sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

UM HERÓI DE NOSSOS TEMPOS


Talvez nosso mundo necessite menos de organismos mundiais, desses que organizam fóruns e conferências, que servem muito às cadeias hoteleiras e às companhias aéreas e, no melhor dos casos, não reúne ninguém e transforma em decisões...”

José “Pepe” Mujica

José "Pepe" Mujica discursando na ONU.

Nunca imaginei que houvesse alguém assim hoje em dia, ocupando um cargo de poder.

Abri uma revista para ler algumas matérias. Uma delas era sobre o (crescimento do) ateísmo nos últimos anos no Brasil. Várias personalidades eram destacadas. Dentre elas um cara chamado José Mujica, o “Presidente mais Pobre do Mundo”. Do Uruguai.

Peguei o trecho que falava sobre ele e comecei a ler. E os fatos começaram a causar verdadeira perplexidade seguida de admiração: o presidente-agricultor não tem conta bancária nem dívidas; seu patrimônio e o de sua esposa somam US$ 212 mil e suas posses consistem em três terrenos, três tratores e dois carros de 1987 – dentre eles um fusca azul, o seu carro, avaliado em US$ 1.000*. Não mora em palácios, e sim em seu sítio, Rincón Del Cerro, onde sempre viveu. E isso é só uma parte da história

Dos US$ 12.500 que recebe de salário, fica com apenas US$ 1.250 e doa os 90% restantes para ONGs que constroem casas populares. E pelo perfil judicioso e modo de discursar de Mujica **, eu tenho segurança de que esses US$ 11.250 mensais vão exatamente para as pessoas que ele deseja ajudar. Dessa forma, fazendo jus à máxima mais alta de Cristo (“Fora da Caridade não há Salvação”), José Mujica pode ser considerado um dos pouquíssimos cristãos – no verdadeiro sentido da palavra – ocupando um cargo de poder em nossos tempos conturbados. Mesmo sendo ateu. Porque, afinal de contas, isso não quer dizer nada. Mujica acabou de comprovar isso.

A respeito do salário que resta, o presidente afirma:

Este dinheiro me basta, e tem que bastar porque há outros uruguaios que vivem com bem menos”***

Não existe segredo em sua atitude. Apenas conscientização. Uma noção profunda de que o excedente não irá melhorar sua qualidade de vida. E que muitas pessoas muito capazes – que não tiveram a devida oportunidade – podem gerar mais para a sociedade graças a essas doações.

A espécie como tal deveria ter um governo para a humanidade que superasse o individualismo e primasse por recriar cabeças políticas que acudam ao caminho da ciência, e não apenas aos interesses imediatos que nos governam e nos afogam.”

Nessa frase Mujica demonstra a importância de pensarmos a longo prazo como indivíduos e como corpo coletivo. Os interesses imediatos que nos governam e afogam são os modernos cultos à tecnologia, ao corpo, aos prazeres imediatos e visíveis, ao dinheiro fácil, às “amizades” fáceis, aos relacionamentos fáceis,...A tudo fácil e sem necessidade de pensar e lidar com o diferente e refletir e isso tudo junto.
Talvez os anos tenham trazido sabedoria a Mujica. Mesmo assim, é impressionante. Sua vida simples parece demonstrar o tipo biológico do futuro. É como uma visão de um outro mundo. Um mundo melhor. Um mundo feliz. É um ser que, dada a oportunidade de TER muito mais, preferiu SER muito mais, dando o muito mais para os que realmente precisam. Isso é algo muito próximo – se não exatamente - ao ser evoluído, que Pietro Ubaldi descreve em suas obras.

Ao se colocar em evidência com esse tipo de vida, Mujica mostra ao mundo o caminho da sustentabilidade e do equilíbrio. Fazendo uso judicioso do poder, arquitetou um plano de trazer uma mensagem ao mundo. Através do exemplo de vida.

Sim. Ele (Mujica) participou de grupos terroristas. E foi preso por 14 anos. Mas Nelson Mandela também. Yasser Arafat também. E a contribuição deles foi grande em promover a paz e aproximação dos povos no mundo.

Santo Agostinho teve uma vida desregrada antes de se dedicar à castidade e simplicidade. Assim como São Francisco de Assis. Nem por isso seus feitos posteriores foram diminuídos.

O Uruguai tem adotado a sua própria via. A Via Uruguaia. Encabeçada pelo seu novo presidente, que parece saber muito de inovação. Dentre as atitudes inovadoras temos: a estatização da produção das drogas e o controle de seu consumo; a legalização do aborto e dos casamentos homossexuais.

Enquanto a maior parte do mundo segue reproduzindo fórmulas que não mais se adequam a uma nova sociedade, o Uruguai tenta outro caminho. Podem surgir problemas? Sim. Como todas novas empreitadas (quantos cientistas famosos não tiveram de fazer e refazer seus experimentos e teorias para chegarem ao resultado esperado). Mas é mister que sejam trilhadas vias alternativas. É o futuro. É o progresso.

Este é nosso dilema. Não nos entretenhamos apenas remendando consequências. Pensemos na causa profundas, na civilização do esbanjamento, na civilização do usa-tira que rouba tempo mal gasto de vida humana, esbanjando questões inúteis. Pensem que a vida humana é um milagre. Que estamos vivos por um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico, acima de todas as coisas, é respeitar a vida e impulsioná-la, cuidá-la, procriá-la e entender que a espécie é nosso "nós".

Palavras de um ser humano à frente de seu tempo, que não precisa de títulos, religião, dinheiro e poder para ser grande. Porque ele em si já o é.



Referências

* http://epocanegocios.globo.com/Inspiracao/Vida/noticia/2012/11/presidente-mais-pobre-do



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