sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O PROBLEMA DO DOUTORADO

É muito desanimador quando a gente quer fazer alguma coisa que gosta, e julgamos útil, (e é útil de fato. pra nós mesmos e para os outros) mas somos impedidos de fazê-la porque sofreríamos conseqüências desagradáveis. Isso é muito comum quando alguém deseja seguir o caminho da verdade, do conhecimento e da espiritualidade - que no fundo estão relacionados e convergem pro mesmo ponto: a felicidade. Para muitas pessoas com perfil de pesquisador ou filósofo, o doutorado é um meio de atingir esse fim – na verdade, trata-se de um mesmo tipo de indivíduo, pois um e outro se assemelham, de forma que os verdadeiros filósofos são pesquisadores, e os verdadeiros pesquisadores são filósofos.

É triste relatar as INÚMERAS barreiras às pessoas que desejam seguir a carreira de pesquisa no mundo e, especialmente, em nosso país.

Pensei e pensei (e pensei) diversas vezes a respeito do assunto. Já bati papo com pessoas que passaram por isso. E li artigos de especialistas sobre o assunto. E pra sintetizar tudo, só posso dizer que a tarefa de viver dignamente É DIFÍCIL se alguém deseja seguir carreira de pesquisador.

Vamos às barreiras.

Primeira:
o valor de uma bolsa de doutorado (ou mestrado... uma pós-graduação acadêmica em geral) é irrisório comparada ao salário de um funcionário de uma empresa privada de grande porte. Para quem almeja virar doutor, essa bolsa é da ordem de 30% de um salário nominal, líquido, numa multinacional. Podemos chegar nessa cifra se considerarmos todas as vantagens que um funcionário leva em cima de um bolsista de doutorado: décimo terceiro, abono de férias (férias pagas!), refeição subsidiada, transporte subsidiado, convênio subsidiado, cooperativa de crédito, facilidade na compra de produtos da empresa, previdência privada vantajosa, INSS contando, infra-estrutura adequada, possibilidades de aplicações, melhores taxas nos bancos, entre outras tantas regalias. O bolsista deve se contentar com sua bolsa mensal de 2.200 reais (CNPq e CAPES). E só.

(Só pra enfatizar, a primeira barreira já engloba UMA SÉRIE de barreiras.)

Segunda (ou enésima):
Além das dificuldades econômicas DURANTE o período de bolsista, existem essas mesmas dificuldades DEPOIS - na fase pós-bolsista - quando o pesquisador, ansioso por poder atuar naquela área em que se dedicou, procura uma vaga no mercado que valorize aquilo que foi seu objeto de estudo durante 4 anos. E prazerosamente - como deve ser para muitos. Mas na GRANDE MAIORIA dos casos, não encontra nada. Pior: parece que, quanto mais focada num tema importante para o desenvolvimento da sociedade (direta ou indiretamente), mais difícil encontrar emprego na área. Exemplos: área espacial; física médica; química; sociologia; educação; artes em geral; etc. E se encontra, o salário é tão alto quanto o nosso planeta é grande comparado ao Universo.

Terceira (e mais humilhante):
As barreiras econômicas sozinhas já são suficientemente desencorajadoras. Mas o pior de tudo é seguir uma carreira - e modo de vida - que é considerado insignificante pelas autoridades públicas e (pior) por uma parcela da sociedade. É fato: a nossa justiça "justa" não considera os anos de pós-graduação válidos para aposentadoria. É isso mesmo. Esses anos não são contabilizados pelo INSS - a não ser que o sujeito pegue extraindo da própria bolsa, o que prejudicaria sua já difícil subsistência. O que implica que o bolsista não é considerado trabalhador. "Ele estuda, não trabalha", dizem os juízes (a maioria deles...). E isso, além de trazer dificuldades financeiras, se não no presente, nos tempos de velhice - se ele tiver o azar de viver tantos anos - dá uma sensação de que o que ele faz não é importante para gerar progresso para a sociedade.

Os problemas apresentados anteriormente (falta de apoio econômico durante, após e falta de consideração) são as causas raízes que levam milhões de pessoas capacitadas a não seguirem a carreira acadêmica. É como se o sistema estivesse enterrando sistematicamente MILHÕES de almas capazes. E muitas delas, em busca de uma vida menos sofrível, devem se submeter a um trabalho cujo ritmo é incompatível com as necessidades fisiológicas e espirituais de seu ser. Puro desperdício de talento. E assim constata-se que a humanidade exibe uma característica auto-mutilante.

É importante lembrar que todos progressos gerados pela indústria nada mais são do que aplicações finais de pesquisas intensivas realizadas anos antes, apoiadas por conceitos e teorias e experimentos de pesquisadores(as) famosos(as) ou não. Pesquisas edificadas durante anos, décadas ou séculos, por mentes espaçadas cronologicamente e espacialmente na maioria dos casos. O que quero dizer com isso é que essa "perda de tempo" possibilitou à indústria moderna gerar uma infinidade de utensílios tecnológicos e - sobretudo - ganhar em cima disso. Então pesquisa é importante, sim. Aliás, PESQUISA é a BASE das coisas práticas. É o que gerou todo conforto material em nossa sociedade. Basta qualquer um pegar um livro de História e seguir a trajetória – de frente para trás – de um grande invento. Chegar-se-à à conclusão de que sua origem se deu nas filosofias e nas ciências.

O mais intrigante é perceber que o regime de trabalho do bolsista é criativo, ao passo que muitas empresas não possuem isso. O bolsista tem a única obrigação de assistir aulas e gerar resultados. Ele é medido pelo seu trabalho. E se não o cumpre, é punido por isso (reprovação da banca, extinção da bolsa, devolução de recursos, etc). O funcionário de muitas empresas, infelizmente, teoricamente tem a mesma obrigação. TEORICAMENTE. Porque o que se vê no mundo atual é a mensuração sistemática do TEMPO em que o funcionário fica confinado num ambiente. Independentemente de sua criatividade, senso de investigação e produtividade, se o horário é cumprido, o salário entra em sua conta. Pura loucura. É um sistema que prima por uma pseudo-produtividade. Uma produtividade orientada para o lucro e cujos benefícios atendem uma parcela específica da sociedade e prejudica (direta ou indiretamente) outra. Além de tratar o meio ambiente como um depósito de lixo a céu aberto, tratando o planeta como um sistema linear, fechado e estático. Tamanha falta de inteligência assombra qualquer um que possua um pouco de bom senso.

O longo período de divórcio entre institutos de pesquisa e indústrias vem gerando um atraso ímpar em nosso país. Além disso, para piorar, o governo NÃO INCENTIVA a carreira de pesquisa, exercendo a mera função de apêndice de grandes grupos corporativos na maioria dos casos.

Enquanto as coisas "funcionarem" assim, a única solução para quem deseja fazer pesquisa nesse país é: junte um bom dinheiro, viva com pouco e seja pesquisador, independente do que os outros pensem de ti. Seja feliz; ou case com uma mulher (ou homem) rica(o), que te apóie em sua busca. Seja feliz. Qualquer alternativa viável que permita à pessoa seguir o seu caminho é válida.

É duro? É. Demais. O dinheiro sempre PESA MUITO nas escolhas. Assim como o valor que a sociedade dá para uma profissão ou modo de vida. Mas chega um ponto na vida da pessoa que bate uma vontade irresistível de seguir tal caminho. Se isso ocorrer, reflita antes, claro. Bastante. Faça projeções. Tenha uma meta para começar esse sonho. Aliás, veja se isso é realmente um sonho pra você. Reflita. E...se for mesmo, NÃO DESISTA.

Fazer doutorado deveria ser uma solução. Não um problema. Mas a mentalidade das pessoas precisa mudar primeiro.

O Problema do Doutorado tem como causa uma das chagas mais graves que assolam milhões de mentes – infelizmente, a maioria delas com poder político-econômico: a falta de visão. Gente que não enxerga um palmo à frente vê o Estudo como algo pouco prático. Erro grave. Essas pessoas estão semeando um futuro árido em conforto, árido em amor, árido em cultura e árido em sociabilidade.

Portanto, quem vê o problema precisa falar e mudar e agir – discretamente, se as condições obrigarem. Mas a luta precisa ser feita. Lenta e continuamente. Para expor a loucura que é exaltada, reproduzida e buscada por milhões.

O Estudo é o Trabalho mais elevado que se pode conceber.


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