terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Sustentabilidade - parte 1

Temos pouco tempo (disponível) para pensar. Ou melhor, dadas as obrigações impostas (muitas delas sem real utilidade), nos é muito laborioso observar o que acontece à nossa volta. Não paramos diante de certas máximas proferidas a todo momento - pela mídia, pela sociedade, nas famílias - para ver se elas estão de fato corretas. Isto é, não identificamos erros conceituais, na base, de muitas afirmações que são divulgadas sem medo a todo momento. Uma dessas afirmações envolve a questão da energia, de nosso ambiente (geosfera, biosfera e noosfera) e, consequentemente, da sustentabilidade.

Fig.1: Para fazer o correto, é preciso pensar corretamente. Para pensar corretamente, é preciso ver à fundo. 
Para ver à fundo, é preciso fazer o que não se faz. Para fazer o que não se faz, é preciso ousadia inteligente.

Paremos para analisar a situação: 

Mais de 85% de toda (eu disse toda) energia consumida pela humanidade provêm de fontes fósseis (não-renováveis). Carvão mineral, gás natural e petróleo representam praticamente a totalidade desse grupo. Eletricidade representa 25% de toda energia consumida. E desse um quarto (25%), apenas uma pequena porção é produzida por fontes renováveis. Além disso, essas fontes (e aparatos e sistemas) renováveis - turbinas eólicas, painéis solares, concentradores solares, energia das marés e hidroelétricas - dependem direta ou indiretamente dos combustíveis fósseis. Pense na extração, no transporte, no processamento, nas etapas de produção, na manutenção, no descarte...E além disso, há o uso de materiais diversos - alguns deles eletrointensivos, como o alumínio. Cobre, níquel, cobalto, metais raros. Pode checar essas informações aqui [1].

Agora você pode ter uma visão um pouco mais real da situação energética da humanidade. E qualquer um que preste atenção perceberá que todo o nosso conforto que nos permite elaborar criações interessantes depende de energia. E a nossa matriz (energética) está configurada conforme o que foi descrito anteriormente. 

Então, podemos já fazer algumas afirmações, e relacioná-las:

1ª) Necessitamos de energia para nossas criações (importantes e sofisticadas);

2ª) Nossa matriz energética se baseia quase inteiramente em combustíveis fósseis;

3ª) Os recursos fósseis são finitos e devem começar a diminuir em algum ponto desse século;

4ª) O nosso paradigma econômico se baseia no crescimento infinito;

5ª) O crescimento econômico está vinculado à demografia, à cultura e aos recursos materiais e energéticos do planeta, que são finitos;

6ª) As atividades humanas vem causando um abalo profundo em toda geosfera e biosfera, que pode comprometer o próprio desenvolvimento da humanidade.

Não podemos negar nenhuma dessas afirmações.

Vamos relacionar as coisas:

De uma necessidade nobre (1) precisamos de algo para sustentá-la (2). Mas esse algo (2) tem um problema real e já apontado por muitos estudiosos (3) , que tornará esse algo (2) inexistente. Logo, (1) também não poderá se dar. E assim, nossa existência não tem sentido - pois seríamos uma humanidade que não evolui, sem criações novas e dinamismo transformador. 

Devemos então olhar para a estrutura do nosso sistema econômico, que está alicerçado numa lógica - que podemos chamar de paradigma - que diz que devemos sempre obter mais lucro. Crescimento econômico. E a questão é que mesmo os bens e serviços intangíveis estão ancorados no substrato material e energético de nosso planeta. Depende das formas de vida. 

Todo mundo se alimenta. Todos temos corpos físicos (e muitos outros, mas fiquemos só naquele que as pessoas admitem) que necessitam de condições climáticas razoáveis para serem produtivos (expressar o espírito na finalidade mais consciente). E serem transportados (meios de locomoção) e expelirem dejetos (saneamento) e serem tratados (saúde) e se protegerem dos elementos (moradia) e serem instruídos para atuarem de acordo com seus anseios (educação), entre outras coisas importantes. Já deu para perceber que tudo isso depende de energia.

A humanidade evoluiu muito em termos de conhecimentos e bem-estar porque a esfera social (política e economia) se alinhou ao progresso tecnológico. Mas esse crescimento foi exterior, orientado para coisas e serviços. E para prazeres e alívio (desnecessário) de dores. Nos tornamos frágeis em certo sentido, pois não lidamos com os menores incômodos e consequentemente não expandimos os nossos limites.

É preciso então mexer no item (4). Ou seja, organizar a sociedade de tal modo a obter uma nova relação entre nossa espécie e os recursos do planeta. Isso pode ser feito adotando uma mentalidade mais sistêmica. Mas não apenas: é imperativo mudar a cultura para que isso ocorra. Ou seja, o modo de concebermos a vida. Sua finalidade. Sua essência. Sua dinâmica. Então devemos trabalhar muito bem a relação entre o paradigma atual (4) e a realidade (5). É preciso alterar esse paradigma. Isto é, superação.

Superar algo não é retornar ao passado de paisagens bucólicas ou extrapolar a tendência tecnológica hodierna. É criar algo inteiramente novo, baseado numa releitura madura dos valores do passado e das potencialidades do presente. É mais uma questão de mudar a forma mental do que inovar. É uma questão de deixar morrer coisas inúteis que vemos como vitais. É uma questão de redefinir o trabalho - e com isso o propósito da vida humana.

Observando hoje, nossa finalidade parece ser acabar com as condições que nos permitiram chegar até aqui (aos trancos e barrancos), o que nos leva à afirmação (6). Mas uma pessoa há de admitir que essa não deve ser a nossa finalidade como espécie - mesmo que nosso maior efeito até o momento tenha sido esse. Precisamos ser sustentáveis para sobreviver e, sobretudo, cumprir nosso papel na fenomenologia universal.

Fig.2: Uma forma de vida mais concentrada, mais contemplativa, mais orientada, mais intensa,
menos barulhenta. Menos movimentada exteriormente e mais movimentada interiormente.
Foto de: Vadim Fomenok on Unsplash.

Qual é esse papel? Evoluir.

O que é evoluir? 

É criar novas combinações de palavras que expressem da melhor forma ideias plantadas há milênios;

É ver que o que realmente importa é o essencial - e isso pode simplificar em muita nosso quotidiano;

É criar coisas (cursos, melodias, livros, teorias, aparatos, etc.) visando libertar o ser das amarras;

É sentir mais profundamente aquilo que parece sem importância (por brotar à nossa frente a todo momento);

É ousar em novas formas de agir, mesmo que sozinho à princípio;

É se disciplinar em atividades que lhe dê um retorno na forma de maior paz interior;

É viver de acordo com sua consciência, apesar de todas críticas da sociedade.

Devemos orientar nosso paradigma tendo por meta essas finalidades. Finalidades estas que podem adquirir as mais diversas características. Depende da pessoa. Há vários modos de evoluir em termos pessoais - porém apenas há um caminho em termo substancial. Esse caminho único é despertar cada vez mais sua individualidade indivisa, infinita e eterna (espírito), filha do Absoluto. E assim manifestar esse aspecto divino através de sua personalidade única. 

Vamos voltar à questão energética.

Temos a reciclagem, que alguns podem ver como a prancha de salvação. De fato, se trata de algo voltado ao reuso de material usado. Isso é bom, sem dúvida. No entanto, executar essa atividade requer uma quantidade fenomenal de trabalho (no sentido social) e energia. Então perceba, meu amigo, que a reciclagem é mais um paliativo do que uma solução. Ela não sai da malha do balanço geral - cujos resultados indicam uma mudança abrupta ainda nesse século, com implicações profundas para a vida humana. E o próprio processo de reciclagem possui resíduos. Nesse caso poderíamos pensar em reciclar os produtos da reciclagem: mais energia e trabalho despendidos. Será que a partir de um ponto compensa?

Meu amigo, esses problemas não são abstrações da mente de um ambientalista - e sim uma realidade substancial dos processos e necessidades humanas, dos fenômenos do universo e de profundas questões filosóficas que ditam o nosso rumo. 

A importância que dou ao pensamento sistêmico é porque ele foca num aspecto crítico de nossos dias: a complexidade. Essa complexidade tem muito mais a ver com interconexões, interdependências, do que com elementos. Observemos que a obtenção de um recurso fóssil (carvão) depende de outro (petróleo). E muitos dados difundidos mascaram a qualidade do recurso - isto é, a parte que é realmente útil para realizarmos nossas atividades...todas elas.

Fig. 3: Demanda e produção projetada de cobre, lítio e cobalto na década de 2020.
Fonte: IEA.

O casamento das necessidades da civilização com os dados mais atuais indicam claramente: não há saída dentro do paradigma atual. É preciso superá-lo. 

O gráfico da Fig.3 revela a tendência demanda x produção de três metais vitais para o sistema produtivo nessa década. O que se vê é um descolamento entre o volume de produção (área azul escura, em produção, e azul clara, projetada para produzir) e a demanda do minério (linha vermelha). Em algum momento de 2024 não será possível satisfazer a demanda crescente - especialmente de lítio e cobalto. Lembremos que esses dois desses materiais são imprescindíveis para a indústria de eletrônicos. Para a transmissão de energia, o cobre. 

Fig. 4: Consumo primário de energia (1800 a 2020).
Fonte: [2]

Para finalizar essa primeira parte, vejamos o gráfico acima (Fig.4). Ele nos diz que a humanidade não alterou substancialmente o consumo de energia via biomassa (ex.: lenha ou carvão vegetal). Mas desde a consolidação da Revolução Industrial no início do séc. XIX, a humanidade começou a extrair recursos não-vivos e não-renováveis do planeta, iniciando-se pelo carvão - associado às máquinas a vapor. Depois (início do séc. XX) veio o petróleo, base dos motores ciclo Otto e Diesel, que também alimentam as termelétricas, gerando energia elétrica, uma forma de energia nova e em expansão há cem anos. O gás natural acompanha, sendo de vasta aplicação residencial e industrial - em particular força motriz, geração de calor, cocção de alimentos e eletricidade. Visualize a figura para o ano de 2019 (pré-pandemia): cerca de 85% de toda energia necessária à humanidade depende dessas três fontes. O resto representa muito pouco. Inclusive, para seu crescimento, depende dessa imensa base não-renovável, como ressaltado anteriormente.

Estamos num impasse: para construir uma base renovável e entrar em regime novo, é preciso usar a base não-renovável (que está minguando a passos rápidos). Esse movimento deveria ter iniciado muito antes (muito antes mesmo). Mas apenas uma coletividade com visão de longo prazo - que exige uma cultura difundida de filosofar, escutar, debater e até mesmo contemplar - seria capaz de fazer isso. A nossa espécie está percebendo o que deveria ter sido feito um pouco em cima da hora. Na verdade, tarde demais. 

E agora? É o fim? 

Sim e não. É o fim do que conhecemos como um modo de vida centrado no crescimento ilimitado, no consumo conspícuo, no trabalho alienado e na superficialidade.

Vivemos um período de transição que inevitavelmente chegaria, cedo ou tarde, dadas as circunstâncias fenomenológicas e as metas estabelecidas e persistidas. De uma forma suave (ideal) ou dolorosa (realidade). 

Nossa jornada até aqui foi cheia de contradições. Avanços exteriores barulhentos e fantásticos, sem no entanto a sustentação de grandes visões que brotam do íntimo.

Um conhecimento perdido que deve ser redescoberto, adaptado aos nossos tempos e trabalhado continuamente. Uma filtragem e combinação de elementos do passado e presente, de culturas, de saberes, de histórias, de técnicas, de visões de mundo e de filosofias de vida, que darão o futuro que afirma a missão evolutiva da humanidade - e assim entraremos em ressonância com o Universo, evoluindo em fase com este, caminhando a passos largos rumo ao Reino de Deus, além do espaço, do tempo e do relativo.

Na próxima parte veremos o que poderá ser feito.

Até lá.

Referências:

B. True sustainability - part 1. Link: <https://thehonestsorcerer.medium.com/true-sustainability-part-1-36313910251c>

sábado, 15 de janeiro de 2022

O combustível espiritual

Para quem está em busca, é preciso saber: qual é o seu combustível espiritual? Aquilo que alimenta seu motor criativo. Aquilo que inspira, lhe dá impulso, dá sentido à sua busca, anima sua longa e árdua jornada. Quem está nessa busca infinita - num mundo finito - precisa saber isso porque apenas sendo alimentado continuamente é que se poderá persistir na jornada - e conquistar coisas incríveis. 

Fig.1: O combustível não precisa ser algo muito suntuoso. Aliás, pode e deve ser algo
simples, ao alcance de qualquer um. Simples, não simplório. Algo singelo, isto é, especial.

O autor viveu muitos dramas. Dramas interiores mais do que exteriores. Estes pouco abalam sua pessoa, pois são coisas às quais ele é pouco sensível. Mas aqueles muito o abalam, por serem algo de importância capital em seu sistema de valores. Assim sente-se a inversão de prioridades entre o indivíduo e o mundo: enquanto este deseja o imediato, o sensório, o escapismo ágil, os artificialismos, o gozo imediato, o primeiro busca viver em sintonia com algo muito diferente. Vibra pelos pensamentos abstratos - que vê como causa e diretriz das concretudes dos efeitos; sente o âmago das melodias, das cenas afetivas de personagens históricos ímpares lançados no turbilhão dos interesses dos poderes, dos dramas de quem se vê preso numa forma mental; se entrega de corpo e alma àquilo que ama - como uma mulher que é capaz de amar integralmente um homem, com todas fibras de seu ser. É um ser diferenciado e por isso as circunstâncias exigem uma certa camuflagem e uma alimentação diferenciada. Alimentação espiritual. Via arte, via escritos, via contatos (mínimos, claro), via música, via atividades que pode criar livremente, via tranquilidade junto à natureza, via contemplação.

Quanto mais altas as metas, quanto mais intenso o dinamismo, quanto mais amplos os planos de unificação, maior a necessidade de uma fonte perene. Para acessá-la, é preciso ter a sensibilidade necessária - pré-requisito para a alimentação. 

“Quem não quer trabalhar também não coma. Ora, temos ouvido falar que, entre vós, há alguns vivendo desordenadamente, sem fazer nada, mas intrometendo-se em tudo. A essas pessoas ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo que trabalhem tranquilamente e, assim, comam o seu próprio pão.”

2 Ts 3, 10-12

O que é trabalhar? Sempre foi uma curiosidade do autor. Porque de fato não merece ter o alimento quem não trabalha. Mas aqui estamos falando não de bens terrenos ou direitos, mas de um acesso à fonte que permite ao ser realizar milagres. 

Vamos explicar melhor.

Trabalhar é fazer algo que transmita aspectos do infinito em nosso finito. É dar a sensação do eterno (conceitualmente inclusive) às pessoas, usando do restrito tempo que nos é dado numa existência terrena. É executar suas atividades com um senso de infinito e eterno. Ou melhor, com um sentido. É preciso que a vida de uma pessoa tenha um significado profundo. Um significado mais de missão do que de expiação ou prova. Um significado desse tipo, porque nesse caso poderá ser acessada uma fonte que lhe alimenta sempre, da melhor forma, sem que o mundo tenha a mínima noção do fenômeno que está ocorrendo a todo momento. Para acessá-la, maturação interior que leva à sensibilização do ser. O ser passa a ver milagres em tudo - e com isso começa a realizar coisas que antes não saberia como fazer. Passa a ter ânimo sem igual, ímpeto criativo anormal, resiliência formidável. 

Fig.2: Um livro que ajuda na busca pela inspiração que realiza feitos incríveis. Que ajuda o
ser a se equilibrar - e com isso viver na paz e em paz. 

Paulo de Tarso falava sobre coisas profundas. Seus escritos não devem ser levados ao pé da letra. É preciso fazer uma leitura espiritual de cada trecho, pois cada pensamento transcrito em papel traz em seu bojo um conceito que aponta para um princípio de nosso Universo. Um aspecto da Lei. E assim temos uma obra escrita que contém em si os segredos da vida. 

As Escrituras Sagradas devem servir de alimento aos cientistas criativos e trabalhadores de nossos dias - se desejam fazer a ciência avançar. Devem servir de guia aos filósofos munidos de cultura - se  desejam conquistar a sabedoria que tanto amam. Devem ser ponto comum entre as religiões - se elas desejam chegar à Deus. 

Alimento. Guia. Ponto comum.

Combustível. Bússola. Missão.

Fonte. Orientação. Salvação.

"Para quê tudo isso?", pergunta o tipo médio de nosso mundo. Esse blog é inacessível para ele. Está proibido de adentrar em seus textos, conceitos, sistematizações, referências, princípios, sensações, harmonias e buscas. Não por lhe ser negado - mas porque a criatura não atingiu o grau de maturação evolutiva para perceber a grandeza do que lhe é apresentado. 

Atravessamos uma ponte comprida e frágil. Uma ponte que vacila ao menor vento. Uma ponte frágil, porém vital para quem já não vê sentido em permanecer gozando de um lado - quer atingir o outro lado. Uma ponte longa, frágil e estreita. Construída com a fé. Sustentada pela fé. Atravessada pela fé.

Fig.3: A ponte se sustenta pela fé. Fé é sintonizar-se com a fonte. O caminhar depende 
da capacidade de alimentar-se com o combustível espiritual. 
Fonte da imagem: Unsplash.

Estamos nos antípodas do mundo.

O autor, por ter de viver muito com as coisas do mundo, se vê munido de palavras e vontade para expressar da melhor maneira esse sentimento profundo que paira sobre criaturas que começam a enxergar qual é a verdadeira questão de tudo. 

Escreve-se por uma questão de sobrevivência.

Cria-se cursos por uma questão de sobrevivência.

Ministra-se palestras por uma questão de sobrevivência.

Assiste-se a filmes e séries para extrair o aspecto substancial da vida e sentir as forças da história.

Escuta-se música para sofrer e se alegrar com aquele que a criou.

Fazem-se leituras para crescer na compreensão das coisas.

Ousa-se criativamente para adquirir resiliência e experiência.

Trabalha-se apenas como meio de expressar o ideal.

Não há saída a não ser buscar transcender. Num ponto de nossa jornada, o ar será rarefeito. Será impossível continuar sem uma sustentação extrafísica, ou seja, uma fonte sobre-humana. O autor encontra-se nesse ponto e por isso deve investir pesadamente na contemplação

É preciso se desprender de tudo que não é necessário, útil, construtivo. Para que o voo seja ágil e a propulsão poderosa. Poderosa o suficiente para vencer as amarras do campo gravitacional do atual nível evolutivo, que deseja tudo arrastar e atrair para si - a seu favor. Se trata em último caso de se tornar imune a esse campo (de interesses), para assim poder trabalhar em (relativa) paz.

Nova fase virá. Porque a vida, para ter sentido, deve ter uma utilidade profunda. 

Abaixo um dos meus combustíveis espirituais na forma musical.

Ludovico Einaudi - Luminous (live)
Link: [1]

Non aspettare niente - per fare tutto

Os maiores ensinamentos são belos e poderosos. Parecem trazer em seu bojo a solução de todos problemas da existência. Sintetizam de forma magistral o que deve ser feito para que possamos nos libertar deste mundo, e assim vivermos uma vida de criação e suavidade, sem medos nem desejos. No entanto, praticar esses ensinamentos é extremamente difícil: requer uma disciplina fora do comum, uma real e uma perseverança contínua.

Disciplina porque demanda regularidade. Uma atitude que não se abala, não se deixa influenciar pelas circunstâncias. Fé porque se trata de sintonizar com algo além deste mundo (transcendência), que não pode ser visto, ouvido, tocado nem pode lhe auxiliar diretamente nos momentos mais dolorosos. E perseverança porque por muito tempo os resultados não serão percebidos (interiormente). Ou seja, é um projeto de longo prazo - como todas grandes empreitadas.

Fig.1: Não espere que venham até você, nem que vejam o que você vê, nem que se abram como você.
Quando se vê (de)mais, o ritmo é intenso e a criatividade ferve. Não há saída: deve-se criar o novo universo sozinho.
Árduo trabalho daqueles que se propõem se superar. 

Viver é sofrer para quem almeja ascender. Quanto maior o ímpeto, maior a criatividade. Maior é a vontade de unificar. Maior é o esforço por alinhar grandes planos. Viver num intercâmbio de ideias, sentimentos, sistematizações, experimentações, buscas e esforços. É tensão que eleva - pois os seres em tal sintonia sabem transformá-la em conceitos novos, formas de vida, atitudes potentes. 

Para passarmos para um próximo plano é essencial que vivamos até a exaustão o plano em que estamos. Isso significa esgotar todas as possibilidades; tentar todas alternativas; refletir sobre todos os atos; compreender as limitações comunicativas do próximo; sentir no âmago as ilusões. Porque é preciso viver a dor para assimilar os caminhos errados, limpando terreno para que reste apenas a visão do caminho certo - para mim, para você, para cada um. E assim, realizando uma purificação via experiências, nos tornamos seres mais ágeis e sagazes, com movimentos mais cirúrgicos, alcançando nossos objetivos com menos esforço. 

A relação entre seres evolutivamente próximos é bidirecional. São trocas diferentes na forma e quantidades, porém equilibradas - isto é, iguais - em sua substância. Um busca o outro (e vice-versa). Um é claro com o outro (e vice-versa). Um diz exatamente o que pensa para o outro (e vice-versa). Ambos se propõem a viver juntos o ideal. Isso não significa construções concretas dispendiosas, mas geração de uma relação de inclusão e integração. A todo momento o cuidado. Aprender a dinâmica do outro. Conversar abertamente para esclarecer. Porém, a vontade deve partir de ambos.

Há momentos em que parece que estamos falando sozinhos. Enviamos ideias e não recebemos nenhuma resposta - nem sequer uma explicação de não haver essa reação. Pegamos uma ideia de alguém, trabalhamos ela, e mostramos outro aspecto - porém o outro não incorpora essa outra dimensão. Recebemos o sinal de que podemos contar com o outro para dividir ideias, evoluir conceitos, descobrir a natureza humana, mas na prática sente-se um distanciamento. E quando há um encontro, parece que nada ocorreu e quem deve se adaptar é aquele que está levando a sério a fala do outro. 

Vivemos numa era em que todos se sentem confortáveis e com direito em não dar satisfação de nada. Não me refiro a uma satisfação obrigatória para o outro controlar você. E sim uma satisfação que retifique algo que a pessoa esteja fazendo que seja diametralmente oposto daquilo que ela diz almejar, que pratica...Uma satisfação que significa respeito ao outro. 

O ser humano está encastelado num labirinto que o impede de correr. Correr no campo psíquico. No campo das atitudes, dos atos, da vivência. Correr para viver mais intensamente. Correr para passar pelas experiências que inexoravelmente virão - e é melhor tê-las com alguém sincero e em busca da verdade do que pelas circunstâncias da vida. 

No entanto, a verdade é que não se pode ser sincero com alguém que não demonstra capacidade de conversar sobre questões de comportamento. A situação só tende a piorar. E assim, aquele que vê mais à fundo se vê obrigado a se comportar do mesmo modo do que aquele que não percebe as nuâncias das relações, com seus campos de comunicação, unificação e progressão. Deve-se portar tal qual o outro se comporta perante nós. Não por vingança, mas por ser a única linguagem que o outro compreende. Uma linguagem que coloca tudo às escondidas, em que deve-se assumir quem o outro é baseado em seus comportamentos. Mas o problema é que nossas visões de mundo são relativas e progressivas no tempo. Então é preciso conversar (muito). Estar disposto a escutar. A viver o próprio incômodo interior (e não fugir dele com artificialismos exteriores). Porém, tudo isso é muito difícil, e exige duas coisas: primeiro, condições de tempo, energia e mentais das pessoas envolvidas, que não devem estar se preocupando com questões terrenas; e segundo, vontade ardente em construir algo que possa abrir brecha para uma nova forma de vida - em todos os campos. Em suma: ambiente propício e vontade impetuosa e destemida. Sem esses pré-requisitos não é possível iniciar verdadeiras construções.

Fig.2: O medo limita - o desejo desorienta. Vivemos no ciclo medo-desejo, assim como nos viciamos no
carrossel satânico empregos alienantes-consumo conspícuo. Um alimenta o outro. Um reforça a necessidade
do outro. E assim aprende-se lentamente, com dor além do necessário. Por quê? Falta de consciência.
Ver à fundo é considerado perda de tempo em nossa sociedade. E assim sofre-se sem saber o porquê.

Há também o problema de interpretar uma vontade ardente em planejar com o desejo em executar imediatamente. E outro de não poder ser sério demais. No entanto é da seriedade que brotam os ambientes harmoniosos e reconfortantes. Ambientes capazes de albergar a tudo e a todos. Não uma seriedade fria e mórbida, mas uma seriedade intensa, flexível e evolutiva. E digo mais: é da seriedade que brota a sinceridade. 

Este espaço virtual não teria chegado até esse ponto se essas duas condições não estivessem presentes na vida do autor. É preciso acreditar em algo e sentir-se envolvido naquilo que se faz - já sabendo que não haverão recompensas terrenas. Por isso é importante deixar registradas todos os sentimentos e impressões, indo à raíz das questões, para cada vez mais o ciclo evolutivo se reforçar e assim expandir-se cada vez mais, num movimento em espiral de amplitude cada vez mais vasta, movimentos mais elegantes e metas mais majestosas

Vamos falar sobre essas características:

1) Amplitude crescente. Está relacionado com a capacidade de relacionar coisas à nossa volta, seja pessoas, grupos, crenças, éticas, religiões, correntes filosóficas, teorias científicas, tecnologias, movimentos e personagens históricos, afetos, expressões artísticas, linguagens. É conhecimento sobre as características das coisas e dos outros. Um saber que extrapola a racionalidade, ganhando caracteres intuitivos. 

2) Movimentos elegantes. São modos de se encaminhar as coisas. Atitudes. Abordagens. Modos de estabelecer conexões (ritmo, momento, forma, intensidade, finalidade, etapas). São dinâmicas que se retroalimentam de modo a formar sinergia. Que inspiram os outros. E assim o encorajamento faz o medo minguar e os desejos arrefecerem, aumentando as probabilidades de contatos verdadeiramente úteis.

3) Metas majestosas. São objetivos para além deste mundo. Geralmente são de longo prazo, extrapolando uma vida e estando além dos sensores dos instrumentos de reconhecimento social. São (metas) belas para alguns, mas esses alguns jamais (ou raramente) dedicam tempo de sua vida, energia, recursos, conhecimento para atingi-las. No entanto são metas que, se perseguidas com perseverança e criatividade, trazem um conforto imenso para o ser que se dedicou de corpo e alma a ela.

Apesar de metas longínquas e abstratas, - que geram comportamentos inusitados, ousados e inteligentes - já foi possível ao autor perceber as recompensas do Alto quando se vive de forma séria e sincera, numa busca incessante e destemida, reconstruindo-se aos poucos a consciência perdida. Cada grande curva da história pessoal traz uma oportunidade de demonstrarmos nossa criatividade. Essas recompensas do Alto (=salvação, milagre) já foram registradas aqui em vários textos, trazendo implícito em suas palavras orquestradas o roteiro para se conseguir sair de situações que aparentemente serão o fim do ser que segue esses princípios. Trata-se da primeira manifestação do amor incondicional. 

Vivemos num mundo de hiperconectividade que nos deixa absortos em telas. Nos sentimos tensos ao som de cliques. O celular soa e nos arrasta para um mundo de aparências. O que encontramos é uma miríade de mensagens, cada uma de um grupo ou pessoa, exigindo algo, fofocando algo, falando algo. Nada que inspire. Apenas obrigações (que afogam o espírito) e gozos (que afundam na matéria). 

Não se espera mais algo porque não se acredita mais na capacidade do ser humano em alinhar fala com vontade com ação com essência. E assim vivemos numa era de perda de fé tremenda. E para sair desse labirinto que corrói até nada sobrar, é imperativo que as pessoas decidam reagir à miséria de suas vidas, se dispondo a viver momentos fantásticos, falar de assuntos inconcebíveis, reagir de modo inovador.

Fig.3: A vida exige uma visão clara. Somente com isso os projetos serão construídos de modo eficaz. 
Somente assim teremos a perseverança necessária. Somente assim a criatividade irá  brotar incessantemente, 
como água pura sai da nascente. O fim de uma linha não é o fim da jornada. 
Fonte da imagem: [1]

Se alguém quer dar ao mundo algo que o mundo realmente necessita, não deve esperar por nada dele. Nem reconhecimento, nem paz, nem apoio, nem qualquer coisa que possa ajudar nessa super-construção. É uma empreitada que almeja metas simples (no falar) e titânicas (no viver). 

Rohden falava em três fases da evolução humana:

Primeiro se é feliz inconscientemente.
Depois se torna infeliz conscientemente.
Finalmente se transforma num feliz conscientemente.

A imensa maioria da humanidade está na primeira etapa. Isso é perceptível com muita facilidade, ao percebermos o quão evasivo é o ser humano (e suas técnicas de fuga) diante das questões que devem ser enfrentadas para resolver toda miséria no mundo - econômica, social, política, de saúde, de saberes, afetiva, mental, etc. Ser feliz ao ter tantas coisas usadas para continuar num estado de ignorância, com indiferença às questões mais sublimes e aos métodos mais eficazes.

Outros (ainda poucos) estão na infelicidade, porém plenamente conscientes das coisas do mundo. Esse número tende a crescer vertiginosamente, gerando mais instabilidade nas estruturas sistêmicas - que se desgastam por não estar à altura dos desafios do ser. Esses estão buscando alcançar o degrau de equilíbrio: uma felicidade genuína, sustentável, sem aparências. Uma felicidade que não precisa se mostrar, aparentar. Uma felicidade humana que viabiliza o dinamismo evolutivo rumo à salvação - a felicidade do Sistema, muito bem descrita por Ubaldi. 

Chegando no segundo nível sente-se tentado a retroceder para o primeiro. Pois à medida que se atravessa esse deserto de dores parece que a tendência é morrer. Não há estímulos. O ser se vê sozinho, desamparado, desolado com a falta de compreensão do próximo. Por isso a fé se torna elemento indispensável. 

É preciso se apoiar cada vez mais na qualidade - e extirpar a dependência da quantidade. Até o limite do possível. Por isso 'nada esperar do mundo'. Não por ódio, mas por missão evolutiva. Para atingir o novo continente. O novo mundo. E atingindo-o, poder trabalhar de forma imensamente melhor, agora sem as reclamações, as agruras, os atritos internos (apenas externos, que haverão até a reabsorção total do AS pelo S).

Você, que está nessa busca, te digo (se já não o sabes): não devemos incomodar os outros. Ofereçamos e expliquemos apenas o mínimo, sem buscar o pleno engajamento do outro. Esperemos que os outros venham. Não mendiguemos atenção nem oportunidades. Apenas façamos o que podemos, da melhor forma. Criemos nossos projetos, nossos cursos, nossos escritos, nossas músicas, nossas invenções, nossas poesias, nossas teorias. Vivamos nossa forma de vida. Falemos de maneira mais inspirada, mais séria, mais certeira. Esqueçamos o mundo para nos dedicarmos à sua essência (descobri-la). 

Isso não é apenas importante: é essencial.

Nosso desgaste deve ser pelo ideal - e não pela compreensão dos outros. É quem está mais perdido quem deve fazer o esforço para sair do labirinto da perdição. Quem vê mais e está fazendo (substancialmente) diferente só pode falar um pouco. É de fato um farol na rocha sólida que emite seus raios luminosos para o oceano repleto de embarcações. Navios, barcos e botes sem timoneiro. Muitos se digladiando por misérias...

Se soubessem o quão próximos estão da terra firme...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Auto-Realização

Realizar-se é tornar-se de forma manifesta o que somos em essência. Ninguém pode realizar algo externo, seja sujeito ou objeto - apenas pode realizar a si mesmo. Porque a porta da sabedoria e da salvação é algo que se abre de dentro para fora - e não de fora para dentro.

Antes de chegarmos à auto-realização devemos atingir o auto-conhecimento. Ou seja, conhecermos a nós mesmos. "Conhece-te a ti mesmo" é a frase que está na entrada do Oráculo de Delfos. Ela sintetiza o roteiro para atingirmos a salvação - um tópico muito explorado pelas religiões monoteístas. De modo que cada civilização, cada corrente de pensamento, cada ideia, cada coisa desenvolvida por nós, humanos, faz parte de um grande quadro cósmico que revela a Verdade. Para chegarmos a ela (Verdade) precisamos antes juntar todas as peças. Não apenas isso, mas também encaixá-las da forma correta.

Fig.1: Para nos salvarmos, precisamos conhecer nossa natureza superior.
Porque é nela que está registrado o infinito que somos.

Se tornar consciente da própria ignorância é causa primordial para ascender. É saber que não atingimos o ponto ômega (perfeição) e consequentemente nos movermos em direção a ela. Porque se nossa mente estiver convicta de que estamos já na perfeição, - ou seja, tudo que sou e faço é o melhor que posso ser e fazer, em todas vertentes da vida - então não há motivo para buscarmos algo diferente. Sem desafios, sem esforços, sem pesquisas ou buscas ou estudos ou ousadias. Uma vida que apenas desliza na horizontalidade das distrações e obrigações vazias. Uma vida sem Vida. Uma vida orgânica apenas. Estacionada, estática em termos psíquicos. Uma vida que segue apenas a lei da fome e da reprodução.

Medo e desejo determinam a forma de relacionamento que temos com as coisas e seres. Quando predomina o medo, existem limitações que forçam a pessoa a investir pesadamente em determinadas habilidades, fortalecendo laços específicos. A base é a segurança. Isto é, estar imune a eventuais críticas, ataques, eventos inesperados. Isso tudo se baseia numa visão de mundo, em que a meta é estar em segurança. Parecer mais do que ser. 

Por outro lado, quando predomina o desejo, há menos amarras. A liberdade desponta e conseguimos ir além de certos pontos. A busca é menos tensa. No entanto, ainda persiste a ansiedade que traz nervosismo ao não conseguirmos aquilo que desejamos. Mas pelo menos nesse ponto a escolha é (relativamente) livre: escolho investir em algo que me parece com sentido, agradável. A segurança é secundária - a aquisição e o gozo são o fundamental.

Dentro dessa dualidade medo-desejo existe um terceiro modo de agir, que é doar a si mesmo. 

"There is a third emotion that is beyond both fear and desire — a need for giving, to give or share with fellow humans, animals and nature. If this sense of giving predominates, then the purpose becomes defined around charity, philanthropy, activism, religious evangelism etc. This transcends both the fear based need of security and the desire based need of acquisitiveness and thus unleashes even greater energy and drive"

Fonte: [1] (grifos meus)

"Existe uma terceira emoção que está além do medo e do desejo - a necessidade de se doar, de dar e receber com os companheiros humanos, com os animais, com a natureza. Se essa perspectiva predomina, então o propósito se define em torno da caridade, filantropia, religiosidade, etc. Isso transcende tanto o medo baseado na necessidade de segurança quanto o desejo baseado na necessidade de aquisições e portanto libera ainda maior energia e orientação."

Tradução minha (grifos meus)

Quando nos doamos a algo estamos sintonizados com uma forma mental mais elevada. Essa doação é de qualquer coisa mensurável (quantidades) nesse universo: dinheiro, tempo, energia, conhecimentos, etc. Nesse ponto podemos dizer que nos conhecemos melhor. Porque a nossa natureza está enraizada nas profundidades imateriais e eternas de nosso ser, e o que deve evoluir antes de mais nada é o espírito (consciência), e não as formas. Estas irão se transformar como consequência.

Os três modos de perceber o mundo se relacionam com as gunas.

"This provides the framework for how most of us perceive our purpose of life to be. These three needs of fear, desire and giving that drive how we perceive our purpose represent the fundamental three modes of the mind respectively — inertia, excitement and goodness (tamasrajas and sattva in Sanskrit)."

Fonte: [1] (grifos meus)

"Isso fornece a base da qual a maior parte de nós percebemos o propósito da vida. Essas três necessidades de medo, desejo e doação que dirigem o modo com percebemos nosso propósito representam os três modos fundamentais da mente, respectivamente - inércia, excitação e bondade (tamas, rajas e sattva, em sânscrito)."

Tradução minha (grifos meus)

Inércia está para a segurança - reter, estabilizar-se na forma mental, controlar e desconfiar.

Excitação está para desejo - agredir, violar, tramar, mover-se para conquistar, gozar.

Bondade está para conexão - aprender, ensinar, criar.

Mas dizem os ensinamentos que até mesmo o modo bondade deve ser superado para atingirmos a libertação (a salvação, o nirvana). Porque as gunas são coisas do mundo (do AS). Não fazem parte da verdadeira natureza do espírito. A bondade é apenas a mais alta manifestação de algo indescritível nesse universo decaído. Mas do ponto em que nos situamos, é claro que devemos antes focar em transformar segurança em desejo, desejo em bondade. E nos conhecendo, isso se torna mais fácil.

A auto-realização tem a ver com superarmos o medo que nos encastela em nossa mente para nos tornarmos seguros de nós mesmos e ousados. E daí, usarmos esse dinamismo agressivo para ascendermos para uma visão mais vasta do mundo. Dilatar nossa ambição, buscando a maior conquista de todas, espiritual - ao invés de lutarmos por coisas terrenas como dinheiro, posses, títulos, publicações, fama, socialização, gozos e etc.

É uma questão de libertação - no sentido mais amplo.

Referências:

NATARAJAN, Suresh. What is the purpose of life? Transcending the psychological needs. 08 Out., 2021. Disponível em: < https://sureshn13.medium.com/what-is-the-purpose-of-life-7b9379116d40>

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Nem falar, nem agir: é preciso ser

Falar é, no máximo, dizer coisas profundas, com sinceridade e elegância.

Agir é, no máximo, fazer coisas significativas, com esforço e cansaço.

Tudo isso é bom, muito bom. No entanto, são ações que não se sustentam ao longo do tempo. Elas tendem a se enfraquecer à medida que são executadas. Elas não vêm carregadas de substância. São portanto degradáveis à medida que são feitas. Devem ser sustentadas por algo externo, artificial ao universo interior, do espírito. 

Necessidade de reconhecimento (nem que mínimo). Ter um público seguidor. Alguma coisa. Algum sinal. Alguma manifestação exterior, objetiva. Esse é o problema. Essa é a barreira que se impõe entre o mundo esforçado e trabalhoso humano e o mundo espontâneo e suave divino. 

Ser é (simplesmente), ou seja, essência. Sem passado ou futuro, apenas um eterno presente. Sem dimensões espaciais, mas além delas. Centrado nela (essência), age-se diretamente, na raiz, efetivamente, para resolver problemas. Fala-se pouco e diz-se muito. Não há esforço - apenas alegria de criar. Ou melhor, alegria de revelar através de uma vivência profunda os caminhos da evolução.

Nossa civilização como um todo está baseada em princípios errôneos. Há culturas mais próximas de um equilíbrio social, de um dinamismo do conhecimento e das práticas, de uma síntese entre os polos, de uma harmonização com o meio ambiente. Mas ainda assim, são passos pequenos. Insuficientes para os desafios da nova civilização que deverá surgir - por bem ou por mal, isto é, pela força da Lei ou pelo esforço humano.

Fig.1: Os hábitos refletem a forma mental. Esta é típica de um baixo grau de consciência.

Nós temos um problema quando se trata de compreender o nosso destino e nosso papel no Universo. 

Porque isso ocorre? 

Porque estamos imersos duplamente no reino do relativo. 

Por um lado vivemos no Anti-Sistema (AS), em que existe o dualismo, o movimento, a degradação, a matéria e energia (espaço-tempo) e as dores. Por outro, nossa espécie vive um momento de exaltação do relativo (relativismo), tornando-o um absoluto e assim caindo numa contradição conceitual que leva a horrores quando desenvolvemos esse princípio até as últimas consequências. 

Criamos o hábito de pensar que tudo pode ser feito desde que as argumentações sejam convincentes ou a força impeça a frenagem de absurdos. Criamos a mania de albergar montanhas de informações, objetos, likes, publicações, momentos de prazer, dinheiro e coisas relacionadas às aparências, à matéria e à posse. Criamos o vício de gozarmos por meio de comparações, nos atendo mais às relações entre as coisas do que à filtragem de qual coisa é mais englobante do que a outra; de qual está mais alinhada à corrente evolutiva; à vontade de Deus. Estamos viciados...

Essa tara pelo relativo (relativismo, ideologia dos tempos) nos levou a um beco sem saída, em que pondera-se em meio à catástrofe. Isso leva sempre a cálculos metódicos, reuniões seguidas, argumentações elaboradas, pensamentos sistematizantes e sistematizados e toda geração de coisas que nos pesa. Coisas que dão armas a quem não deseja progredir. Coisas que causam mais atritos, desentendimentos (porque quantidade em excesso polui a mente, cansa, confunde e coloca os seres e debaterem sobre pontos de forma, de letra, de símbolos). 

Debatemos sobre os símbolos e esquecemos o simbolizado. A essência imutável e eterna foi jogada de lado. Os mais adiantados se prenderam apenas ao devenir, ao vir-a-ser, que é uma das grandes verdades de nosso Universo - mas não a única.

O Universo possui um esquema monístico. Ele é essência, vir-a-ser e forma.  

Essência está para espírito. Espírito está para pensamento (profundo), princípio e lei.

Vir-a-ser está para energia. Energia está para movimento (íntimo), evolução e complexidade.

Forma está para matéria. Matéria está para física, manifestação, aparência.

Os três aspectos coexistem. Não podem ser separados na menor escala de espaço ou tempo. Independente da cultura, não será feita uma leitura da realidade saudável (fiel) sem levar em consideração essa trindade. Não podemos compreender a realidade sem levar em conta (e vivenciar) as três fases do cosmo. Nada dará certo sem uma lente metafísica adequada. E essa lente - a única que poderá nos salvar de uma catástrofe que levará séculos ou milênios para nos recuperarmos, é o monismo.

Para vencermos o desafio ecológico, devemos nos espiritualizar. Para vencermos a desorganização política e a destruição econômica, devemos superar a política e a economia. Como? Criando uma nova forma mental, que irá gerar novos métodos. E quando digo 'criando', é gerando algo imaterial, dentro de nós.

I truly and emphatically believe that a shift/return to a new/ancient nature-based spirituality is the only way we are going to move into the next phase of our evolution.

Fonte: [1

Eu realmente e enfaticamente acredito que um translado/retorno para uma nova/antiga cultura natural baseada na espiritualidade é a única forma de nos movermos para a próxima etapa de nossa evolução.  

Tradução

Eu recebo e leio coisas que muito busco. Os mecanismos de buscam viciam apenas aqueles que não estão orientados - que é a imensa maioria da humanidade. Por isso tantos alertas sobre o perigo dos algoritmos. Sem dúvida, para um ser que possuí um baixo grau de consciência, as más intenções podem causar muitos danos. Por outro lado, quem já está fervorosamente orientado para certas coisas consegue tirar proveito de todas essas más intenções. 

Buscais e achareis (Mt, 7:7).

Buscar o quê? O que realmente interessa para a sua libertação. Para a libertação do espírito e todas suas faculdades maravilhosas e poderosas. Sem aparências demasiadas. Sem posses exageradas. Sem objetivos voltados para coisas do mundo. Nada disso. Apenas o mínimo indispensável para sua evolução. 

Vamos falar um pouco sobre o grau de consciência humano e a questão da alteração do clima.

Fig.2 : Concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera no período 1960-2020.
Destacados os eventos (COP's) e publicações relevantes. 

Vocês estão vendo o gráfico acima? Ele expressa o nível de CO2 (em ppm, partes por milhão) na atmosfera da Terra nos últimos 60 anos. E há setas apontando para as datas em que ocorreram grandes conferência do clima (COP's) e pesquisas sérias foram publicadas (ex.: como a do Clube de Roma, em 1972).

Veja bem...todos esses encontros internacionais, esses estudos sérios interdisciplinares, esses acordos assinados...tudo isso visava em primeiro lugar reduzir as emissões do gás CO2. Gás considerado o mais controlável (e também o mais crítico, junto com o metano, CH4) para frear o efeito estufa. Percebem o que estou querendo dizer? 

Falamos muito. Planejamos muito. Estudamos muito. Podemos até dizer que fazemos muito - mas no sentido emborcado, de superfície, e não na raíz. Mas nada ocorre. Nada! Por quê? Porque não estamos mexendo na essência (de nossa psique), e com isso nossos objetivos são contraditórios, nossos métodos são ineficientes, nossas ferramentas são obsoletas. 

As emissões continuam seguindo a mesma tendência: aumento acelerado. Essa tendência reflete a relação entre o grau de consciência coletivo e a complexidade que se tornou o sistema geosfera-biosfera-noosfera. Ou seja, nosso grau de consciência (como espécie) não está à altura da configuração sistêmica do sistema-Terra, do sistema-Vida e do sistema-Cultura.

Vamos mostrar outra tendência, agora mais voltada para a questão econômica e social.

Fig.3 : Evolução do PIB e do DIB ao longo do período 1945-2005. 
Fonte: [3]

O que o gráfico acima mostra é a evolução do Produto Interno Bruto, o PIB (a riqueza produzida e movimentada pelo mundo dividida pelo número de habitantes) e a evolução do Desenvolvimento Interno Bruto, o DIP (a riqueza que se torna qualidade de vida no mundo dividida pelo mesmo número de habitantes).

Um (PIB) se interessa pela movimentação de coisas, ou prestação de serviços e produção de bens - independentemente deles serem úteis ao crescimento do ser humano (ou seja, aumentar a consciência, a maturidade evolutiva, integrar o ser).

O outro (DIB) se interessa pela utilidade intrínseca dessas movimentações. Ou seja, qual a riqueza real gerada? Ela está servindo para as pessoas terem mais educação, mais saúde, mais cultura, mais tempo livre para se expressar e viver e desenvolver? Para terem menos contratempos? 

Fica claro qual indicador é mais substancial. E com o gráfico percebe-se o que está ocorrendo conosco. 

De nada adianta se mover se o movimento é inteiramente circular. De nada adianta velocidade se não se sabe para aonde vai.

Avançamos numa dimensão: a secundária (meios)

Estagnamos em outra: a principal (meta)

Para além da riqueza real (saúde, educação, segurança, previdência, cultura, lazer), é preciso ainda apontar essa riqueza para a realização do ser (conscientização, iluminação, sensibilização). Esse é o objetivo supremo. Objetivo que um sistema econômico - por melhor que seja - só pode atingir como servo. Servo de que? De uma noosfera efervescente que almeja crescer e se reproduzir, adentrando cada vez mais no infinito, na eternidade e no absoluto. 

Estamos parados na estrada evolutiva. O movimento espacial é uma constante. O movimento íntimo da substância também o é. Mas até um ponto o ser pode decidir se mover ou não em seu universo interior. Ele possui essa liberdade. Mas se não usá-la bem, a partir de certo ponto, o que deveria ter sido feito será cobrado. E quanto mais adiamos evolver, mais forte será o choque de correção. É simples lei de equilíbrio.

A Lei de Deus, sendo absolutamente perfeita, deve ser seguida cedo ou tarde, pelo bem ou pelo mal - respectivamente. Isso significa que a liberdade dada deve ser usada par alinhar-se à Lei. E isso não é ditadura, e sim amor. 

Coerção apenas ocorre quando a lei que coage é imperfeita, é relativa, é particular a uma época, circunstância, povo, cultura, perspectiva.

Amor ocorre quando a lei que coage é perfeita, absoluta, geral e, ao mesmo tempo, flexível para todas épocas, circunstâncias, povos, culturas e perspectivas. 

Está na hora de adotarmos uma nova metafísica para conduzirmos nossas vidas. E assim nos aproximarmos um pouco mais de nosso espírito. 


Referências:

MARSHALL, Stephen. Climate worship will doom us forever. May, 2021.  Link: <https://stephenmarshall.medium.com/climate-worship-will-doom-us-forever-a0f78c971745>

REMBLANCE, Erin. Life in a Degrowth Economy and Why You'll Love It. Oct, 2020. Link: <https://medium.com/postgrowth/life-in-a-degrowth-economy-and-why-youll-love-it-a0eb96c44ec7>

KUBISZEWSKI, Ida. Beyond GDP: Measuring and achieving global genuine progress.  Link: <http://www.bioline.org.br/pdf?nd13075>

sábado, 13 de novembro de 2021

Teoria da Queda

Pietro Ubaldi apresentou uma visão de Deus e do Universo inteiramente nova. Seu método intuitivo é uma antecipação evolutiva que uma humanidade adulta irá ter como prática normal para nos aproximarmos da verdade. O místico da Umbria ousou publicar em seus 24 volumes uma visão vasta (em conhecimentos e exemplificações) e profunda (em sabedoria e vivência) da evolução, de nossa origem, de nosso destino, da função da dor e de Deus.

Fig.1: A queda dos espíritos não foi espacial. Foi dimensional. 
O espírito livre se embatumou na matéria, refém das leis deterministas.

Depois do monismo ubaldiano a humanidade jamais será a mesma. Trata-se da forma de expressar uma metafísica poderosa - talvez a única que não se abale por todo o transformismo e complexidade de nosso mundo pós-moderno - de forma a conjugar todos os domínios científicos num único fenômeno: a grande equação da substância. Daí podemos derivar os motos fenomênicos, a evolução das dimensões, os movimentos vorticosos e todas belezas da criação incessante - que em sua forma emborcada, no Anti-Sistema, assume o dinamismo de um evolucionismo perpétuo que degrada uma forma inferior para gerar uma forma superior, e assim sucessivamente, até os limites do concebível.

É uma visão gloriosa! Quem estudou bem e de forma orientada, busca ardentemente a auto-realização e tem em si um senso moral já desperto, é tocado pela Obra como uma agulha toca um nervo vital. Daí em diante a vida nunca será a mesma. 

Vê-se tudo com outros olhos. Compreende-se antes mesmo de entender; ama-se antes de sistematizar; sintetiza antes de analisar; age antes de planejar. Porque a única atuação certeira é aquela que é guiada por um senso de realização que jaz no âmago da alma - e ela é instantânea...é uma ousadia inteligente que se planeja enquanto o ser está pairando entre a terra firme e o abismo. Um salto de fé. Um ato de coragem guiado pela sinceridade e pela simplicidade. 

Para superarmos as barreiras da lógica econômica; para superarmos os desentendimentos da política; para aceitarmos a diversidade religiosa; para reconhecermos a importância dos saberes; enfim, para amarmos incondicionalmente, é imperativo adotarmos um novo método. Esse método só pode ser implementado seguramente (ou seja, eficazmente) quando superarmos a forma mental presente. Exatamente: é preciso adquiri uma nova forma mental.  

Fig.2: A progressão é por oitavas. A música reflete isso. Essa lei de coesão obriga a uma 
retomada de movimentos inferiores para que eles revivam em oitavas mais altas. O alto de sobra para baixo para que todo o Universo marche para a frente. Glória e Salvação. Graças a Deus.

A Teoria da Queda de Ubaldi é aquela ideia que, mesmo sem possuir referências bibliográficas, mesmo sem seguir os formalismos (cada vez mais) engessantes da academia, mesmo sem parecer relacionada com nossa vida quotidiana (cheia de dramas e misérias), é algo que convence e nos dá um senso de preenchimento interior sem igual. Porque ela é simples e profunda. Através de palavras orquestradas de forma semi-musical, de um rigor lógico-científico orientado e apenas suficiente para a assimilação da pobre mente racional, de uma estética apaixonada e apaixonante, o profeta de Gubbio apresenta ao mundo a visão mais avançada até o momento. 

Foi erigido um edifício conceitual sem igual - no máximo com outros conceitos que se aproximam - através de um sincretismo envolvente. A fusão de diversos sistemas de crenças e valores, sem ofender nenhuma teoria científica, resultou numa teoria toda revigorada sobre a nossa origem, o nosso destino e a causa de nossas dores. É fantástico sob todas as perspectivas. Basta ter os olhos para ver. Olhos espirituais - não carnais.

Para começar a entender do que se trata, um vídeo do Dr. Gilson Freire explica essa nova visão da queda:

"Que absurdo!", alguém pode pensar. "Como pode a obra de Deus conter a possibilidade de falha?"..."Das duas uma: Ou Ele é imperfeito ou Ele não existe!". Mas essas observações passam pela cabeça de muitos porque o grau de compreensão da natureza divina ainda é muito pequeno. Se observarmos com mais cuidado, na essência, percebemos que essa possibilidade de falha é a comprovação da magnanimidade e inteligência do Criador.

Mas como poderia acontecer fosse o Sistema, obra de Deus, tão imperfeito que pudesse desmoronar a cada momento? Não. Ao contrário, era tão perfeito, podendo até desmoronar sem dano definitivo, justamente por isso podia conter, deixada à mercê da livre vontade do ser, a possibilidade de uma queda. Se isso tivesse ocorrido, é porque o Sistema era perfeito a tal ponto, que teria tido a possibilidade de ressurgir de sua queda. Esta implícita capacidade de automedicação, apta a resolver qualquer crise, tornava inócuo, em última análise, esse perigo e erro. Não se tratava, pois, de imperfeição. Ao contrário, na perfeição do Sistema, tudo estava previsto, até a possibilidade de uma desordem e de uma queda; por isso, foi deixada nas mãos do ser a escolha entre obediência e a desobediência, com a possibilidade de uma desordem e uma queda.

O Sistema, Cap. III  (grifos meus)

Sabendo que, haja o que houver, tudo permanecerá sob controle, e com isso dar liberdade plena à criatura é o maior ato de amor (liberdade concedida) e sabedoria (domínio de Sua Criação) imaginável. Para cinco minutos para refletir sobre esse ponto.

A queda dos anjos (nós, espíritos tendo uma experiência humana atualmente) se deu por termos uma perfeição que era relativa, não absoluta. Pois caso tivéssemos perfeição absoluta nos igualaríamos a Deus em potência (Criador = Criatura), resultando num sistema anárquico, com infinitos deuses - ou seja, sem Deus de fato. Absurdo completo. 

O que temos de compreender é que somos da mesma natureza de Deus - mas não de mesma potência. Isso é destacado por Ubaldi em sua obra. É um ponto capital na teoria apresentada. Sem ele não podemos fazer um estudo com vistas a realmente compreender o que aconteceu.

Como se deu o processo?

Fora dada por Deus, à multidão dos espíritos, uma livre autonomia de vontade, com a condição desta ser coordenada em harmonia com a Lei, em função Dele. Mas, este poder estava nas mãos deles que, sendo livres, podiam dirigi-lo mesmo em direção errada, contra a ordem, contra a Lei, contra o próprio Deus. Bastava aquele poder, ser canalizado pela vontade livre deles, para fora do caminho justo, e ocorreria a queda.

O Sistema, Cap. III  (grifos meus) 

 E isso foi o que se deu para todos nós que estamos aqui.

Não se tratou simplesmente de uma desordem qualquer, que semeasse o caos no seio da ordem. Dada a natureza do impulso de onde nascera, essa desordem assumiu uma direção precisa e significou exatamente o emborcamento do Sistema num estado antagônico ao anterior: o Anti-Sistema.

O Sistema, Cap. III  (grifos meus) 

Um impulso contra a vontade de Deus só pode resultar em algo catastrófico. Pois a melhor atitude que sempre podemos tomar é sempre (sempre, sempre, sempre) aquela que se alinha inteiramente à Vontade de Deus. De um estado unitário decaímos num estado dualista. Mas não há com o que se preocupar: o monismo continuou no domínio, envolvendo o dualismo. Assim, os aspectos fenomênicos de nosso universo são (muito discretamente) coordenados por uma sábio princípio diretor. 

Com efeito, o nosso atual universo é baseado no dualismo: Sistema e Anti-Sistema, e só assim podem ser encontradas e compreendidas as suas primeiras causas. Só assim podemos compreender por que, em nosso universo, tudo se baseia no contraste dos elementos, impulsos e conceitos opostos e complementares. 

O Sistema, Cap. III  (grifos meus) 

O dualismo gerou o relativo. Com este surge o ritmo, os oposto, o contraste. E assim surge o movimento  tal qual a ciência o concebe (e conhece). Não um movimento intrínseco, mas espacial, molecular, atômico. Nasce a energia e a energia se embatuma na matéria. A trajetória, outrora não-vibracional e aberta ao infinito (livre do espaço-tempo), se torna ondulatória (energia) e fechada (matéria). Uma contração dimensional pré-tempo (big crush) atinge o fundo do abismo, explodindo em seu ponto mais baixo, involuído (big bang), que a partir daí se expande, evoluindo sem cessar, até o momento presente. 

A ideia de uma criação do nada é absurda, conforme pessoas já estão percebendo (BAKER, 2021). Houve uma causa para o fenômeno da origem de tudo que conhecemos. Mas essa causa está no superconcebível. Um universo super-dimensional (o Sistema), que está curando o nosso universo de espaço-tempo (o Anti-Sistema). 

Vejamos o que uma pessoa leiga nas questões da ciência, mas intuitiva (que é o que realmente interessa), pensa:

Whether you ascribe the causal power of the Big Bang to a physical law or to the classical ideal of God, the result is the same for both. To be able to create time, space, and all matter and energy; the cause must be timeless, beyond the constraints of space, and immensely powerful. This again sounds exceedingly close to God whether you call it a law or God, it doesn’t matter.

(BAKER, 2021), grifos meus

Traduzindo:

Quer você atribua a causa do evento do Big Bang a uma lei física ou ao ideal clássico de Deus, o resultado é o mesmo para ambas ideias. Para ser capaz de criar tempo, espaço e toda matéria e energia; a causa deve ser atemporal, além dos limites do espaço, e imensamente poderosa. Isso novamente parece excessivamente próximo a Deus quer você chame isso a Lei ou Deus, não interessa. 

(BAKER, 2021), grifos meus

Para causar os princípios de nosso universo (leis físicas) é preciso recorrer a princípios superiores (leis metafísicas). Isso é lógico para quem já percebeu o esquema geral do cosmos e arde pelo invisível e intangível. Pelo absoluto que guia os relativos. Absoluto discreto, paciente e sábio. Absoluto amoroso, que se revela na da arte através da estética da beleza interior; da ciência através da sistematização dos fenômenos; da religião através da devoção sem preconceitos e pela contemplação; da filosofia através das sínteses intuitivas. Estamos à beira de descobrirmos um princípio que guiará tudo e todos nesse turbilhão evolutivo. É glorioso. Eu o vejo de forma nítida. Sinto de modo forte. Saboreio intensamente quando me ponho em contato com esse pensamento diretor. 

Há pessoas chegando muito próximas à visão. Arranhando o grande monismo apresentado pelo profeta de Gubbio, porta-voz da Nova Civilização do Terceiro Milênio. Uma civilização do espírito, pautada por valores mais do S do que do AS. Uma humanidade regenerada, em que teremos superado a barreira mais árdua, em que na balança universal as forças do S predominam levemente sobre as do AS. 

No momento atual, tudo me faz crer que o S e o AS estão em equilíbrio quase total, o que dá uma sensação de desespero. Muito esforço para o alto e igual esforços para se desmontar tudo isso. Desânimo e tristeza. Mas não se desespere, viajor do deserto dimensional. A tendência é uma e só uma: o avanço das forças do Bem e o recuo das forças do Mal. 

Bem é unificação, é integração, é ver as propriedades emergentes (relações) entre as partes e o telefinalismo (meta), é síntese, é moral e inteligência elevados de mãos dadas.

Mal é separação, é desintegração, é ver apenas as partes que se relacionam de modo competitivo, se destroçando e gozando na medida do possível, é análise, é baixa moral e muita inteligência, ou muita moral sem inteligência, ou ambas baixas, sempre divorciadas.

A ideia de movimento íntimo é essencial aqui. Esse é o dinamismo que devemos almejar. Dinamismo intenso, de substância, que se manifesta em atitudes que podem até ser lentas e sem adeptos, mas certeiras e intensas. Esse é o dinamismo que realmente interessa. Não movimento de superfície para aparecer e ter - e sim movimento profundo para vir a ser cada vez mais. Até atingirmos o ser de Parmênides...

Heráclito percebeu o movimento incessante e transformador. Movimento que é vida. Os relativos.

Parmênides vislumbrou a causa sem causa, a essência, o ser. Causa que contém a salvação. O Absoluto.

Ubaldi funde ambos numa síntese magistral, em que Absoluto guia relativos - que são gerados no Absoluto e a ele retornarão, por simples natureza do Todo.

Essa é a teoria que devemos compreender. Pois compreendendo a aceitaremos. E com isso, avançaremos, chegando a continentes nunca antes explorados. Continentes imateriais, intangíveis, maravilhosos. Continentes do espírito.

Será glorioso...

Celebremos esses novos tempos com a forma mais elevada de arte, a música. Deixemos nossos tímpanos carnais albergar a mensagem espiritual de Ludovico Einaudi - um compositor que soube captar aspectos do infinito e traduzi-los em música. Vamos celebrar a vida através do vir a ser (divenire). O fluxo ao qual nos devemos nos alinhar para chegarmos ao Reino de Deus.

Vídeo do canal: Jacob's Piano

Referências:

BAKER, Jeremiah. The Universe Created from Nothing is Absurd. 25 Out., 2021. Disponível em: < https://medium.com/@randomgadfly/the-universe-created-from-nothing-is-absurd-e4114b7cb972>

UBALDI, Pietro. O Sistema: gênese e estrutura do universo. Ed. FUNDAPU. PDF disponívl em: <http://www2.uefs.br/filosofia-bv/pdfs/ubaldi_14.pdf>

UBALDI, Pietro. Queda e Salvação. Ed. FUNDAPU. PDF disponívl em:<http://www2.uefs.br/filosofia-bv/pdfs/ubaldi_19.pdf>