quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Aglutinação na retaguarda

Existem momentos históricos nos quais o movimento ascensional evolutivo só pode iniciar uma nova fase se consolidando ao redor de símbolos, personagens e instituições que pertencem ao mundo antigo - em vias de demolição. O novo ainda não possui força para se consolidar de forma concreta no mundo, causando as mudanças as quais se propõe. Esse (aparente) retrocesso - que é momentâneo - visa conseguir a força do número (quantidade), única capaz de alçar uma posição de poder e autoridade para fazer frente a uma corrente de pensamento que se impõe sutilmente, se encarnando em ideias e projetos "sensatos", que são a "única alternativa" ao caos em que se encontra uma sociedade - nesse caso, o Brasil. 

Fig 1: Livro escrito por uma artista plástica alemã.
Ilustra bem o que é o capitalismo, e como
tentaram construir uma alternativa.
Deixa em aberto a questão da reinvenção
da organização humana.
As ideias esboçadas aqui não se baseiam em nenhum grupo humano, apesar de tangenciar questões levantadas por certos grupos ou visões. Elas visam servir como uma pitada de elementos de coesão a uma situação composta de múltiplos ingredientes que estão em proporções erradas. Uma síntese que facilite a visão do que de fato ocorre em nosso país.

À medida que navego pela internet passo a conhecer mais pessoas engajadas em esclarecer o mundo. Pessoas que não tenham décadas de experiência ou uma formação tão específica em temas da esfera humana [1]. Porque certos assuntos, que dizem respeito à vida de todos, não podem ficar 100% sob responsabilidades de tecnocratas, cujas decisões tem poder deliberativo e repercutem na vida de milhões e bilhões de pessoas - que jamais são convidadas a dizerem o que acham, o que pensam, o que sentem e no que vêm afetando determinadas políticas. 

Sem voz nos meios de comunicação e sem poder de decidir as leis que regulam a própria vida, as pessoas ficam descrentes no sistema político e na lógica econômica que as domina. Reflexo da falta de democratização dos meios de comunicação, - e regulação dos grandes monopólios. E da democracia de baixa intensidade, puramente representativa, na qual tudo é esquematizado para manter os representantes do capital no planalto.

Quem elege alguém não é o povo. A este é apresentado algumas opções. Aqueles que mais aparecem tendem a aumentar a probabilidade de serem eleitos, nem que por apenas 10 ou 15% dos votos. E para aparecer - diga-se, ter mais tempo nos canais de TV - devem ser feitos acordos, como um neoliberal-fascista travestido de paladino da liberdade e do progresso [2], que aparentemente tem adesão ou aprovação de boa parte do eleitorado. Combate-se a corrupção no discurso, mas faz-se os velhos acordos com uma massa composta de elementos afogados em escândalos [3, 4], que votam em projetos que estão começando a surtir efeitos nefastos [5], conforme previsto aqui desde o início.

Pode alguém contestar, afirmando que todos que atingem o poder procedem da mesma forma. De fato, essa prática é comum e permeou a (breve) história da Nova República (1988-2016), atingindo o seu ápice no governo do Partido dos Trabalhadores (2003-2016). Mas a questão é que, apesar de todas contradições típicas de um governo de coalizão, houve um diferencial. Um diferencial que, convenhamos, está completamente amarrado às máfias (grupos privados de ensino universitário, convênios, bancos, construtoras, agronegócio, etc) de todos ramos, mas que possibilitou, de alguma forma, a inserção de uma parcela grande, historicamente excluída, nos meios universitários, no mercado de consumo de bens básicos (eletrodomésticos, móveis, energia elétrica, transporte), a implantação de programas que visavam dar chance àqueles mais marginalizados (políticas de cotas, prouni, fies, etc)  e a valorização de todas as carreiras do serviço público, com expansão dos Institutos Federais e Universidades Federais. 
Fig.2: Essas são trabalhadoras de uma fábrica de ferro de passar.
Elas compreenderam a lógica do sistema atual. E não
gostaram muito, pois no fundo elas perdem muito mais do que
ganham. Querem criar algo novo. Fizeram várias tentativas de
criar uma nova forma de organização que chamaram
de "comunismo". Mas nenhuma ainda funcionou como o
íntimo delas imagina. Você tem alguma ideia?

Ao mesmo tempo, e contraditoriamente, a elite aumenta seu poder, lucrando muito com essa conjuntura. Nada da estrutura feudal do país da Casa Grande e Senzala mudou substancialmente. Tocar em privilégios seria como declarar uma guerra àqueles que realmente detêm o poder. Se isso fosse feito - conforme Guilherme Boulos deseja fazer, e eu concordo com ele - no período histórico 2003-2015 sem dúvida teríamos um conflito que levaria o país a um caos. Porque quem detém o poder não precisa se esforçar muito para transformar uma visão e projeto de melhoria geral numa confusão coletiva, colocando irmão contra irmão e todos estes culpabilizando aquele que mais estava tentando unificar.

Observa-se esses movimentos do 1% contra os 99% em tudo em nosso mundo. Tão logo o ideal começa a ser encarnado em personagens e políticas concretas, tão logo ele começa a ser distorcido pela (grande) mídia e Cia e desviado pelos mecanismos econômicos e políticos. Apenas um grau muito baixo de ideal é permitido - e ainda assim apenas se os poderosos continuarem vivendo às custas da natureza e da sociedade, mantendo seu sistema invulnerável a questionamentos substanciais.

Nunca foram feitas reformas de fato no Brasil. Quem pretendia fazer isso pela primeira vez, João Goulart (Jango) foi afastado com a desculpa que iria implantar o comunismo (com todas suas "brutalidades") no país. E eis que atualmente o país sangra por jamais ter feito uma reforma agrária, tributária, política, urbana, educacional e de saúde.

Márcia Tiburi explica de forma muito clara o que foi o governo do PT [6]. Por ora me parece - feliz ou infelizmente - que esse grupo é o único capaz de aglutinar forças para frear a destruição civilizatória que está em curso neste país. Oxalá Guilherme Boulos (MTST) tivesse adesão do grosso da população - ou seja, fosse verdadeiramente compreendido. Ou Manuela D´Àvila (PCdoB). Ou João Pedro Stédile (MST). Ou mesmo Roberto Requião (MDB), homem de princípios, íntegro, com formação, experiência, capacidade de sintetizar e combinar crescimento econômico com direitos humanos, justiça social, independência científico-tecnológica e sustentabilidade em suas ideias, projetos. E fundir poesia e precisão, ciência e fé, em seus discursos. Mas o país conhece pouquíssimo essas pessoas. Nem deseja ouvir falar deles. Nem liga.

Fig. 3: Roberto Requião, senador, do MDB.
Exceção do grupo, junto com Kátia Abreu.
Mais chama atenção uma pessoa superficial cheia de frases prontas que se apresenta como novo, mas não passa de explorador de medos e excitador de lugares-comuns na mente hodierna, do que uma personalidade de valor, que mostra a realidade e trabalha na complexidade. Me refiro a Bolsonaro (PSL) e muitos outros que seguem com menor ou maior grau essa linha. De certa forma podemos dizer que este é alguém escrachado comparado ao candidato do PSDB (Alckmin), mas ambos não veem a brutalidade da PEC 95, da Reforma Trabalhista e da entrega de Alcântara, da Petrobrás e da privatização de indústrias de base como algo a ser alterado - mas até intensificado. Além disso, tem uma visão do ensino que submete-o à lógica do mercado, que supostamente resolveria o problema pelo qual hoje atravessa. Ampliar o ambiente EaD, cessar concursos, retirar a estabilidade de servidores públicos são algumas das reformas imprescindíveis para "colocar o país nos trilhos", segundo esses homens, encarnações da mais egoísta e sutil das ideologias: o neoliberalismo.

Dúvidas surgem aos montes. Questionamentos por parte do leitor(a). Pois então eu os convido a observar o gráfico ao lado (Fig. 4). Ele mostra o grau de concentração de renda nos EUA e na Europa ocidental no período de 1980-2018. Como toda pessoa de bom senso sabe, a UE está longe de ser socialista, mas colocou pitadas boas de socialismo dentro de suas políticas de desenvolvimento. Isso levou a uma menor desigualdade através da consolidação de sistemas de saúde, de educação, de transporte, de previdência, de segurança e de comunicação públicos, de qualidade. E a cadeia produtiva de alimentos. Os EUA, por outro lado, enfraqueceram a atuação do setor público em todos setores essenciais à vida (saúde, alimentação, educação, comunicação, transportes, energia, previdência, alimentação e legislação trabalhista). Como reflexo a concentração de recursos - que já era alta - aumentou.

Fig. 4:
Evolução da renda média dos 50% mais pobres
e 1% mais rico nos EUA e Europa Ocidental,
respectivamente, nos últimos 40 anos.
Riqueza não é apenas renda alta. Aliás, é muito - mas muito - mais do que isso. Especialmente à medida que o mundo (dolorosamente) migrar seu centro de gravidade do capitalismo para o socialismo.

Ter acesso a serviços públicos básicos à vida é muito mais riqueza do que um salário alto. Para isso ocorrer é necessário uma entidade (Estado) sob controle da população. Isso é democracia. Essa população deve ser conscientizável e cada vez mais consciente.

À medida que se toma consciência da interconexão das sociedades, da vida, dos conhecimentos e dos subsistemas, percebe-se que o que é essencial não pode ficar à mercê do mercado, cuja palavra de ordem é "aumento de lucro", o que implica em aumentar o preço de tudo. E ele (o mercado) deseja se apropriar dos itens básicos, pois sabe que aí as pessoas não tem poder de negá-los com vistas a boicotar a força do dinheiro. Ao capitalismo-neoliberal interessa que a pessoa fique refém do poder de megacorporações e bancos. 

Conforme disse Umair Haque, a inflação dos itens básicos nos EUA suplantou os salários em dezenas de vezes [7]. Logo, o norte-americano médio mal consegue pagar para ter suas necessidades básicas atendidas - com serviços de má qualidade, ao passo que o europeu médio, com renda próxima, consegue ter todos serviços e ainda economizar um pouco. E os serviços que ele obtém são de maior qualidade. O Brasil está focando na lógica norte-americana. Os meses e anos irão mostrar quais suas implicações.

Socialismo é o sistema no qual a justiça social esta à frente do crescimento do capital sem excluí-lo.
Isso é o que vimos em parcela pequenas na Europa Ocidental no período 1945-2018, com um ligeiro desmonte a partir de 1980 em alguns países.

Capitalismo é o sistema no qual o crescimento do capital está à frente das questões sociais.
Isso é o que vimos nos EUA no período 1932-1980.

Capitalismo na forma neoliberal é a tendência a eliminar por completo a questão social e ambiental, tornando na mente de todos a ideia de que o mercado e as finanças são a essência da vida e o centro que tudo sustenta.
Isso é o que vê-se nos EUA de 1980 até hoje.

Regimes autoritários são socialistas? Como, se o próprio conceito de socialismo - centrado em maior participação da sociedade, ou seja, maior democracia - implica em liberdade? Logo, o mundo nunca viu socialismo em funcionamento e portanto não pode falar em fracasso do mesmo. Podemos sim falar no fracasso de regimes que se auto intitulavam socialistas, mas que no fundo era nada mais do que ditaduras de partidos que não estavam alinhados à questões centrais da vida, excluindo o contraditório em prol de um suposto ideal de ser humano.

O que justifica o capitalismo é o baixo grau evolutivo do ser humano.
O que não justifica o socialismo é sua implementação à força.

No entanto, à medida que os cortes (de "gastos") se desdobrarem em caos as pessoas começarão a acordar. No Brasil e no mundo.

Mister é evoluir o ser humano antes de iniciar a construir novas formas de organização coletiva. A atual já não serve. Está falida porque em suas premissas a biosfera é mercadoria, a sociedade é massa amorfa a ser controlada e as ideias devem ser manipuladas pela razão para o utilitarismo.

Mas muitos sofredores atuam como lacaios do sistema dominante. Márcia Tiburi diz:

"Há, sem dúvida, também o lacaio do neoliberalismo. Em geral, ele não gosta de Lula, não gosta de esquerda, mesmo quando se favorece com as lutas em nome de direitos e garantias sociais levadas adiante por movimentos, ativistas e até políticos de esquerda. O neoliberalismo não respeita nada que não seja útil, e o cidadão, entre ingênuo e astucioso, tenta “prestar” seu serviço ao capital. Não é só a ingenuidade do corpo docilizado o que entra em jogo na inércia da população, é também a covardia interesseira que o “aburguesamento” do mundo nos legou. Muitos que um dia foram honrados com a consciência de serem trabalhadores perdem agora o seu desejo de lutar – porque o desejo político é a coragem da luta – enquanto são rebaixados a produtores e consumidores. Para essas pessoas, a política vira uma humilhação. A política deve ser rejeitada, pensam aqueles que não sabem o que dizem, nem o que fazem."

O momento histórico é grave e exige seriedade de todos.  A vida se degrada e a insensibilidade se espalha. Tão difícil encontrar gente séria quanto água no deserto do Saara. Mas digo: a seriedade pode ser "divertida", se trabalhada de forma madura e colocada à serviço de um projeto de vida que envolve a construção de uma personalidade.


Fig. 5:
Márcia Tiburi consegue colocar em palavras de forma
clara o que ocorreu no Brasil, o que significam os
paradoxos dos bons. Tem coragem de seguir seu rumo,
indo na contramão das tendências. 
A eleição deste ano será - se houver - a mais antidemocrática da história da Nova República. Nela a intenção de votos nulos ou brancos supera a de qualquer candidato. Dentre os candidatos, o que mais tem intenções de voto está preso por motivos políticos. O resto se pulveriza em percentagens pífias. Mas quem pretende continuar a lógica já se uniu ao "centrão" carcomido que estabelece as regras - um grupo que chega a 300 deputados, representantes da velha ordem, lacaios de grandes grupos, do interesse privado. A esquerda inicia um movimento pela unidade, mas tímido e lento (Manuela D´Àvila com vice de Lula ou Haddad. Assim PT, PCdoB e PCO se aliam para frear a barbárie iniciada no Golpe de 2016. O PSOL com o Boulos continua firme em sua trajetória. Eu apenas temo que a intensificação dessas jornadas progressistas possam levar a uma fragmentação desse campo - que possui em comum a ideia de que há outro caminho para sair da crise além de jogar as pessoas na escravidão e miséria de uma vida limitada.

A aglutinação da esquerda em torno de uma frente única é, a meu ver, o melhor meio de combater no momento a onda de retrocessos que se alastra pelo Brasil. E a única maneira de trazer as pessoas (o povo) em número para a causa comum é mostrar aquilo com o qual ele mais se identifica. Não há dúvidas de que Boulos é uma antecipação biológica e tende a iniciar um novo ciclo muito mais coerente e justo, com predomínio da lógica socialista, do que Lula. A questão é: o povo está pronto para assimilar um líder mais evoluído, com propostas que transcendam a "sensatez" de outro, bem mais velho, com seu partido mais velho, tendo a coragem de enfrentar os absurdos que nunca ninguém quis ver de fato? Eu acho difícil.

Ao mesmo tempo, aglutinar o povo em torno de um velho bem intencionado que fornecerá os meios de um novo se desenvolver pode ser a melhor maneira de combater efetivamente a onda conservadora que permeia a sociedade.

Deseja-se avançar. Mas diante das complexidades do Brasil, controlado integralmente (ou quase) por uma mentalidade pobre, pode ser necessário recorrer ao antigo para conseguir formar uma frente. Para aglutinar, criar o número que este mundo reconhece. E assim combater a barbárie que se deseja instalar nas mentes e corações de cada um. Retroceder um para evolver dois. Mas retroceder pode doer e parecer fracasso no curto prazo. Eu bem o sei. Nós bem o sabemos. Mas a realidade está aí, diante de nós, e deve-se buscar um meio do mundo para possibilitar a difusão de ideias de outro mundo (futuro), ainda inimaginável.

O fato é que o sistema econômico está falido. A democracia brasileira está em frangalhos. E continuar com essas "reformas" significa aumentar a miséria e pauperizar por completo a vida do povo e as possibilidades de quem estuda. Já vemos isso no aumento de vagas informais, na precarização do trabalho e na inviabilidade de manter assistência médica decente na velhice - mesmo juntando milhões de reais. A realidade dos bolsistas, futuros candidatos a cientistas num mundo ideal - mas verdadeiramente tendentes ao desemprego ou subempregos [8] - é evidente. Tudo política das "reformas". Isso é sair da crise?

Fig.6: Umair Haque. Livre pensador.
Chega ao cerne da questão. É disso que eu
gosto. É isso a salvação. Quem duvida, leia
seus ensaios na Medium.
A mente das pessoas é dominada pela ideologia utilitária neoliberal que simplifica tudo. É agradável porque gostamos de sempre ter soluções simples. Ou adotar um pensamento que seja sustentado pelo número (maioria).

Eu sempre optei por seguir minha consciência. E graças a isso construo minha personalidade. Isso só se nota com os anos e décadas. O mundo não percebe - o imponderável capta e gratifica, no momento e hora certa. O mundo não quer ouvir, não deseja se aprofundar, é avesso à sensibilização, que vê como uma fraqueza. Por isso é um desafio forjar uma mentalidade e transformar uma sociedade. Mas isso não irá frear o ímpeto do progresso, que elege suas ferramentas, dando-lhes energia infindável e criatividade infinitamente dinâmica para persistir.

Tudo que o autor imaginou que iria ocorrer está ocorrendo. Tudo registrado há meses e anos neste espaço. O(a) leitor(a) é livre para buscar, constatar e tirar as próprias conclusões.

Unidade está para consciência. Num mundo ainda sem consciência, a unidade é praticamente impossível. Mas apenas ela nos salvará da ruína. E não falo apenas de economia...


Vídeos recomendados:

1. Roberto Requião diz que governo destrói 'Estado Social' 
     para favorecer sistema financeiro


2. István Mészáros no Roda Viva [12.02.2002]



3. Melancolia no poder | Vladimir Safatle


4. Economia Ecológica, uma nova visão - 
     Hugo Penteado  » cpfl Cultura - Café Filosófico


Referências:

[1]https://www.youtube.com/channel/UCNqfUt1KeEiNd2ULYBQHCow/videos?shelf_id=1&view=0&sort=dd
[2]https://www.google.com.br/search?source=hp&ei=PEZsW-TyLcWZwgTJwrjQDw&q=alckmin+tucanist%C3%A3o&oq=alckmin+tucanist%C3%A3o&gs_l=psy-ab.3...3144.7060.0.7227.0.0.0.0.0.0.0.0..0.0....0...1c.1.64.psy-ab..0.0.0....0.mslJwisxtqs
[3]https://www.cartacapital.com.br/revista/1014/centrao-a-bacteria-que-o-PSDB-rejeitou-e-agora-abraca
[4]  https://www.youtube.com/watch?v=tDKB9L7qlwM
[5] https://www.youtube.com/watch?v=yaA2bIqNUww
[6] https://revistacult.uol.com.br/home/lula-o-mais-perigoso-dos-lideres/
[7] https://eand.co/how-capitalist-utopia-became-everyone-elses-dystopia-a25a88713956
[8] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44696697

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Miracolo non ci aspetta - si crea

Por muitos séculos estamos interpretando erroneamente os acontecimentos mais profundos narrados nas escrituras sagradas. Lemos as narrativas sobre algo miraculoso feito de forma simples, sem esforço algum, por parte de um ser de natureza (considerada) distinta, e a partir daí uma parte da humanidade se apropria do feito histórico e cria uma religião: o cristianismo. O mesmo se dá com todas as outras religiões. 

O processo de apropriação é uma característica enraizada no subconsciente humano. Seja seita, grupo, partido, igreja, doutrina, corrente filosófica ou ramo científico, bebe-se sempre de alguma fonte - em algum momento - para incrementar a força de seu grupo. Apenas usa-se o fato histórico. Não há preocupação em compreendê-lo e perceber qual é o seu 'mecanismo' de funcionamento. Quais são as engrenagens interiores a serem acionadas para que se execute tal feito por mim? Para acioná-las, que tipo de sensibilização psíquico-nervosa devo eu adquirir? Como me sensibilizar: Lendo? Estudando? Vivendo? Experimentando? Essas questões passam longe do imaginário humano, e como resultado cria-se uma barreira entre um acontecimento miraculoso (sobrenatural) e as possibilidades de cada ser humano diante de seu cotidiano miserável - em todos aspectos.

A miséria é uma palavra muito ampla, que requer esclarecimentos. 
Partindo do (dicionário) Michaelis 

miséria
mi·sé·ri·a

sf
1 Porção diminuta de qualquer coisa; bagatela, insignificância.
2 Estado de pobreza extrema ou de total falta de recursos; desgraça, indigência, penúria, piranguice, tormento.
3 Situação que inspira compaixão ou piedade; lástima.
4 Economia sórdida; avareza, mesquinhez, sovinice.
5 Característica do que é moralmente indigno ou vil; infâmia, torpeza.
6 Imperfeição inerente à natureza humana; defeito, fragilidade.
7 Qualquer coisa de qualidade ruim; porcaria.

Porção diminuta é pouca quantidade. Pouca quantidade pode se referir a carência de generosidade, resiliência, paciência, capacidade de reflexão, etc. Logo, trata-se também de miséria de qualidades, muito mais digna de piedade do que a miséria quantitativa (falta de recursos, ausência de títulos, família pequena, pouca saúde, etc). 

Se libertar interiormente faz do reprodutor
um criador. Erguem-se novas possibilidades.
Caminhos novos que levarão a formas de vida
diversas, mais plenas e potentes.
Inimagináveis para muitos ainda.
Estar preso a rituais e rotinas que exigem uma grande quantidade de tempo, energia e recursos é uma miséria das mais grandes. Quando se conscientiza disso percebe-se que na humanidade dificilmente encontrar-se-à uma criatura sem miséria em sua vida. Trata-se de um conjunto de fragilidades que em seu exercício cotidiano geram uma sensação confortável e de inclusão social, mas que ao longo da vida evidencia uma existência destituída de significado, sem construção de valores. Isso se torna claro nos momentos mais difíceis, como a morte própria, de parentes ou amigos, a velhice, a perda de uma amizade, uma separação e outros males existenciais. É nesse momento, quando o choque vem de todos os lados, com todas as forças, que sentimos inconscientemente a 'verdadeira força', isto é, a fraqueza de nossa personalidade perante as questões mais críticas - e naturais - da vida. O que fazemos? Ignoramos enquanto podemos.

Eu nunca compreendi questões do sobrenatural muito bem. Lia um pouco sobre elas mas não via sentido em seguir grupos que se apoiavam nelas - entre outras coisas - para formar seu conceito de mundo e propagar sua visão relativa do mundo. Para mim não era possível seguir sem plena convicção grupos. Absorver ideias apenas se meu íntimo as confirmasse por algum meio. E assim passei meus primeiros 25 anos de vida. 

Estudei, me formei. Muito cinema. Poucos amigos - porém, todos(as) pessoas de valor, sem espírito de julgamento. Leituras apenas que me diziam algo. Era um adolescente muito parado. Lento para alguns. Poucas coisas me interessavam, o que levou alguns a pensarem que se tratava de um jovem medíocre, sem ideias, com pouco ânimo. De fato, meu ânimo para o que excitava o mundo era menor. O consumo incessante pouco me dizia. O barulho me incomodava. Sacrificar meu tempo, meus recursos, meus princípios para obter em troca coisas cujo prazo de validade era pequeno não me parecia um bom negócio. Num mundo de sociabilidade eu estava descobrindo a sensibilidade social. Num mundo de praticidade concreta eu, antes de usá-la, estava em busca da teorização abstrata que orientasse todas as habilidades de mundo que eu vinha adquirindo a uma velocidade crescente, com picos de conquistas mais intensos. 

Foram anos de tentativas de buscar um consenso - um acordo com o "centrão" da humanidade - para não entrar em choque com o grosso da humanidade. Mas sempre me via em minoria. Até mesmo em grupos restritos, de pessoas diferentes (digamos a parcela do décimo), percebia à medida que me expandia, desenvolvendo minhas visões de mundo. E através de meus hábitos, começava a me destacar. Se para o melhor ou pior, não sei dizer. A questão era esse descolamento.

A miséria está no consumo insano, na indiferença afetiva,
na inércia mental, na falta de humildade em admitir que
somos apenas ferramentas humanas que podem
executar obras formidáveis. 
Me é desagradável falar de mim, mas o objetivo não é centrar na minha pessoa, e sim destacar o processo que me levou - ou melhor, está me levando - a construir minha verdadeira personalidade. Uma personalidade mais profunda, mais plena, capaz de se manifestar de forma mais eficaz e se calar sem se incomodar - por saber seu lugar e seu momento neste mundo. Uma personalidade dinâmica, capaz de se destruir e reconstruir a cada grande passo, se lançando a empreitadas fora do comum. Apenas vivendo conscientemente, constatando e assimilando, é possível ter matéria-prima para forjar novas possibilidades e afirmar o que o mundo nega - por falta de crença. 

O milagre é algo incomum. É um acontecimento admirável (mirare), espantoso que não se espera, ou seja, fora do conjunto do natural, do cotidiano. É uma pequena exceção inserida em meio ao reino das regras consolidadas. É algo que não se explica através das leis da natureza - conhecidas. 

milagre
mi·la·gre
sm
1 Fato ou acontecimento fora do comum, inexplicável pelas leis da natureza.
2 Acontecimento admirável e espantoso.
3 Fato que causa grande admiração e surpresa.
4 REL Qualquer manifestação ou intervenção da presença divina na vida humana.
5 Sinal dessa manifestação, que se caracteriza por uma alteração repentina, insólita e fora do comum das leis naturais.
6 Figura em madeira ou cera, oferecida aos santos, em cumprimento de uma promessa; ex-voto.
7 HISTTEAT Espécie de drama na Idade Média, encenado para contar e louvar a vida de um santo.
A intervenção da presença divina na vida humana se dá a todo momento. A questão é que apenas considera-se divino aquela manifestação que impressiona os nossos sentidos. Se o raio vertical divino toca o âmago do mundo e o abala de forma imprevisível, admite-se o miraculoso. Caso contrário, não se considera que haja contato divindade-humanidade.

Mas meu íntimo me afirma: "Deus é tudo e tudo é Deus. Mas Deus é mais do que tudo." Se ele é tudo e além, estamos conceitualmente inseridos em seu seio. Logo, sua atuação é permanente, a cada momento. Dessa forma pode-se considerar que tudo é um milagre. A vida é um milagre! A planta crescer; o bebê sorrir; as pessoas se manifestarem; o gênio criar sua peça, sua sinfonia, sua teoria; o santo criar um novo conceito de vida; o filósofo lançar uma corrente de pensamento revolucionária; o inesperado das relações se dar; a gênese de sistemas políticos, econômicos, tecnológicos...Tudo é obra do divino manifestada através de canais - sejam eles humanos ou infra-humanos. 

As leis se tornam naturais à medida que compreendemos seus mecanismos. Antes eram sobrenaturais. Quando compreendemos podemos usá-las a nosso favor, de forma utilitária - pelo menos no curto prazo. Logo, o conceito de natural é dinâmico e se fortalece à medida que a evolução se dá. O psiquismo humano começa a fazer aproximações não apenas conceituais mas de vivência nessas questões. Isso é fantástico e evidencia um princípio evolutivo dentro de cada ser. 

O milagre não está em tudo. Ele é tudo. A diferença é que
alguns deles já foram assimilados pelo humano como natural -
e paradoxalmente deixamos de nos encantar pelas maravilhas
da vida. Vida em busca de evolução. Evolução para retornar
ao seio de Deus.
A vida humana se torna cada vez mais incerta e sem grandes aspirações. A alienação aumenta e com isso a violência e intolerância. Ao lidar com questões simples deixamos de perceber o aspecto essencial de cada relativo humano. Com isso nos perdemos num mar de análises e conjecturas. Criamos métodos e sistemas sem se ater à sua sustentação. Seguimos correntes de pensamento e repetimos-as, por estarem mais adequadas ao nosso contexto, história e personalidade. E quando tudo dá errado, alguns esperam por milagres. Outros esquecem e desistem. Mas todos permanecem no mesmo patamar, combatendo os males de nosso plano com métodos de mesmo nível. Eu creio que seja preciso erguer uma vertical em direção a outro plano. 

Se esperarmos por milagres não teremos nada exceto uma fila de espera recheada de bolinhos e distrações na sala de espera. Esperamos incessantemente. "Quando isso se der, aí vai ocorrer.". "Quando a conjuntura for favorável, eu me aliarei." "Quando ele ceder X, eu concedo Y." e aí por diante. Fazemos isso até perante os menores problemas, nos recusando a dar um salto de fé em regiões desconhecidas. Esse salto demanda uma dose de estofo espiritual fora do comum. Pouquíssimos dão esse salto. E se dão precisam de um pequeno empurrãozinho para efetivá-lo. 

Apenas um homem deu o salto de forma consciente, por si só, neste mundo, desde a mais tenra infância. Esse homem é conhecido como Jesus, o Cristo.

Outros deram por conta, mas precisaram de décadas para se conscientizarem. Esses são o Príncipe Siddharta, o Buda, Francisco de Assis, Vicente de Paulo, Pio de Pietrelcina, Blaise Pascal, Mahatma Ghandi Pietro Ubaldi, Eduardo Marinho, entre outros. As vidas são variadas. Diferentes épocas, profissões e missões. Mas uma única meta: edificação do ser.

Eu nunca cri em milagres porque para mim tudo é natural. Se não o é, por que ocorre? Assim me coloquei diante de um dilema. Não sabia me posicionar perante a questão. A mim interessava apenas resolver o meu problema: estar em paz comigo mesmo e desenvolver coisas (habilidades) que se encontravam latentes. 

A esperança não cria nada exceto uma sensação de conforto presente que se arrasta pela linha do tempo. Ela é um medicamento bom para casos de desânimo profundo, mas em doses diárias que se tornam parte da dieta pode significar o engessamento da personalidade - que culmina na eliminação das possibilidades coletivas. Isso é um horror quando se vê seu real significado. 

Ele veio mostrar que nós podemos fazer não apenas
igual, mas ir além. Pois a substância divina permeia o
universo. Devemos nos conscientizar disso.
Baseada em expectativas cultivadas dia-a-dia, gera-se como efeito complementar o medo, que nada mais é do que uma anti-expectativa: a esperança de que o bem não ocorra. E vice-versa: pessoas que levam vidas baseadas no medo acabam gerando a esperança de que algo ruim não ocorra. No fundo, leva-se uma vida medo-esperança que nada mais são do que expectativas que colocam a responsabilidade num agente externo. Eu percebo isso em mim e vejo em todos lugares. Cada atitude humana é imbuída com uma certa dose de medo-esperança. Assim somos movidos por expectativas cuja concretização e consolidação dependem exclusivamente de agentes externos.

Cremos na superficialidade externa de alguém imensamente mais do que na profundeza interna de nós mesmos. Todos agindo assim, e gera-se um mundo paralisado, ideal para aqueles que possuem o controle e o poder (diga-se, donos da grande mídia, dos bancos, dos sistemas de saúde, educacionais, megacorporações, etc). Estes sabem exatamente como trabalhar para fazer as pessoas executarem planos com esquemas complexos mas fins simples em favor de seu pequeno grupo. 

Colocando as expectativas a respeito de nossas aspirações em um agente ou grupo externo nos torna uma ovelha no grande rebanho sofredor intitulado humanidade. Não creio que nossa missão no mundo seja essa. 

Os últimos 7 anos foram os mais decisivos. O período que engloba dos meus 26 aos 33 anos, quase coincidente com o quinto septênio de minha vida (28-35 anos), foi aquele que trouxe mais desdobramentos na personalidade do que a soma de todos os outros elevados a enésima potência. O que ocorreu? Uma persistência num caminho diverso, apesar de todas as resistências - via ameaças dolorosas ou recompensas prazerosas - apresentadas pelo mundo. Até os mais próximos e queridos resistem ao ímpeto evolutivo de um ser quando tudo parece dizer "isso é loucura". Contra todas probabilidades, contra todo histórico, contra todas as regras da astúcia, eu segui um caminho que me levou a um estado de desespero agudo, cujo ápice foi uma martelada fatal, abraçada como um feliz acontecimento. Sentia que, apesar de tudo, estava sendo sincero. 100% sincero. Pensando no meu Eu divino mais do que no meu ego humano. Aceitei de corpo e alma o meu destino. 

A minha postura diante do acontecimento continuou firme. Acreditei sem sabê-lo com plena consciência de suas implicações reais. Talvez essa atitude firme e convicta tenha sido a chancela final. A partir daí, a Lei inicia a atuar com precisão matemática milimétrica, dia após dia, de forma silenciosa, forjando acontecimentos inesperados por mim - e pelo mundo. Bastava eu seguir meu caminho naturalmente, sem recorrer à minha (pouca) inteligência. Do vale abissal em que eu me encontrava, fui alçado a alturas maiores do que as que anteriormente estava - e o mundo tanto ambicionava. Agora o efeito do impulso fica mais fraco. Já ultrapassei o pico anterior em muito. Mas posso ser mais (ser, que é causa...não fazer, que é consequência).

A exaustão do impulso miraculoso que está ocorrendo é natural e ainda faço proveito dessa ascensão. Proveito em sentido de uso para me melhorar - jamais para aproveitar a posição. 

Para ocorrer o milagre devemos criá-lo.

Para criar o milagre devemos desbastar a nossa personalidade, deixando a luz individual do espírito mais intensa.

Esse processo de criação é complexo e envolve um estofo moral fora do comum. Ele conduzirá o ser a um desespero crescente. Poucos o compreenderão. Ninguém o apoiará nem irá explicar o que ocorre. Algumas vidas relatadas se tornarão o único refúgio. Pouquíssimas cenas de raros filmes apontados para outros mundos servirão de combustível espiritual. 

Quando se está sozinho e nu diante da Realidade mais profunda inicia-se o acontecimento miraculoso. 

Nós somos co-partícipes na criação de Deus. Somos os canais humanos que devem manifestar a substância divina, seguindo o ímpeto interior que nos faz livres e criadores.

Força intelectual e Fé intuitiva.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Compressão das possibilidades - Intensificação da criatividade

É interessante. Existem coisas que podemos dizer sem sermos minimamente compreendidos. O único significado captado pelos outros será a forma da mensagem. Esse mecanismo humano, do ponto de vista de quem passa a mensagem, é uma redução brutal do simbolizado transmitido (essência) para se adaptar ao símbolo captado (forma). 

Nada que exceda o grau de consciência, incluindo a capacidade de vislumbre (intuir), será transmitido com eficácia. Dessa forma começa-se a perceber que muitos conceitos e percepções profundas da vida somente poderão ser compartilhados por um círculo muito restrito de amigos. Uma fraternidade minúscula numericamente falando. Mas muito diversa em termos de sensibilidade. Trata-se de uma questão de sensibilidade. Poucas pessoas ainda tem desenvolvido esse sentido interior.

Por mim, como professor, já passaram centenas de almas
jovens (alunos). Apenas uma entrou em ressonância com
o meu ser. A conversa durou 2 horas - mas pareceu
instantânea. Nesses momentos atinge-se a eternidade,
superando o tempo.
Quando me deparei com a Obra de Pietro Ubaldi senti ter encontrado alguém capaz de sintetizar meus dramas humanos - incompreendidos - e me tornei uma pessoa mais orientada na vida. Percebi que não valia a pena dar atenção a determinados tipos de pessoas. Percebi que muitos fazem promessas repetidamente e não consumam as promessas. Percebi que diversos dizeres são inacessíveis aos corações e às mentes que, entretidas pelo torvelinho das sensações e o tormento das obrigações mundanas, gozam o máximo que podem, desde as formas mais baixas até as mais elevadas. Mas tudo é no fundo gozo, distração, superfluidade. Percebi que sofrer uma vida inteira com um propósito sincero e ardente é dificílimo na prática, mas pode significar uma paz invencível nos momentos titânicos pré-morte, quando o abandono deste mundo é um alívio porque dele se fez uso adequado. Nem abuso nem recusa. Apenas uso consciente.

Meu destino preestabelecido foi abandonado em busca de um maior sentido para minha existência individual. Minha profissão fatal era e seria a de engenheiro. Mudei os rumos do meu carma, não desviando dele, mas compreendendo-o e superando-o. O milagre ocorreu e eis me aqui. No entanto, como o místico moderno da Umbria, o ambiente está muito longe do ideal. Mas a rotina diferenciada, com mais e maiores graus de liberdade, permite que a alma se expanda de forma mais sadia. Essa alma tem muito a dar - eu o sinto. Uma missão a realizar. Uma tarefa a executar. Um destino mais nobre a ser escrito no mármore da História.

Estou forjando meu ser com a dor da incompreensão e da solidão. Tenho a (persistente) sensação de telefinalismo da vida terrena. Esta é apenas um característica transitória de uma vivência mais profunda, com poderes de percepção além do concebível. Falar desses assuntos é raríssimo hoje em dia. Se esses temas emergem no cotidiano vazio e estúpido humano, ele é encarado como tópico de lazer, visando gerar assunto na horizontalidade social, de forma a preencher as lacunas que sobram das repetições enfastiantes de temas formais, desnecessários, engessados e repetitivos - em sua larga maioria. Isso causa desespero agudo às alma ardentes por significados mais plenos. Tão agudo que o desespero domina tanto o espírito quanto o corpo, se traduzindo em gestos de perturbação, falta de concentração e fatal estreitamento dos portais de atuação e sentidos. Porque percebe-se que a atuação praticada tem efeito mínimo - por vezes deletério, prejudicando a vida do ser. Essa é a chaga do julgamento sem conhecimento de causa. Deve-se criar o ambiente que poderá atrair certos tipos de seres. O autor busca fazê-lo em termos reais (oficialmente) e virtuais (aqui). Num o público é pequeno mas a vivência é mais íntima. Noutro o público se expande, com os tentáculos conceituais se estendendo pelo mundo todo - mas a vivência é menos intensa.

Compreender o místico é compreender a vida.
Alinhar sua vontade à vontade de Deus pode levar à fogueira.
Giordano Bruno (acima) cumpriu seu destino. Não apenas
adentrou na História - ascendeu a planos superiores.
Hora tensa a atual, em que as possibilidades de sucesso parecem se esvair. Os auxílios são frouxos e se dissipam, como as nuvens após a tempestade voraz que deturpa as almas menos prevenidas. Mas simultaneamente vai-se percebendo que o mundo pouco pode auxiliar. Está preso num torvelinho de sensações, repetições e formalismos que sugam energia e arrastam os instintos no breve tempo da existência. Mantêm eles atuantes, mantendo sua posição consolidada, que na menor possibilidade de ameaça, se lança contra impulsos anti-repetitivos que visem a formação de novos automatismos. Essa força de atração é tão forte que o efeito de escritos como o de Ubaldi ou de Rohden são nulos - tamanho o grau de insensibilidade do tipo médio atual. Isso pode parecer desejo de ofensa e desafogamento de frustrações, mas garanto que se trata de uma simples constatação de uma realidade tão profunda que ignoramos sua existência e seu poder de conduzir nossas vidas.

Agora mesmo me encontro em sala, auxiliando uma colega a aplicar prova. Há necessidade de controle rígido, terror e ameaças, para conseguir certo nível de comportamento. Mas a imensa maioria só permanece enquadrada por astúcia. O tipo médio é o mesmo, seja ele aluno ou professor.

Buscamos o caminho mais fácil na vida. Qualquer atividade que demande um esforço sem compensação proporcional é visto como inútil. Alguns até se interessam ao ver seu semelhante fazendo esse tipo de epopéia, persistentemente, ao longo dos anos. Assim tem um assunto para falar, alguém para caçoar, uma lacuna a preencher - de seu imenso vazio interior. Simplesmente assistem de longe. Outros acham bonito, mas jamais fariam algo parecido. É uma bela teoria a ser contemplada para satisfação do ego. Quando essa teoria - que para quem a implementa é uma vivência intensa -  é esmagada ou sofre ataques cruéis, logo a admiração some. Ajuda, nem se fala. E assim o ser se vê diante da incompreensão humana.

"Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem" 
Jesus, o Cristo

Os trechos do Evangelho que pareciam apenas belas frases soltas começam a se fundir com todos aqueles sentimentos de perdição, angústia e busca alucinada daquele que não aceita uma realidade tão falsa. Assim essas palavras assumem aspecto mais translúcido. Elas são mais vívidas a cada leitura. Adentram nas entranhas espirituais para serem elaboradas. Assim o ser é cada vez mais impelido à prática. Ganha-se potência e coragem. Persiste-se.

O místico não estuda o fenômeno. Vive em sinceridade consigo e em harmonia com os aspectos fundamentais da vida (cinco A's). Faz disso o seu reino e assim se torna um fenômeno. Há ainda aqueles que possuem um germe de genialidade e conseguem, a partir de sínteses, formular obras fantásticas que vão sendo compreendidas gradativamente.

Safatle me agrada, confesso. Não porque é
filósofo nem de esquerda. Nem por ser acadêmico.
Simplesmente porque está, como eu, tentando
transmitir o monismo que coordena o nosso universo
dualista. Isso está muito além da filosofia e do ensino.
A aula que mais me agrada dar é aquela que menos atrai gente, menos mantém gente, menos se difunde. É um momento oficial, mas desconhecido. Diversas visões são apresentadas. Tópicos esmiuçados. Usa-se o que se aprendeu para explicar fenômenos inerentes à vida, de forma diversa, fazendo uso de vídeos, músicas, imagens, discursos, atividades, sistematizações e conversas. Traçam-se as diretrizes para que o aluno possa se tornar sujeito atuante, diferenciado, não-corrompível no sentido mais lato do termo, e assim possa concluir - mesmo que de forma incompleta - um processo em que lhe foi apresentado o verdadeiramente diferente. Um campo de possibilidades. Um rasgo de luz que torna os mistérios que fazem recuar todos, fracos e fortes do mundo, mais acessíveis e apaixonantes. Um ímpeto de paixão guiado pelo bom senso. Um salto de fé que conhece as artimanhas e maldades do mundo, até seu último grau. E mesmo assim se consuma. Porque nada mais de útil há a se fazer, e o mundo abre inconscientemente brechas de vácuo. Esses vazios desoladores são preenchidos de alguma forma por aqueles que desejam ardentemente conquistar um sentido para a vida. 

Para quem conquistou certa sensibilidade, uma vida sem sentido é mais dolorosa do que todas as ameaças e prazeres do mundo - pois as duas coisas, no fundo, partem da mesma essência (ilusão) e colimam no mesmo fim (dor). Gozo e prazer se complementam no magnetismo que deixa a humanidade ancorada no lodaçal do isolamento. As aproximações são tímidas e lentas. Os partidarismos se revelam de forma clara. Os adiamentos acabam deixando o ser cada vez mais determinado: deve fazer tudo de per si. A iniciativa deve partir dele, pois o mundo está perdido anseia difusamente pela meta - a evolução.

Sentir-se leve permanentemente é possível apenas após
uma passagem turbulenta. A zona que separa o regime
subsônico do supersônico é de tremor e incertezas. Quem
persiste e arde na dor, emitindo um grito de beleza singela,
 expande seus limites para níveis inimagináveis. Passa-se a
saber que Deus É. 
Essa compressão das possibilidades é desoladora para o sensível. Quem vive de forma orientada num mundo desorientado se choca constantemente com barreiras. Tem as energias drenadas e os recursos limitados. Mas mesmo assim consegue cumprir o que sente ser seu dever. Isso ocorre porque duas vontades estão alinhadas: a da vida e a do ser.

Quando comprimimos algo as possibilidades de escape desenfreado são múltiplas. Quanto mais intensa essa compressão, mais desesperador. No entanto, é a determinação no sentido dessa dor (pressão das circunstâncias) que possibilita o alargamento do campo das possibilidades. Assim a criatividade eclode e logo permeia todos os cantos. O ser cria uma conexão com os fenômenos e vê o significado dos atos. Vê a mentalidade que forja a atitude. Vê os longos horizontes de tempo e de espaço, percebendo que por mais que se expanda um finito, o infinito domina e coordena. Quando o aperto é tão grande e é inexorável a expulsão do ser do campo de forças que o comprime, ele já sabe para onde vai: para cima. Pois se moldou de forma adequada, de modo a permitir a manifestação da dor até sua exaustão. Mas esta, focada apenas nas agressão, não controla o que dela fazemos. A nossa reação à dor é o que definirá nosso estofo espiritual.  

Esses textos não param. Nem mesmo em períodos de grande desolação e tensão. Isso é o que o autor é incapaz de explicar. A lógica existe mas está fora do campo da racionalidade cerebral. Eles fluem como ímpeto. Jorram pela desolação.

Se soubermos viver de forma sincera e plena, gerando ideias
e formas de vida vetorizadas para ascensões, teremos um
dia-a-dia assim, belo, natural e cheio de inspiração.
Seguir conselhos é garantia de reprodução. Pode ser confortável e socialmente interessante. Mas a solução está em conectar-se com forças imponderáveis através da maturação evolutiva. Autores já apontam para isso de forma cada vez mais clara [1]. É impressionante como as visões de mundo que venho esboçando se tornam cada vez mais claras e justificadas.

Adquirir sensibilidade para reconhecer os milagres que se operam na natureza é poeticamente iluminado. Mas forjar um destino capaz de acionar as engrenagens da Lei e superar seu atavismo é arrebatador. O caminho se transmuda.

O místico busca a solidão para compreender melhor como lidar com os fatos da vida. Não se isola por medo, por ódio ou por desprezo. Isola-se apenas porque o respeito pelo próximo aumenta. Porque compreende-se a impossibilidade de uma vida mais conectada, que pode mais causar problemas do que compreensões. A escalada rumo ao misticismo é a trajetória do evoluído. O retorno do místico ao mundo é a santificação do ser, cuja natureza se plasma, adquirindo magnetismo fora do comum que está preparado para ascender. 

Referências:
[1] https://medium.com/swlh/why-you-shouldnt-take-advice-from-almost-anyone-2961b8d9fb8

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Abrigo: Direito humano. Luta persistente.

Continuo desenvolvendo os aspectos específicos dos cinco fundamentos da vida humana - conhecidos como 5 A's [1]. Já desenvolvi o tema do vegetarianismo e veganismo, que é a expansão da plenitude da saúde através da nutrição (alimento). Agora posso ascender ao quarto A, adentrando na questão do abrigo, indispensável à manutenção da espécie, e ao desenvolvimento profissional e pessoal. 

A moradia é um dos alicerces da civilização. Isso sempre foi uma verdade. Constata-se o fato observando que a espécie humana sempre buscou abrigo para conseguir obter um nível de segurança, seja contra os elementos (chuva, vendavais, enchentes, frios, calor, etc), contra predadores (animais ferozes) ou 'inimigos' (infelizmente, outros humanos), e possibilitar a concentração e reprodução. Tão indispensável é e tem se tornado ao longo do desenvolvimento econômico, social e cultural, que em 1948 ONU (Organização das Nações Unidas) lança a Declaração Universal dos Direitos Humanos [2], que aponta para o direito à propriedade privada e habitação:

"Artigo XVII 1. 
Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros."

"Artigo XXV 1. 
Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar-lhe, e a sua família, saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle."
(grifos meus)

Ter abrigo é fundamental ao ser humano. É o que permitiu o
advento das cidades, da civilização, com todas suas
possibilidades. É conforto que deve ser usado com função
evolutiva - que se relaciona, em larga medida, com o social.
É óbvio que nossa "civilização" não assegura esses direitos à espécie humana. Mesmo porque muitos governos agem como se houvessem cidadãos e não-cidadãos. A estes últimos são negados os Direitos Humanos, isto é, os direitos fundamentais que a ONU aponta como indispensáveis à vida e seu desenvolvimento no nível humano. São os mendigos, sem-teto, aqueles que vivem nas periferias, os excluídos, os que passam fome, não possuem condições de estudo, trabalham em regimes semi-escravos e são vistos por muitos da sociedade como indesejáveis. Os nossos sistemas, com suas lógicas, se provaram incapazes de resolver esses problemas. Em grande parte devido ao baixo grau de consciência de imensa maioria dos seres humanos, insensíveis às questões mais importantes do mundo como democracia, direitos e deveres, ciência e tecnologia, jurisprudência, legislação, questões éticas, ecologia, afetos, sociedade, cultura e (especialmente) espiritualidade. Poucos (que podem) gastam seu tempo e energia além das obrigações mundanas para construir uma visão de mundo mais completa, madura e capaz de forjar projetos de vida concretos (a prática), que causam algum impacto. Mas o fator que causa mais atrito na evolução coletiva é a insensibilidade ao outro.

Quando nos acercamos de um assunto que não faz parte de nossa vida tendemos a imprimir opiniões relativas, restritas à nossa formação, à nossa classe, ao nosso meio cultural. Ela é relativa. Incapaz de sentir o que aquilo pode representar para quem está vivendo na pele aquilo. Vejamos o tema moradia.

Quando observamos movimentos sociais na mídia, a cobertura dada geralmente é parcial, ressaltando aspectos negativos - sem necessariamente apontar culpados, mas sugerindo que muitos males advém desses tipos de organizações. Quem está habituado dificilmente irá perceber. Se começar a notar algo, resistirá em aceitar algo que rasgue seu limitado campo de possibilidades. Sua noção do que é 'certo' e 'errado'. Daquilo que está além de seu campo de concepção. A relação entre direito e justiça é um exemplo claro.


Eleanor Roosevelt segurando a
Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).
Um pequeno passo para a implementação.
Um grande passo para a consciência coletiva.
Estamos apenas no início...
Na Rádio Blink 182, Safatle [3] explica o porquê de, em certos momentos históricos, a justiça se destacar do direito. Lei e justiça se desacoplam em particulares momentos históricos. A primeira, baseada na força e na tradição, na racionalidade e nos formalismos, é forte e resiste com o apoio da maioria, permeada de receios. A segunda vislumbra o porvir, sente a falta de bom senso dos modos de organização. Ela se apoia na coragem, na iniciativa, nos impulsos, na inteligência não- sistematizável, indomada, mas com uma pitada de sentido - se percebido em seu mais amplo aspecto. É fraca mas persistente, buscando alavancas de apoio na sinceridade e perseverança. Ela intui, e por isso não desiste com as derrotas momentâneas. Sofre no presente para garantir o futuro - ao passo que a lei consolida e goza o poder no presente, mas não se adapta ao transformismo da vida e da consciência coletiva. Deve-se levar em conta essa dissociação especial, da qual a História está pontuada com exemplos formidáveis, tanto na esfera coletiva quanto individual, se quisermos investigar com sinceridade (busca pela verdade) a questão da moradia no país - e no mundo.

Movimentos sociais que clamam por moradia não surgem por esporte. Se alguém acredita que um  grupo humano está disposto a se organizar, ocupar, ser ameaçada (e por vezes agredida) pelo aparato policial, e persistir numa luta apenas por capricho, para ganhar destaque na mídia, dinheiro, garantir sua "boquinha grátis" ou simplesmente atrapalhar vida de terceiros, não conhece bem a natureza humana. Tudo isso daria muito trabalho para pouco retorno. As pessoas não ocupam - terrenos que não cumprem função social, dia-se de passagem - porque gostam. Culpam por falta de alternativa. Palavras de Guilherme Boulos [4]. Quem deseja conhecê-lo melhor, sugiro que assistam as referências [5] e [6].

Lutar por um direito humano fundamental (moradia) é um direito, caso os meios formais se provem ineficientes ou inúteis.

A legislação que prevê desapropriação de terras improdutivas, que não pagam imposto - como o ITR [7] - não é implementada pelo poder público. Diversas outras leis não são cumpridas, o que leva à aparição de enormes propriedades abandonadas, cujos donos não pagam imposto, mantendo-as assim apenas a título de especularem em cima do terreno. Dessa forma constroem-se bolsões improdutivos nas grandes (e médias) cidades, que não são alvos da desapropriação legal simplesmente porque as engrenagens da lei não são acionadas contra aqueles que possuem poder sobre elas. Há ainda um outro agravante: a lógica daqueles que descumprem a lei visando ganhos permeia o modus operandi das instituições publicas brasileiras, de forma que essas são pouco ou nada sensíveis à lei quando se trata de certas questões.

Diante da indiferença absurda do Estado face ao rentismo improdutivo, como esperar eficiência econômica? Mas a questão só fica crítica quando colocamos no tabuleiro a exploração e consequente exclusão que completa o ciclo de degradação de massas humanas. 

A redução de empregos, o achatamento dos salários, a (des-)orientação das atividades econômicas visando aumentar os retornos financeiros e a ânsia desesperada de gerar maior consumo - a título de extrair mais dos indivíduos - colima em famílias que chegam à beira do colapso familiar e social, comprometendo mais de metade da renda com o aluguel (de um imóvel em más condições, geralmente). Após buscar incessantemente algum bico e ser rejeitado e humilhado no processo, e com  um cansaço que beira o colapso físico e psíquico, o chefe de família chega ao seguinte ponto: ou paga o aluguel e nega a comida à prole - ou dá o mínimo de comida à família e vai para a rua, onde todos ficarão sujeitos a todo tipo de violência - conforme a polícia militar bem demonstra com sua atitude e atos. 

O poder público não age, pois é refém da lógica financeira hodierna. Uma visão de mundo em que mamon [8] é objeto de culto universal. A família deseja apenas (sobre)viver em paz. O pai, a mãe, a última coisa que desejam, é se lançar no barro e na luta social porque gera um esforço tremendo. Eles recorrem quando esgotam-se todas alternativas, e o terror de virar morador de rua, de passar fome, de ser despejado, se torna concreto.

Indo mais à fundo iremos perceber que a questão é muito mais complexa do que a grande mídia e nossos círculos sociais apresentam [9]. O que está em jogo é uma lógica sistêmica apodrecida, que retroalimenta a situação, agravando os conflitos  - com uma polícia adestrada a eliminar quem reclama direitos sociais, pacificamente; valorizando áreas (leia-se: custo de vida) sem fornecer aos moradores pobres condições de acompanhar esse aumento espetacular dos custos; e desinformando as pessoas através da mídia, apresentando o que convém. Notícias baseadas em eventos. Nada de investigação das tendências (comportamentos) e da lógica de funcionamento do Estado brasileiro (estrutura). A quem este serve de fato? 


Guilherme Boulos vive com o pé no barro desde que
iniciou sua atuação pela justiça social, aos 15 anos.
Desde então percebeu que não basta o saber -
precisamos viver com os pobres, sofrer com eles,
para ser uma liderança de fato. 
Sem-teto é um termo muito mais amplo. Não é apenas morar na rua. Esse é o caso mais extremo, produto de uma sociedade focada na ilusão das fofocas, do consumismo, da competição. Da insensibilidade aos mais necessitados. Aqueles que vivem de co-habitação, ou que não possuem condições de pagar os aluguéis, comprometendo alimentação, saúde, transporte, educação básica e itens essenciais (ex: higiene) para honrar suas contas, também são sem-teto. Aqueles que tem um teto mas não possuem água, luz, gás, saneamento; aqueles que não possuem rede de transporte próxima; aqueles que vivem em regiões inseguras - inclusive devido às violentas incursões policiais; aqueles que aumentam de 10 para 14 horas suas jornadas devido ao isolamento total (periferia da periferia). Todos esses casos se somam aos dos sem-teto. Pessoas que somam quase um terço do país [9]. Massa excluída de uma vida plena.

Não é possível se debruçar em questões de ordem mais elevada se a todo momento existe a sombra do despejo; a perda de tempo com atividades básicas; o medo de ser abordado pela polícia simplesmente por morar em lugar x, ter vestimenta y e ser de raça z. Isso é uma violação aguda dos direitos humanos. Mas isso só irá mudar com a conscientização. 

Enquanto nos vermos como pessoas distantes, desconectadas dessa realidade, a injustiça irá prevalecer. Pois ela se fixa no terreno do mundo devido às neutralidades da maioria. Somos indiferentes àquilo que não nos arranha. Em situações na qual somos colocados em evidência - sem o desejarmos- fingimos nos preocupar. Isso é triste, mas ao mesmo tempo é o que nos permitirá ascender de nível consciencial.

Porque o que atinge o outro pode um dia nos atingir.

A História nos mostra que o que era considerado impossível ocorreu. O improvável se plasma, tornando-se comum e atuante antes que possamos fugir ou nos proteger.

A extrema pobreza avança. Os bancos continuam faturando
com um rentismo único, que só é possível em regimes
feudais, como o brasileiro.
E os dados revelam que a pobreza extrema cresce no país [10] - assim como a violência contra os moradores de rua [11]. Isso deixa as pessoas que tem algo - dentre o povo - e a classe média apavorados. Especialmente estes, que vivem segundo a lógica da pressão-propriedade-patrimônio. A brutalidade estatal é tão violenta que inibe qualquer possibilidade de questionamento. Isso produz um esvaziamento da democracia e a cooptação de setores da sociedade para um extremo: o fascismo.

Safatle, no programa Voz Ativa, diz que a pior coisa a ser feita em momentos de polarização é não operar no outro extremo [12]. Pois é isso o que vemos no Brasil atualmente.

Sabrina Fernandes, no seu canal Tese Onze [13], Doutora em Economia e Sociologia Política pela Carleton University (Canada), desmistifica narrativas construídas e espalhadas pela mídia - e reproduzida inconscientemente por muitas pessoas de "bem". Não destrói o conceito de propriedade privada, mas a enquadra numa ordem maior, onde deve cumprir uma função superior. Aliás, o sistema que está acabando com a propriedade privada é o próprio capitalismo-neoliberal, cuja última crise foi responsável pela aumento exponencial do número de famílias sem teto (nos EUA e no mundo), privando-as do direito de possuir um lar. Paradoxo incrível: o sistema que afirma defender o direito à propriedade extingue-a de roldão, ou deixa as pessoas no limite de perdê-la. Essa regra de perda e risco iminente de perda / queda do padrão de vida é verdade para 99% do mundo (pobres e classe média). Quem ganha? A elite, que em larga medida quer manter os privilégios.


A formação do Brasil de hoje já parte de uma divisão e loteamento de terras para a exploração desenfreada de recursos, visando extração - não desenvolvimento econômico local. A propagação dessa lógica por períodos longos é o que reforça a inércia dos utopistas e a naturalização de barbaridades pelas próprias massas que sangram, choram e se extinguem aos poucos. Mas é preciso perceber o que ocorreu e por que se mantém o estado das coisas. É dever de quem tem alguma condição usá-la para fins superiores, que não a reprodução de fofocas e mesmices cotidianas. É mister se transformar, nem que isso cause febres, dores e rejeições. Ou evoluímos ou entramos em débito com o banco de Deus.

A primeira atitude a fazer é mudar nossa percepção das coisas. De pouco em pouco. De experiência em experiência, iremos nos conscientizando de uma realidade mais profunda, em que atuam leis mais poderosas do que aquelas que conhecemos - e respeitamos. Leis não assimiladas pela sistematização analítica - mas sentidas pela vivência profunda, geralmente advinda com experiência da dor. São as verdadeiras maturações apocalípticas que alguns seres humanos vivem, saindo de um túnel de experiências dolorosas como místicos, heróis, santos ou gênios. É a reação adequada (inteligente) às dores que forjam as almas mais fantásticas.

Verdadeiras locomotivas da humanidade, se heróis.
Faróis telescópicos, se gênios.
Antenas potentíssimas, se santos.

Não precisamos ainda nos tornar isso. Basta que compreendamos cada vez melhor a função de cada evoluído. Que sejamos capazes de ver que é a intuição que forja uma razão sadia - pois uma razão jamais será capaz por si só de edificar uma grande alma, repleta de sentimento, coragem e visão. Sofre-se no cotidiano para elevar-se no decorrer das eras.

Olhar para a questão da moradia de forma mais ampla, rasgando a alma (conceitos), expandindo-a, é o que ajudará toda humanidade a superar esse princípio de exclusão.

Pois de nada adianta erradicar a exclusão por fora se o seu princípio se encontra operante em nossa alma. Precisamos de estofo espiritual para vitaminar nossos movimentos coletivos.

Essa é a questão. Esse é o princípio. Esse é o caminho. 

Referências:
[1] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2015/11/ar-agua-alimento-abrigo-afeto.html
[2] http://www.onu.org.br/img/2014/09/DUDH.pdf
[3] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2018/06/novos-rumos.html
[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/Guilherme_Boulos
[5] https://www.youtube.com/results?search_query=boulos+roda+viva
[6] https://www.youtube.com/watch?v=QdRm0MGriE0
[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Imposto_territorial_rural
[8] https://pt.wikipedia.org/wiki/Mamon
[9] https://outraspalavras.net/brasil/direito-a-cidade-luta-proibida/
[10] https://www.cartacapital.com.br/economia/o-que-explica-o-aumento-da-pobreza-extrema-no-brasil
[11] http://justificando.cartacapital.com.br/2016/08/15/denuncias-de-violencia-a-moradores-de-rua-crescem-60-no-rio-diz-defensoria/
[12] https://www.youtube.com/watch?v=6UJ-ziAYsYI
[13] https://www.youtube.com/watch?v=dDobL2NAv_E

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Vegetarianismo: questão de maturação evolutiva?

Há tempos desenvolvi o assunto dos 5 A's essenciais à vida [1]. Um ser humano, para viver em sua plenitude, necessita apenas desses cinco elementos. Em sua plenitude. O que significa em quantidade necessária e suficiente (nem mais nem menos) e com a qualidade máxima, dando plenitude. Podemos destrinchar cada um deles, revelando tópicos científicos, vistos à luz da ciência, para comunicar melhor ao homem moderno qual a importância de se ter acesso a cada um deles. 


Estilo de vida saudável reflete na
aparência, na disposição, no humor, no
dinamismo. 
O 1º deles (ar) aponta para o aquecimento global, a poluição atmosférica e se liga profundamente com o ciclo da respiração, de inspirar e expirar; O 2º (água) é um dos tijolos fundamentais da vida, constituindo de 60 a 70% de massa do corpo humano. Ela aponta para o saneamento, o ciclo hídrico, a energia hidráulica, a nutrição; O 3º elemento (alimento) é diverso e múltiplo. Ele é o último dos elementos essenciais do ponto de vista animal, formando a tríade elementar que permite ao indivíduo sobreviver. Ele aponta para questões de saúde, nutrição, bem-estar; A partir daí tem-se o 4º elemento (abrigo), que é por vezes sofisticado na vida infra-humana (ex: colônias de formigas) mas não se revela tão indispensável quanto para o ser humano, que se desenvolve numa região de segurança. É onde se dão as atividades intelectuais, de reflexão, de educação, de socialização. É o que se associa à propriedade fixa, de direito, inalienável. É a extensão do corpo. Posse e local de descanso. Essencial à criação da família (propagação da espécie) à nível mais elevado; Até aqui se cumprem a 1ª e 2ª lei da vida (alimento e reprodução), que são tanto melhor cumpridas quanto mais saboroso o alimento e mais bela a mulher. Mas há uma necessidade a mais, que alguns já vislumbram, que vai além do plano do abrigo e das necessidades básicas de ingestão corpórea. Trata-se do afeto: ápice das necessidades. Indispensável para o desenvolvimento das ideias, da formação de valores, da criação de conceitos novos e de atitudes revolucionárias de vida, apontadas para a unificação. Assim temos o ser humano, cujas possibilidades se traduzem na plenitude dos cinco A's.

Gostaria de desenvolver a questão da alimentação, que nos toca de forma muito profunda, já que é um processo que ocorre com frequência e une as pessoas. Além disso, a nutrição se relaciona de forma profunda com a questão ambiental, a saúde e da eficiência energética. Temas centrais à ecologia, à medicina e à economia. Adicionalmente - e principalmente - trata-se de um aspecto que revela, a meu ver, um vetor evolutivo do ser. Logo, podemos adicionar ao estudo a questão espiritual, que vai muito além da abordagem ética. 

O aspecto do alimento em si já é mais sáttvico-rajásico.
Ao contrário de certos alimentos que são tamásicos.
Mais sobre as três gunas, veja em:
https://blavatskytheosophy.com/the-three-gunas/
Os três aspectos humanos (ambiente, saúde, energia) se inter-relacionam. Assim irei abordar o tópico de forma integrada, desmistificando alguns conceitos que as pessoas geralmente tem à primeira vista. Isso tem por objetivo apenas esclarecer do que se trata, sem visões parciais, e sim universais, sem âncoras em correntes de pensamento e tendências humanas. Ver-se-á que é uma questão de alinhamento com uma lei cósmica.

A primeira questão que alguém pode levantar é a necessidade do organismo humano ingerir determinados tipos de proteínas. Me parece justo ter isso esclarecido - já que a saúde é essencial para viver-se com qualidade. Eu vivo sem comer carne há dez anos e não senti nenhuma falta nutricional, seja em vitaminas, sais minerais, funcionamento celular ou disposição. Os últimos exames de sangue revelam que tudo está dentro das faixas da normalidade. Meu peso é baixo mas dentro da faixa considerada saudável. Meu organismo suporta esforços grandes - especialmente em termos psíquico-nervosos. Talvez venha daí a explicação de meu metabolismo hiper-acelerado. Como bem - nem muito nem pouco - e no entanto não apresento tendência de ganho de peso. Minha atividade física é elementar (caminhadas e pedaladas frequentes, para fins utilitários e ginástica de 20 minutos), com frequência dia-sim-dia-não, em média. 

O vegetarianismo / veganismo leva a um uso mais eficiente
do solo. Respeita a diversidade das espécies e evita sofrimento
desnecessário. Não é o que o sistema atual diz construir?
O intestino trabalha bem, já que a carne é de digestão lenta e os vegetais, legumes e grãos são digeridos rapidamente. Além disso a disposição - sinto - é acima da média, com menos necessidade de sono pós-refeições. Logo, em termos de disposição e indicadores corporais, tudo está em perfeita ordem. Adicione-se a isso a minha capacidade de manter um dinamismo fora do comum para tarefas além das obrigatórias (trabalho formal, manutenção do lar e lazer), criando textos de várias vertentes, desenvolvendo cursos inéditos e conversas profundas (e intensas), ler, estudar e refletir livros/filmes profundos, realizar doutorado, ouvir música e me exercitar. Essa energia a mais pode ser consequência tanto da alimentação frugal e vegetariana, do círculo de contatos selecionado (por sintonia) e da seletividade das tarefas. Dez anos de vegetarianismo não me afetou nada em termos de saúde e aparentemente melhorou minha disposição.

O próximo passo é definir os graus de vegetarianismo. De modo geral existem cinco categorias diferentes. O que as une é a ausência do consumo de carne de qualquer tipo: bovina, suína, caprina, aves, peixes, moluscos, etc. A diferenciação parte desde aqueles que aceitam ovos, leite e derivados e mel em sua dieta (ovolactovegetarianos) até aqueles que não aceitam nada de origem animal - inclusive o mel que as abelhas produzem. Estes últimos são denominados veganos.

Um vídeo da acadêmica Sabrina Fernandes [2] explica de forma cristalina o vegetarianismo/veganismo. O diferencial é a relação do veganismo com o anti-capitalismo. À primeira vista poderá parecer uma tentativa de concatenação forçada entre o ideal socialista de justiça social (lógica redistributiva) com a vertente ambientalista (lógica de redução da produção), que se dá pelo fato da moça ser ecossocialista, mas trata-se de uma relação real, que possui uma lógica férrea, conforme irei mostrar mais à frente. Recomendo que vejam tanto o vídeo extenso quanto o complementar da mesma autora [3].


Porque quando se fala em gado se usa o termo "indústria agropecuária"? Primeiro: a agricultura (o "agro") é o que sustenta a pecuária: o gado consome mais grãos do que a humanidade. Muito mais. Logo, a nossa agricultura serve muito mais como alimento indireto do que direto. O que leva a concluir que o bife que se come possui centenas ou milhares de quilos de grãos "embutidos", pois o boi / a vaca comeu muitas toneladas de grãos ao longo de seus 3~4 anos de vida. Segundo: nossa espécie não se alimenta mais de carne em função da necessidade, mas sim devido à fatores culturais (hábito / imposição familiar / crença na "força" e "vigor" que a carne dá) e uma lógica de consumo para manter o sistema econômico vigente - braço direito do paradigma capitalista - operacional. Vive se para comer - não se come para viver. Se aplica a todos alimentos, mas a carne tem um protagonismo muito grande. Por esses motivos se usa o termo supracitado: a pecuária "puxa" violentamente (demanda) o setor agrícola e a lógica industrial-produtivista. Esse é o primeiro ponto.

Já começamos a perceber o papel que a economia tem na questão do consumo da carne. Adicionemos a questão ambiental.

Segundo dados da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) a pecuária é responsável pela emissão de 14,5% dos gases de efeito estufa (metano, CH4) que causam o aquecimento global. Isso supera o setor de transporte. O metano, é bom lembrar, é o gás com maior impacto dentre todos, pois uma mesma quantidade (e aumento) de ppm's (partes por milhão) na atmosfera causa mais aumento de temperatura média global do que os demais gases (greenhouse gases), incluindo o dióxido de carbono (CO2) emitido pelo setor de transportes, que já por si não é muito eficiente.

"o metano é mais eficiente na captura de radiação do que o CO2. O impacto comparativo de CH4 sobre a mudança climática é mais de 20 vezes maior do que o CO2, isto é, 1 unidade de metano equivale a 20 unidades de CO2." [4]

A mesma fonte diz que o CO2 é o gás de maior emissão (78% do total), o que pode causar confusão para quem lê por cima. Lembrem-se: maior emissão é causa. maior impacto é consequência. São coisas diferentes. Logo, emitir 10 vezes menos ppm de CH4 do que CO2 no fundo significa que o primeiro está causando maior parcela de aquecimento do que o segundo. Ele é (digamos) muito mais 'letal' em termos de aumento de temperatura.

A Juliana do Boho Beautiful tem uma dieta vetorizada para
o vegetarianismo. E uma vida simples. 
Luiz Marques nos lembra que o aumento de temperatura global se dá de forma desigual: a água aquece muito mais lentamente do que a porção continental - devido à sua capacidade térmica, entre outros fatores [5]. Logo, concentra-se um maior aumento de temperatura nos continentes, - onde vive a humanidade - o que agrava a questão. Iremos sentir um aumento maior do que a média prevista, e isto irá afetar a produção agrícola, promover aumento do nível do mar, que por sua vez causará migrações em massa e deteriorar os sistemas produtivos mais ainda. É bom que saibamos disso. Pois quando certas coisas começarem a ocorrer, ao menos saberemos o porquê e poderemos apontar melhor os responsáveis: nós mesmos, em larga medida. Mas quem detém o poder talvez seja mais responsável, pois sabe e tem condições de reorientar os sistemas humanos, mas pouco ou nada faz para isso - pois é muito trabalhoso se pensar em mudanças profundas...especialmente de paradigma.

A questão hídrica é igualmente crítica.

"Quem se torna vegetariano ou vegano economiza água de maneira significativa: para se produzir um quilo de soja, são gastos 500 litros de água, enquanto para um quilo de carne bovina, são necessários 15 mil litros do líquido." [6] (grifos meus)

A lógica é simples. Podemos perceber a "produção" pecuária puxando o consumo de água (H2O), da agricultura, aumentando as queimadas (emissão de CO2) e trazendo malefícios para a saúde humana.

Até mesmo os onívoros admitem que o consumo excessivo é prejudicial à saúde. Muitos admitem que o excesso de carne é pior do que o não-consumo da mesma.

Ernst Gotsh tem 70 anos (parece?). Longe da atribulada vida
dos afazeres e obrigações forçadas, trabalha a terra com
alegria e criatividade. 
Outro argumento frouxo usado por alguns (para justificar os matadouros) é que 'se todos fossem vegetarianos haveria excesso de animais', e assim teríamos uma crise e seria necessário que alguém comesse os bovinos, os suínos, as aves e cia. No entanto me pus a pensar e imagino que, à época em que a nossa espécie "chegou" no planeta, não havia uma inundação de animais. A quantidade de bois, porcos, cabras, galinhas, etc estava estável e em equilíbrio - há milhões de anos creio eu. Logo, só se pode concluir o seguinte: nossa lógica de produção-consumo leva ao aumento da quantidade de animais. A quebra dessa lógica não faria aumentar o número. Talvez até diminua.

Mas se todos se tornassem vegetarianos e veganos do dia para a noite, haveria um forte impacto econômico inicial. Talvez o baque fosse muito forte, como atestam estudos [7]. É uma questão sistêmica que pode ser prevista com modelos*. O baque seria no impacto aos empregos (economia-social), que afetaria muito mais os pobres do mundo e os países pobres, levando à fome muita gente. Portanto o roteiro evolutivo que proponho deve levar em consideração uma transição gradual [8]. Mas ela deve se dar o mais rápido possível, e ser bem conduzida.

Quanto à questão ética, podemos simplesmente afirmar o seguinte: será que os animais precisam morrer em massa para que vivamos bem? Isso poderia ser verdade na pré-história, quando a dificuldade em certas regiões para se encontrar frutas era difícil - e então matava-se o animal para sobreviver. Hoje em dia isso não é mais necessário. Nossas técnicas de produção são modernas. Plantamos diversas culturas em grande quantidade. Temos conhecimentos para criar sistemas agroflorestais sintrópicos, com lógica de retroalimentação [9]. O filme abaixo dá uma visão da gravidade e poder de nossos tempos.


A questão biomássica bioenergética também diz algo - tentarei desenvolver isso em outro ensaio.

Quanto mais vemos em profundidade, maior
o nosso poder de alavancagem. Isso eu mostro,
ensino e propago. É o que posso fazer na
minha humilde posição. 
O capitalismo está profundamente relacionado à lógica do consumo de carne. Assim como à lógica do transporte individual. Assim como à lógica do consumo conspícuo de diversos bens e serviços.  Assim como à lógica de privatização de setores diretamente relacionado aos Direitos Humanos: como educação, saúde e segurança. Assim como à baixa intensidade de nossas democracias. Entre outros. É mister perceber isso e admiti-lo à raíz.

Não proponho nenhuma alternativa 100% esquematizada. Nenhum plano total. Proponho apenas a reflexão de cada um. E colocar esses temas em pauta, seja via cursos (extensão), via textos (blog), seja conversas, seja leituras profundas, seja postura firme e convicta de vida. Estamos realmente melhorando nossa qualidade de vida ao seguir o que a maioria segue? Ao nos deixarmos (inconscientemente) seremos sugeridos a ter um carro caríssimo (que traz gastos enormes), comer demasiadamente e mal, repor eletrodomésticos mais frequente do que o normal?

Estamos nos antípodas. A vida, como deve ser para alcançarmos a felicidade que tanto dizemos ansiar, passa pela mudança radical dos conceitos. Trata-se de uma mudança de paradigma. Do modelo mental para a estrutura sistêmica. Desta gerar-se-ão novos comportamentos. Estes farão coisas (eventos) fantásticos ocorrerem. Demora mas se concretiza. É preciso ter paciência. O bom-senso é  o primeiro passo.

Tratarei adiante da questão ambiental, que se relaciona muito com políticas públicas (democracia), movimentos sociais, transporte, alimentação, turismo, consumo de bens, entre outros. Desde já deixo uma matéria muito interessante da BBC que revela um estudo para lá de interessante feito por uma mulher [10].

Enfim, vegetarianismo é um dos fatores que apontam para uma possível maturação evolutiva?

Não o saberia dizer. Mas as evidências apontam que sim. Rohden afirmava a inutilidade da dieta moderna, repleta de excessos e carnes. Ubaldi também. Tinha inclusive uma alimentação frugal, restrita ao mínimo e indispensável para se manter vivo - era um verdadeiro seguidor de Francisco de Assis. Inclusive se formos investigar todos os santos, místicos e muitos gênios, iremos notar que sua alimentação era muito voltada para alimentos leves, mais próximos de nós na pirâmide da biomassa e bioenergia. O mercado para esse nicho cresce [11] e a tendência reforça o nível de conscientização da humanidade.

Se trata sobretudo de viver uma vida (um pouco mais) plena.

Referências:
[1] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2015/11/ar-agua-alimento-abrigo-afeto.html
[2] https://www.youtube.com/watch?v=VS4dJL5syRA
[3]https://www.youtube.com/watch?v=buBa0mylJyc&index=2&list=PLPZ4y7b7MwOsms0-ly6MNIFo2BUqfWyNG
[4]https://www.google.com.br/search?ei=frYjW4-1LMqcwASvypHYDQ&q=FAO+gases+efeito+estufa+do+gado&oq=FAO+gases+efeito+estufa+do+gado&gs_l=psy-ab.3...110988.115246.0.115435.0.0.0.0.0.0.0.0..0.0....0...1c.1.64.psy-ab..0.0.0....0.zcpxmnJIH-c
[4] http://www.oeco.org.br/dicionario-ambiental/28261-gases-do-efeito-estufa-dioxido-de-carbono-co2-e-metano-ch4/
[5] https://www.youtube.com/watch?v=6F4xbz5v0tE
[6] https://www.ecycle.com.br/component/content/article/63/3908-muito-alem-da-exploracao-animal-criacao-gado-promove-gastos-recursos-naturais-danos-ambientais-em-escala-estratosferica-emissoes-gases-uso-agua-terra-alimento-desmatamento-pastagem-residuos-contaminacao-exploracao-excessiva-fome-pesticidas-pegada.html
[7] https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-38129638
[8] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2018/01/roteiro-evolutivo.html
[9]https://www.google.com.br/search?source=hp&ei=J78jW9q-O8GawQS1xo3IAg&q=agricultura+sintr%C3%B3pica&oq=agricultura+sintr%C3%B3pica&gs_l=psy-ab.3...742.4409.0.4460.0.0.0.0.0.0.0.0..0.0....0...1c.1.64.psy-ab..0.0.0....0.G2Dle7ZjHM8
[10] https://www.bbc.com/portuguese/geral-42005695
[11] https://emais.estadao.com.br/blogs/comida-de-verdade/mercado-vegano-cresce-40-ao-ano-no-brasil/

Notas:
* Dou exemplos do tipo no meu curso de Iniciação à Ciência dos Sistemas (ICS), no IFSP-SJC.