sábado, 14 de dezembro de 2013

A CONQUISTA DE AQABA: A IMPORTÂNCIA DA OUSADIA INTELIGENTE

Do meu ponto de vista, todo filme realmente digno de entrar para a História deve ter em sua temática temas universais. Ou seja, para ser lembrado – devido ao fato de se apoiar numa ideia, num sentimento, numa concepção de mundo que sempre sondou, sonda e sondará a mente de seres humanos – um filme (ou uma pessoa, ou um grupo) deve trazer em si algo que vá além do lugar-comum. O mesmo vale para grandes feitos.

Em “Lawrence da Arábia” [*], dirigido por David Lean, um dos episódios mais marcantes é a conquista de uma cidade chamada Aqaba (al-ʿAqabah) pelas tribos árabes, lideradas por T.E. Lawrence. Trata-se de uma cidade costeira no extremo sul da Jordânia que na época fazia parte do Império Turco-Otomano[**]. Essa cidade tinha uma particularidade militar que a tornava estratégica para quem a detinha: ela era litorânea e seu golfo era estreito, e o único meio de atingi-la (conquistá-la) por terra na época era atravessando o Deserto do Nefud pelo leste[***], já que todo resto era de domínio turco, e estes possuíam canhões de 14 polegadas, concedidos pelos seus aliados alemães, apontados para o litoral (estreito). No entanto, o Nefud tinha uma extensão de mais de 700 quilômetros, tornando uma viagem de travessia de alto risco. Ou seja, se tratava de uma fortaleza inexpugnável. Pelo menos à primeira vista.

Auda Ibu Thay (Anthony Quinn), T.E. Lawrence (Peter O'Toole),
e Xerife Ali (Omar Sharif).
Lawrence, quando foi enviado para o Oriente Médio, tinha a simples e monótona função de apenas “avaliar a situação”. Essa tarefa lhe fora incumbida por seus superiores hierárquicos, apenas para mantê-lo ocupado – ou seja, cumprir estatísticas. No entanto, uma mente estudiosa e inquieta jamais iria se conformar com o lugar-comum. E ninguém aparentemente tinha consciência disso.

Quando o jovem oficial inglês tem uma ideia que possa resolver o problema árabe – e sobretudo britânico... – ele é visto como louco e insensato. “They have 14 inch guns in Aqaba!” (Eles tem canhões de 14 polegadas em Aqaba!), diz seu colega Sherife Ali (Omar Sharif no filme) ao ouvir a loucura idealizada pelo inglês. No entanto, a vontade do inglês suplanta todos medos e incertezas e é levada à frente. E dá certo.

Um dos maiores motores de crescimento humano é a OUSADIA. Mas não apenas ela. Ousadia sem raciocínio não vale muita coisa – é um ato de loucura sem sentido que deve ser evitado. A ousadia que estimula mentes e move o mundo e causa admiração é a ousadia INTELIGENTE. Esta foi a ousadia de Lawrence ao pensar na conquista de Aqaba.

Reunião das tribos árabes antes da grande empreitada.
Se trata de uma questão bem simples: explorar brechas para atingir um objetivo maior. Ninguém seria louco de tentar invadir uma pequena cidade pelo mar quando haviam canhões alemães potentes prontos para aniquilar qualquer frota que ousasse entrar no (estreito!) beco litorâneo de Aqaba. Nem Sua Majestade, (os britânicos), com sua formidável e numerosa e profissional e poderosa marinha, ousariam isso. Restava um deserto extenso e árido e inóspito – que ninguém igualmente queria encarar.

Quando se pensa numa travessia de 700 quilômetros numa região desse tipo os riscos são dos mais intensos e variados – além de imprevisíveis. O racionamento de água, o calor desumano, o cansaço físico, o alimento, as tempestades, os problemas de orientação, os conflitos...Tudo pode causar o colapso. Logo – e sabendo disso muito bem – os turcos estavam tranquilos em saber que seus canhões não eram capazes de serem apontados para sua retaguarda. Ninguém viria por terra, pensava-se. Não só os turcos, como os árabes e os ingleses acreditavam nisso, reforçando ainda mais a confiança dos primeiros. E é dessa brecha que Lawrence tomou proveito.

O “e se...” sempre foi importante na nossa História. É algo que nos faz re-pensar e re-avaliar situações e pré-conceitos. É um questionamento proveniente da filosofia, mas que não deve ser de posse exclusiva dessa. É um ato de filosofar que tende a permear todas pessoas – independente de sua área do conhecimento – que tenham desejo de criar algo a mais em seu campo. Essa foi a gênese do grande feito de Aqaba. E de todos grandes feitos da humanidade.

É importante destacar que ações ousadas e inovadoras podem ocorrer em vários campos e por motivos diversos. Algumas são taxados de benéficas (para a sociedade); outras, como maléficas (também para a sociedade). Mas será que essa taxação está correta? (quem no fundo propaga esse critério de classificação?). Será que essa classificação de correto/incorreto que é “nossa” não é impressa em nossa mente de forma inconsciente por meio de uma conjuntura político-econômica-social? Ao longo de anos, décadas e séculos...Ao longo de gerações, que só aprenderam a analisar os fatos sob UM único prisma; ao longo de gerações, que são exímias analisadoras SUPERFICIAIS de efeitos, propondo soluções “eficientes” e “imediatas” para os maiores problemas que sondam a sociedade contemporânea (mas que no entanto ignoram causas profundas, desconhecidas para o grossa da humanidade atual). Esses são pontos relevantes que devem ser POSTOS EM PAUTA nos dias atuais (jamais escondidos, como é de costume).

Deve haver confronto de ideias a título de se chegar a um modo de vida mais elevado – para tudo e todos. Sim, CONFRONTO. Confronto CONSTRUTIVO. Confronto, BEM-INTENCIONADO. Confronto que parte de intenções e pensamentos HONESTOS. Mesmo que à primeira vista, e para bilhões de pessoas – inclusive aquelas ditas eruditas, cultas, estudadas e etc – esse confronto se assemelhe a uma tentativa de desordem ou uma utopia. Deve-se tomar muito cuidado com isso, porque seguindo o lugar-comum nossa espécie não parece estar sendo capaz de resolver os problemas cada vez mais perturbadores e crescentes. Problemas cada vez mais intensos em nossas mentes e próximos aos nossos refúgios de sossego.

É muito difícil nadar contra a corrente de pensamentos que impera nesse planeta. Mas é algo que deve ser exercitado cada vez mais – mas lembre-se: de nada vale ser do contra simplesmente por ser “do contra”. isso deve ser consequência (e não causa) de uma ideia formada ao longo dos anos, visando atingir progresso do conjunto.

Devemos nos re-avaliar constantemente e pacientemente.

Eu venho fazendo isso. E ainda estou longe de chegar ao fim absoluto – será que ele existe?...espero que não... =)



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