quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O CONCERTO

Existe uma grande desvantagem e uma grande vantagem em ter um gosto cinematográfico diferente da média. A grande desvantagem é que você dificilmente poderá assistir um filme no cinema que atenda suas expectativas – a não ser que você more numa cidade como São Paulo ou Rio de Janeiro, e tenha tempo (e dinheiro) para frequentar cinemas onde a diversidade abunde e os temas sejam enriquecedores para a sua alma. Agora, a grande vantagem é a seguinte: quando nos deparamos com um filme fantástico, de qualidade, somos capazes de sentir a grandiosidade dele e saimos da sala emocionados e mais ricos em experiência e repensando a vida e tudo mais. É um prazer que muitos ainda não conseguem ter. E é esse prazer que eu senti quando saí do auditório do SESC após ter visto o filme “O Concerto” (Le Concert) do já consagrado diretor romeno Radu Mihaileanu*.

"Le Concert" (2009)
A trama é bem simples. Um já aposentado maestro da orquestra do teatro Bolshoi, Andrey Simonovich Filipov, cuja carreira pública foi interrompida precocemente, – sua mente era muito aberta para o regime autoritário vigente... – vê a oporunidade de reviver seus dias de glória quando acidentalmente intercepta uma carta endereçada ao novo dono da Orquestra.

Assim que o zelador (que triste destino...) Filipov lê a carta vinda diretamente do “Théatre du Chatelet” de Paris, sua mente começa a maquinar um plano de proporções Homéricas sem precedentes em sua vida. Um plano que fará ele e sua antiga orquestra constituída de músicos judeus e ciganos (os melhores no 'métier', também desempregados ou com sub-empregos) voltarem a sentir o prazer de tocar para o público. E para um retorno triunfal, nada mais adequado do que o Concerto de Violino de Tchaikovsky em Ré maior.

Os preparativos começam a envolver cada vez mais gente. Antigos colegas recebem telefonemas do famoso maestro. Os colegas vão se revendo. O plano se espalha e começa a tomar forma. E com a orquestra oficial ocupada com outros assuntos por um tempo, não há tempo a perder. Falta apenas a peça final. E ela está em Paris.

A famosa violinista Anne-Marie Jacquet (Mélanie Laurent) nunca tocou o Concerto de Violino em Ré maior de Tchaikosky por um medo inexplicável – que será revelado oportunamente no filme. Mas tem um ardente desejo de tocá-lo. Com a Orquestra do Bolshoi. Sob a regência de Filipov. Tudo converge para um espetáculo sem precedentes e a partir desse ponto humor, emoção, sentimentos e técnica se misturam para arquitetar o maior espetáculo sonoro das últimas décadas. Em Paris. Em Berlim. Em Londres. Em todo o mundo.

A estruturação do filme é perfeita. Uma espiral ascendente permeada de problemas e dificuldades é vista. E nunca se sabe se o tão esperado concerto dará certo. Preconceitos, medos e fantasmas do passado conspiram para o sucesso do plano de Filipov. Mas no decorrer da história o espectador percebe a causa de tamanha determinação do ex-maestro. Seus motivos vão além de sua profissão. Ele quer ter uma segunda chance. E...não vou me estender no assunto (recomendo que veja o filme. É MUITO BOM).

Assistir “O Concerto” é uma emoção ímpar. Se trata de um filme multicultural. O espectador poderá ouvir a língua russa, o inglês e o francês; se verá diante dos hábitos, maestrias, vícios e charmes de diversas culturas: hebraica, cigana, francesa, russa,...; conhecerá os diversos tipos de pessoas. Resumindo, terá a oportunidade de ver um mosaico em forma de película.

Poucas vezes na minha vida posso dizer que saí de uma projeção me sentindo elétrico e emocionado. Feliz. Estava emocionado com um final tão bem feito que repensei a cena final e os detalhes dezenas de vezes. Era fantástico. É fantástico. E sempre será fantástico.

Esse filme, além de divertir, induz ao questionamento das instituições e mostra o eterno desejo humano de fazermos aquilo que mais desejamos. Foi a melhor introdução que uma pessoa poderia ter a um dos concertos mais famosos de todos os tempos.


O Concerto” é a prova concreta de que diversão, sentimento e crítica podem caminhar de mãos dadas. 



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Trailer


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