essas fontes (e aparatos e sistemas) renováveis - turbinas eólicas, painéis solares, concentradores solares, energia das marés e hidroelétricas - dependem direta ou indiretamente dos combustíveis fósseis. Pense na extração, no transporte, no processamento, nas etapas de produção, na manutenção, no descarte...E além disso, há o uso de materiais diversos - alguns deles eletrointensivos, como o alumínio. Cobre, níquel, cobalto, metais raros. Pode checar essas informações aqui [1].

Agora você pode ter uma visão um pouco mais real da situação energética da humanidade. E qualquer um que preste atenção perceberá que todo o nosso conforto que nos permite elaborar criações interessantes depende de energia. E a nossa matriz (energética) está configurada conforme o que foi descrito anteriormente. 

Então, podemos já fazer algumas afirmações, e relacioná-las:

1ª) Necessitamos de energia para nossas criações (importantes e sofisticadas);

2ª) Nossa matriz energética se baseia quase inteiramente em combustíveis fósseis;

3ª) Os recursos fósseis são finitos e devem começar a diminuir em algum ponto desse século;

4ª) O nosso paradigma econômico se baseia no crescimento infinito;

5ª) O crescimento econômico está vinculado à demografia, à cultura e aos recursos materiais e energéticos do planeta, que são finitos;

6ª) As atividades humanas vem causando um abalo profundo em toda geosfera e biosfera, que pode comprometer o próprio desenvolvimento da humanidade.

Não podemos negar nenhuma dessas afirmações.

Vamos relacionar as coisas:

De uma necessidade nobre (1) precisamos de algo para sustentá-la (2). Mas esse algo (2) tem um problema real e já apontado por muitos estudiosos (3) , que tornará esse algo (2) inexistente. Logo, (1) também não poderá se dar. E assim, nossa existência não tem sentido - pois seríamos uma humanidade que não evolui, sem criações novas e dinamismo transformador. 

Devemos então olhar para a estrutura do nosso sistema econômico, que está alicerçado numa lógica - que podemos chamar de paradigma - que diz que devemos sempre obter mais lucro. Crescimento econômico. E a questão é que mesmo os bens e serviços intangíveis estão ancorados no substrato material e energético de nosso planeta. Depende das formas de vida. 

Todo mundo se alimenta. Todos temos corpos físicos (e muitos outros, mas fiquemos só naquele que as pessoas admitem) que necessitam de condições climáticas razoáveis para serem produtivos (expressar o espírito na finalidade mais consciente). E serem transportados (meios de locomoção) e expelirem dejetos (saneamento) e serem tratados (saúde) e se protegerem dos elementos (moradia) e serem instruídos para atuarem de acordo com seus anseios (educação), entre outras coisas importantes. Já deu para perceber que tudo isso depende de energia.

A humanidade evoluiu muito em termos de conhecimentos e bem-estar porque a esfera social (política e economia) se alinhou ao progresso tecnológico. Mas esse crescimento foi exterior, orientado para coisas e serviços. E para prazeres e alívio (desnecessário) de dores. Nos tornamos frágeis em certo sentido, pois não lidamos com os menores incômodos e consequentemente não expandimos os nossos limites.

É preciso então mexer no item (4). Ou seja, organizar a sociedade de tal modo a obter uma nova relação entre nossa espécie e os recursos do planeta. Isso pode ser feito adotando uma mentalidade mais sistêmica. Mas não apenas: é imperativo mudar a cultura para que isso ocorra. Ou seja, o modo de concebermos a vida. Sua finalidade. Sua essência. Sua dinâmica. Então devemos trabalhar muito bem a relação entre o paradigma atual (4) e a realidade (5). É preciso alterar esse paradigma. Isto é, superação.

Superar algo não é retornar ao passado de paisagens bucólicas ou extrapolar a tendência tecnológica hodierna. É criar algo inteiramente novo, baseado numa releitura madura dos valores do passado e das potencialidades do presente. É mais uma questão de mudar a forma mental do que inovar. É uma questão de deixar morrer coisas inúteis que vemos como vitais. É uma questão de redefinir o trabalho - e com isso o propósito da vida humana.

Observando hoje, nossa finalidade parece ser acabar com as condições que nos permitiram chegar até aqui (aos trancos e barrancos), o que nos leva à afirmação (6). Mas uma pessoa há de admitir que essa não deve ser a nossa finalidade como espécie - mesmo que nosso maior efeito até o momento tenha sido esse. Precisamos ser sustentáveis para sobreviver e, sobretudo, cumprir nosso papel na fenomenologia universal.

Fig.2: Uma forma de vida mais concentrada, mais contemplativa, mais orientada, mais intensa,
menos barulhenta. Menos movimentada exteriormente e mais movimentada interiormente.
Foto de: Vadim Fomenok on Unsplash.

Qual é esse papel? Evoluir.

O que é evoluir? 

É criar novas combinações de palavras que expressem da melhor forma ideias plantadas há milênios;

É ver que o que realmente importa é o essencial - e isso pode simplificar em muita nosso quotidiano;

É criar coisas (cursos, melodias, livros, teorias, aparatos, etc.) visando libertar o ser das amarras;

É sentir mais profundamente aquilo que parece sem importância (por brotar à nossa frente a todo momento);

É ousar em novas formas de agir, mesmo que sozinho à princípio;

É se disciplinar em atividades que lhe dê um retorno na forma de maior paz interior;

É viver de acordo com sua consciência, apesar de todas críticas da sociedade.

Devemos orientar nosso paradigma tendo por meta essas finalidades. Finalidades estas que podem adquirir as mais diversas características. Depende da pessoa. Há vários modos de evoluir em termos pessoais - porém apenas há um caminho em termo substancial. Esse caminho único é despertar cada vez mais sua individualidade indivisa, infinita e eterna (espírito), filha do Absoluto. E assim manifestar esse aspecto divino através de sua personalidade única. 

Vamos voltar à questão energética.

Temos a reciclagem, que alguns podem ver como a prancha de salvação. De fato, se trata de algo voltado ao reuso de material usado. Isso é bom, sem dúvida. No entanto, executar essa atividade requer uma quantidade fenomenal de trabalho (no sentido social) e energia. Então perceba, meu amigo, que a reciclagem é mais um paliativo do que uma solução. Ela não sai da malha do balanço geral - cujos resultados indicam uma mudança abrupta ainda nesse século, com implicações profundas para a vida humana. E o próprio processo de reciclagem possui resíduos. Nesse caso poderíamos pensar em reciclar os produtos da reciclagem: mais energia e trabalho despendidos. Será que a partir de um ponto compensa?

Meu amigo, esses problemas não são abstrações da mente de um ambientalista - e sim uma realidade substancial dos processos e necessidades humanas, dos fenômenos do universo e de profundas questões filosóficas que ditam o nosso rumo. 

A importância que dou ao pensamento sistêmico é porque ele foca num aspecto crítico de nossos dias: a complexidade. Essa complexidade tem muito mais a ver com interconexões, interdependências, do que com elementos. Observemos que a obtenção de um recurso fóssil (carvão) depende de outro (petróleo). E muitos dados difundidos mascaram a qualidade do recurso - isto é, a parte que é realmente útil para realizarmos nossas atividades...todas elas.

Fig. 3: Demanda e produção projetada de cobre, lítio e cobalto na década de 2020.
Fonte: IEA.

O casamento das necessidades da civilização com os dados mais atuais indicam claramente: não há saída dentro do paradigma atual. É preciso superá-lo. 

O gráfico da Fig.3 revela a tendência demanda x produção de três metais vitais para o sistema produtivo nessa década. O que se vê é um descolamento entre o volume de produção (área azul escura, em produção, e azul clara, projetada para produzir) e a demanda do minério (linha vermelha). Em algum momento de 2024 não será possível satisfazer a demanda crescente - especialmente de lítio e cobalto. Lembremos que esses dois desses materiais são imprescindíveis para a indústria de eletrônicos. Para a transmissão de energia, o cobre. 

Fig. 4: Consumo primário de energia (1800 a 2020).
Fonte: [2]

Para finalizar essa primeira parte, vejamos o gráfico acima (Fig.4). Ele nos diz que a humanidade não alterou substancialmente o consumo de energia via biomassa (ex.: lenha ou carvão vegetal). Mas desde a consolidação da Revolução Industrial no início do séc. XIX, a humanidade começou a extrair recursos não-vivos e não-renováveis do planeta, iniciando-se pelo carvão - associado às máquinas a vapor. Depois (início do séc. XX) veio o petróleo, base dos motores ciclo Otto e Diesel, que também alimentam as termelétricas, gerando energia elétrica, uma forma de energia nova e em expansão há cem anos. O gás natural acompanha, sendo de vasta aplicação residencial e industrial - em particular força motriz, geração de calor, cocção de alimentos e eletricidade. Visualize a figura para o ano de 2019 (pré-pandemia): cerca de 85% de toda energia necessária à humanidade depende dessas três fontes. O resto representa muito pouco. Inclusive, para seu crescimento, depende dessa imensa base não-renovável, como ressaltado anteriormente.

Estamos num impasse: para construir uma base renovável e entrar em regime novo, é preciso usar a base não-renovável (que está minguando a passos rápidos). Esse movimento deveria ter iniciado muito antes (muito antes mesmo). Mas apenas uma coletividade com visão de longo prazo - que exige uma cultura difundida de filosofar, escutar, debater e até mesmo contemplar - seria capaz de fazer isso. A nossa espécie está percebendo o que deveria ter sido feito um pouco em cima da hora. Na verdade, tarde demais. 

E agora? É o fim? 

Sim e não. É o fim do que conhecemos como um modo de vida centrado no crescimento ilimitado, no consumo conspícuo, no trabalho alienado e na superficialidade.

Vivemos um período de transição que inevitavelmente chegaria, cedo ou tarde, dadas as circunstâncias fenomenológicas e as metas estabelecidas e persistidas. De uma forma suave (ideal) ou dolorosa (realidade). 

Nossa jornada até aqui foi cheia de contradições. Avanços exteriores barulhentos e fantásticos, sem no entanto a sustentação de grandes visões que brotam do íntimo.

Um conhecimento perdido que deve ser redescoberto, adaptado aos nossos tempos e trabalhado continuamente. Uma filtragem e combinação de elementos do passado e presente, de culturas, de saberes, de histórias, de técnicas, de visões de mundo e de filosofias de vida, que darão o futuro que afirma a missão evolutiva da humanidade - e assim entraremos em ressonância com o Universo, evoluindo em fase com este, caminhando a passos largos rumo ao Reino de Deus, além do espaço, do tempo e do relativo.

Na próxima parte veremos o que poderá ser feito.

Até lá.

Referências:

B. True sustainability - part 1. Link: <https://thehonestsorcerer.medium.com/true-sustainability-part-1-36313910251c>

sábado, 15 de janeiro de 2022

O combustível espiritual

Para quem está em busca, é preciso saber: qual é o seu combustível espiritual? Aquilo que alimenta seu motor criativo. Aquilo que inspira, lhe dá impulso, dá sentido à sua busca, anima sua longa e árdua jornada. Quem está nessa busca infinita - num mundo finito - precisa saber isso porque apenas sendo alimentado continuamente é que se poderá persistir na jornada - e conquistar coisas incríveis. 

Fig.1: O combustível não precisa ser algo muito suntuoso. Aliás, pode e deve ser algo
simples, ao alcance de qualquer um. Simples, não simplório. Algo singelo, isto é, especial.

O autor viveu muitos dramas. Dramas interiores mais do que exteriores. Estes pouco abalam sua pessoa, pois são coisas às quais ele é pouco sensível. Mas aqueles muito o abalam, por serem algo de importância capital em seu sistema de valores. Assim sente-se a inversão de prioridades entre o indivíduo e o mundo: enquanto este deseja o imediato, o sensório, o escapismo ágil, os artificialismos, o gozo imediato, o primeiro busca viver em sintonia com algo muito diferente. Vibra pelos pensamentos abstratos - que vê como causa e diretriz das concretudes dos efeitos; sente o âmago das melodias, das cenas afetivas de personagens históricos ímpares lançados no turbilhão dos interesses dos poderes, dos dramas de quem se vê preso numa forma mental; se entrega de corpo e alma àquilo que ama - como uma mulher que é capaz de amar integralmente um homem, com todas fibras de seu ser. É um ser diferenciado e por isso as circunstâncias exigem uma certa camuflagem e uma alimentação diferenciada. Alimentação espiritual. Via arte, via escritos, via contatos (mínimos, claro), via música, via atividades que pode criar livremente, via tranquilidade junto à natureza, via contemplação.

Quanto mais altas as metas, quanto mais intenso o dinamismo, quanto mais amplos os planos de unificação, maior a necessidade de uma fonte perene. Para acessá-la, é preciso ter a sensibilidade necessária - pré-requisito para a alimentação. 

“Quem não quer trabalhar também não coma. Ora, temos ouvido falar que, entre vós, há alguns vivendo desordenadamente, sem fazer nada, mas intrometendo-se em tudo. A essas pessoas ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo que trabalhem tranquilamente e, assim, comam o seu próprio pão.”

2 Ts 3, 10-12

O que é trabalhar? Sempre foi uma curiosidade do autor. Porque de fato não merece ter o alimento quem não trabalha. Mas aqui estamos falando não de bens terrenos ou direitos, mas de um acesso à fonte que permite ao ser realizar milagres. 

Vamos explicar melhor.

Trabalhar é fazer algo que transmita aspectos do infinito em nosso finito. É dar a sensação do eterno (conceitualmente inclusive) às pessoas, usando do restrito tempo que nos é dado numa existência terrena. É executar suas atividades com um senso de infinito e eterno. Ou melhor, com um sentido. É preciso que a vida de uma pessoa tenha um significado profundo. Um significado mais de missão do que de expiação ou prova. Um significado desse tipo, porque nesse caso poderá ser acessada uma fonte que lhe alimenta sempre, da melhor forma, sem que o mundo tenha a mínima noção do fenômeno que está ocorrendo a todo momento. Para acessá-la, maturação interior que leva à sensibilização do ser. O ser passa a ver milagres em tudo - e com isso começa a realizar coisas que antes não saberia como fazer. Passa a ter ânimo sem igual, ímpeto criativo anormal, resiliência formidável. 

Fig.2: Um livro que ajuda na busca pela inspiração que realiza feitos incríveis. Que ajuda o
ser a se equilibrar - e com isso viver na paz e em paz. 

Paulo de Tarso falava sobre coisas profundas. Seus escritos não devem ser levados ao pé da letra. É preciso fazer uma leitura espiritual de cada trecho, pois cada pensamento transcrito em papel traz em seu bojo um conceito que aponta para um princípio de nosso Universo. Um aspecto da Lei. E assim temos uma obra escrita que contém em si os segredos da vida. 

As Escrituras Sagradas devem servir de alimento aos cientistas criativos e trabalhadores de nossos dias - se desejam fazer a ciência avançar. Devem servir de guia aos filósofos munidos de cultura - se  desejam conquistar a sabedoria que tanto amam. Devem ser ponto comum entre as religiões - se elas desejam chegar à Deus. 

Alimento. Guia. Ponto comum.

Combustível. Bússola. Missão.

Fonte. Orientação. Salvação.

"Para quê tudo isso?", pergunta o tipo médio de nosso mundo. Esse blog é inacessível para ele. Está proibido de adentrar em seus textos, conceitos, sistematizações, referências, princípios, sensações, harmonias e buscas. Não por lhe ser negado - mas porque a criatura não atingiu o grau de maturação evolutiva para perceber a grandeza do que lhe é apresentado. 

Atravessamos uma ponte comprida e frágil. Uma ponte que vacila ao menor vento. Uma ponte frágil, porém vital para quem já não vê sentido em permanecer gozando de um lado - quer atingir o outro lado. Uma ponte longa, frágil e estreita. Construída com a fé. Sustentada pela fé. Atravessada pela fé.

Fig.3: A ponte se sustenta pela fé. Fé é sintonizar-se com a fonte. O caminhar depende 
da capacidade de alimentar-se com o combustível espiritual. 
Fonte da imagem: Unsplash.

Estamos nos antípodas do mundo.

O autor, por ter de viver muito com as coisas do mundo, se vê munido de palavras e vontade para expressar da melhor maneira esse sentimento profundo que paira sobre criaturas que começam a enxergar qual é a verdadeira questão de tudo. 

Escreve-se por uma questão de sobrevivência.

Cria-se cursos por uma questão de sobrevivência.

Ministra-se palestras por uma questão de sobrevivência.

Assiste-se a filmes e séries para extrair o aspecto substancial da vida e sentir as forças da história.

Escuta-se música para sofrer e se alegrar com aquele que a criou.

Fazem-se leituras para crescer na compreensão das coisas.

Ousa-se criativamente para adquirir resiliência e experiência.

Trabalha-se apenas como meio de expressar o ideal.

Não há saída a não ser buscar transcender. Num ponto de nossa jornada, o ar será rarefeito. Será impossível continuar sem uma sustentação extrafísica, ou seja, uma fonte sobre-humana. O autor encontra-se nesse ponto e por isso deve investir pesadamente na contemplação

É preciso se desprender de tudo que não é necessário, útil, construtivo. Para que o voo seja ágil e a propulsão poderosa. Poderosa o suficiente para vencer as amarras do campo gravitacional do atual nível evolutivo, que deseja tudo arrastar e atrair para si - a seu favor. Se trata em último caso de se tornar imune a esse campo (de interesses), para assim poder trabalhar em (relativa) paz.

Nova fase virá. Porque a vida, para ter sentido, deve ter uma utilidade profunda. 

Abaixo um dos meus combustíveis espirituais na forma musical.

Ludovico Einaudi - Luminous (live)
Link: [1]

Non aspettare niente - per fare tutto

Os maiores ensinamentos são belos e poderosos. Parecem trazer em seu bojo a solução de todos problemas da existência. Sintetizam de forma magistral o que deve ser feito para que possamos nos libertar deste mundo, e assim vivermos uma vida de criação e suavidade, sem medos nem desejos. No entanto, praticar esses ensinamentos é extremamente difícil: requer uma disciplina fora do comum, uma real e uma perseverança contínua.

Disciplina porque demanda regularidade. Uma atitude que não se abala, não se deixa influenciar pelas circunstâncias. Fé porque se trata de sintonizar com algo além deste mundo (transcendência), que não pode ser visto, ouvido, tocado nem pode lhe auxiliar diretamente nos momentos mais dolorosos. E perseverança porque por muito tempo os resultados não serão percebidos (interiormente). Ou seja, é um projeto de longo prazo - como todas grandes empreitadas.

Fig.1: Não espere que venham até você, nem que vejam o que você vê, nem que se abram como você.
Quando se vê (de)mais, o ritmo é intenso e a criatividade ferve. Não há saída: deve-se criar o novo universo sozinho.
Árduo trabalho daqueles que se propõem se superar. 

Viver é sofrer para quem almeja ascender. Quanto maior o ímpeto, maior a criatividade. Maior é a vontade de unificar. Maior é o esforço por alinhar grandes planos. Viver num intercâmbio de ideias, sentimentos, sistematizações, experimentações, buscas e esforços. É tensão que eleva - pois os seres em tal sintonia sabem transformá-la em conceitos novos, formas de vida, atitudes potentes. 

Para passarmos para um próximo plano é essencial que vivamos até a exaustão o plano em que estamos. Isso significa esgotar todas as possibilidades; tentar todas alternativas; refletir sobre todos os atos; compreender as limitações comunicativas do próximo; sentir no âmago as ilusões. Porque é preciso viver a dor para assimilar os caminhos errados, limpando terreno para que reste apenas a visão do caminho certo - para mim, para você, para cada um. E assim, realizando uma purificação via experiências, nos tornamos seres mais ágeis e sagazes, com movimentos mais cirúrgicos, alcançando nossos objetivos com menos esforço. 

A relação entre seres evolutivamente próximos é bidirecional. São trocas diferentes na forma e quantidades, porém equilibradas - isto é, iguais - em sua substância. Um busca o outro (e vice-versa). Um é claro com o outro (e vice-versa). Um diz exatamente o que pensa para o outro (e vice-versa). Ambos se propõem a viver juntos o ideal. Isso não significa construções concretas dispendiosas, mas geração de uma relação de inclusão e integração. A todo momento o cuidado. Aprender a dinâmica do outro. Conversar abertamente para esclarecer. Porém, a vontade deve partir de ambos.

Há momentos em que parece que estamos falando sozinhos. Enviamos ideias e não recebemos nenhuma resposta - nem sequer uma explicação de não haver essa reação. Pegamos uma ideia de alguém, trabalhamos ela, e mostramos outro aspecto - porém o outro não incorpora essa outra dimensão. Recebemos o sinal de que podemos contar com o outro para dividir ideias, evoluir conceitos, descobrir a natureza humana, mas na prática sente-se um distanciamento. E quando há um encontro, parece que nada ocorreu e quem deve se adaptar é aquele que está levando a sério a fala do outro. 

Vivemos numa era em que todos se sentem confortáveis e com direito em não dar satisfação de nada. Não me refiro a uma satisfação obrigatória para o outro controlar você. E sim uma satisfação que retifique algo que a pessoa esteja fazendo que seja diametralmente oposto daquilo que ela diz almejar, que pratica...Uma satisfação que significa respeito ao outro. 

O ser humano está encastelado num labirinto que o impede de correr. Correr no campo psíquico. No campo das atitudes, dos atos, da vivência. Correr para viver mais intensamente. Correr para passar pelas experiências que inexoravelmente virão - e é melhor tê-las com alguém sincero e em busca da verdade do que pelas circunstâncias da vida. 

No entanto, a verdade é que não se pode ser sincero com alguém que não demonstra capacidade de conversar sobre questões de comportamento. A situação só tende a piorar. E assim, aquele que vê mais à fundo se vê obrigado a se comportar do mesmo modo do que aquele que não percebe as nuâncias das relações, com seus campos de comunicação, unificação e progressão. Deve-se portar tal qual o outro se comporta perante nós. Não por vingança, mas por ser a única linguagem que o outro compreende. Uma linguagem que coloca tudo às escondidas, em que deve-se assumir quem o outro é baseado em seus comportamentos. Mas o problema é que nossas visões de mundo são relativas e progressivas no tempo. Então é preciso conversar (muito). Estar disposto a escutar. A viver o próprio incômodo interior (e não fugir dele com artificialismos exteriores). Porém, tudo isso é muito difícil, e exige duas coisas: primeiro, condições de tempo, energia e mentais das pessoas envolvidas, que não devem estar se preocupando com questões terrenas; e segundo, vontade ardente em construir algo que possa abrir brecha para uma nova forma de vida - em todos os campos. Em suma: ambiente propício e vontade impetuosa e destemida. Sem esses pré-requisitos não é possível iniciar verdadeiras construções.

Fig.2: O medo limita - o desejo desorienta. Vivemos no ciclo medo-desejo, assim como nos viciamos no
carrossel satânico empregos alienantes-consumo conspícuo. Um alimenta o outro. Um reforça a necessidade
do outro. E assim aprende-se lentamente, com dor além do necessário. Por quê? Falta de consciência.
Ver à fundo é considerado perda de tempo em nossa sociedade. E assim sofre-se sem saber o porquê.

Há também o problema de interpretar uma vontade ardente em planejar com o desejo em executar imediatamente. E outro de não poder ser sério demais. No entanto é da seriedade que brotam os ambientes harmoniosos e reconfortantes. Ambientes capazes de albergar a tudo e a todos. Não uma seriedade fria e mórbida, mas uma seriedade intensa, flexível e evolutiva. E digo mais: é da seriedade que brota a sinceridade. 

Este espaço virtual não teria chegado até esse ponto se essas duas condições não estivessem presentes na vida do autor. É preciso acreditar em algo e sentir-se envolvido naquilo que se faz - já sabendo que não haverão recompensas terrenas. Por isso é importante deixar registradas todos os sentimentos e impressões, indo à raíz das questões, para cada vez mais o ciclo evolutivo se reforçar e assim expandir-se cada vez mais, num movimento em espiral de amplitude cada vez mais vasta, movimentos mais elegantes e metas mais majestosas

Vamos falar sobre essas características:

1) Amplitude crescente. Está relacionado com a capacidade de relacionar coisas à nossa volta, seja pessoas, grupos, crenças, éticas, religiões, correntes filosóficas, teorias científicas, tecnologias, movimentos e personagens históricos, afetos, expressões artísticas, linguagens. É conhecimento sobre as características das coisas e dos outros. Um saber que extrapola a racionalidade, ganhando caracteres intuitivos. 

2) Movimentos elegantes. São modos de se encaminhar as coisas. Atitudes. Abordagens. Modos de estabelecer conexões (ritmo, momento, forma, intensidade, finalidade, etapas). São dinâmicas que se retroalimentam de modo a formar sinergia. Que inspiram os outros. E assim o encorajamento faz o medo minguar e os desejos arrefecerem, aumentando as probabilidades de contatos verdadeiramente úteis.

3) Metas majestosas. São objetivos para além deste mundo. Geralmente são de longo prazo, extrapolando uma vida e estando além dos sensores dos instrumentos de reconhecimento social. São (metas) belas para alguns, mas esses alguns jamais (ou raramente) dedicam tempo de sua vida, energia, recursos, conhecimento para atingi-las. No entanto são metas que, se perseguidas com perseverança e criatividade, trazem um conforto imenso para o ser que se dedicou de corpo e alma a ela.

Apesar de metas longínquas e abstratas, - que geram comportamentos inusitados, ousados e inteligentes - já foi possível ao autor perceber as recompensas do Alto quando se vive de forma séria e sincera, numa busca incessante e destemida, reconstruindo-se aos poucos a consciência perdida. Cada grande curva da história pessoal traz uma oportunidade de demonstrarmos nossa criatividade. Essas recompensas do Alto (=salvação, milagre) já foram registradas aqui em vários textos, trazendo implícito em suas palavras orquestradas o roteiro para se conseguir sair de situações que aparentemente serão o fim do ser que segue esses princípios. Trata-se da primeira manifestação do amor incondicional. 

Vivemos num mundo de hiperconectividade que nos deixa absortos em telas. Nos sentimos tensos ao som de cliques. O celular soa e nos arrasta para um mundo de aparências. O que encontramos é uma miríade de mensagens, cada uma de um grupo ou pessoa, exigindo algo, fofocando algo, falando algo. Nada que inspire. Apenas obrigações (que afogam o espírito) e gozos (que afundam na matéria). 

Não se espera mais algo porque não se acredita mais na capacidade do ser humano em alinhar fala com vontade com ação com essência. E assim vivemos numa era de perda de fé tremenda. E para sair desse labirinto que corrói até nada sobrar, é imperativo que as pessoas decidam reagir à miséria de suas vidas, se dispondo a viver momentos fantásticos, falar de assuntos inconcebíveis, reagir de modo inovador.

Fig.3: A vida exige uma visão clara. Somente com isso os projetos serão construídos de modo eficaz. 
Somente assim teremos a perseverança necessária. Somente assim a criatividade irá  brotar incessantemente, 
como água pura sai da nascente. O fim de uma linha não é o fim da jornada. 
Fonte da imagem: [1]

Se alguém quer dar ao mundo algo que o mundo realmente necessita, não deve esperar por nada dele. Nem reconhecimento, nem paz, nem apoio, nem qualquer coisa que possa ajudar nessa super-construção. É uma empreitada que almeja metas simples (no falar) e titânicas (no viver). 

Rohden falava em três fases da evolução humana:

Primeiro se é feliz inconscientemente.
Depois se torna infeliz conscientemente.
Finalmente se transforma num feliz conscientemente.

A imensa maioria da humanidade está na primeira etapa. Isso é perceptível com muita facilidade, ao percebermos o quão evasivo é o ser humano (e suas técnicas de fuga) diante das questões que devem ser enfrentadas para resolver toda miséria no mundo - econômica, social, política, de saúde, de saberes, afetiva, mental, etc. Ser feliz ao ter tantas coisas usadas para continuar num estado de ignorância, com indiferença às questões mais sublimes e aos métodos mais eficazes.

Outros (ainda poucos) estão na infelicidade, porém plenamente conscientes das coisas do mundo. Esse número tende a crescer vertiginosamente, gerando mais instabilidade nas estruturas sistêmicas - que se desgastam por não estar à altura dos desafios do ser. Esses estão buscando alcançar o degrau de equilíbrio: uma felicidade genuína, sustentável, sem aparências. Uma felicidade que não precisa se mostrar, aparentar. Uma felicidade humana que viabiliza o dinamismo evolutivo rumo à salvação - a felicidade do Sistema, muito bem descrita por Ubaldi. 

Chegando no segundo nível sente-se tentado a retroceder para o primeiro. Pois à medida que se atravessa esse deserto de dores parece que a tendência é morrer. Não há estímulos. O ser se vê sozinho, desamparado, desolado com a falta de compreensão do próximo. Por isso a fé se torna elemento indispensável. 

É preciso se apoiar cada vez mais na qualidade - e extirpar a dependência da quantidade. Até o limite do possível. Por isso 'nada esperar do mundo'. Não por ódio, mas por missão evolutiva. Para atingir o novo continente. O novo mundo. E atingindo-o, poder trabalhar de forma imensamente melhor, agora sem as reclamações, as agruras, os atritos internos (apenas externos, que haverão até a reabsorção total do AS pelo S).

Você, que está nessa busca, te digo (se já não o sabes): não devemos incomodar os outros. Ofereçamos e expliquemos apenas o mínimo, sem buscar o pleno engajamento do outro. Esperemos que os outros venham. Não mendiguemos atenção nem oportunidades. Apenas façamos o que podemos, da melhor forma. Criemos nossos projetos, nossos cursos, nossos escritos, nossas músicas, nossas invenções, nossas poesias, nossas teorias. Vivamos nossa forma de vida. Falemos de maneira mais inspirada, mais séria, mais certeira. Esqueçamos o mundo para nos dedicarmos à sua essência (descobri-la). 

Isso não é apenas importante: é essencial.

Nosso desgaste deve ser pelo ideal - e não pela compreensão dos outros. É quem está mais perdido quem deve fazer o esforço para sair do labirinto da perdição. Quem vê mais e está fazendo (substancialmente) diferente só pode falar um pouco. É de fato um farol na rocha sólida que emite seus raios luminosos para o oceano repleto de embarcações. Navios, barcos e botes sem timoneiro. Muitos se digladiando por misérias...

Se soubessem o quão próximos estão da terra firme...