quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Isabel: 1ª Temporada

O cinema espanhol do século XXI nos brindou diversas produções fantásticas - e sobretudo, importantes para compreendermos a complexidade das relações humanas e do mecanismo de funcionamento da estrutura de poder. E no mundo das séries, esse país da península ibérica fincou algo que jamais será esquecido. Se trata da série Isabel, sobre a ascensão e reinado da rainha de Castela (Castilla, na língua original), o reino mais importante dentre os quatro que formarão futuramente o que conhecemos como a Espanha moderna: Granada, Castela, Aragão e Navarra, os reinos independentes na época.

Isabel, fervorosamente católica - muito mais que a Igreja,
o que lhe valeu o título.
Com treze episódios por temporada, três temporadas, cada episódio, com cerca de 70 minutos cada, traz a intensidade, a violência, a ousadia, os acordos, a selvageria, o amor e a grandiloquência de uma época muito especial da História. Tudo que se passa aconteceu e é retratado da forma mais fiel possível, passando ao espectador a sensação de estar vivenciando os dramas, passo-a-passo, da princesa Isabel e seus colegas mais próximos (além de inimigos ferozes). Há muitas emoções nessa série. Série que não tem medo de mostrar a violência, as traições, as reviravoltas e atos de coragem guiados por intuições. Tudo na dose certa, no momento certo, com os personagens apropriados.

Graças a um elenco de primeira, o espectador se depara com uma verdadeira lição sobre atitudes e atos da vida - e de brinde, uma aula de História sobre o reinado que iria alçar aquele pequeno país ao topo da hierarquia do poder global, unificando-se sob a égide de uma mulher, desenvolvendo-se e financiando a expedição que iria levar à descoberta (e ocupação) das Américas pelos europeus.

A temporada 1 começa com o anúncio da morte do rei Henrique IV, irmão mais velho de Isabel. Num ato de ousadia inteligente, a princesa, ao invés de aguardar a comissão que iria se reunir para decidir quem governaria o reino de Castela: Juana, a (suposta) filha de Henrique com Joana de Avis, ou Isabel). Essa indecisão permear todos os episódios da 1ª temporada - e a seguir, tomada uma decisão de uma parte, a conflagração de um conflito que colocaria o reino de Castela e Aragão à beira da extinção.

Apesar das muitas narrativas minuciosas, alguns detalhes são apenas sugeridos, como por exemplo de quem seria a paternidade de Juana. Era sabido que Henrique IV fora casado por 12 anos antes de se unir com Joana de Avis (irmã do rei de Portugal, João II), e desse primeiro matrimônio não resultou nenhum descendente. Com Joana não foi muito diferente, o que levou o rei a ser conhecido como Henrique, o impotente. Mas sua impotência fatal não seria exatamente devido a problemas biológicos.

Isabel e Fernando: a aliança que viria a formar o reino
unificado da Espanha - e torná-la a maior superpotência
do mundo por muito tempo.
O irmão mais velho de Isabel era inconstante além da saudável flexibilidade exigida para a diplomacia e a manutenção de seguidores fiéis. Mudava de planos e demorava a tomar decisões. Não era resoluto. Era contra a guerra, na maior parte das vezes, sim. Mas isso não impediu conflitos sanguinários. E à medida que a série avança o espectador se dá conta do quão fraco era o reinado do rei - que acabava sendo dominado pelos interesses de poderosos nobres e clérigos, o que nos leva aos dois grandes personagens sedentos de poder: Carrillo, Arcebispo de Toledo, e seu sobrinho Pacheco, Marquês de Vilhena, o grande vilão da história.

Carrillo é mais ponderado que seu sobrinho, porém determinado e intenso como Pacheco em suas reviravoltas e esquemas. Pacheco é mais vil, mais odioso e investe todas suas forças para conseguir o que deseja. Esses dois sustentam o poder atrás dos bastidores. Possuem exércitos, influencias poderosas, riquezas, lábia, astúcia (muita astúcia) e seguidores. Um rei que cumpre apenas o elementar se torna manipulável na mão de personagens dessa estirpe. 

No início da 1ª temporada vemos uma Isabel determinada, ao lado de Gonzalo Chacón, seu preceptor e homem de confiança, ser coroada rainha de Castela, em 14 de dezembro de 1474. Logo a seguir o espectador é arremessado alguns anos antes, quando a grande rainha era apenas uma princesa relativamente inexperiente, aparentemente frágil e longe de assumir o cargo. 

O que se segue é uma jornada permeada de esquemas, traições (por todos), reviravoltas (por parte dos poderosos) e indecisões (por parte dos governantes). É dificílimo não se envolver. A trama é envolvente, apaixonante. Quando Fernando, Príncipe de Aragão e Rei da Sicília, conhece Isabel, com quem deve se casar, vemos como a química do casal se dá de forma muito poética. Os atores Michelle Jenner (Isabela) e Rodolfo Sancho (Fernando), magníficos em seus papéis, conseguem transmitir a intensidade da relação íntima dos dois monarcas. Vemos que há espaço para tudo, exceto a indiferença. 

A determinação lhe salvou de
todas ofensivas, caracterizando
um milagre
A trilha sonora é uma maravilha à parte. Potente nos momentos de tensão; melódica nos intervalos de contração dos nervos e reflexão dos personagens; intermitente durante os momentos de suspense, banhados de indecisão e incerteza. O figurino é fiel à História. Existe um quadro muito famoso que retrata a tomada de Granada por Isabel e Fernando, quando o monarca da cidade - o último muçulmano a controlar terras em domínio europeu - entrega a chave da cidade para o casal. A cena traz o quadro à vida. E todo desenvolvimento das duas temporadas dá significado ao evento. Isso é o que caracteriza uma verdadeira narrativa audiovisual! Trazer para o âmago daquele que assiste a sensação de viver naquela época. Assistindo Isabel, nos tornamos mais realistas sobre a natureza humana. Os problemas da vida pessoal de um casal se mesclam às suas responsabilidades como governantes de seus reinos. O que já era complicado de lidar isoladamente se torna exponencialmente mais vívido. 

Passados treze episódios, o mosaico vai se formando e tudo fica claro. A primeira cena ganha significado e já percebe-se que a próxima temporada virá com toda força, cheia de tensão, arquitetada por um dos mais poderosos inimigos da rainha. Mas não irei falar mais. Somente assistir poderá dar a visão.

Há muito a dizer sobre essa bela obra cinematográfica. Mas antes de tudo, parabenizo toda a equipe, que soube melhor como ninguém expressar as misérias e glórias de uma época, de um povo - e do ser humano. A melhor série que vi até o momento - e dificilmente alguma irá usurpar seu lugar tão cedo.

A trilha sonora de Federico Jusid é uma jóia à parte (ouça abaixo).


Link interessante|:

quarta-feira, 29 de julho de 2020

A tartaruga vencerá

A fábula da tartaruga e da lebre é muito interessante. Com a mesma profundidade das parábolas de Jesus Cristo, ela traz em si elementos que nos permitem chegar a uma visão cada vez mais profunda da vida. E com isso, perceber aspectos muito interessantes em nosso mundo moderno. Para isso, é preciso saber usá-la como ponto de partida - uma origem, que contém em si os princípios que devem preencher as multiplicidades da vida, seja no campo da biologia, das ciências físicas, da tecnologia, da sociedade, da economia, das artes.

Quem persiste e se orienta, vence tudo e todos.
Todos conhecemos a história: uma lebre e uma tartaruga disputam uma corrida ao longo do campo; os animais estão reunidos por toda a longa pista; a lebre vê o oponente e se tranquiliza, pois sabe que ninguém a vence no terreno da agilidade - muito menos uma tartaruga. Esta, por sua vez, não expressa nenhuma emoção de desânimo ou de alegria: apenas se concentra na disputa. E no final das contas, contra todas as expectativas do bom senso, vence.

O que ocorreu? Por quê? Como? São perguntas que a lebre expressa ao ver a sua lenta colega cruzar a linha de chegada antes de suas ágeis e longas pernas. Ela estava incrédula. E não compreende. Não compreende porque só enxerga o quesito velocidade: é mil vezes mais veloz, mais ágil e elegante nos movimentos. Mas existem outros fatores que não apenas o mais visível - que podem levar à vitória definitiva...

A lebre tinha certeza de que venceria. De fato, não há páreo para suas pernas. Com pouco esforço ainda venceria com folga. Com pouquíssimo ainda, pensou. E talvez, nem precisasse se preocupar com a corrida.

O apito da largada soa e um vendaval faz uma nuvem de poeira se erguer diante da tartaruga. Em poucos segundos o ser de orelhas grandes completa  grande parte do circuito. A tartaruga cansada e desengonçada camela pela áspera superfície. Cada curva contornada é uma vitória - pois ela se cansa muito devido ao seu casco pesado. Ela não se desespera. Apenas corre (à seu jeito).

A lebre decide parar e brincar, tão convencida aparenta estar. Quer mais do que uma vitória. Deseja mostrar o quão mais veloz (superior) é à tartaruga.

Num mundo em que a velocidade, a agilidade de resposta e o movimento ditam a hierarquia do ser, quem está nos píncaros do movimento se sente senhor de tudo. Mas nem só de movimento se constrói a grandeza de um ser.

Existem ritmos sutis que se manifestam de surpresa, nos momentos menos esperados. Os senhores do mundo exterior pasmam.  Quem se exaltou se torna humilhado por forças que transcendem sua compreensão. E quem se humilhou é agraciado com a bênção da salvação.

Exaltar-se é crer na invulnerabilidade individual. É colocar as aparências acima da essência. É alimentar o que constantemente caduca - e ignorar o que incessantemente se revigora. É matar o espírito (sua possibilidade de ascensão) em prol de um momento a mais de gozo da matéria (características  atávicas acumuladas por milênios).

Humilhar-se é reverenciar o mistério e servir o que não se toca. É dar um salto de fé, munido de razão, no desconhecido. É alimentar o que jaz em potencial e um dia irá nascer - e domar o que está manifesto, usando as características mundanas como servo.

Quem se colocar acima da Lei será atingido por ela,
pois a Lei é Deus em Seu aspecto Justiça.

Quem se alinhar com a Lei será impulsionado por ela,
pois a Lei é Deus em Seu aspecto Justiça.

A Lei é simples, apesar de profunda. Simples porque não exige um cerebralismo intenso. Profunda porque só se revela para aqueles que sabem enxergar - e só funciona para quem, além disso, harmonicamente alinha suas qualidades humanas (horizontalidade ética) com sua substância divina (vertical mística).

A lebre acumula e celebra vitórias no relativo - por isso cairá.
A tartaruga absorve derrotas no relativo - por isso vencerá.

Porque acumular vitórias superficiais, que logo exigem novas vitórias para sustentar a imagem, é o caminho para o desgaste e a perdição. Ao passo que absorver derrotas devida a seus "defeitos" é sinal de maturação interior que demonstra aprendizado através da vida.

Trata-se de ser escravo ou livre. Para ser livre é preciso enxergar a realidade. Por isso Cristo certa vez disse "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará".
 
É preciso fracassar várias vezes para vencer de verdade. Pois é o acúmulo da experiência que forja o ser - e a assimilação delas esculpe o anjo. Num mundo tão insensato quanto este, a derrota é verdadeira bênção; o desprezo é sinal de grandeza; a fraqueza é força; e o negativo é oportunidade de revelar seres transformadores, que dinamizam a matéria corporal; direcionam o dinamismo vital; orientam o conhecimento intelectual; e mistificam o saber.

A tartaruga não é ninja. Ela é apenas o que é. Mas sabe o que é - e se alinha à sua natureza. A lebre caiu na armadilha de sua beleza, agilidade e grandeza. Vaidosa e convencida, terminou perdida.

Há criaturas que possuem defeitos (aos nossos olhos) para que as grandezas divinas se manifestem através delas.

Mas isso já foi dito de forma muito mais profunda e elegante por Cristo, há dois mil anos.

Para quem não conhece, aí vai o desenho.

domingo, 12 de julho de 2020

Estimulando, orientando e...semeando.

Depois disso Jesus ia passando pelas cidades e povoados proclamando as boas novas do Reino de Deus. Os Doze estavam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, de quem haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, administrador da casa de Herodes; Susana e muitas outras. Essas mulheres ajudavam a sustentá-los com os seus bens.

Reunindo-se uma grande multidão e vindo a Jesus gente de várias cidades, ele contou esta parábola: “O semeador saiu a semear. Enquanto lançava a semente, parte dela caiu à beira do caminho; foi pisada, e as aves do céu a comeram. Parte dela caiu sobre pedras e, quando germinou, as plantas secaram, porque não havia umidade. Outra parte caiu entre espinhos, que cresceram com ela e sufocaram as plantas. Outra ainda caiu em boa terra. Cresceu e deu boa colheita, a cem por um”.

Tendo dito isso, exclamou: “Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!”
Seus discípulos perguntaram-lhe o que significava aquela parábola. 10 Ele disse: “A vocês foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino de Deus, mas aos outros falo por parábolas, para que
“‘vendo, não vejam; e ouvindo, não entendam’[a].

11 “Este é o significado da parábola: A semente é a palavra de Deus. 12 As que caíram à beira do caminho são os que ouvem, e então vem o Diabo e tira a palavra do seu coração, para que não creiam e não sejam salvos. 13 As que caíram sobre as pedras são os que recebem a palavra com alegria quando a ouvem, mas não têm raiz. Crêem durante algum tempo, mas desistem na hora da provação. 14 As que caíram entre espinhos são os que ouvem, mas, ao seguirem seu caminho, são sufocados pelas preocupações, pelas riquezas e pelos prazeres desta vida, e não amadurecem. 15 Mas as que caíram em boa terra são os que, com coração bom e generoso, ouvem a palavra, a retêm e dão fruto, com perseverança.

Lucas 8: 5-8 


As parábolas que Cristo propagava por toda palestina eram o início de um processo. Esse processo é a difusão da mais elevada compreensão de Deus e do significado da vida de todas criaturas na Terra (e em todo universo). Eram símbolos que apontavam para um simbolizado (nas palavras de Huberto Rohden). Como se sabe, o símbolo (concreto, mas ilusório e efêmero) apenas representa o simbolizado (abstrato, porém real e eterno). Ele dá uma ideia do que é seu objeto de representação. E por que, afinal de contas, falar em parábolas?

O ser humano tem uma capacidade de assimilação proporcional ao seu grau de consciência. O mesmo podemos dizer de sua capacidade (se é que tem) de filtragem, de relacionar, de refletir e vislumbrar.

Filtrar informações - separar o joio do trigo;
Relacionar fatos e conhecimentos - estabelecer rudimentos do pensamento sistêmico;
Refletir sobre questões e 'verdades' afirmadas - exercer o amor ao conhecimento;
Vislumbrar mundos possíveis, desejáveis e iminentes - intuir verdades mais vastas.

Não podemos esperar que alguém (ou algo) assimile determinada coisa - seja essa coisa informação, saber, alimento, energia, etc. - a não ser que hajam os mecanismos competentes para realizar essa assimilação. Uma planta possui células aptas a transformar matéria inorgânica em matéria orgânica, utilizando a radiação solar, sua conexão com a terra e condições especiais de solo, água a atmosfera (inserida em todos ciclos biogeoquímicos, do Nitrogênio, Carbono, Oxigênio e Água). Um animal carnívoro (um Leão) possui um organismo apto para a ingestão de outros animais. Seus instintos são fortíssimos e influenciam muito mais do que sua psique sensória, mas chegam até ao nível genético, influenciando nas especificidades de assimilação dos tecidos e órgãos. E nós, humanos, também somos limitados em nossas capacidade de assimilação - de alimentos, de quantidades, de informação, de compreensão, de sentimento, e além. 

Tomando o espectro humano como base de comparação, as diferenças são enormes entre os extremos. E o gênero humano, em especial a espécie Homo sapiens, é infinitamente mais complexa do que todas as outras deste planeta. Não em termos de desenvolvimento orgânico, mas no âmbito do psiquismo. É no reino do subjetivismo que nos destacamos de todas outras espécies. Fomos (e somos) capazes de desenvolver comunicação em forma de linguagem (escrita), e gerar especificidades. Os símbolos. Construímos um mundo metafísico para nos protegermos do mundo físico. Eis ai o primeiro exemplo do abstrato influenciando no concreto. 

O planejamento foi uma necessidade da Revolução Agrícola. Esta veio com a domesticação de espécies. Do planejamento nasce uma economia rudimentar (não a moderna, com suas teorias); as cidades, e com elas a necessidade de uma nova forma de organização. O comércio demanda comunicação. A vantagem (ganho pessoal, egoísmo mais restrito) clama por habilidades comunicativas (retórica), força (exército), controle (leis). Ao mesmo tempo, nasce uma forma mais elevada de arte. As religiões começam a se desprender do animismo e adentrar o politeísmo: inicialmente antropomórfico (egípcios, indianos) e após humano (gregos e romanos). Depois, no monoteísmo. E mais à frente, o monismo.

Mas não estou aqui para desenvolver essa longa trajetória. 

O ponto é mostrar que a única comunicação possível entre quem vê mais e quem vê menos é usar como referência o máximo daquele que menos pode (e vê). 

Quanto mais próximo do Real o conteúdo transmitido, mais abstrato para a mente. Quanto mais abstrato, menos atraente. Quanto menos atraente, menos assimilável. Eis a necessidade de se falar em parábolas. Jesus compreendia perfeitamente a limitação de seu semelhante. Não seria possível ao Cristo, naquela época (ou mesmo hoje, século XXI) explicar de fato como era o Reino de Deus. Imperioso era reduzir o conteúdo.

O oceano não cabe num copo. Se tentar colocar-se mais no volume do pequenino, ele transborda - e tudo que cai fora é desperdício!

Somos pequenos copos, com ligeiras variações de formas e capacidades, vagando pela vastidão de um oceano de substância formidável, que contem a base para todas transformações efetivas e feitos miraculosos

A parábola do semeador, portanto, deve ser interpretada de modo não-literal (assim como todas as outras). Caso contrário cairemos no erro fatal de construirmos toda uma forma de vida emborcada, praticando de modo errôneo os mais altos ensinamentos difundidos por Cristo.


Vamos à parábola do semeador.

“O semeador saiu a semear. Enquanto lançava a semente, parte dela caiu à beira do caminho; foi pisada, e as aves do céu a comeram.

O semeador é o sábio. Em seu ápice evolutivo, Cristo. À medida que passa seu ensinamento, pela palavra e pelos atos, muitas pessoas tem contato com ele. Aqueles que não reconhecem nada de especial nas palavras, passam por cima delas, pisando (ignorando) e os aproveitadores fazem uso dela para benefício próprio (aves do céu);

Parte dela caiu sobre pedras e, quando germinou, as plantas secaram, porque não havia umidade. 

Há lugares aptos a uma recepção do diferente. Mas mal a palavra é recebida, já principia-se a esquecê-la. O desenrolar dos dias, semanas e meses levam a um esquecimento gradativo do grande ensinamento propagado. O impulso inicial não gerou uma propulsão permanente, capaz de acelerar o ritmo evolutivo das subjetividades. Assim o receptor do tipo possui condições necessárias, mas não suficientes, para a realização do Reino de Deus.

Outra parte caiu entre espinhos, que cresceram com ela e sufocaram as plantas. 

A palavra que pousa em terreno espinhoso não se torna ação concreta. São pessoas cujas vidas estão em completa antítese com a realização dos ensinamentos. À medida que a esfera das necessidades elementares (fome e reprodução) esbarra com a esfera das tendências superiores (evolução), esta é sufocada pela primeira - pois o reino do mundo é o da conservação do indivíduo e da espécie. O conflito surge com a expansão das naturezas: enquanto o instinto não estiver explícito e a palavra não incomodá-lo, não há sufocamento do ideal. Mas a partir do momento em que o céu toca a terra, e a terra toca o céu, há choques, terremotos, furacões e conflito. Se os lados persistem, a tendência é uma guerra de proporções épicas. Eis o que representou a descida de Cristo ao mundo!

Outra ainda caiu em boa terra. Cresceu e deu boa colheita, a cem por um”.

Boa terra é a pessoa receptiva aos ensinamentos elevados. É aquele que vê significado profundo nas palavras - por mais que todos de seu meio a desprezem. É aquele que anseia por uma outra realidade. Um outro modo de fazer as coisas. É aquele que persevera no mundo. Sofre, chora, sangra e se renova constantemente. Além de morrer e renascer (fenômeno automático), aniquila e ressurge (fenômeno de consciência).

Somos assimiladores! Devemos nos tornar o solo fértil receptivo às sementes que irão se transformar em majestosas plantações. Podemos semear um pouco que já temos assimilado, sim. Mas somo em larga medida assimiladores. Temos muito mais a aprender do que a ensinar.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

É chegado o tempo de uma esquerda monista

Monismo 
Monismo (do grego μόνος mónos, "sozinho, único") é aquilo que atribui unidade ou singularidade (em grego: μόνος) a um conceito, por exemplo, à existência. Em geral, é o nome dado às teorias filosóficas que defendem a unidade da realidade como um todo (em metafísica) ou a existência de um único tipo de substância ontológica, como a identidade entre mente e corpo (em filosofia da mente) por oposição ao dualismo ou ao pluralismo, à afirmação de realidades separadas.

Esquerda
No espectro político, a esquerda se caracteriza pela defesa de uma maior igualdade social. Normalmente, envolve uma preocupação com os cidadãos que são considerados em desvantagem em relação aos outros e uma suposição de que há desigualdades injustificadas que devem ser reduzidas ou abolidas.

Os termos "direita" e "esquerda" foram criados durante a Revolução Francesa (1789–1799), e referiam-se ao lugar onde políticos se sentavam no parlamento francês, os que estavam sentados à direita da cadeira do presidente parlamentar foram amplamente favoráveis ao Ancien Régime.
Fonte(s): 
[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Monismo
[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Esquerda_(pol%C3%ADtica) 

(grifos meus)

A visão linear da realidade é muito cômoda para a consciência racional-analítica. De um extremo a outro há uma gradação contínua e suave que vai incrementando (ou decrementando) determinadas características. O problema é que, no geral, essas características - que são muitas e frequentemente conflitantes - são vistas de forma diferente pelas pessoas. Mas cada indivíduo ordena o conjunto de características de modo que a gradação geral, à medida que se percorre a linha de um extremo a outro, exiba um comportamento geral que permita perceber a gradação de forma muito clara. Esses arranjos devem ser feitos para que a pessoa consiga se colocar num determinado ponto dessa régua (mundo 1D) de modo coerente.

Dou um exemplo.

Suponhamos que haja um indivíduo que se autointitule de direita, e outro, de esquerda. Há diversas temáticas do campo político, social e econômico que irão ativar as respectivas sensibilidades desses seres quando se trata de formação de opinião. Tributação, representatividade, legislação, regulação, funções (do Estado, do mercado), desenvolvimento, ciência, tecnologia, diplomacia, educação, priorização de políticas públicas, cultura, etc. Todos esses temas são abordados a partir do posicionamento do indivíduo nessa escala. Interpretados conforme sua posição. Trata-se do sistema de crenças e valores, que influencia na forma mental, que por sua vez irá interpretar (o que inclui filtrar e contextualizar) tendências e eventos. Estes dizem respeito a acontecimentos pontuais no tempo, que saltam aos olhos de todos; aqueles apontam para o comportamento de algo (uma variável) ao longo de um período, revelando certos padrões para a mente humana (diga-se, para a mente racional). A questão central é: toda nossa estrutura psíquica é moldada pelo nosso íntimo, situado no inconsciente, que se abraça a uma determinada visão de mundo. Essa visão será tanto mais virtuosa quanto maior sua capacidade de assimilar elementos altamente diferenciados e, por conseguinte, lidar com conflitos intensos - o que caracteriza um fenômeno complexo.

Queremos vencer mas não sabemos jogar.
Os problemas, observados sob uma ótica mais vasta, se tornam mais compreensíveis. Por conseguinte, maiores são as possibilidades de encontrar soluções. Enxergar mais é saber mais. Saber mais leva a maior inspiração para agir de forma cirúrgica. É preciso ver para fazer. Caso contrário, todas ações serão mera reprodução da forma mental atual - limitada, que caminha em trajetórias circulares. Para escapar dessa armadilha é preciso imprimir uma força que afaste o ser do ponto que o atrai para a ignorância, isto é, mister criar um impulso centrífugo. Se encararmos a circunferência, percorrida perpetuamente (repetição de atos) como um mundo unidimensional - tal qual a linha infinita que no entanto é limitada pela sua pobreza dimensional (universo 1D) - podemos ver esse impulso como uma ascensão para o reino bidimensional. Por que? Porque é preciso um plano (universo 2D) para que se perceba a expansão da trajetória, agora capaz de englobar uma região maior numa única revolução.

Estendamos esse conceito ainda mais para nos maravilharmos com a potência desse pensamento tão simples e sintético.

A questão agora é posicionar o nosso julgamento na questão de expansão da consciência: o que ocorre com o sistema mental de classificação 1D (em linha reta) ao expandir-se a consciência dos fenômenos humanos?

A personalidade se torna mais vasta. O peso que dá às facticidades se torna menor. Isso leva a uma interpretação mais branda dos acontecimentos mundanos. O que colima em menos pensamentos e avaliações mais refletidas. A partir de um ponto, vai-se além: as reflexões transmudam para visão, e sente-se a marcha da história, e o sentimento dos seres, no íntimo, se torna evidente, tornando-se claras as intenções - mesmo que encobertas por uma série de malabarismos verbais, intelectuais e jurídicos. Isso abre o campo das possibilidades. As experiências do mundo concreto - relativamente duras, aparentemente longas e profundamente dolorosas - servem de base para penetrar-se com a mente e o sentimento no reino do incognoscível. O abstrato se torna mais próximo, sensível - levando o ideal a um patamar ainda mais elevado. Assimila-se esse novo concreto (outrora abstrato, intangível, inassimilável) com o consciente, até que, após longas experiências de compreensão (via repetições, pensamentos, discussões, choques, hábitos...trabalho enfim), essa nova realidade fica sedimentada no imo do ser. A partir daí ela faz parte de nosso ser. Está no subconsciente. Os instintos se coadunam com esse novo aspecto da realidade e as nossas atitudes e ações são agora automáticas. Isso implica em instantaneidade e precisão. Eis o mecanismo que explica o gênio, que naturalmente age no campo em que o talento deve suar e lamentar. Neo, no filme Matrix, quando desperta para a realidade profunda, age sem se esforçar e vence sem o desejar o agente Smith. 

Liberdade responsável = poder.
No reino do esforço e dedicação há exemplares trabalhos e magistrais sacadas. Mas é apenas no universo da naturalidade e da espontaneidade que nos encantamos com os milagres da superação.

Foi preciso desenvolver todo esse pensamento - obtido por inspiração - para adentrar no tema tratado por esse ensaio. Era necessário consolidar os fundamentos para avançar efetivamente com aqueles(as) interessados(as).

Vamos lá.

Voltando ao início, defino monismo e esquerda (no sentido político). O primeiro é, dito de forma simples, observar a essência de todas as multiplicidades fenomênicas como originárias de um mesmo ponto comum, ou substância. Em contraposição, o dualismo crê e advoga em origens distintas dos fenômenos do mundo tangível e cognoscível.

A segunda é uma postura no campo do reino humano (ideias) que defende uma transformação do mundo - quanto mais radical, mais profunda essa transformação. Em contraposição, a direita seria (também) uma postura no âmbito humano que defende uma consolidação daquilo que se reconhece coletivamente, pelo tipo humano médio, como melhor. 

Para quem acompanha esse blog e percebe a essência dele, existe uma forte evidência de que o monismo é um estado de consciência (você pode chamar de modelo) que pode ir além do dualismo. Por que? Porque ele não o nega, mas engloba-o e oferece algo a mais. De forma rápida e precisa, podemos dizer que,

O dualismo teme a unificação, mas o monismo não. 
O dualismo afirma a segregação, mas o monismo o compreende.

O dualismo analisa freneticamente, e o monismo também - mas refletidamente.
O dualismo precisa de um adversário exterior - o monismo possui um interior.

Percebe? Um está contido no outro no campo conceptual, de modo que um é mais do que o outro - qualitativamente.

Não se trata aqui de construir uma hierarquia a partir de uma escala quantitativa, mas de ordenar (para o bem de tudo e de todos) o eixo central do fenômeno evolutivo a partir de uma ótica mais abrangente. Ordenar qualitativamente. Já se falou sobre essa relatividade diversa  alhures [1].
E sobre a questão da esquerda e da direita? O que há a ser revelado? Será que existe algo semelhante ocorrendo aí? Isto é, uma perspectiva seja mais abrangente do que a outra?

Para nos endereçarmos adequadamente a essa questão é preciso recorrer ao evolucionismo.

Tanto do ponto de vista material quanto espiritual (teosofia, espiritismo e correntes afins), a evolução é a lei imperante em nosso universo. Dificilmente alguém tem estofo intelectual, empírico ou mesmo moral para negar isso. A realidade da transformação das formas é evidente - assim como a plasticidade psíquica, atingindo as esferas do espírito. Isso Darwin e Kardec (mas não apenas eles) já abordaram, lançando a pedra fundamental. 

Quando a Esquerda, em sua essência, se identifica a uma corrente que deseja impor mudanças por julgar o mundo muito longe do possível - e do ideal - há uma dose inegável de verdade aí. Ressoa no íntimo do ser humano um desprezo pelo modo como as coisas são praticadas nos dias atuais. Tanto mais animalesco parece quanto maior o grau de sensibilidade psíquico-nervosa o ser adquiriu. No entanto, há uma outra questão aí, que é a seguinte: no conjunto, nosso mundo é vil e o ser evoluído sofre muito para manifestar suas ideias e viver de acordo com sua consciência, mas ao mesmo tempo esse mundo (vil) possui um conjunto de conquistas que viabilizam a esse mesmo ser realizar pequenas conquistas. Esses meios úteis se mesclam a uma lógica desordenada (amoral) e desorientada (ateia). De modo que, ao destruir por completo o sistema presente, destroem-se os meios para superá-lo. 

É uma escalada que muito exige.
A partir daí vemos que existe uma necessidade de conservação - e que o campo da direita defende, mesmo sem a intenção, ferramentas importantes para uma esquerda que seja verdadeiramente evolutiva. 

Após vivenciar, observar e constatar por mais de duas décadas, posso com segurança sintetizar a questão:

A direita está para a conservação - dos costumes, da mentalidade, das práticas.
A esquerda está para a transformação - dos costumes, da mentalidade, das práticas.

Mas se existem coisas que são eternamente belas no imaginário humano (ex.: o trabalho que engrandece a alma) e ninguém explicitamente ataca, o que seria exatamente essa transformação construtiva? (se não quisermos vê-la como destruição) Para resolver esse problema devemos atacar o ponto nevrálgico: a concepção que possuímos das coisas.

O trabalho se torna mais psíquico a medida que a espécie (e o ser) evolui. O que outrora era visto como digno e estimulante (esforço braçal repetitivo) se torna degradante e inútil. Ocupa o lugar a mente que calcula, comunica e maquina esquemas. Continuando a usar como meio o mundo físico, o centro de gravidade, gênese e finalidade das ações, se translada para a mente. E com a evolução do ser, passa a outros âmbitos. Assim se vai do físico e repetitivo para o intelectual e sistematizador; e deste para o consciente e criador; e além...o místico e visionário, verdadeiro vivenciador. 

Percebe? Estamos numa escalada cada vez mais íngreme, em que para dar o próximo passo é necessário adquirir ferramentas mais poderosas (traduzindo, se apropriar de perspectivas mais vastas).

Então conclui-se que é preciso transformar, mas para isso é vital se possuir a acuidade de um exímio cirurgião. Pois há elementos fundamentais que não podem ser desmontados no processo. Às vezes esses elementos estão jungidos com as intenções mais vis possíveis, que desejam manter o estado das coisas, reproduzindo o paradigma hodierno ad infinitum - o que levará ao fim da espécie.

Por outro lado, quem deseja conservar tudo (direita), mesmo que com motivos às vezes nobres, aponta para a imobilidade. Imobilidade (ou repetibilidade) num mundo que não aceita a paralisia evolutiva, na vertical. Isto é, que deseja sempre se superar, criando novas sensibilidades que colimam em novas perspectivas que possibilitam novos modelos mentais que edificam novas estruturas (sistemas), gerando um novo mundo.

Dessa forma, há de se colocar um outro eixo na régua esquerda-direira. Esse eixo estaria preocupado com a intensidade e a precisão com que as multiplicidades de aspectos são enfrentados. Há uma hierarquia qualitativa a ser visualizada neste mundo. Se isso não for feito corre-se o risco de se realizar uma transformação que retroceda. Daí o motivo das revoluções (Francesa e Russa, em especial, mas outras igualmente) terem causado horror e ao mesmo tempo terem sido úteis para o progresso da manutenção dos costumes. Por outro lado, como Ubaldi já percebeu, simplesmente levantar a bandeira de justiça social (URSS) força o campo que não a considera prioridade (EUA e Europa Ocidental)  uma grande preocupação. Assim a brutalidade explosiva da Rússia serviu de meio para que o ocidente, mantendo seu tão estimado dinamismo econômico, incorporasse ao mesmo os princípios de justiça social, o que gerou um dos melhores mundos para se viver até então.

Há muitos aspectos a serem considerados. Mas tudo aponta para evolução. Por que? Porque está é o único meio para se obter a salvação.

Queda --> Evolução --> Salvação

De modo que a esquerda, em sua intenção, se alinha ao evolucionismo do universo. O problema é que ela ainda não aprendeu como se alinhar de forma a cativar os seres. É preciso encantar, fascinar, envolver...Ela se tornou refém das próprias instituições que outrora ajudou a criar - e hoje são de domínio da direita. Por esse motivo - como Alysson Mascaro muito bem descreve - a direita pode xingar à torta e à direita todas as instituições e permanecer no controle da situação, enquanto a esquerda, defendendo-as, apenas garante que a direita continue no domínio. 

Alysson Leandro Barbate Mascaro. 
Perceba: uma está no conforto e portanto pode apelar à vontade (porque tem o poder); a outra está sempre no desespero, periclitante, vacilante, porque vê o espírito da coisa onde reside apenas um cadáver que não mais atende as necessidades do ser humano - ao menos em sua forma atual. 

As instituições que precisam nascer são de caráter completamente diverso daquelas que estão em operação, de modo que apenas um abalo profundo será capaz de vibrar a estrutura íntima da psique humana, entrando em ressonância com a mesma, que irá responder, amplificando seu campo de consciência. O direito não salva porque ele é ferramenta de uma ideologia (do capital); a democracia não salva porque ela se moldou a partir dos parâmetros da ideologia dominante (capitalismo), sendo adequada a uma manutenção dos negócios. A direita tem por escopo justamente essa manutenção. A esquerda que existe, mesmo não a desejando, acaba por fazer o jogo, porque se situa no campo do dualismo. Ela discretiza e complica. Ela pondera e calcula - tal qual a direita. Mas esse campo de ponderação, cálculo e complicação é inerentemente da direita, de modo que a esquerda, ao adentrar nesse reino, acabe fazendo o serviço daqueles que desejam manter tudo como está. A única saída é uma esquerda monista. Uma esquerda que não tenha medo de dizer seu nome [2] - seu verdadeiro nome.

É preciso querer evoluir. Mas ao mesmo tempo, é fundamental saber evoluir. A Esquerda possui em seu imo o primeiro atributo - falta-lhe dominar o segundo.

No fundo, não se trata de uma discussão restrita ao âmbito de uma parcela da população mundial (partidos, sindicatos, movimentos sociais, políticos, etc.). O mundo é interconectado. Não à toa se fala cada vez mais (mesmo sem saber) em pensamento sistêmico e todas suas potencialidades e implicações. A questão política diz respeito a tudo e todos, pois é a partir do campo ideológico que reverberam as mais evidentes realidades que todos estimam e temem.

A tarefa do ser humano é conjugar harmonicamente essa dualidade da realidade, fazendo uma síntese. Isso é monismo. A esquerda está no campo prático do mundo coletivo humano. Sua missão é realizar o monismo nas formas de vida social. Missão titânica e aparentemente impossível - mas tão mais desejada quanto maior o grau de percepção do ser.

Vibrar virtudes e vazar vícios,
Volitar por vales, valorizar verdadeiros vértices.

Verbalizar vontades veladas,
Versar vivificantes vigores.

Volatilizar vitupérios, vedando o vão.
Voar vertiginosamente o voo vertical com vestes vivazes.

Vencer a violência, vociferando o verbo. 
Vendo vantagem no vício vergastado,
Vício ventilado pelo vento da virtude.

O voo vertiginoso vetorizado verá o vértice e viverá a virtude.

Compreenda-o quem o puder!

Referências:
[1] https://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2017/12/relatividade-vertical-relatividade.html
[2] em referência ao livro de Vladimir Safatle

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Um grito sublime

Palavras proferidas num átimo. Grito de paixão, anseio por transformação.

Quando a quantidade prevalece sobre a qualidade, a catástrofe é certa - mesmo que apenas percebida no final, quando a grande peça intitulada "civilização" chega ao fim.

O grito de dor é diferente para cada ser:
Alguns são bestiais e desesperadores.
Muitos são intermitentes e violadores.
Poucos são corajosos sublimes...
A pressa apaga pequenos (e inúmeros) incêndios locais, dando a impressão de progressiva solução dos problemas. No entanto, é técnica superficial, que consolida, gradativamente, o emborcamento total do sistema. A solução é mudar a forma mental: passar do intelecto volátil e ágil à consciência intensa e certeira. Essa mão sábia (consciência) guiará a ferramenta (intelecto) - órfã no momento.

Mover-se caoticamente se tornou regra e imperativo; código de ética e dever de todos; ação única e inquestionável. Mas quando falta orientação aos atos, o barco da civilização navega sem leme. E a tempestade se anuncia..

Assim, para construir nossa obra na eternidade, imprimindo na psique do aluno um senso de paixão (pelo saber), fé (nas potencialidades do belo e desconhecido) e autonomia (perante os dilemas da vida), é imprescindível frear o desmesurado avanço dos meios sobre os fins; da forma sobre a substância; do finito sobre o eterno; das aparências sobre a essência; do relativo sobre o absoluto; do desespero sobre a reflexão. O trabalho é pensar e agir sabiamente. Isso os alunos (e nós) devem(os) perceber e sentir.

Tudo se estrutura para conduzir o indivíduo e o coletivo ao caminho do desgaste e das pseudo - soluções. Quanta dor será necessária para fazer aflorar os sentidos que captam as sutilezas da evolução?

O drama é simples: os desesperos se nutrem, causando desequilíbrios sem solução. O jogo de forças afasta as pessoas da sensatez, que aderem, por falta de senso investigativo, à solução pronta, manufaturada em série. Assim todos se irmanam num grande movimento - rumo a dores descomunais.

A falta de ousadia inteligente engessa a mente.
O excesso de conforto implica no aborto.
Aborto de métodos transformadores e oportunidades.

Assim como a energia degradada se volta sobre a matéria, animando-a, a vida, se desgastando, deve forjar a psique de profundidade (consciência, intuição).  

A pressa adia a construção da perfeição.
O barulho obscurece a voz da razão.
O medo paralisa com precisão.
E assim perde-se a condução...

Quem decide não sofre as consequências imediatas de suas decisões.
Quem vive o drama do ensino, da condução de personalidades, da construção de almas, não decide.

Esse é o mundo emborcado. O Anti-Sistema.
Para mudar é preciso antes enxergar.

É isso que deve conduzir os planejamentos.
Nada mais, nada menos...

Dos Mitos da Criação à Visão Unitária do Universo (10/06)

Segue o vídeo da palestra sobre monismo ubaldiano, proferida 10/06, 16h30:



Baseada na obra Arquitetura Cósmica, de Gilson Freire.

Objetivo: apresentar o monismo de Pietro Ubaldi.

terça-feira, 23 de junho de 2020

Apropriando-se do infinito

Os verdadeiros passos da humanidade não se dão no campo espacial. A quantidade de matéria movimentada; a energia dispendida; a intensidade da força e dos gritos; a movimentação de formas evanescentes (desprovida de finalidade); as quantias envolvidas; as vidas ceifadas impiedosamente...Nada disso é régua para medir o desenvolvimento humano - apesar de que muitos progressos eternos, cravados na alma individual e coletiva, exigem, para um estado de consciência ainda involuído, animal-humano, dores externas.

Os verdadeiros saltos evolutivos podem envolver exteriorização, com atos que enchem os olhos do público, ensurdecem os ouvintes, impactam os sensórios seres (nós). Através de uma árdua conquista material, abrem-se as portas para a gênese do espírito. Eleva-se a alma quando se desce além dos limites; quando se sobe além dos limites; quando são entoados hinos de glória permeados de sutilezas harmonicamente orquestradas; quando se ultrapassa barreiras (tidas como insuperáveis); quando se cria um jeito novo de fazer; quando se gera mais com menos. O produto de nosso esforço fica gravado no íntimo da psique, entidade imortal sedenta de atitudes concretas cada vez mais morais e moralizantes. Para obter esse ganho deve-se arriscar a vida individual - e desgastar o seu princípio. É o que A Grande Síntese denomina de degradação biológica.

Uma trajetória reveladora do universo interior.
Os feitos da humanidade impressionam cada um de acordo com sua formação, sua vivência, sua constituição genética. Todas elas, do campo físico, passando pelo dinâmico, pelo biológico, até culminar no psiquismo, são esforços válidos se devidamente assimilados em sua real essência. A experiência adquirida pelo espírito fica registrada - os meios para adquiri-la caducam, assim como os reconhecimentos e prêmios se apagam com o tempo, dimensão que carreia tudo que não é imaterial. Apenas o que se registra no absoluto é eterno. Estas qualidades se manifestam em novas formas, no relativo, adquirindo beleza cada vez maior, sutilizando o corpo, a fala, a matéria, as atitudes e todo ambiente influenciado pelo ser renovado.

Os marcos da humanidade se dão na arte, através da estética que encanta; na ciência, através das formulações que coordenam a visão da natureza (humana e infra-humana); na filosofia, através das ideias que aprofundam o conjugam; na religião, através das crenças que dão sentido à existência; da tecnologia, através dos rearranjos criativos que se apoiam nos saberes e dependem de uma dose de . Essas conquistas evoluem com o tempo. Elas se tornam cada vez mais complexas em seus meios (para serem atingidas) e resultados (a serem assimilados). Mais sutis, com impactos de mais longo prazo e amplitude mais excelsa. Conquista esta cada vez mais produto de uma coletividade. Coletividade organizada em forma de nação, com seu Estado, que a conduz; e com sua sociedade, que se transforma e influencia esse grande organismo, com suas instituições.

O filme First Man (Primeiro Homem, 2018) trata de uma conquista específica: a chegada do homem (da humanidade) à Lua, em 1969. Uma dentre muitas no longo filme de ascensão humano. Especial em seu momento. Eterna em seu átimo, quando toda humanidade vibrava (negativamente ou positivamente) com as tecnologias que nos fizeram ir mais longe, escapando do campo gravitacional terrestre.

Através de uma introdução um tanto tensa e direta, somos arremessados a um mundo diverso. Um piloto engenheiro chamado Neil atinge os cumes da estratosfera, até perder os controles de sua aeronave, vindo a cair em sequência. O ano é 1961. A espaçonave é propriedade da NASA (mais conhecida como Agência Espacial Norte americana). O sobrenome do piloto, Armstrong.

O olhar de quem sofreu e continua buscando.
Num registro muito bem filmado, o espectador faz um tour de force na década de sessenta, sentindo em seu âmago as dificuldades enfrentadas pela equipe responsável em colocar um ser humano no satélite natural da Terra. Não apenas isso, mas igualmente o drama interior de todos os envolvidos. Nesse quesito, os astronautas estavam na linha de frente em termos de riscos à suas vidas e integridade psicológica. Vemos esse drama se desenrolar por uma década. Década essa intensa (em tensões psíquicas) e breve. Breve porque envolvente. Envolvente porque revela algo muito mais profundo do que a mera conquista de um astro vizinho. Um drama que se desenrola através da vida do seleto grupo que participou de várias missões dos dois programas espaciais - primeiro Gemini, depois Apollo - cujo produto final, após um longo processo de destilação psíquica-nervosa, tecnológica e financeira, culminou na chegada do homem à Lua.

Trata-se de um verdadeiro salto em termos de impulso tecnológico - que nas décadas seguintes pulverizou suas inovações, possibilitando o surgimento de várias tecnologias que se tornaram comum no âmbito social. Mas o âmago da questão reside na personalidade de Neil, o primeiro homem a pisar num astro. Vemos nas cenas subsequentes às perdas (primeiro, da filha, depois, de colegas astronautas) uma alma que arde: deseja adentrar no reino, atravessando o véu mortal que levou seus colegas e desafia as mais brilhantes mentes. Entrar num terreno pantanoso, infestado de incertezas - porém cheio de potencialidades. Os limites só expandem quando batemos com força neles, desafiando-os de maneira mais sagaz, mais criativa, com golpes certeiros e elegantes, contornando assim o que era visto como incontornável. Penetrando no que outrora era tido como impenetrável. Eis a aventura do mundo da ciência e da tecnologia, mas igualmente da arte, da religião e da filosofia, nos campos da expressão deslumbrante, da reflexão abissal do sentimento cálido - respectivamente.

O olhar fixo, penetrante, impenetrável e determinado de Neil, que encara a Lua, quando o foguete Saturno, contendo a Apollo 11, ruge através de seus motores hercúleos, prontos para dar o impulso, é a expressão mais clara da determinação destemida e consciente. Comum a todo ser humano que tenha chegado a certo ponto, através de um longo processo permeado de dores. Da mesma forma, esse olhar ressurge quando, prestes a pousar na superfície do mar de tranquilidade, com o combustível quase findando, e necessitando de um pouso suave num local minimamente seguro (um sério problema no campo da otimização de sistemas dinâmicos), a missão está em seu auge. O clímax se dá na hora de maior incerteza, de maior distância (espacial e, sobretudo, conceptual). Era o momento certo porque havia o tipo certo. Tipo que sofreu as dores necessárias; que escalou a imensa, áspera e capciosa muralha que separa o conhecido do desconhecido; que persistiu apesar de tudo. Perseverança: eis a palavra que melhor exprime a causa de grandes conquistas.

A 'conquista' da Lua não é um feito de um país, de uma instituição, de um homem. É o marco culminante de um longo processo de criatividade incessante e dor assimilada, até a medula. É um pequeno passo para o homem (dimensão espacial), mas um grande salto para a humanidade (dimensão conceptual). 

O astro é vizinho. A distância Terra-Lua, em termos astronômicos, é insignificante - poderia ser um milhão de vezes maior, mas continuaria a ser igualmente ínfima comparada à vastidão do Universo. Mas do ponto de vista de conquista humana (relativa ao passado), de possibilitar a alavancagem de outros rumos (criação de um mundo melhor), de estabelecer outras metas (superação da natureza inferior)...trata-se de um salto verdadeiramente grande. 

O ato físico foi pequeno - o seu significado, gigantesco. 

Esse é o aspecto que faz o filme valer a pena. Narrar a multimilenar ascensão do ser (interior) com uma de suas mais célebres conquistas (exterior).

sábado, 2 de maio de 2020

Quo vadis?

"O fenômeno econômico, apesar de ser expressão da lei do menor esforço, assume sempre a forma de coação. O equilíbrio entre oferta e procura de uma luta na qual a oferta de uma mercadoria é apenas a exigência de um preço, sendo tudo movido pela própria necessidade, e não pela consciência das necessidades recíprocas."

A Grande Síntese, Cap. 92 - O Problema Econômico 

É preciso compreender porque estamos atrasando para continuar nosso avanço como espécie. Para isso precisamos perceber a estrutura sistêmica que opera de modo automático. A partir daí, deve-se submergir às profundezas da mente humana, que contém o modelo mental - fortemente arraigado, exalando seus últimos suspiros - que alimenta essa estrutura sistêmica. Esse modelo é a visão que nós, em geral, como humanidade, temos do que é progresso. E não me refiro a ideias que propagamos da boca para fora nem do que propagandeamos ser importante ou estarmos fazendo - ou pretendemos fazer. Me refiro ao próprio modo de comportamento, que se dá a cada instante. Nossos gestos, nossas atitudes, nossas reações e o que estamos construindo (e destruindo) através de nossos atos cotidianos. 

É preciso ter olhos para ver.
Esse modo de comportamento aponta o que mais prezamos e desprezamos. Por cima, escolhemos as palavras com cuidado. Agimos de modo tão cauteloso de modo a evitar retrocessos grandes, garantindo assim quedas muito pequenas, apenas, em nossa imagem. Porém, isso vem a um preço: esse freio é de mão dupla. Ou seja, do mesmo modo que não retrocedemos muito, também não progredimos, efetivamente, muito na vida. 

Quando a humanidade passa por momentos de impasses, habilidades latendes são convidadas a vir à tona. Por força das circunstâncias, brotam inesperadamente pessoas, com um arsenal de conhecimentos, contatos, habilidades e projetos, alinhando todas esses finitos humanos em prol de um infinito desconhecido. Pessoas que outrora trabalhavam de modo quieto, crescendo mas apenas em prol de sua personalidade, egoisticamente, se veem impelidos a se lançar num novo caminho - pois perceberam o que realmente importa. 

O que importa?

1) Importa estar num emprego que seja minimamente alinhado com o trabalho;
2) Importa perceber que os necessários (relativos, pessoais) tendem a se aproximar para um necessário (absoluto, comum);
3) Importa deixar de lado, dentro do possível, a obrigação burocrática, para dar vazão à criatividade ousada e inteligente;
4) Importa refletir acerca de tudo, através de tudo, e se valorizar;
5) Importa não ter vergonha de se falar certas palavras e agir de acordo com sua consciência.

Emprego é uma ocupação (geralmente mal) remunerada, que toma (geralmente) muitas horas de seu dia numa atividade que (geralmente) pouco ou nada agrega à vida das pessoas.

Trabalho é qualquer atividade que faça uso dos recursos, da energia, da vontade, do afetos e do conhecimento humano em prol da transformação substancial do mundo. 

O capitalismo é muito mais do que um sistema econômico. Ele é uma ideologia que assume diversas faces, seja lazer, relações sociais, relação trabalhistas, modo de agir na política, na ciência, entre outras. Esse conjunto de facetas se morfam ao longo dos tempos com as crises - que podem ser de vários tipos, desde energéticas até sanitárias, de guerras até a quebra dos mercados, de cultura até advento de novas tecnologias. Isto é, o sistema assume formas, ou modos de operação. Uns são mais humanos, outros menos. Mas os fins são, em última instância, o mesmo: crescimento econômico, acúmulo de benefícios, conforto, conforto, conforto,...São objetivos presos à materialidade e à repetição. Mesmo que existam meios imateriais fantásticos à disposição de muitos e muitas, o objetivo da lógica capitalista é sempre manter o ser humano preso aos aspectos mais elementares da vida e às interpretações mais superficiais. Dessa forma não sobra energia para ir além do que lhe é imposto. 

Busque o conhecimento sem se tornar arrogante.
Já revelei alhures os efeitos da natureza humana acerca de suas ocupações [1]. Resta estabelecer relações cada vez mais visíveis e compreensíveis para que a ideia se difunda - com o intuito de ser amadurecida.

Duas faces da mesma moeda: trabalho alienado e consumo conspícuo. Porque trabalho alienado não é trabalho (que desenvolve o espírito), e consumo conspícuo não é consumo (que é essencial à vida). Essa moeda é o jogo de cara e coroa que a ideologia capitalista joga com você, comigo, com todos nós, a todo momento, quando se sente desafiado. E nesse jogo, a lógica predominante sempre ganha: ou consumimos coisas que não nos fazem bem, perdendo tempo, saúde, energia e amigos, além de engessarmos as capacidades mentais; ou trabalhamos insanamente, com eficiência baixíssima, sem que a incorporação de aprendizado interior seja proporcional à perda de ânimo e saúde ao longo dos anos e décadas. O que temos comumente é a ilusão de ganharmos - quando um lado da moeda (a)parece (ser) agradável. E com essa ilusão, nos distraímos, julgando-nos vencedores dentro dessa lógica - que nessa visão não nos parece tão ruim...

O Poder Judiciário, por exemplo, é uma instituição que não nos dará justiça, pois está subordinada à lógica da ideologia dominante no mundo (capitalismo). Ele estabelece as normas de compensação / exploração, as penalidades e derivados mantendo-se a impulso de destruição das formas de vida inabalado. Por que quem determina o modo de atuação desse poder é outro (poder), muito maior, que é o do capital financeiro, com todo seu arcabouço teórico / afetivo que o sustenta. Alysson Mascaro explica muito bem (ver vídeo abaixo):


Alguns dos relativos deste mundo (não todos, nem muitos, e sim alguns...), de nossa civilização, de nossa espécie, estão distantes, mas não devem estar. Por que? Porque sem um acordo de unificação em questões substanciais, que se relacionam direta e indiretamente a tudo e a todos, não iremos conseguir superar a crise civilizatória que está vindo em ondas - cada vez mais cruéis. Primeiro com a crise financeira do setor imobiliário de 2007-8. Agora com a pandemia do COVID-19. 

O necessário para se ter uma vida plena deve sim ser colocado em pauta. Isso não significa que deva ser imposto um modo de vida igual a todos(as), mas que toda a civilização seja orientada para um diálogo que diminua os atritos, para debates que construam edificações sólidas, para estudos que libertem os deficientes de suas muletas, para pesquisas que revelem o sagrado oculto em cada objeto e sujeito concreto. Significa aproximar os relativos para que os empregos possam se tornar trabalhos - e para que os trabalhos possam se tornar empregos. Enquanto visões conflitantes estiverem embalando individualidades não teremos construções. O avanço será penoso e lento. E, num dado momento, paramos...E começamos a sofrer. E impomos movimento a um corpo que insiste em se manter numa câmara cheia de espinhos - ao invés de pensarmos como sair dessa câmara de morte que nos comprime cada vez mais a cada ano, cada década...

Abandonar a burocracia pode ser perigoso. Para isso é preciso que sua natureza faça uma parte do trabalho. Seres orientados possuem atitude diferente da media. Eles exalam ondas psíquicas que acabam afastando os piores tipos de obrigações. Uma poderosa couraça que, mesmo não evitando os golpes por completo, amortecem alguns deles. Isso é a bênção daqueles que já evoluíram suficientemente para perceber que este mundo faleceu. Resta começar a trabalhar para aqueles que desejam viver no novo mundo. A digo: esse trabalho não será valorizado por este mundo. Mas A Lei vê tudo e sabe o que ocorre no íntimo das criaturas. É preciso seguir sua consciência.

Quem já é capaz de perceber os fenômenos de forma mais profunda, vê as mesmas coisas de modo diferente. Daí nasce o encanto do santo, que é a êxtase do místico, a visão do gênio e a ousadia do herói. Isso dá combustível espiritual aos seres que nada mais desejam deste mundo. Para quem vê à fundo, pode-se aproximar de Deus através de tudo. As relações se tornam inumeráveis. Isso gera uma plasticidade mental sem igual. A coragem lhe dá capacidade de enveredar por trilhas pouco pisadas. O movimento horizontal, no plano (razão), procura se tornar um pouco de vertical, ascendendo, reconhecendo a existência do espaço (intuição). Bipartido é o modo de atuação. Oblíquo se torna o movimento. A reta vertical que se liga ao absoluto alimenta a teia horizontal que luta no lamacento terreno do relativo. 

Devemos buscar um novo modo de organização econômico e social. Com isso a política se transforma. O Estado passa a ter função nobre, refletindo os anseios de uma humanidade minimamente consciente. O mercado se enquadra num campo restrito, apenas para facilitar algumas trocas humanas, mas jamais para esmagar seres, formas de vida, ideias e diversidade. 

O capitalismo tem cinco séculos. Sua forma industrial, dois séculos. Sua forma financeirizada se iniciou há quatro décadas. Ele acompanha o ritmo evolutivo da humanidade, enquadrando as descobertas, invenções, palavras, discursos e afetos em prol de uma intersubjetividade egoísta. Não serve mais justamente porque os tempos apontam para sua incompatibilidade com o progresso humano.

Hoje se produz mais riqueza per capita do que nunca. Segundo Ladislau Dowbor, são mais de 11 mil reais mensais por família de quatro pessoas. As tecnologias digitais permitem uma comunicação ágil, completa e instantânea. A tecnosfera está sendo consolidada, abrindo caminho para brotar uma noosfera. A automação, a inteligência artificial, a internet das coisas permitem um número de empregos muito menor - sem prejudicar a geração de riqueza. Percebe-se que diversos empregos servem apenas para controlar o ser humano, punindo-o pelo crime de ser pobre. Pense na quantidade de recursos sendo gasta em ocupações que não agregam nenhum valor às pessoas. 

O brilhante Professor de direito da USP, Dr. Alysson Mascaro, desmistifica a visão que muitos tem a respeito do capitalismo. E abre uma brecha - que espero que rache e inunde as mentes e corações: coloca em cena a palavra socialismo. Mostra que vivemos num mundo emborcado, em que a palavra feia (capitalismo) é vista como o bem e a palavra bonita (socialismo) é vista como o mal. Me pergunto como, uma vez que o socialismo nunca de fato existiu em nenhum lugar deste planeta. Houveram experiências no século XX (e até XIX, de forma local e breve) que logo se distanciaram das premissa. O capitalismo, por outro lado, já mostrou quase tudo do que é. Um existe, outro inexiste (ainda). Como julgar um bom e outro ruim?


A verdade é que uma ideologia (e sua lógica econômica, que a acompanha) só nasce e floresce conforme sua sintonização com a natureza da sociedade que a recebe.

Nossa natureza está muito mais alinhada com os conceitos e premissas do capitalismo do que com os do socialismo - por isso este "nunca deu certo". Somos muito centrados em nós mesmos. Nossa preocupação com o outro se dá na medida em que vemos vantagens indiretas à nossa pessoa, à nossa nação, ao nosso grupo, à nossa linha de pesquisa, à nossa área, à nossa filosofia de vida, à nossa história, à nossa cultura, à nossa religião, etc. Mas jamais pensando em termos universais, que extrapolem os limites do conhecido e do cognoscível. Chegou o tempo de superarmos essa natureza - ao menos num grau mínimo.
 
Nós queremos mudanças profundas (de verdade!)
É preciso acrescentar a visão de Ubaldi ao sentimento de Mascaro: A criatura sofre suas dores porque não tem capacidade de se libertar delas. Nesse aspecto a sociedade, como um corpo coletivo, merce queimar na panela de desespero que insiste em habitar. Ela, em sua maioria, ainda não percebeu qual é o cerne do problema: despertar a consciência para superar a ideologia capitalista e seu capataz sistema econômico. 

Ambos (Ubaldi e Mascaro) estão certos. Só que Ubaldi nos dá a visão sintética, universal, substancial - a causa primeira e os objetivos últimos. E Mascaro nos dá os pormenores, os detalhes, os meios, em palavras acessíveis, inteligentes, belas e completas. Precisamos desses dois biótipos.

"Riscai as palavras "injusto" e "inútil" do universo e dizei que tudo é proporcional aos valores dos seres. Se a luta, outrora, foi física, mas é hoje econômica e nervosa, ela será amanhã espiritual e ideal, tornando-se muito mais digna de ser combatida."

A Grande Síntese, Cap. 95 - A Evolução da Luta [2]

Evoluiremos, sim. Mesmo porque o espírito, o indivíduo, a consciência indivisa e íntegra, não perece com a destruição material do organismo. Mas seria melhor seguir o exemplo de Cristo, adotando o bom-senso, uma forma de amor primária (mas ainda assim amor), para nos alinharmos à Lei e assim criarmos uma ideia coletiva mais elevada das coisas. Caso contrário, a Justiça se fará através das próprias leis do mundo - físico, humano e moral. Aí atuará o 'Deus de Moisés', cujo golpe é preciso, inexorável e devassador.

Cristo veio nos mostrar o caminho a ser seguido para nos enquadrarmos à Lei, e assim evoluirmos com menos dor. Mas nós não aceitamos e imergimos esse ser elevadíssimo em dor...

Dois mil anos se passaram e a humanidade está se crucificando de forma infinitamente mais dolorosa do que aquela que crucificou Cristo. Não aprendemos muito em tanto tempo. As condições mundiais demandas mudanças interiores profundas em pouco tempo. Caso contrário iremos evoluir às custas de dores infindáveis.

A pandemia que assola nosso planeta é apenas a primeira de uma série de ondas, que virão de várias formas, cada vez mais fortes, devastadoras. Atuando de forma coordenada, com golpes certeiros que irão desestabilizar cada vez mais o indivíduo médio - e o sistema que ele tanto defende e preza.

A questão não é desesperar-se para voltarmos ao trabalho, à vida normal. O capitalismo (mentalidade coletiva média) grita, revelando desespero para voltarmos ao modo de exploração de outrora. Mesmo com bilhões perdendo emprego, outros milhões passando fome e necessidades das mais essenciais, e outros morrendo e perdendo saúde por estresse físico e psíquico. Mesmo assim, o sonho de muitos é o desejo do sistema. E esse desejo é o pesadelo de quem quer evoluir.

O mundo não precisa de pessoas afogadas em ocupações que remuneram as inutilidades e disfarçam as vildades. O mundo precisa de orientação. Para isso as pessoas precisam se conscientizar de que um modo de organização tão espúrio é o cerne do problema. 

Possuímos a tecnologia, possuímos a ciência, a cultura, as pessoas, as instituições e os recursos. Por que não se resolvem os problemas fundamentais definitivamente? A questão é outra...

É preciso adentrar no terreno da História, das Ciências Sociais, das humanidades enfim, para perceber o que ocorre. Mas ao mesmo tempo, é preciso resgatar os multimilenares valores teológicos para que possamos orientar tudo isso. Teologia + Humanidades + C&T (Ciência e Tecnologia).

Quo vadis? (para onda vais?)

Para onde caminhamos, se mantivermos esse tipo de lógica?


Referências:
[1] https://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2015/11/a-felicidade-tranquiliza-infelicidade.html
[2] UBALDI, Pietro. A Grande Síntese.