sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Evolução das Consciências, Revolução Humanitária

A evolução das consciências colima na única e efetiva revolução da humanidade. Neste mundo, se quisermos elevar as condições sistêmicas concretas, deve-se ter algum tipo de força capaz de imprimir na atmosfera humana uma orientação suprema, que faça o pior da natureza humana ser superada definitivamente, sem retorno. Essa é a força do número, única capaz de fazer frente a uma agenda de regressão global - não apenas nacional - que só avança com firmeza devido à inércia dos seres humanos, que ainda, em larga medida, veem o problema supremo de forma relativa. Esse problema-mor - causa de todos problemas locais - é nada mais do que o baixo grau de consciência da atualidade.

Muito estudei (na escola e por conta própria) a História da humanidade. Vi filmes a respeito. Tive diálogos profundos com amigos(as). Tenho com minha esposa e meu pai. Realizo colóquios com o Ser Supremo nos recônditos dos parques, em horário de menor movimentação humana, para que de alguma forma algum conceito-mor - algo potente, espiritualmente genético - possa invadir todos meus canais humanos, do corpo à mente e desta ao espírito, arrebatando minha alma e trazendo inspiração suprema para que eu possa voltar à minha casa e imprimir esse conceito recém-revelado, da melhor forma possível, de modo a unificar os opostos que tanto de digladiam gratuitamente. Traduzir a substância para a forma. Pobre forma, mas alguma forma. Assim minha pobre alma em busca da resolução dos máximos problemas se aquieta um pouco, deixando o mundo externo em paz na sua guerra perpétua, e se debruça em seu trabalho incessante, silencioso, altamente potenciado, incompreendido e abstrato, para depois retornar à vida cotidiana mais calmo com o estado atual das coisas, pois a alma compreendeu um pouco mais da mecânica da Lei de Deus. Jorram conceitos, vocábulos, por vezes diagramas e símbolos. Recorre-se ao que esse pobre cérebro possui (pouco) para relacionar os mais diversos campos humanos através de experiências interiores dolorosamente belas. Apocalípticas. Sinceras. E de constatações exteriores de todos tipo, desde os olhares breves a atitudes repetidas, até o desdobramento das políticas internacionais e da lógica da civilização. Esse é o fenômeno inspirativo.

Evolução interior persistente para despertar o
Eu divino nos outros, levado-os a seguir o caminho
que noslevará à unidade. Depois, sem esforço,
revolução efetiva da humanidade.
O ano 2018 se inicia e ao invés de fazer votos formais e desejar melhoras mergulho mais intensamente nas questões mais cruciais do momento - que explodem devido ao descaso que demonstramos, sempre, às grandes questões da vida, da evolução, do destino, da dor e do amor. Trabalho é atividade independente do espaço (local em que se está), do tempo (horário, dia da semana, época) e das circunstâncias (o que o mundo reconhece e valoriza). Estamos diante de uma lógica completamente diversa. Ofensiva à psicologia humana hodierna. Tremendamente ameaçadora se se deseja que todos a apliquem no seu cotidiano - pois o mundo sabe perfeitamente que deixará de lado seus gozos. Ameaçadora porque está desconectada da superfície das aparências - que aprisiona quase todos - e portanto é capaz de inciar, se absorvida por outras almas, um verdadeiro processo de transformação, capaz de abolir as piores práticas humanas, por mais inocentes que a propaganda e marketing a apresentem. Os poderes veem o florescer de algo diferente e fazem uso de suas ferramentas: nós. Aciona-se uma série de mecanismos para que o canal para verdades mais vastas e belas seja amordaçado. Inicia-se oferecendo o gostoso, o belo, as posições invejáveis, a fartura material, a prosperidade, a fama,...o que mais satisfaça a natureza inferior do ser em busca de ascensão. Se isso não funcionar parte-se para o terror econômico, com ameaças das mais diversas: empobrecimento, vergonha, humilhação social, perda de bens e serviços básicos. O golpe fatal é encabeçado pelo terror psicológico, tão bem conhecido pelos meios de comunicação. Distorce-se uma verdade relativa. Revela-se só o que convém a um grupo, numa dada circunstância, de um determinado modo. Tantas maneiras de se apresentar um evento que a mente humana que começa a esmiuçar a lógica da mídia logo começa a se perturbar profundamente, adquirindo ataques de revolta tão logo lhe seja apresentada, com sinceridade e paciência, a mais profunda realidade: a de que estamos num lodaçal de lama tão sujo que precisamos de doses cada vez maiores de distrações (ilusões) para mantermos nossa sanidade mental. Não o digo com som pessimista nem para causar males. Quem "perde" seu tempo precioso aqui, neste espaço, o faz com um senso de convicção íntimo. Sabe que em meio a tantos vocábulos mal colocados, ideias ainda não unificadas em sua plenitude, jaz a força profunda da natureza, que aponta para um telefinalismo e traça um caminho claro, dominado por um fenômeno profundo: evolução. Em seu sentido lato (mais abrangente). Sente-se verdades que estão além das ideologias. Verdades biológicas, que por mais que tentemos camufla-las veem à tona e revelam qual eram as intenções por trás dos golpes e revoluções de superfície.

Huberto Rohden (1893-1981).
Mestre do saber, sintetizador do viver.
A quantidade de informações que vem (e por vezes saem) de nós cresce exponencialmente. Nosso conhecimento aumenta, mas lentamente, e com uma aplicação egoísta, desprovido de qualquer senso de unificação de áreas do saber, grupos humanos - sejam religiões, partidos políticos, empresas ou nações - e conceitos. Temos assim um intelecto desprovido de orientação. Um aprofundar-se na análise que tornará os especialistas mais especialistas, e muitos cada vez mais inundados de informação, tornando uma massa da humanidade obesa de vacuidades informacionais. Esse é um dos fenômenos modernos. E para escapar desse ciclo é preciso reconhecer-se dentro dele. O autor, por incrível que alguns possam achar, se considera nesse circuito. Ao menos até certo grau. Não se pode considerar 100% liberto se ainda se tem alguma expectativa com os métodos humanos, ou se altera-se ainda algumas ideias (mesmo que minimamente) ao longo do tempo. A fase atual é de ajuste fino e potenciação, buscada através de diálogos intensos - porém sinceros - com pessoas próximas e queridas. Trata-se sem dúvida, para todos, de um risco abissal, que parece loucura. Eu bem o sei. Mas as intenções são puríssimas, e ganha-se sempre uma nova visão quando se mergulha numa conversa profunda com paixão e orientação, fazendo uso dos conhecimentos na medida do necessário para esclarecer (nem abuso nem recusa do saber humano).

O mundo chacoalha aqueles que mais estão concentrados em atividades da verticalidade interior por julgar a atitude uma patologia desagregadora ou arrogante. Mal se sabe que o que mais se busca é unificação suprema através de mergulhos intensos na natureza do ser. Interpretações emborcadas permeiam as mentes. Inconformação com o modo de vida que não dá valor aos valores humanos, mesmo que bons. Superação é muito mais do que se imagina. Implica o ser em sua integridade. O nível das interconexões interiores cresce exponencialmente, gerando uma atividade psíquica-nervosa fora do comum, causando um cansaço fora do normal. Para as obrigações do mundo, uma concentração baixa, a nível basal, apenas para não se subtrair das necessidades materiais tão necessárias para a vida na Terra. O corpo se desgasta, a cabeça dói, as ações humanas repugnam - especialmente a neutralidade, que nada mais é do que servir de ferramenta passiva às forças maléficas. Estamos diante de verdades supremas que só tocarão corações sofridos e mentes ponderadas. Nada mais se pode dizer a respeito. O tempo, portador das experiências de dor, fará o resto do trabalho. Trata-se de uma obra que não visa resultados individuais nem imediatos. Ao contrário, ir além do campo das palavras escondidas em fendas da rede e desejar aumentar o público será perigoso e ao mesmo tempo um atestado de falência do conceito que está sendo jorrado aqui. O sentimento é tão intenso que os dedos mal conseguem acompanhar a atividade interior, que se esforça por organizar as palavras da melhor forma para ser compreendido pelo maior número de seres sedentos de conceitos mais vastos sobre a vida e as causas profundas de nossos males.

Pietro Ubaldi (1886-1972).
Apóstolo de Cristo, desbravador
dos mistérios do futuro.
Para resolver um problema que sempre nos assolou nada melhor do que ir na causa prima. Chegar à raíz. Radicalidade nesse sentido ganha uma conotação positiva e poderosa. Perigosa para todos que desejam avidamente permanecer estacionados no nível evolutivo presente, com seus gozos materiais diversíssimos, desde a aquisição de automóveis, desenvolvimento muscular, títulos acadêmicos, fama, mulheres, propriedades, itens de luxo, ornamentos, distrações e todos tipos de acompanhamentos. Estamos num momento histórico que demanda ir além da especialização. Buscar antes de tudo uma orientação suprema, situada no reino do abstrato, para abordar problemas mais concretos, cada vez mais tangíveis, cada vez mais locais, dentro de nosso horizonte de satisfação temporal. Somente assim poderemos resolver os problemas do mundo. O longo prazo exige fé (sintonização) com uma fonte superior, capaz de nos dar força e orientação ao longo da sofrida trajetória. Nada disso estaria sendo dito aqui, nesse blog que já conta com mais de 300 ensaios que versam sobre a multiplicidade dos conhecimentos e sentimentos humanos, se o autor não tivesse experimentado à fundo o fenômeno. Quando se percebe do milagre ocorrido em sua vida passa-se a atuar no mundo de forma completamente diferente. Torna-se outro. De certa forma, renasce-se. As mesmas coisas que lhes são apresentadas podem ter significado diversíssimo. Muito do que era importante deixa-se de lado; aquilo que era desinteressante entra na categoria do fascinante. Enriquece-se com os problemas; empobrece-se com os gozos. Assim ascende-se para um nível de consciência que encanta e dá paz. 

A progressão da personalidade torna-a mais sedenta da sinceridade, do amor, das coisas imateriais. Mas ao mesmo tempo permite que se lide com as coisas concretas de forma mais eficiente, dando o peso necessário a cada coisa, seja em forma de preocupações e de ânimos. Tende-se a um equilíbrio em relação aos acontecimentos externos - nem regozijo com as vitórias humanas, nem lamentações com os infortúnios humanos. Porque sabe-se que a Lei opera com uma organicidade diversa, além do espaço-tempo. Os prazos humanos, tão restritos, se tornam ridículos perante tão supremas forças da vida. Os objetivos humanos, tão prioritários, passam a ser cada vez mais secundários, a serem guiados por outros objetivos. Assim a ferramenta humana torna-se mais consciente de seu Eu divino, nem recusando as coisas do mundo, nem abusando das mesmas. Faz-se uso correto do que lhe foi dado. Essa é o sinal que indica o quanto se está enriquecendo. 

Enriquece-se quando se usa as coisas do mundo para despertar engrenagens interiores, orgânicas e psíquicas, a todo momento. Vigília constante é o que está escrito nos grandes livros Sagrados. Ditos proferidos por iluminados, que começam a ser compreendidos em sua profundidade. E aí, a partir desse processo formidável, podemos começar a nos debruçar sobre o mundo e esboçar algum diagnóstico com um valor efetivo. 

O mundo jaz em trevas devido à ignorância da espécie humana. Deixará de estar nesse lodaçal a partir do momento que houver uma massa crítica de almas capazes de atuar de forma a reverter um processo de regressão.

Luiz Marques (1952-).
Historiador da Arte. Professor da Unicamp.
Voz de luz.
Diversos especialistas - alguns muito iluminados a meu ver - apresentaram suas visões em programas  espalhados pela internet. Um deles me deixou muito contente. Não por satisfazer meus instintos, mas por comunhão de visão [1]. A personalidade do ser transpira seu grau de consciência. A forma de falar, o tom, o olhar, os gestos, e sua dedicação a ir além de seu tema, mergulhando num assunto universal, que interessa a todos nós, conjugando questões ambientais com política, economia e sociedade. Chega quase a apontar para a região do intangível, causa dos efeitos do mundo. Difundir essa visão é o melhor trabalho a ser feito nesse momento. Se cada um buscar colocar sua experiência num vórtice diretor que a tudo arrasta, iniciar-se-à um processo de sintonização a nível planetário.

A internet, último reduto de certa liberdade, começa a ser cercada por interesses escusos [2], [3]. Isso diz respeito à vida de todos, mesmo que alguns nem sequer tenham ciência disso. Podar a liberdade do que ver em virtude de uma padronização bestificante e plasticamente agradável é a palavra de ordem do poder para amputar qualquer possibilidade de membros do rebanho começarem a observar as coisas a partir de diversos pontos de vista. Esses movimentos vem em momento oportuno, uma vez que diversos cortes vem sendo feitos em nome da eficiência do mercado. Assim, com a amputação das possibilidades que a rede oferece, os seres ficam mais sedados, mais obedientes e menos questionadores. Um rebanho brigando entre si loucamente, mas jamais se organizando para superar a si mesmo - e consequentemente acabar de uma vez por todas com um império multimilenar: o do domínio das ideias e dos recursos, de uma forma ou outra. 

A humanidade sempre teve uma progressão na sua caminhada multimilenar. Desde 4 milhões de anos a.C. até os meados do século XX, nossa espécie pôde melhorar de vida, conquistando confortos e bem-estar, criando instituições e o Estado, desenvolvendo a Ciência e evoluindo as Religiões. Desde a década de 70 inicia-se um movimento firme que terá como resultado a reversão de todo progresso feito [4]. Ele inicia-se vagarosamente mas cresce cada vez mais. Finca suas garras nas mentes, se aproveitando dos instintos humanos. Muitos o chamam de neoliberalismo. Mas eu prefiro dizer que se trata de uma manifestação temporária de um espírito desagregador, voltado ao separatismo, à competição e ao consumo desenfreado de inutilidades (justamente o que move o sistema econômico presente). O produto disso tudo começa a brotar das entranhas da Terra.

Seremos nós suficientemente ousados e perseverantes para acordar e reverter esse processo?

Referências
[1] https://www.youtube.com/watch?v=P9opJcw2CtA
[2] https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Derrubar-a-neutralidade-da-rede-foi-o-pior-golpe-do-governo-Trump-contra-a-democracia-ate-hoje/4/38996&utm_source=emailmanager&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_Carta_Maior_Doa%C3%A7%C3%A3o_02012018
[3] https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Midia/-Precisamos-proteger-a-neutralidade-da-rede-e-a-liberdade-da-Internet-/12/38930&utm_source=emailmanager&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_Carta_Maior_Doa%C3%A7%C3%A3o_02012018
[4] https://www.youtube.com/watch?v=-fny99f8amM

Vídeo recomendado (ref. nº4)



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Exercício de Conjugação - continuação

O fenômeno "Vislumbrar - Sistematizar - Apresentar - Implementar - Constatar - Sistematizar - ..." foi apresentado e definido em suas linhas gerais. O próximo passo consiste em fazer um mergulho em cada parte, revelando através de questionamentos e indagações para entrarmos em pormenores da vida prática.

O binômio "implementação-resultados" (prática-efeito) é o mais compreendido pelas pessoas. É o que todos fazem em larga medida, cada qual a seu modo. Esse binômio inferior está relacionado ao que chamo de atuação [1]. O sujeito que opera baseado nela é mais focado nos atos, dando pouco ou nenhum valor às questões de percepção do outro sujeito, grupo ou de um fenômeno natural. Agem muito, pensam pouco e sentem pouquíssimo. O pensar se restringe a um patamar mínimo, apenas para coordenar como o sujeito opera. Os interesses são imediatos. Sofrem pouco porque sentem pouco. Julgam que se trata de uma fraqueza. Operam na base dos instintos com pouco verniz intelectual.

O binômio "apresentação-constatação" (comunicação-apreensão) é mais sutil em sua forma de ser. Ele está relcionado ao que chamo de sensibilidade [1]. Uma parcela das pessoas opera nessa zona. O centro de gravidade do sujeito está situado acima, dando mais valor à percepção do outro e a forma de comunicar uma ideia. Essa comunicação pode ser oral ou através de textos, imagens, música, modelos. O modo de abordagem é importante. E sente-se mais dor com ações banais do ser humano médio - mas ao mesmo tempo abre-se a possibilidade para uma maior felicidade. Sente-se satisfação por pequenas coisas da vida, diminuindo a dependência do Ser pelas coisas do mundo (sejam pessoas, recursos, tempo, cargos ou titulos), que leva a tantos a maquinarem esquemas tremendamente agressivos.

Esses dois planos (atuação e sensibilidade) constituem o elemento fundamental para viver no mundo atual. Acima, ainda no plano da objetividade, encontramos a "sistematização", habilidade reservada a mentes com considerável traquejo intelectual, capazes de elaborar diagramas, textos, relações, processos, conceitos, cadeias de pensamento,...qualquer coisa que exija muito mais psiquismo do que sentimento e ação. Quem opera mais próximo a esse nível sofre outro tipo de desgaste, psíquico-nervoso, que demanda do corpo tanto quanto atividades físicas e inquietam tanto quanto escárnios humanos. É o fenômeno da razão, que coordena o ciclo humano das transformações. Mente, sentimento e ação.

Ter-se-ia atingido toda a possibilidade da espécie? Muitos creem que chegamos ao esgotamento dos fenômenos capturáveis pelo ser humano, nada mais restando a explorar. No entanto certos rastros deixados por seres singulares fazer a dúvida pairar no ar e se difundir pelo mundo através dos séculos. Morrendo por vezes. Mas apenas para renascer em outros tempo, de forma mais potente e convincente. Renascer através de indivíduos fora do comum, que que estendem o campo do concebível humano um pouco além. Através de sua vida, um monumento às ascensões humanas. Assim abre-se as portas para o fenômeno da visão. Com isso adentramos no inconcebível, iniciando nossa jornada com um primeiro passo. Passo que por ora denominaremos intuição. Forma de "pensar" através de uma sintonização da personalidade com correntes de pensamento (noúres) que possibilitam a apreensão de aspectos mais profundas da realidade do mundo. Ubaldi fez uso dessa técnica - que só se adquire por maturação interior. Não é possível ir além através da cultura e dos estudos. É necessário viver, sentir, chorar, sofrer e se inquietar com o infinito. É necessário ser pioneiro. Dar o primeiro passo. Com isso surgiu a Obra de 24 volumes, cujo resultado é a fusão completa do conhecimento humano em todas suas esferas, orientando-as para o seu destino supremo, Deus. Ciência, Filosofia e Religião se comunicam e dançam uma valsa harmônica, iniciando o processo de unificação conceitual, que se tornará unificação das almas e das instituições, forjando um novo mundo. Tudo começa no campo abstrato, pelo qual a utopia se enamora. Toda construção de um futuro possível se inicia com a elaboração perseverante de um presente impossível. 

Visionários do campo religioso (santos) e científico / filosófico (gênios) sempre houveram. O que muda com os tempos é a capacidade que cada nova onda de indivíduos fantásticos tem de plasmar ensinamentos sagrados em vivência concreta, criando assim obras impressionantes, que elevam as almas desesperadas, sedentas de uma nova realidade, para patamares vertiginosos que rasgam as convicções mais íntimas, tidas como permanentes e supremas. É um toque muito delicado. Delicadamente poderoso.

Referências
[1]http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2013/10/sensibilidade-versus-atuacao.html

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Roteiro Evolutivo

Como melhorar a própria vida? Está é uma pergunta que demonstra estar muito distante da realidade capaz de gerar transformações profundas. Para começar há de se perguntar: "o que é melhorar?" No curto prazo pode significar uma coisa - no longo outra completamente diversa. O mesmo se pode dizer em relação a algo local ou global. A escala de tempo e espaço muda completamente a concepção de vida. O modo como atuamos diariamente pode revelar quais as intenções que move um ser. Mas por si só, observar a pessoa agir pode trazer pouca ou nenhuma conclusão capaz de esboçar um bom quadro de uma personalidade. Isso porque os projetos de prazo além do concebível pela mentalidade do homem moderno não são capturados pela consciência normal. Algumas ações e atitudes consideradas sem sentido adquirem um valor crescente à medida que se percebe o que está sendo construído. Trata-se de movimentos lentos, discretos e interiormente intensos cuja percepção depende do grau de maturação atingida por quem observa.

Nesse momento iniciaremos a desvendar alguns mistérios do comportamento humano. O roteiro evolutivo da humanidade é o roteiro evolutivo do indivíduo somado a um tempo longo no qual o individual é testado - através das forças da vida - incessantemente. É o íntimo das massas que deseja ascender efetivamente, num movimento de subida potente, que dê autonomia a todos. O indivíduo forja o coletivo, e este influencia o indivíduo. Quanto maior o grau de consciência, maior a potência da forja e menor a influência do meio sobre as reações individuais. Por outro lado, uma menor consciência nada ou pouquíssimo forja, mas muito é conduzida pelo meio. No primeiro caso temos um evoluído, cuja autonomia o impede de se tornar uma marionete. É livre pensador, capturando o que há de bom em cada relativo - e descartando o inútil. Não tem instinto de rebanho, mas nem por isso deixa de se associar. Apenas não o faz cegamente. Procura se transformar, evitar repetições que não se relacionem com algum meio de aprendizado. Está no turbilhão evolutivo, em "estado de fluxo" - ou um não-estado.  Sua personalidade é oscilante e se transforma muito mais velozmente que a média humana. As experiências de choque, que a todos afetam num (ou vários) ponto(s) da vida, são intensamente vividas por este. A absorção é tamanha que chega-se ao ponto de perder os sentidos e o controle por breves momentos. Mas (incrível!) o produto é uma percepção mais profunda da realidade.

O verdadeiro início se dá com grupo reduzidíssimos.
Mas este irá longe. Muito longe, aumentando suas
fileiras através da unificação com a Fonte, sintonizando
mais almas por métodos desconhecidos pela mente...
Quando se enxerga fisicamente mais, sabe-se como são os caminhos e consequentemente como se preparar. Da mesma forma, enxergar metafisicamente além se traduz em conhecer certas leis da vida, situadas no plano humano, e mesmo super-humano. Observa-se: o conceito de necessário / supérfluo altera-se profundamente; percebe-se que atingir o patamar da necessidade está muito mais próximo do que se imagina, e que se trata de uma curva barrada por uma assíntota, e que a partir daí todo tempo, energia, conhecimento e sentimento passam a ser direcionados para outro plano, situado fora do concebível humano. Cessam-se atividades com pouco valor transformador. Insiste-se mais no caminho "árduo e insolúvel", sem desânimo. Ao contrário, a impossibilidade dá mais forças, gera mais alternativas, gesta mais ideias e traz visões mais profundas. A inspiração é o que se busca em primeiro. O resto é mera consequência.

Se um finito, mesmo que pequeníssimo, consegue entrar em sintonia com o Infinito, tem-se uma atuação formidável - mesmo do ponto de vista do mundo. Uma pessoa com pouco poder, de parcos recursos, fraco em habilidades sociais, que não se anima com o que o mundo prontamente responde com um abanar incessante, é um indivíduo desconectado. Mas de que? Da forma de vida vista pelo conjunto majoritário como mais natural. Como melhor. Como ideal. Mas o que é isso? (ideal). 

Aquilo ideal num momento deixa de sê-lo assim que a configuração das circunstâncias se altera. Como o mundo externo é volátil, o que é ideal para cada um está em constante mutação. Essa alteração constante de algo que deveria permanecer imutável pela sua própria natureza (valor, princípio) só pode indicar que as bases sob as quais os indivíduos depositam suas vidas, criando um sistema de crença e valores, é equivocada. Buscam-se ilusões. No entanto, apenas elas nos fazem caminhar rumo a Deus. 

Maya exerce um poder incomensurável sobre as pessoas porque o grau de consciência das mesmas é baixo. Estamos todos caindo em armadilhas constantemente. E a maior delas é criar armadilhas para aqueles mais fracos (fisicamente, emocionalmente, mentalmente) julgando estarmos progredindo se não formos pegos. Quem mais trama será engolido pelas próprias arapucas, de uma forma ou de outra. Isso porque muitas delas são armadilhas criadas por nós e usadas contra nós. Porque não vê-se no longo prazo. Porque não se percebe as relações profundas entre os fenômenos. Estamos no período sistêmico, no qual as interconexões começam a ser compreendidas.Dessa forma estamos transecionando da Era dos Elementos à Era das Interconexões. A diferença é sutil. Não se trata mais de algo tangível, mas intangível. O sentimento volta a ser aliado do raciocínio, convidando-o para formar um dueto que deve caminhar para a intuição. É nesse ponto que as perguntas devem ser revistas; questões devem ser retomadas; pontos de vista alterados; e ousadia inteligente aplicada. 

A maior religião dos dias atuais é o mercado. Ela possui maior número de fiéis e promete o que nenhuma das religiões oficiais promete: felicidade para todos. Como? Através de crescimento indefinido, sempre maior, perpétuo. E define felicidade como consumir sempre cada vez mais, englobar maior quantidade de experiências sensoriais, manter o físico na melhor forma por mais tempo possível, usando todos meios possíveis. Mas não o diz abertamente em todos meios. Muda a linguagem de acordo com o público, para não correr risco. Mas a substância da mensagem é sempre a mesma: direcionar a todos na busca de soluções exteriores para nossos abismos interiores. Sentir essa realidade na medula muda completamente o modo de vida. O poder e suas ilusões são extirpados da vida em grande quantidade. Ausência de medo indica que se está no caminho da ascensão. Viva a sua verdade que automaticamente, ao longo do tempo, vidas mudarão (para melhor!), se libertando um pouco da lógica que reina. O rebanho diminui, o desespero do poder aumenta. 

O mercado está ganhando porque nosso grau de consciência ainda é do nível rebanho. Da mesma forma que no passado obedecíamos irrefletidamente e seguíamos ávidamente as igrejas, hoje fazemos o mesmo com a ciência materialista e a lógica econômica - que a conduz. Muitos creem ter encontrado a solução mas não perceberam que se trata de um momento da História a ser superado. A humanidade está em processo de contínua transformação, que se dá diariamente, com maturações interiores apocalípticas  vividas no âmago de indivíduos em busca de um conceito que satisfaça sua alma e lhe dê a paz tão idealizada dos contos de fadas. 

Toda justificação da exploração de vida - seja vegetal, animal e humana - se apoia na lógica de mercado. "Se não for assim não crescemos. Se não crescemos estamos fora. Se estamos fora demitimos e todos ficam pior ainda. As pessoas gostam disso, pedem isso. Não podemos negar a elas." É muito cômodo receber essa forma-pensamento e conformar nossa mente a ela. No entanto o mundo não deixa de intensificar seus absurdos justamente pela aceitação dessa onda. Mas onde está o furo, pode-se perguntar.

Se dependemos do crescimento econômico, que se apóia inexoravelmente à conversão de energia e extração-transformação-descarte de material, sabe-se que ele não pode ocorrer para sempre. Iremos desmoronar antes por falta de recursos. Logo se pode perguntar: "Crescimento econômico se relaciona com Desenvolvimento humano?" ; "se sim, até que ponto?" 

Mas não freemos por aí. Aceleremos.

Eu tenho um salário S (fluxo de entrada) e preciso gastar G (fluxo de saída) para manter minha vida e de meus dependentes. Posso ter uma reserva E (estoque) que, a depender do volume, se retroalimenta (positivamente) com juros. Ambos (E, S e G) são variáveis ao longo do tempo. Atualmente, para muitos, sente-se que G varia (cresce) a uma taxa maior do que S, o que é fonte de muitas preocupações para muitos. Adicionalmente a isso, poucos podem formar E. A propaganda é responsável por fazer nós aumentarmos o nosso G (gastos, saída de recursos); Alguns vendem-nos a ideia de aumentarmos o nosso S (ganho de dinheiro), seja na forma da sorte (loterias, cassinos), do roubo legal ou ilegal, na busca pela "carreira certa"; ou variações do tipo. Mas trata-se de ilusões ou distorção de vocações. Porque pela lógica da sobrevivência ou vida de "sucesso" as pessoas se dispõem de abandonar aquilo que gostam para não correrem o risco de serem engolidos por esse simples balanço. Um jogo econômico que se reduz a uma finança. Esta se complica em milhares de normas e métodos, com taxas e serviços e bens e defesas jurídicas a perder de vista, para segurança das pessoas. E a propaganda se ocupa em inculcar nas mentes (via subconsciente) de que precisa-se de mais bens, mais serviços, mais movimentações, mais trocas,...qualquer coisa que faça seus recursos saírem de seu domínio para circularem no mercado. Diz-se que isso ajuda a economia, que por sua vez mantem a civilização em marcha de progresso.

Qualquer movimento para cessar a circulação econômica é uma ofensa para a forma-pensamento hodierna. Mas então vive-se uma ditadura virtual, na qual o mandamento é gastar em inutilidades para a sobrevivência da civilização. Quem não o fizer é posto de lado e, em casos se ameaça grave ao modo de vida, excluído do rebanho. Mas de que adianta injetar recursos e emoções em atividades  e bens que estagnam o espírito e mantem a matéria estática, confortável em seu baixo nível ondulatório? O universo caminha para a extinção da matéria e energia (isso a própria Física Moderna o comprova), que é a consequência da Lei da Entropia. Logo, quem crê em Deus tem um leve senso de que a verdadeira vida não está fincada na dimensão espaço ou tempo (espaço-tempo), mas tem uma sua manifestação nesse plano. Ela continua em outros planos, não mais físicos, e sim conceptuais, em que a consciência não é o ápice e sim a base de tudo - além há a superconsciência (intuição), a consciência místico-unitária, e além...Deve-se expandir sempre...

Em que ponto estamos?

Passaram-se 150 anos desde que a indústria começou a despontar. Todas melhoras se deram graças ao grito de muitos que, pressionando os poderes do mundo, possibilitaram que nós tivéssemos uma vida relativamente decente. Direitos (não regalias) sociais, humanos, fim da escravidão, justiça do trabalho, sistemas públicos de saúde e educação universais, de assistência social, sistemas de tributação progressivo,...todas essas conquistas são frutos da verdadeira civilização. Frutos que devem ser melhorados, mas não destruídos. A humanidade começa a perceber que deve justificar seu ímpeto de liberdade. Para ter tempo livre é preciso demonstrar saber usá-lo de forma minimamente construtiva, visando ascensão. Somente assim o povo terá força para dobrar o poder do mundo e melhorar as condições de vida. Nada é mais perigoso a um grupo de egoístas poderosos do que um povo munido de consciência. Um povo que atua em unidade, pela unidade, em direção à Unidade. Mas para essa (ainda) utopia se concretizar, há de se reformar o íntimo da natureza humana. Deve-se dialogar com o próprio espírito, aceitando-o.

De uma sociedade calcada na escravidão para outra apoiada na servidão e desta para uma forjada pelo trabalho assalariado. Muda-se na forma, mas a substância (o que move a sociedade) é a mesma: extrair de algo / alguém para satisfazer uma lógica que se julga essencial para construir e manter o atual modo de vida. Mas modos de vida são superados e o que morre renasce de forma mais bela, mais eficiente e mais transparente. Não adianta querermos ser chefes ou possuir os recursos. Isso trará infelicidade e débito perante o Alto. Devemos ansiar por acabar com a pirâmide ao invés de galgar degraus nela à custa de sofrimento alheio. Pirâmide conceitual que nos aprisiona. 

Consumo e emprego são dois lados de uma mesma moeda. Um reforça o outro. Consumo conspícuo e trabalho alienado é o que está corroendo o atual modo de vida. Saindo desesperadamente de um escritório cheio de pressões para gastarmos em ilusões num shopping reforça um ciclo que nos afunda num mar de perdição com possibilidades decrescentes de salvação. Esse é o caminho fácil. Trabalhar incessantemente em algo para fugir de realidades ou para esmagar alguém pode ser tão ou mais nocivo que explodir cidades - a depender do poder que se possui. O que era para ser uma celebração da vida, um meio de ascensão, o consumo consciente e o trabalho construtivo, o sistema atual converteu em consumo conspícuo e trabalho alienado. Nós, ao não percebermos isso, ao cedermos à preguiça e aos prazeres e à ausência de sentimentos, nos enterramos. Não! Não! Paremos de cavar nossa cova! Merecemos mais! Somos criaturas do Criador. Ele quer nosso bem e nos guia SEMPRE para nossa integração em seu SER. Basta sintonizar a nossa vontade com a vontade de Deus. 

Este é, em linhas gerais, o roteiro evolutivo a ser adotado por uma humanidade consciente. Os detalhes devem ser buscados por cada um. Aplicados os princípios começarão a surgir ideias. Entrar numa espiral de despertamento intensa, arrebatadora e sincera é o caminho para a gloriosa ascensão. Ascensão que trará uma percepção mais profunda da verdade. E com ela, uma libertação de amarras, tornando-nos aptos a construir o que o íntimo da alma coletiva anseia, desesperadamente: uma humanidade da qual valha a pena fazer parte. A humanidade do porvir. Tão próxima quanto a nossa vontade e ousadia orientada permitirem.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Exercício de Conjugação

A partir daqui irei ensaiar movimentos de unificação conceptual. Meu objetivo, como sempre, é simples: revelar os liames ocultos nas interdependências entre sub-grupos e grupos; entre indivíduos; entre correntes de pensamento; entre fenômenos. Fá-lo-ei a meu modo, buscando expressar aqui ideias cuja gênese se encontra em profundas experiências de vida. Vivências interiores, de maturações de forte intensidade. Anos de perseverança e disciplina (em alguns aspectos) que culminaram em resultados concretos, plasmando a minha personalidade, me libertando de diversas amarras conceptuais - e consequentemente até materiais - pelo simples fato de terem sido absorvidas no âmago de meu ser. Nada de novo. Nada que não tenha sido dito há milênios. Nada que alguns já devem ter concluído por conta própria. Nada de mais. No entanto cada experiência finita, contada por um finito, tem seu valor se dita de forma sincera, sem recorrer a estudos prévios ou se apoiar em intenções de forma. Deixo portanto aqui o produto de pensamentos da mente e sentimentos do coração, que fundidos numa única experiência e indivíduo tornam o relato mais simples e sintético e a prosa mais lógica e coesa.

Não é de se espantar que as transformações pelas quais a humanidade passa são de envergadura assombrosa. Jamais tanta informação foi gerada. E diversas tecnologias começam a beirar os limites assintóticos estabelecidos pela natureza física de seus componentes-base e fenômenos sob os quais operam e dependem. Sim, existem limites, mesmo para os sistemas humanos e seu avanço tecnológico. Sim, muitos especialistas ainda se negam a admitir isso. Mas esse caminhar progressivo para a especialização não é exatamente a diferenciação que Sua Voz aponta no volume A Grande Síntese

Especializar-se é saber mais detalhes de um campo cada vez mais estreito, tornando o indivíduo ou grupo apto a se tornar referência para questões concernentes à sua especialidade. Diferenciar-se é uma consequência evolutiva a que todos tendemos. Trata-se de destacar-se da média (da espécie) em termos de percepção (sensibilidade) dos fenômenos circunjacentes. Concebe-se a vida de forma completamente diversa da imensa maioria, que dita a norma do comportamento humano, ditando o que deve ser tratado como patologia - e como esta deve ser tratada. 

O fenômeno evolutivo não se restringe à questão da biologia material / orgânica sistematizada por Darwin. Esta é apenas um aspecto peculiar da mesma, relativo a um ponto de vista, que considera a realidade dos genes e do meio, sem incorporar a questão psíquica-espiritual. Por que digo isso? Com que autoridade? É o que sinto e nenhuma são as respostas. Melhor dizendo (para a 2ª pergunta): com a minha própria autoridade de ser que busca apreender um aspecto oculto da Realidade, mesmo que ainda não esteja em condições de sistematizá-la. Porque as teorias são relativas e progressivas no devenir universal, o que implica que elas vão se apequenando conforme o tempo passa. Isso é fato. Observemos com atenção o que isso implica.

Imaginemos o homem medieval comum. Sua concepção geométrica da Terra é um tabuleiro plano. Ou seja, chegando-se nas bordas (que ninguém sabia exatamente onde estava) você cairia num abismo. E ponto final. Isso era aceito por todos. Por que? "Ninguém desejava sofrer perseguições, torturas e morte - além de uma bela condenação ao fogo eterno do inferno - por ensaiar algo diferente, e difundi-lo". Essa é uma resposta lógica. Mas qual a raíz desse comportamento (medo)? A intuição responde: o grau de consciência da época. Esse é o fator-chave. 

Quando o ser é incapaz de conceber (num determinado momento histórico) um mundo diverso daquele que lhe foi apresentado pela família, pela sociedade e (especialmente) pelas instituições, aceita-se tudo. Não há nenhum problema nisso. De nada adianta abrir as janelas para um ser que (ainda) é cego, com o intuito de tornar claro o recinto. É preciso que este desenvolva antes a capacidade de enxergar. E isso só se faz por maturação interior. Experiência individual, própria. Assim a vida me mostrou. O conhecimento e cultura podem ser auxiliares bons, muito bons. Mas apenas a experiência profunda que impacta o espírito na medula será capaz de tornar o ser receptivo a uma nova concepção de mundo. Uma concepção mais vasta, que em nada ofende a anterior, mas antes justifica-a, revelando suas limitações, e apontando para o seu porvir. 

Já falei sobre isso de diversas formas nesse espaço. Do ponto de vista da Arte, da Filosofia, da Religião, da Ciência, da Sociedade, da Economia, da Justiça. Agora mostro um diagrama que apresentei à minha turma de Iniciação à Ciência dos Sistemas (ICS) na última semana de curso. 

Figura 1.
A figura sintetiza o fenômeno humano em diversos aspectos, desde o mais amplo e poderoso, dos gênios e santos, que inclui o que está fora do ciclo e vêm de outras regiões (visão), passando pelo ciclo que o homem médio de êxito executa em suas atividades (sistematizar - apresentar- implementar - constatar - re-sistematizar - ...), e baixando até níveis mais incompletos, fragmentos do conhecimento, que muitas pessoas fazem (apenas uma etapa do imenso fenômeno).

Conforme o grau de consciência conquistado, o ser é capaz de operar sua vida incorporando e dominando cada vez mais fenômenos, até se chegar ao ciclo completo. A partir daí, o único modo de evoluir é avançar para um nível super-humano. Do normal integralmente assimilado inicia-se a jornada para o supra-normal desconhecido. É o caminho dos gênios e dos santos, ápice da humanidade presente e passada. 

Vejamos com maior cuidado a Figura 1, esmiuçando e hierarquizando os fenômenos nela presente. Iniciemos pelo fenômeno inconcebível, o vértice do pensamento e da paixão, fundidas numa única visão.

Figura 2.

Intuir é vislumbrar. Sentir o porvir. Perceber aspectos mais profundos da realidade manifesta. Ter atingido tamanha maturação requer uma trajetória permeada de erros e dores, além de atos de superação, traduzidas por esforço e amor. É a experiência assimilada plenamente que forja os maiores indivíduos, antecipações evolutivas. O conhecimento monstruoso do gênio é apenas mera ferramenta que plasma a realidade tangível. Sua genialidade reside, no fundo, em outra dimensão...

Alan Turing e Pietro Ubaldi representam seres com essa capacidade de vislumbre fora do comum (Figura 2). Quem assistiu ao filme Enigma: O Jogo da Imitação irá compreender o porquê de ter colocado o Sr. Turing no rol dos grandes. Quanto ao Ubaldi, basta observar sua vida, transmitida em sua Obra.

Figura 3.
Descendo à sistematização continua-se o processo (Figura 3). Traduz-se o intraduzível da melhor forma possível. O resultado são as belíssimas sinfonias, os magníficos escritos, os inesquecíveis filmes, as revolucionárias teorias, as vidas fora de série que plasmam o mundo - cada vez mais. Aí é imprescindível o domínio da técnica e ciência. Deve-se ser forte no conhecimento para captar o que se intuiu. 

Uma pessoa pode ser excelente em termos de sistematizar conhecimentos preexistentes, melhorando coisas velhas. Mas pode não ter nenhuma sensibilidade (maturação evolutiva) para captar as correntes de pensamento que estão em dimensões além de seu concebível. O indivíduo desse tipo geralmente sempre terá seu lugar ao mundo, do qual poderá desfrutar de certas regalias. Mas jamais, nesse plano, com esse método horizontal (mesmo que intenso), poderá trazer algo verdadeiramente novo. Conceitos revolucionários. Superações biológicas. Alargamento efetivo de horizontes. Apenas uma operação eficiente. 

Figura 4.
Descendo à apresentação/implementação de uma teoria, ideia, estamos observando o aspecto de comunicação de massa do fenômeno (Figura 4). A sistematização tratava da comunicação fina, mais elaborada, intelectual; esta segunda trata de uma comunicação mais ampla, que visa inclusive aplicar o que se teorizou em algum sistema ou subsistema, seja este natural ou humano. Os resultados são apenas efeitos dessa implementação. Chegamos assim ao nível mais concreto, que é visível a todos, do mais evoluído ao mais involuído. Há seres (humanos) que possuem capacidade plena apenas de observar resultados exteriores, capturáveis pelos sentidos. Suas capacidades de implementar - mesmo que atividades simples - são reduzidas, esboçando apenas ensaios. O homem pré-histórico é um exemplo. 

Figura 5.
Os resultados tangíveis podem ser observados por qualquer um. Mas apenas aquele com algum senso de constatação já desenvolvido será capaz de iniciar um processo de reflexão sobre o mundo circunjacente. O fenômeno terá mais sentido e será mais justo quanto mais se compreende sua natureza, tornando o ser mais integrado ao cosmos. E igualmente, mais harmonizado com a Lei que se manifesta em inúmeras leis (físicas, químicas, biológicas, humanas,...). Estamos diante do fenômeno de constatação (Figura 5), aquele capaz de estabelecer uma ponte sólida entre o que observamos (fatos) e nossas teorias (sistematização). Dessa forma fecha-se o ciclo humano do mundo objetivo ou racional-analítico.

Dessa forma tem-se inserido no ciclo que se repete indefinidamente, de modo cada vez mais expandido, assemelhando-se a uma espiral, uma fonte que o anima. Essa fonte vem de outra região. Do super-concebível (infinito e eterno), que de tempos em tempos sempre enriquece o ciclo humano com elementos novos, assimilados através dos séculos com práticas e formulações que se repetem, das mais variadas formas, ao longo dos séculos e milênios e além, permeando vidas variadas, que bebem dessa fonte eterna sem o saberem. 

A partir daqui pretendo esmiuçar melhor o diagrama, tornando-o mais próximo da nossa realidade, que tanto sentimos - e pouquíssimo compreendemos.

Fá-lo-ei no próximo ensaio.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Herança espiritual - Herança genética

Tudo que era visto de uma forma passa a ser visto de outra. Isso ocorre para algumas pessoas no decorrer de sua vida. Mas entre uma (forma) e outra as diferenças, apesar de saltar aos sentidos e à mente, se reduzem a uma identidade substancial que logo é desmascarada pelo ser mais consciente, isto é, aquele que está em busca, num dinamismo indescritível que tensiona sua psique e seu organismo aos limites. Aquele que atingiu a sapiência (de verdade) percebe isso claramente, sendo desnecessário o ato de discernir - sua natureza já nota. 

Quando tudo que era visto de uma ou várias formas passa a ser visto não mais a partir de uma forma, e sim em seu aspecto substancial, a personalidade passa a demonstrar um dinamismo fora do comum, cujos efeitos devem ser encobertos a título do ser não ser ridicularizado pelo que passa a sentir de forma intensa. A concepção da vida muda completamente, tornando a pessoa livre de uma série de prisões conceptuais que outrora lhe demandavam tempo, energia, recursos e emoções. Uma miríade de disposição começa a deixar de vazar para os incontáveis turbilhões do mundo, que nascem, crescem e morrem, atraindo bilhões de almas, convidando-as a participar de um torvelinho de desespero, com prazo de validade. Um torvelinho atraente e ilusório em seu nascimento - fatigante e doloroso em seu término. E assim vidas se consomem. Vidas saltitantes e desesperadas. Vidas ocupadíssimas e preocupadíssimas. Vidas fragmentadas, constituídas por momentos fragmentados; por relações fragmentadas; por pensamentos fragmentados; por direitos e deveres fragmentados; por amor fragmentado...Uma vida que não é una, e sim múltipla. Uma vida constituída de multiplicidades que se enganam e se combatem em busca de uma supremacia sem sentido porque carente de humildade. Isso é o que aguarda o intelecto se este assim o desejar. Sua caminhada será limitada e cada vez mais triste, tendo como prioridade a satisfação dos instintos e somente isso. Enquanto isso outro plano já é sentido por alguns...

Dificilmente releio ou confiro um texto. Não estou produzindo edições elaboradas, com o intuito de envernizar o ambiente virtual ou destacar a imagem pessoal. Tampouco planeja sobre o quê e quando vou transmitir uma ideia que surge. O ímpeto martela certo dia - qualquer um. O tema pode vir a partir de uma observação, um desenvolver de ideias, um sentimento de desespero, uma constatação do passado que ressurge com ímpeto vulcânico porque se acasalou com outro acontecimento que o complementa. E assim gera-se sempre algo diverso. Uma repetição em vários aspectos, podem afirmar. Mas um repetir a partir de outro enfoque, ou ponto de vista. Um repetir em que o mesmo tema tratado como linha diretora passa a adquirir aspecto secundário, de apoio. Assim ocorre a progressão. Contínua, explosiva e cada vez mais funda no conceito. 

As vibrações características de cada estado psíquico-espiritual.
As ondas iniciam de forma quebrada, abrupta, caótica (Tama);
Passam a ser ordenadas e frequentes (Raja);
Chegam a períodos maiores e ficam menos intensas exteriormente (Sattva).
E no final, devemos nos livrar das três.
As férias surgem junto ao recesso escolar. São 45 dias estendidos ao longo de dias quentes de verão. O mundo descansa, se diverte, comemora. Reclama mas o faz por cultura de repetição. Chora as perdas por não conceber que nada se perde de fato. Se alegra por aquisições inúteis, em larga medida-  ou não tão úteis quanto se imagina. Planeja e re-planeja. Mas tudo programado se desvia ao longo da linha do tempo, se desviando por circunstâncias imprevisíveis, que exercem influência gravitacional forte. Dessa forma a vida caminha para o grosso da humanidade. 

45 dias totalmente livre de (muitas, mas não todas) obrigações do mundo representam 45 oportunidades para progredir interiormente. Tempo para voltar para si mesmo, buscando compreender o fenômeno evolutivo que nos arrasta a todos, cedo ou tarde, tenhamos ou não consciência dele. Tudo que é planejado não sai conforme esquematizado pelo simples fato de que quando fizemos nossos planos éramos uma pessoa. Hoje somos outra. E amanhã seremos ainda outra pessoa. Isto é, o decorrer do tempo traz consigo o desenvolvimento da personalidade. Para o tipo normal, de nível médio, que se sente relativamente confortável com a forma de vida que o mundo lhes apresenta, esse desenvolvimento é lento. Pode levar anos ou décadas para se superar um determinado aspecto. Mas ainda assim ocorre. Para o tipo anormal há dois casos: o infra-normal, no estágio tamásico [1], que não se planeja porque para o mesmo inexiste prazos maiores do que suas necessidades instintivas podem capturar (fome e sexo); e o supra-normal, que atingiu o nível sáttvico [2], e orienta a vida de forma diversa da média, se preocupando com qualidades mais do que quantidades. Esse é o tipo evoluído, antecipação biológica que o futuro reserva à humanidade. Quem não se preparar em fincar suas raízes no terreno do espírito será arrastado pelo furacão divino - a Lei - impiedosamente, levando todas as ilusões do mundo ao lugar que lhes é característico. Poucos ainda compreendem esses ditos. Para a imensa maioria, trata-se de divagações que visam mostrar um verniz cultural. Ou uma mera distração do autor, que senta diante da máquina por hobby - um momento agradável. Nem sequer se imagina quais as forças (e seu poder) que levam a despejar conceitos em formas de palavras. 

As próximas semanas começam a correr. Divide-se o tempo entre as obrigações do mundo, seja na forma de atividades cotidianas, lazer ou pesquisa (de doutorado), e as obrigações perante as leis da vida (evolução). Conquanto esta última devesse demandar todas as forças, o não cumprimento das outras pode trazer consequências terríveis. Dessa forma deve-se balancear. A Baghavad Gita esclarece que, por mais nobres e bem intencionadas sejam as ações do mundo (materiais), é a evolução (espírito) o cerne de toda vida. Logo, fazer o ético é condição necessária mas não suficiente. Devemos buscar a ascensão na verticalidade mística. Apenas quando a consciência for expandida teremos domínio sobre nossas vidas. Sem isso não passamos de marionetes. Pobres títeres nas mãos de nossos sentidos, de nossas mentes - e de outros indivíduos ou grupos. 

Todos temos as três gunas. Conforme nossa evolução, uma
possui mais influencia do que as outras. A finalidade é chegar
ao estágio em que Sattva domina Rajas que domina Tamas.
Logos guia Lúcifer.
Quando dispomos de sossego podemos iniciar trabalhos de envergadura inimaginável. Pela manhã li e refleti um pouco sobre Problemas do Futuro [3]. Relembrei os tempos turbulentos, quando me encontrava imerso em ambiente alienante e alienador, com todas as garantias da matéria (que nada vale) e todo desespero do espírito (que tudo significa). A primeira passagem por trechos que a alma ansiava compreender melhor. Ver através de palavras. Sentir através de harmonias prensadas no papel que a vida tem sim, um sentido muito superior àquele apontado pela sociedade e pelas instituições. Um sentido supremo, capaz de inspirar o mais miserável, o mais inerme, o mais pisado, o mais agredido, o mais desesperançoso. Um sentido tão potente que rasga a alma e a leva a forjar uma trajetória de desespero e esforço. Uma luta contínua. Uma busca progressiva pela compreensão dos porquês - e pela solução dos mesmos. Um sangrar e um ousar. Uma corrida que se torna cada vez mais veloz - e mais dolorosa, na mesma medida. Uma corrida que nos deixa cada vez mais apartado das adjacências - e mais próximos a uma fonte. Para quem chega ao limite, esse correr se torna vôo. Não físico. Nem mental. Vôo conceptual, do espírito. A Terra toca o Céu. O Céu toca a Terra. E instantaneamente aciona-se um jogo de engrenagens poderosíssimas, cuja dança é tão suave que as forças do mundo, com seu aparato midiático-jurídico-psicológico-econômico, não se sentem guiadas por esse supremo jogo de engrenagens do imponderável. Estamos na fronteira. No campo no qual as palavras se tornam impotentes para descrever tamanhas conquistas. Chega-se ao limite da racionalidade. Isso é conhecer profundamente a obra de Pietro Ubaldi. 

Ubaldi é classificado conforme o relativo que o "enquadra". Para uns ele é espírita; para outros um idiota; para outros um escritor; para outros um louco; para outros ainda um gênio; e por ai vai. Descrições inúmeras para descrever um fenômeno que não pode ser descrito. A descrição é algo estático. A ascese mística é algo dinâmico. Muitos o confundem por seguirem rumores ou fazerem leituras superficiais. Mas algumas palavras do professor da Umbria podem abrir algumas fendas:

"A finalidade da vida do autor, como acima ficou dito, não é de nenhuma maneira o estudo dos fenômenos mediúnicos, e o espiritismo lhe interessa relativamente. Sua vida é missão, e seu escopo não é a experimentação espiritista, mas sim a evangélica; não é a indagação do além-túmulo, mas a ascensão espiritual. O grande problema é a conquista da felicidade, e o que transforma tudo em nós, para o bem e a alegria, não é o além-túmulo, mas sim a evolução, a catarse da vida, elevando-nos do plano animal humano ao super-humano. O que importa é a sublimação, sem o que tudo permanece cego, inferior, doloroso, seja aqui ou acolá. E o mediunismo de efeitos físicos ocupa-se bem pouco da sublimação; visa problemas particulares, realmente secundários em relação ao problema de apresentar, na atual e tremenda hora histórica, cada vez melhor contribuição para a salvação do mundo." [3] (grifos meus)

8º livro de Ubaldi. Solução dos
últimos problemas científicos,
 psicológicos e filosóficos. 
Independentemente das circunstâncias, registra-se o que se vive. Vive-se o Evangelho.

"Ainda que haja sofrimento, é preciso escrever; extenuado ou doente, mesmo assim é preciso escrever. Pode faltar de tudo, mas escreve-se; se os interesses materiais estão a caminho da derrocada e os involuídos roubam tudo não importa, escreve-se; se a casa cai e o mundo explode ou está perto do fim não importa, escreve-se até ao último suspiro. É necessária uma vida concentrada toda em um ponto: registrar esse pensamento que nasce dentro de clarões, de turbilhões, como um furacão que grita, canta, arrebata e atordoa. Registrar tudo, nos mínimos detalhes, quer na potencialidade como na doçura, seja como conceito seja como paixão. Abandonando-se ao irresistível, deve-se muitas vezes exprimir o inexprimível, sem, contudo, deixar de permanecer na forma." [3] (grifos meus)

E a sensação do leitor, ávido por uma finalidade suprema, que dê sentido à sua existência, é ímpar:

"Parece então ao leitor tornar a ouvir a sua própria voz, clara e engrandecida, tão perfeita é a sintonia dada pela mesma lei da vida que a todos anima. Há uma aproximação com aquele que lê, um retorno de alma para alma, que pela sintonia e convicção que se seguem, reforça-se em admiração, gratidão, simpatia e amizade.[3] (grifos meus)

Os conceitos mais profundos da vida foram revelados de forma magistral por um ser fora de série. Abandonar a herança que lhe era devida (mais de 300 milhões de reais), garantindo uma vida confortável e de domínio sobre seu semelhante, para cumprir integralmente a lei do Evangelho, e registrar tudo, captando os conceitos mais elevados independentemente do que seu eu individual queria, é ato de suprema vontade. Evolução é a lei. 

Para atingir a imortalidade devemos antes saber o que ela é.
(não se trata de estender algo caducável...)
Depois, buscá-la com todas nossas capacidade.
Sobre hereditariedade chegou-se a uma visão revolucionária, capaz de resolver os últimos problemas da humanidade em termos coletivos. Há quatro fatores que influenciam o ser. Esses fatores constituem a personalidade e exercem diferenciados graus de influência conforme o grau de maturação. São eles: a herança genética do pai (1) e da mãe (2); o meio em que se nasce e vive (3) e o espírito ou consciência (4). A mentalidade hodierna reconhece os três primeiros. Mas com isso é incapaz de explicar fenômenos que ocorrem diante de nossos olhos. Ubaldi nos traz esse quarto elemento - o mais importante e único sobrevivente à degradação física - enquadrando-o na ordem do mundo, sem desmontá-la. Quanto maior o grau de consciência maior a influência do fator espiritual. O meio físico e cultural (sociedade, família) pouco irá ditar o comportamento desse ser, que deverá seguir o ímpeto interior. É interessante constatar isso no mundo em que vivemos. 

Podemos observar as pessoas a todo momento. Reservar uma parcela de nossa atenção para constatar - e assim comprovar essas leis mais profundas, que atuam de forma mais discreta e potente. E assim conectar a teoria com os fatos da vida cotidiana. Eu venho o fazendo há mais de 15 anos, de forma cada vez mais consciente. Não há como provar nada aqui. Apenas posso recomendar ao leitor como comprovar essa lei que tudo rege, onipresente, onisciente e onipotente. Cabe à pessoa fazer seus registros. Perceber e sentir. Sofrer - porque inevitavelmente isso irá ocorrer - e usar a dor para impulsionar sua ascensão. Despertar. Despertar...

Somos herdeiros de nós mesmos. Filhos de nós mesmos. Herdeiros espirituais daquilo que fizemos em nosso passado, guiados por intenções diversas. Esse é o fator mais potente. Conquanto a herança genética possa influir pesadamente em nossas vidas, isto o é apenas pelo fato de que muitos nesse planeta ainda possuem um grau de consciência extremamente baixo, impedindo que a força do espírito possa dominar e enquadrar as forças da matéria (mundo) adjacentes, submetendo-as a finalidade superior.

Com uma cruz podemos simbolizar os fatores. Na parte inferior, o meio; nos dois lados, os genes dos pais; e no topo, o espírito, indestrutível e íntegro. Dessa forma passa-se a uma ideia mais ampla de herança, que rasga os limites desesperadores de nosso mundo, estendendo o conceito de hereditariedade, tornando-a não apenas coletiva (espécie), mas psíquica (individual), que se plasma. Desdobrar essa ideia, desenvolvendo-a até chegarmos ao campo prático do cotidiano, trará revelações verdadeiramente surpreendentes para quem assim o desejar. 

Terminar de ler esse (pobre) texto e não refletir sobre os conceitos é perda de tempo.

Refletir poderá levá-lo a redefinir conceitos, trazendo coragem para aplicar princípios na vida do dia a dia.

É assim que a evolução funciona: por experimentação.

Referências e comentários:
[1] Ver as três gunas descritas na Baghavad Gita
[2] Idem
[3] 8º livro da Obra de Pietro Ubaldi, 1947

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Relatividade Vertical Relatividade Horizontal (RVRH)

Tudo dentro dos limites de nosso Universo é relativo, inclusive o próprio tempo e espaço. As concepções que temos da vida, do cosmos, do nosso mundo, é igualmente relativa. Matéria, Energia e Conceito (ou espírito) são três aspectos da mesma e única substância - eterna e íntegra. Daí por simples lógica racional podemos concluir que, sendo Deus por definição Absoluto, - e tudo que conhecemos, restrito ao nosso concebível, seja tangível ou intangível - há uma realidade que supera a nossa. E engloba-a, pois os relativos (plural) estão obrigatoriamente, por férrea lógica, enquadrados na ordem do Absoluto (singular). Esse princípio, simples e reto, se desdobrado gradativamente, por vias sinceras e orientadas, levar-nos-à a perceber o quão próxima de nossa vida cotidiana está o mundo abstrato. A essência divina anima a multiplicidade fenomênica de modo sublime. Com Amor, vértice da sabedoria. E assim tudo é direcionado a um ponto final, situado além do concebível. Cume da evolução, em que inexiste movimento tal qual o conhecemos, e onde os relativos o são de outra forma, fora de nosso concebível. 

Sendo tudo relativo, podemos nos perguntar se esse fato não justifica a aceitação de todas ideias, atitudes e atos, contanto que o praticante seja inteligentemente capaz de convencer uma maioria (numérica ou de poder) de seus projetos e visões de mundo. O que implica que deveríamos observar todas formas de coerção de grupos, indivíduos e ideias como algo bom (sob um ponto de vista) e ruim (sob outro). Essa visão tende a ser absorvida pela mente imersa no relativo do pensamento racional, cuja própria natureza está condicionada a absorver de corpo e alma essa lógica. Trata-se de uma armadilha forjada por quem se sente (no momento) muito confortável no atual plano de existência, para garantir seu domínio sobre as demais mentes. Mas o problema é que a posição atual é volátil. A qualquer momento perde-se um cargo, uma confiança, um domínio, uma vida. Sendo assim a armadilha é para todos, inclusive para aquele que julga aplicá-la aos outros. A diferença é que ele só perceberá isso depois, num prazo maior, quando muito mal tiver sido lançado, - para outros. E por isso ter-se-á acumulado débitos incontáveis - para si mesmo. 

A relatividade pode ser vista sob um prisma puramente racional. Nesse caso denomino-a como relatividade horizontal. O que isso quer dizer? Vejamos o raciocínio desenvolvido até aqui. 

Se eu faço um mal a alguém visando obter um ganho imediato, esse ato tende a ser visto como um bem por mim. E do ponto de vista de quem o sofre, o mesmo ato foi algo mal. Logo o mesmo ato contém em si dois pontos de vista completamente diversos. Pois bem, isso para um instante de tempo, logo após a ocorrência do evento. Vamos estender o período de tempo em semanas, meses, anos e décadas, e observar como isso impactou o caminho de cada uma das partes, a depender de suas atitudes. 

Aquele que sofreu o revés, profundamente abalado, está desolado. Sente uma chama interior que não para de queimar - e não tem ninguém para o comunicar. O outro, indiferente ao fato, insensível aos outros seres, nem sequer percebe como o outro foi afetado, continuando sua vida da forma como a concebe, julgando a como certa e definitiva. Ou seja, julga ser absoluto sua concepção de vida, e portanto estática, parada no tempo. No entanto, se existe tempo, obrigatoriamente existe um devenir (vir-a-ser), ao qual todas as criaturas do AS* devem obedecer, alinhando o fluxo de sua vida alinhado ao fluxo universal. As ideias começam a surgir enquanto escrevo. Não é possível planejar ou sistematizar. Os esquemas travam os canais da inspiração. O conforto adormece as capacidades psíquicas. A segurança ilude, se plasmando em insegurança abissal tão logo estejamos bem adormecidos e dependentes. 

Diagrama gráfico que explica o fenômeno da Queda.
O desenvolvimento dos personagens é ditado pelo modo como manejam a fatalidade passada que sofreram e carregam até sua exaustão. Durante esse ínterim, que pode durar anos, décadas ou mais, percebemos o drama de quem possui fé ardente. Sempre tentado a recorrer aos métodos convencionais, à todo vapor, na mínima brecha que surgir, o evoluído se debate interiormente, buscando no bem soluções para o que vê como insolúvel. Mas superado os tormentos pontuais e intermitentes, pode-se conduzir a vida de forma diversa, pautada por uma fé inabalável que supra o espírito nos momentos de desespero máximo. Com isso começa-se a aplicar o livre-arbítrio dentro das fronteiras férreas do momento. Os efeitos disso só serão visíveis e sentidos após um tempo. 

O personagem que sofreu aprendeu (e muito) sobre a natureza humana. Isso o levou a novas criações. Essa forja de atitudes e produção de conceitos nunca antes imaginados o insere numa espiral diversa, não compreendida pelo mundo...Esse segredo, esse ímpeto interior, esse trabalho silencioso começa a tangenciar suas atividades do mundo concreto, influenciando o modo como o ser ensina, busca, pesquisa, escuta, enfrenta o mundo e se lança ao desafio do esforço contínuo. O passado se esvanece. O futuro se agiganta. A vida se expande. As possibilidades se multiplicam. A luz se irradia -  silenciosamente...

E o outro? Continua sua trajetória, indiferente aos outros. Agindo igual, pela força, seja ela física, econômica ou psicológica. E assim vence as batalhas dos momentos. Temporárias e efêmeras. A insensibilidade continua. A personalidade se recusa a mudar, pavorosa de adquirir sensibilidade para com as outras vidas e os outros fenômenos. E assim muitos seguem, tornando-se fortes como aquele que praticou o método do esmagamento. O número de quem segue essa lógica aumenta e a intensidade e métodos se tornam mais sagazes, com ações mais maquiadas e golpes mais cirúrgicos. A vida transforma-se num inferno crescente para aqueles que vivem e adoram esse nível de existência. Estamos diante de verdadeiras armadilhas, vulcões que explodem impiedosamente e despejam suas lavas com precisão e intensidade. Afunda-se julgando safar-se.

Assim os dois personagens constroem seus destinos, com reação interior, positiva, de quem sofreu o golpe; e negativa de quem o aplica de formas variadas, insensível a tudo que não lhe diz respeito imediato. 

No curto prazo, para fenômenos de superfície (eventos), reconhece-se apenas a relatividade horizontal. Isto é, uma relatividade de níveis evolutivos semelhantes. A diferença entre dois biótipos que operam na base do do ut des (dê me algo para que eu te dê algo) reside apenas na forma. Na essência pratica-se o mesmo mal. Observando assim ,percebemos que todas formas de organização humana estão na relatividade horizontal: há divisão de religiões, de partidos, de culturas, de nacionalidades, entre casais, de visões de mundo, de áreas do saber,...Geralmente eles se combatem. Se disputa-se algo em comum, quanto maior a proximidade, maior a ameaça, e portanto maior os esquemas de agressão. Terrenos não-comuns são ignorados. E propagandeia-se que não se agride por ser bondoso - mas no fundo apenas deixa-se em paz porque não há interesses envolvidos. Grandes esquemas esses da mente luciférica!

A relatividade vertical é algo diverso, apesar de também se tratar de algo diferente. Podemos diferenciá-la da outra em termos de dinamismo e orientação.

A relatividade horizontal (RH) é:
  • Entre dois relativos estáticos, que se consideram absoluto - ou algo próximo a isso;
  • Atacada de forma externa, usando os métodos consolidados no subconsciente da média;
  • Vista como algo fixo, que sempre será desconectado de algumas realidades - e conectado a outras.
  • Racional-instintiva
A relatividade vertical (RV) é:
  • Dinâmica para quem está acima, mergulhando em si mesmo ao invés de atacar quem golpeia de baixo;
  • Esperançosa, uma vez que revela que existe um telefinalismo global e local;
  • Intuitiva-racional
A primeira (RH) diferencia ruidosamente (egoisticamente) com base na superfície. A segunda (RV) diferencia silenciosamente (reflexivamente) com base na substância. Assim o homem percebe que a fera está com plena razão em seu nível evolutivo, dilacerando suas vítimas para se satisfazer; e o super-homem (místico, gênio, santo, herói) percebe que o homem está com plena razão no seu nível evolutivo, desejando conforto e segurança, mesmo que tenha de deixar certos tesouros de longo prazo para depois. Há assim um continuum por todos níveis evolutivos. Estendo assim o conceito de relativismo para a verticalidade dinâmica da substância, tornando a horizontalidade estática da forma mais tolerável. E indicando que esta também muda, aos poucos, sem se dar conta do fenômeno.

Pode-se sentir o palpitar da vida em cada gota de sofrimento. Já sabemos aqui que a evolução se dá por avanços e recuos oscilantes, numa espiral que se abre gradativamente **. Se num período de queda geral (de valores e princípios) mantém-se orientado para o Alto, na qualidade, quando este vier o ser já estará corretamente orientado, sendo o impulso ascensional uma libertação. Para aqueles que seguiram a tendência geral (queda), se refugiando na quantidade, as forças da Lei que puxarão  todos, indiferentemente, novamente para um novo ciclo de ascensão, serão sentidas dolorosamente, ao grau máximo. A retomada será lenta. A assimilação, sofrida. Eis o verdadeiro poder, situado no imponderável, expressado na forma de amor divino. 

A partir daí as almas em evolução podem esboçar uma série de perguntas. Uma delas: alguém num nível acima em relação a um plano de existência (RV) será visto/enfrentado por outro no mesmo plano com base numa RH? Sim. No entanto, à medida que se sobe de plano, a RH é cada vez melhor compreendida, e assim suas limitações e armadilhas decorrentes são mais transparentes e aceitas - apesar de ainda existirem nas mentes. A vida vai se tornando mais clara. Tudo se orienta. Escuta-se o canto divino da vida através dos múltiplos acontecimentos. Percebe-se não apenas eventos, mas comportamentos. E não se para aí: vê-se a estrutura do todo. E com isso podemos começar a nos perguntar, sinceramente, qual é a gênese deste universo físico. Será ela a primeira e original?

Ou há uma criação diversa? Situada no inconcebível...

Referências e comentários

* AS: Anti-Sistema. Para mais detalhes estudar os volumes O Sistema, Deus e Universo e Queda e Salvação (P. Ubaldi)

**http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/08/emborcamento-do-rumo-natural.html

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O Cineasta do Evangelho

Existem cineastas que fazem de sua profissão algo único. Elevam suas obras (e sua arte) aos píncaros, fazendo transbordar aspectos universais da vida. O amor humano de um casal, em sua forma masculina e feminina, levado ao limite, fazendo-o se identificar com o amor divino [1]. As histórias iniciam de forma simples, inocente. O espectador é capturado pelos personagens. Seus olhares. Seus ânimos. Seus sonhos verbalizado como planos - que acabam por sofrer desvios abruptos devido às forças do destino, geralmente indesejadas e temidas. Todos aspectos essenciais da vida - aqueles que interessam - vistos de forma cristalina, causando emoção sem necessidade de artificialismos. É pela simplicidade dos sentimentos que se obtêm um ponto de apoio poderoso, capaz de provocar lágrimas de emoção e estado de inspiração.

Conheci o cinema de Frank Capra em minha juventude, nos anos de faculdade. Esse cineasta italiano naturalizado norte-americano conseguiu invocar o espírito do Evangelho em suas obras, sem necessidade de recair em citações religiosas. Ele consegui expor elegantemente a antítese entre as aparências superficiais e a realidade profunda, construindo personagens únicos, dotados de todas as qualidades humanas: vícios e virtudes. E com isso, mostrar, sem descrições, mas com cenas sublimes de amor, esforço e busca infinita num mundo finito, qual é a finalidade da vida. E com isso, qual o biotipo do porvir...
A Mulher faz o Homem (1939).
[Mr. Smith Goes to Washington]

Os filmes de Capra tem algumas características que os tornam interessantes: 
  • O elenco é, em grande parte, o mesmo;
  • O roteiro é bem escrito, leve e balanceia profundidade com capilaridade;
  • Os personagens transmitem o espírito da obra;
  • As músicas inspiram.
James Stewart, o eterno bom moço, sempre faz o papel do mocinho. Seu olhar, sua fisionomia, seus gestos e tom de voz denunciam sua natureza inocente. Em A Mulher faz o Homem (1939) vemos essa bondade imensa se deparando frente à frente com a realidade do senado norte-americano - que muitos aqui no Brasil julgam ser imaculado... - e tendo sua ideia de nação dilacerada a cada golpe. As forças da vida o levaram até lá, e as mesmas irão gerar o ímpeto em prosseguir em sua busca até o final. Há uma clara denúncia do mecanismo que governa as mentes daqueles que possuem o poder. O grande cineasta já falava o que muitos começam a perceber hoje, em pleno século XXI: que o poder privado, de grandes magnatas da imprensa, das finanças e da indústria, dita o comportamento do congresso, do senado, do poder executivo. Nesse filme fica claro quem está nos bastidores das grandes decisões políticas - e como é feito o controle e a maquiagem de políticas (anti-)públicas.

A Felicidade não se Compra (1946)
A Felicidade não se Compra (1946) marca o cume da expressão evangélica dentro da trajetória cinematográfica de Capra. Com esse filme o realizador e sua equipe atingem, juntos, o ápice em todos aspectos. Através de duas vidas que se fundem nós vemos o desdobramento do destino - forjado pela natureza das personalidades que o compartilham. Sentimos o drama dos personagens, suas alegrias, o porquê de suas atitudes. Sentimos na alma o desespero e o esforço na luta por um ideal, interessados em saber o que irá ocorrer. Aqueles em busca de uma realidade mais plena e sincera encontrarão neste filme um elogio ao amor, que possui razões que a própria razão desconhece. Somos arrastados pelo vendaval das circunstâncias e pelo ímpeto dos personagens. Não chorar é dificílimo; não ser tocado, impossível. Para os espíritos com sensibilidade, capta-se a vibração da vida, que se expressa ora furiosamente, através de George (Stewart), ou sutilmente, através de sua esposa, Mary (Donna Reed).

Mas o mais impressionante no filme-mor de Capra é como se revela a mecânica do milagre [2], cuja lógica é completamente desconhecida por nosso mundo, com sua mentalidade dual. A construção do miraculoso se dá sutilmente. Observemos a natureza de seu personagem principal. Sua trajetória (história), sua intenção (boa) e ousadia (inteligente) são ímpares em seu meio. Seu pai tem princípios e vida reta. A casa de sua família é um ambiente de liberdade e simboliza a fartura do equilíbrio. Nada falta, nem nada é desperdiçado. O mais adquire característica de qualidade, não de quantidade., sendo forjado através de uma construção sólida de amor, sinceridade e ímpeto pelo ideal. O menos é representado por se possuir condições e não impedir o mal de se difundir. Esses elementos começam a permear os olhos do espectador, preenchendo seu coração, que bate as portas de sua mente, fazendo-o ter um apoio, uma fé, no que pode ocorrer. Estamos diante das causas do milagres.

Outras obras tratam igualmente de questões orientadas para uma melhor humanidade. Gary Cooper em O Galante Sr. Deeds (1936) revela outro aspecto humano, menor mas essencial: a incompreensão da simplicidade da vida. Um homem, do nada, herda 20 milhões de dólares (uma verdadeira fortuna na época!) e passa a ser sondado por diversas criaturas da noite para o dia. Isso não o interessa. Percebe-se como a configuração muda em função do que se possui. O que se pensa, como se vê o mundo pouco interessa - a não ser que a mídia possa tirar algum proveito disso. Assim o Senhor Deeds percebe, após uma breve estadia na grande cidade.

Os finais dos filmes de Frank Capra revelam uma vontade ardente de materialização da utopia. São impossíveis, alguém pode afirmar. No entanto já são uma realidade na alma do cineasta - e na de seus espectadores mais ansiosos por se lançar na conquista de uma realidade biológica superior. Os filmes revelam uma vontade íntima, universal, potente, escondida na psique de cada ser humano. Uma vontade que bate incessantemente em nossos corações. Ora sai de nossas bocas na forma de discursos potentes; prosa sublime, harmonias angelicais; teorias transformadoras; atitudes ousadas; ações irrefreáveis; amor infinito; busca infinita num mundo finito...

Referências e comentários:
[1] A Felicidade não se Compra (1946)
[2] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/09/mecanica-do-milagre.html

Vídeos:








domingo, 3 de dezembro de 2017

O Cinema (assim como toda a Arte) serve para Despertar

Tudo é justo se compreendermos a essência da vida. Os fenômenos, à medida que são assimilados definitivamente pela mente (razão / consciente) e enraizados na natureza humana (instintos / subconsciente), passam a influir em nossos gestos, olhares, decisões e atitudes cotidianas. Essa consolidação íntima, que pode ser atingida por vários caminhos, se desdobra numa vida mais autônoma. Autônoma porque consciente. Consciente porque orientada. Conhece-se melhor a dinâmica do Universo. Sente-se mais intensamente as palavras proferidas pelos Místicos, Profetas, Heróis e Gênios de outrora - e de agora, ainda não reconhecidos. Busca-se de forma mais orientada aquilo que realmente interessa.

Frank Capra (1897-1991). Cineasta italiano
naturalizado norte-americano. Se imortalizou com obras como
"A Felicidade não se Compra" (1946);
"A Mulher faz o Homem" (1939) e
"Do Mundo nada Se Leva" (1935)". 
O objetivo da vida, muitos dizem, é ser feliz. Atingir um estado de satisfação interior, em miúdos. Mas essa felicidade, em nosso mundo, é buscada através dos métodos do mundo. Esses métodos são produtos da mentalidade predominante, calcada na razão e bom senso - que diga-se de passagem, são extremamente importantes e fatores-chave para o progresso humano nos últimos séculos. Os resultados vem. E vão - com a mesma rapidez com que vieram. E esse "ir embora" não é externo, apesar desse "obter / atingir" é produto de ações exteriores, concretas, baseada em ensinamentos e referências deste mundo. E então inicia-se a reflexão: obter por vias exteriores uma satisfação interior é realmente o caminho? Toda minha vida consistiu em compreender a fenomenologia universal que rege nossa ascensão oscilante e dolorida ao longo da exaustiva jornada tortuosa das existências sucessivas. Não apenas a minha: a de todo mundo. Quer as pessoas tenham consciência disso ou não. A afirmativa pode soar arrogante, mas eu, para manter o equilíbrio universal perante as forças da vida, igualmente aceito o risco e desdobro a afirmativa. Desdobro-a através de minha vida, numa constante batalha pela compreensão das dores e pela superação de minha animalidade, que está pronta a lançar todas suas garras tão logo eu me disponha a olhar para o alto e abandonar velhos hábitos. Esta sim é a maior batalha da vida. Batalha que supera os limites do Universo, ocorrendo no e além do espaço-tempo.

Existem vários caminhos para superar a natureza inferior. Cada um trilha o seu. Mas todos, se percorridos e assimilados, levam ao mesmo destino supremo. É aí, nesse ponto, vértice da sinceridade e da seriedade, que atinge-se a felicidade permanente, não-fragmentada, não-degradável. Blindada pela couraça mais forte. Desconhecida pelo intelecto humano. Dinâmica espiritualmente. Verdadeira. Mas sua busca inicia-se não por fora, mas por dentro, reino de sentimentos e pensamentos desconhecidos e indomados...

Woody Allen (1935). Consegue falar sobre questões
profundas da vida de forma cômica. É um caso
interessante. A liberdade dada à equipe, como tem
suas ideias para os roteiros, como filma...tudo revela
um estilo seu.
Tudo na vida acaba servindo para um propósito - mesmo que não tenhamos noção clara disso. Alguns tem vaga intuição do porquê continuam fazendo algo, seja um projeto, um estudo, uma pesquisa, uma relação, um modo de agir, de pensar, de sentir, etc. Da mesma forma, todas coisas do mundo tem uma função, que deve ser usada da melhor forma possível para despertar a consciência. O que está latente deve se tornar manifesto, e assim se materializar em atitudes potentes e orientadas, elevando a vida do explorador do universo interior. Como exemplo eu gostaria de falar sobre o Cinema (o verdadeiro!), que tanto marca minha trajetória, me inspirando nos momentos de busca de ideias; aquietando nos momentos de desespero e raiva; e intensificando minha capacidade de relacionar fenômenos e sentir o palpitar das forças da vida. Não me refiro nem ao cinema puramente intelectual, repleto de jargões e técnicas da alta cultura, nem ao cinema comercial, totalmente voltado para entretenimento e diversão. Aponto para um Cinema que eleva a alma. Seja através do drama da vida, manifestado em tragédia ou comédia; pelo suspense da expectativa; pela  ação orientada para fins globais maiores, mais duradouros; ou pela fusão entre realidade e ficção, que combinadas tornam a História mais viva e transformável. E o desejo da Utopia mais lancinante. Através de uma ordenação - por vezes caótica, mas com orientação suprema - de imagens, sons, gestos, música, atitudes e atos, a alma se fascina, chora, imagina, reflete, sente e sai da sala escura diferente de como entrou. Repensa-se a vida e observa-se o mundo diversamente. Pode-se rir e divertir, mas com significado que vai além do mero ato de satisfazer os instintos. 

"A Vida dos Outros" (2007). Impressionante.
Cada cena, cada plano possui um significado.
Desperdício zero - emoção máxima. 
A Arte possui uma importância ímpar. Seu papel é essencial para a ascensão da humanidade e suas instituições. Sem ela ficaríamos nus perante o abismo dos miúdos desafios, que se apresentam dia-a-dia, e dos supremos, que tanto nos desesperam. Mas não basta ter acesso a ela. Não basta compreendê-la analiticamente. Não basta estar cheio de informações e relacioná-las coerentemente. Não basta difundi-la sem impulso. Sem ímpeto interior. Sem explosões metafísicas. Precisamos de tudo isso sim. Mas há um quid  que faz toda diferença. Trata-se de sentir o transformismo que rege todo nível de existência, desde o físico até o metafísico. E de deixá-lo invadir sua alma, inundando seus mais íntimos segredos, desnudando-os; abalando furiosamente seu sistema de crenças e valores; fascinando de dentro para fora. Usar-se do mundo para elevá-lo. O seu e o outro.

Quanto maior o grau de seletividade atingido, melhor. Mas antes de se chegar nesse estado, é preciso ter visto muito - por vezes coisas ruins, que pouco dizem mas muito perturbam (os sentidos) e desviam (a mente) do que realmente interessa. Elevar-se através da experiência cinematográfica não é simplesmente ser um cinéfilo. É capturar a essência mística. Já falei disso de forma explosiva alhures [1]. Não se repassa. Transmite-se de forma própria, intensa, a mensagem subliminar da obra. Seu misticismo, que por vezes nem sequer o realizador percebeu enquanto materializava a película - mas os Grandes cineastas sempre sabem o que estão fazendo, e porque o fazem.

Minha vida deve muito à Sétima Arte. Ouso afirmar que poucos fizeram um uso tão potente de algo tão abstrato para forjar um destino tão diverso. Quando a pessoa aprende a "ler" naturalmente as nuances dos fenômenos, é tocada pelo significado mais profundo de cada acontecimento. O simbolizado se revela mais em sua luminosidade intensa. O símbolo se torna mais transparente, desnecessário. O resultado prático é que perde-se menos tempo com o que antes nos prendia. Vamos direto à essência das coisas, não nos atendo à multiplicidade dos fatos e suas embromações, mas captando, num relance, a substância daquilo, universalizando significados.

Matrix (1999). Filme que revela a Grande Batalha metafísica
que se passa entre os conscientes e os poderosos. Evangelho
e Gita evidente e presente em cada cena -
se vista com olhar espiritual.
Esse aspecto do meu caminhar (cinema) se enquadra num plano geral, inicialmente desconhecido, que vai se revelando à medida que a vida avança, com os acontecimentos se desdobrando de forma cada vez mais lógica, com um sentido que antes era inexistente. Aos 13~14 anos comecei a assistir filmes com outro enfoque. Algo havia despertado em mim. Aquilo simplesmente me agradava. Muito (é claro) se deveu à influência familiar. Especialmente a paterna. E assim fui progredindo. Inicialmente eu era um espectador cult, normal, que percebia aspectos identificáveis a qualquer cinéfilo. Mas isso estava destinado a se tornar algo a mais.

Á medida que a minha personalidade progredia, não apenas em maturação física-intelectual (exterior), mas sobretudo espiritual (interior), o que antes era um refugio agradável passou a ser um meio de sutilização do espírito, através de experiências sensoriais que traziam em si um significado muito mais forte do que sensações. Tratava-se de uma manifestação do infinito por meio de um finito. O não-dito, oculto através do dito, passou a ser percebido. Cada vez mais rapidamente. Facilmente. Naturalmente. Assim entrei numa nova fase, na qual a seletividade passou a predominar sobre minhas escolhas. E não apenas uma seleção qualquer, mas uma com orientação. Isso apenas é percebido após o período de transformação ter se consumado, deixando um rastro em seu passado, revelando a diferença enorme entre o antes e o depois. A substância se sutilizou....

Sendo assim, a Arte vale apenas na medida em que ela pode transformar o ser humano, tornando-o melhor para si - e para os outros, incluindo todo ecossistema. Ela possui uma função suprema, poética e sublime, que todo grande artista, seja cineasta, pintor, escritor, músico, arquiteto, dramaturgo ou escultor, deve ter em seu coração e exprimir através de suas mãos e voz. 


Referências e observações

[1] Para compreender (e talvez sentir) o que quero transmitir, recomendo a leitura e reflexão profunda dos seguintes ensaios:

- http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/06/matrix-uma-visao-mistico-cosmica.html
- http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/10/v-em-busca-da-verdadeira-unidade.html
- http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/10/quando-vida-dos-outros-muda-sua-vida-e.html
- http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/09/a-felicidade-nao-se-compra.html
- http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/07/os-miseraveis-queda-e-salvacao.html
- http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/04/o-melhor-da-juventude-la-meglio-gioventu.html
- http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2016/08/ben-hur-e-natureza-cristica-subjacente.html
- http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2016/01/enigma-o-jogo-da-imitacao.html