quinta-feira, 15 de julho de 2021

Significado da noosfera

A noosfera é o terceiro nível de evolução na escala planetária. Trata-se de uma rede complexa pautada na informação. Os níveis precedentes são a base para a formação dessa esfera mais sutil, imaterial, dinâmica. Já foi feito um estudo sobre a formação dessa rede informacional. Agora iremos nos aprofundar no seu significado. 

Podemos estabelecer uma analogia entre as fases matéria, energia e espírito e a formação dessas três camadas nos mundos.

Fig.1: O passado (biosfera) já se consolidou. Para preservar o que foi construído ao longo de 3,8 bilhões de anos, 
é imperativo forjar uma esfera de consciência superior. É necessário transcender o intelecto e criar uma rede
do pensamento humano, não-local, imaterial, intuitiva.

A geosfera (geo de terra) é o mundo mineral, os oceanos, a atmosfera, os rios, e todos os ciclos (oxigênio, nitrogênio, carbono e água) dela. Ela está para a matéria. É a base para a formação da vida - que necessita de condições adequadas de temperatura, pressão, umidade, proporção entre elementos, entre outras questões. Observamos os mundos e vemos diversas geosferas: planetas de diversos tamanhos, composições atmosféricas, condições atmosféricas, ritmos, etc. Mas todos identificados apenas apresentam elementos não-vivos.

A biosfera (bios de vida) se ergue logo que a biosfera se estabiliza: repare que a vida começa a se formar na Terra há aproximadamente 3,8 bilhões de anos (primeiros seres unicelulares, procariontes, ou seja, cujas células são mais simples do que as eucariontes). Considerando que o nosso universo terrestre foi forjado há 4,5 bilhões de anos, com os milhões de anos subsequentes permeados de cataclismos colossais que impediriam qualquer tipo de respiro de qualquer criatura - por mais robusta que ela fosse - o tempo entre a base da geosfera e a base da biosfera foi bem curto. Gilson Freire destaca em Arquitetura Còsmica que, tão logo as condições mínimas se apresentaram, a vida começou a se manifestar. Ou seja, a vida não perde tempo. Tampouco desperdiça recursos. 

De lá (3,8 bi de anos) para cá (hoje) muita coisa ocorreu: 

1) as células eucariontes surgiram, que servirão de base para a formação dos seres pluricelulares;

2) inicia-se a produção de oxigênio pelas células (fotossíntese); 

3) outras células (animais) começam a produção aeróbia (consumo de oxigênio);

4) surgem os seres pluricelulares: plantas, peixes, répteis, aves, mamíferos;

5) no ápice orgânico dos mamíferos, dentro do gênero Homo, surge uma espécie distinta chamada Homo sapiens;

6) o Homo sapiens passa por três revoluções (HARARI, Yuval N.): cognitiva, agrícola e científica;

7) Após a Revolução Científica (séc. XVI), desdobrou-se outras revoluções contidas no paradigma, cada qual um salto quântico em termos de impacto físico e conceitual: Rev. Francesa (expansão da política, séc. XVIII), Rev. Industrial (salto da economia e dos processos tecnológicos, séc.XIX), Rev. Russa (introdução do conceito de justiça social, séc. XX);

8) as três ondas introduzidas pela modernidade culminaram num mundo cheio de conflitos, contradições e possibilidades, em que diversos ciclos estão prestes a findarem.

Uma ilustração pode dar uma ideia dessa jornada evolutiva - lenta no tempo mas rápida na maturação.

Fig.2: Eventos mais importantes no desenvolvimento da biosfera - da formação da Terra ao ser humano.

Hoje estamos no ápice evolutivo. Esse clímax traz em si possibilidades de formar um mundo maravilhoso (comparado ao atual). Mas ao mesmo tempo, há o risco de um colapso que atrasaria o processo evolutivo por milhares (se não dezenas de milhares) de anos. Esse ponto de decisão (salto revolucionário ou colapso) é muito bem sistematizado, justificado e apontado por Ervin Laszlo em seu livro Ponto do Caos.

Fig.3: De tempos em tempos, chega-se num ponto crítico, em que o livre-arbítrio pesa como uma bigorna. 
Nesses tempos surgem as grandes almas, o super-homem, que com sangue, suor e lágrimas, 
dá todo seu rendimento para o despertar do mundo.

Chegamos num ponto formidável da evolução deste planeta. Cada degrau menor dentro de um degrau representa uma evolução de diferente nível. As escalas se tornam menores, mostrando que o ritmo da vida é frenético comparado à matéria; e que o psiquismo humano (razão) é frenético comparado ao mundo orgânico. O ser humano representa o ponto culminante de evolução em termos biológicos neste planeta. Desse ponto em diante, a evolução se dará em outros planos. Ela será imaterial, sutil, com uma atividade psíquica cada vez mais intensa, denotando a formação de um corpo mais elevado, o que significa uma consciência expandida, capaz de sentir menos desespero na transição entre vida física e vida extra-física. Isso é evolução do pensamento (primeiramente); e após, evolução da vivência. O que se sabe mentalmente passará a ser injetado na veia da experiência quotidiana, que se sedimentará na medula dos valores mais profundos do ser. 

Está na hora de resgatar as grandes Escrituras Sagradas (Bhagavad Gita, Tao Te Ching, Bíblia, Torá, Corão,...), recheando-as de conceitos modernos, desenvolvidos pela ciência moderna - em especial pela visão neocriacionista. Esse é o momento crítico da humanidade. O momento em que a ciência humana sairá da classe de algo incerto e sem solução na prática, para ser guiada por princípios certos, científicos e lógicos, tornando o Direito uma aplicação justa; o Estado um organismo benéfico para tudo e todos; a Economia um sistema verdadeiramente eficiente, que serve os desígnios do Estado - que por sua vez exprime a vontade de Deus e respeita as limitações evolutivas da criatura. 

Essa transformação está prestes a ocorrer, e dependendo da massa crítica - isto é, quantidade de pessoas engajadas de corpo e alma nessa mudança - podemos ter uma ascensão como jamais vista na história deste planeta. Trata-se de uma metamorfose da consciência. Não mais paradoxos insolúveis que geram contradições a todo momento, mas uma base conceitual e uma vontade sincera que unidas levarão a uma organização (muito) mais justa, verdadeiramente eficiente, com uma hierarquia social muito mais condizente com a hierarquia cósmica. Uma hierarquia que, por estar mais alinhada com a Lei de Deus, permitirá que o dinheiro se dirija a quem realmente merece - e saia das mãos de quem não faz bom uso. 

Voltemos ao ponto da noosfera.

Percebemos que o processo de formação, desenvolvimento e consolidação da biosfera foi relativamente longo. Apenas nas últimas décadas observa-se a formação da nova esfera. Foi uma longa jornada. E o modo de se fazer as coisas na biosfera dá uma ideia de como devemos formar esse mundo psíquico global.

Percebe-se que o processo evolutivo a partir das células procariontes originou células mais complexas em termos de organização, as eucariontes (eu = verdadeiro). Uma das hipóteses mais aceitas defende que as células procariontes teriam englobado células bacterianas, iniciando uma relação de cooperação conhecida como simbiose. Nessa relação, a célula fornece proteção do meio externo e nutrientes para a bactéria alojada; ao passo que esta viabiliza um maior rendimento à célula, com maior aproveitamento energético através da respiração celular. É uma relação mutuamente vantajosa. A figura abaixo ilustra esse processo [1].

Fig.4: De um organismo simples (célula procarionte), associado a outro menor (bactéria), 
estabelece-se um convívio baseado na cooperação: ambos saem ganhando. 
Nesse contexto, o todo acaba sendo maior do que a soma das partes. 
Isso é conhecido como emergência em ciência de sistemas. 

Percebe? O pensamento sistêmico estava presente desde o início! Inconscientemente no nível orgânico - e agora se tornando cada vez mais consciente, claro. 

Os estudos e conceitos e inventos iniciados no séc.XX (Mecânica Quântica, Relatividade Geral, Pensamento sistêmico, Cosmologia moderna, Computação digital, Psicologia profunda, Ecologia profunda, EQM's, etc.) devem agora ser compreendidos para que possamos fazer um uso verdadeiramente nobre de todas essas descobertas. 

Pela primeira vez é possível a uma pessoa comum acessar conhecimentos extraordinários - e de forma simples, com o desenvolvimento dos métodos pedagógicos e das tecnologias, que aliam vídeos com imagens com animações com figuras com sons e experiências. As condições, apesar de ainda involuídas, estão dando a certas pessoas a possibilidade de se dedicarem ao que realmente interessa. Basta a pessoa estar sintonizada com a Lei - percebendo qual o objetivo da vida.

Por isso é triste ver pessoas em condições razoavelmente boa desperdiçar seu tempo com aspectos mundanos, usando desculpas das mais disparatadas para justificar a falta de tempo. Assim Deus sempre fica em segundo plano. Sempre. A trajetória da vida denuncia o grau evolutivo: quem tem mais pressa em engordar além do necessário, se reproduzi além das capacidades (psicológicas, materiais, emocionais, de educar, etc.), preencher o currículo com o que o mundo valoriza (mas a alma agoniza), demonstra que está seguindo os ditames da coletividade, seja ela uma elite acadêmica, o cargo no emprego, o sonho de uma posse ou coisas do tipo. 

Quem segue sua consciência se lança de corpo e alma no que gosta.

Vou além:

Quem chega a este mundo já razoavelmente evoluído, com espírito ardendo de paixão por evolução, estrutura sua vida inteira de modo a obter o contexto (contatos, amigos, condições materiais e financeiras, condições educacionais, trajetória histórica individual) mais favorável para que seja possível ser livre nas criações do espírito.

Para quem acompanha de corpo e alma, digo: estamos num mergulho abissal. É preciso ter estofo fora do comum para viver uma vida que seja invulgar. Uma vida que outros, se observassem à fundo, diriam: "Nossa! Como ele conseguiu fazer essas coisas? Como ele vive seu sonho dia a dia, forjando as bases para novos mundos? Como...?"

A noosfera representa um próximo estágio na evolução deste planeta. Assim como a biosfera trouxe uma riqueza inimaginável para a camada que reveste a Terra, a esfera do pensamento irá revestir a vida e a Terra com um significado - essa é a palavra-chave. 

Vamos retomar o conceito de hierarquia. Foi dito que as esferas se constroem uma a partir da outra. 

"The three spheres build on each other: For example, life in the biosphere needs the geosphere to survive (matter, water, and air), and thinking needs to be embodied in the biosphere, via the living brains of human beings and our technology. So the Noosphere can be seen as the rise of a planetary superorganism integrating all geological, biological, human, and technological activities into a new level of planetary functioning."

Fonte: [2]

"As três esferas se constroem uma sobre a outra: Por exemplo, a vida na biosfera necessita da geosfera para sobreviver (água, matéria inorgânica e ar), e o pensamento precisa estar incorporado na biosfera, através do cérebro de seres humanos e tecnologias de suporte. Dessa forma a Noosfera pode ser vista como a ascensão de um superorganismo planetário integrando todas atividades geológicas, biológicas, humanas e tecnológicas num novo nível de funcionamento planetário."

Tradução e adaptação minhas.

 A ideia de noosfera não foi exclusiva do paleontologista Teilhard de Chardin: o matemático Édouard Le Roy e o geoquímico Vladimir Vernadsky deram igualmente grandes contribuições ao termo, esmiuçando o fenômeno desse novo domínio [2]. Daí já se percebe que um fenômeno emergente pode ser vislumbrado por profissionais de diferentes ramos, de diferentes culturas e locais geográficos. O que conta e a intuição - essa capacidade super-normal de perceber o que está além do concebível...além dos limites que circunscrevem a atuação e crença das pessoas. 

Fig.5: Pierre Teilhard de Chardin, Édouard Le Roy e Vladimir Vernadsky.
Fonte: [2]

O trabalho referente à noosfera desses três homens se deu entre 1927 e 1955.

É interessante reparar que a noosfera não parte de uma ideia religiosa. Trata-se de algo científico, concreto, cujas evidências se tornam cada vez mais visíveis por qualquer um à medida que progredimos como coletividade. Vernadsky era ateu. E apesar de Teilhard tentar integrar através desse pensamento a ciência com a religião, pode-se associar harmonicamente suas descrições com a de seus pares. 

O que Teilhard oferece além nesse trio é sua visão teológica: a de que a noosfera iria se desenvolver até que culminasse num ponto ômega  - que seria uma integração com Deus, ou nível de consciência místico-unitário na terminologia ubaldiana. Por se tratar de uma visão muito além da realidade presente e futuramente próxima, essa questão não é abordada por pensadores mais presos ao terreno seguro da objetividade e da ciência moderna. 

Pesquisando rapidamente pela internet encontro a ideia de que a noosfera é uma intersecção de três visões de mundo (já aceitas): a cósmica, a ecológica e a computacional [2].

O que é interessante na visão de Teilhard é que ele aponta para os conceitos ditos - implicitamente ou explicitamente - por Sua Voz em AGS, através da mediunidade inspirada de Ubaldi: a de que "a evolução é uma luz iluminando todos os fatos, uma curva que todas linhas devem seguir." Ele afirma que a evolução não cessa na humanidade: ao contrário, sugere que algo mais grandioso está prestes a vir quando a humanidade se unir numa escala global (noosfera).

A visão ecológica (ou verde) do futuro vê a Terra como um organismo vivo (Gaia), que infelizmente é vista com muito preconceito por parte da comunidade científica. Nessa visão é o planeta que está no domínio do fenômeno evolutivo - e não o ser humano. De certo modo podemos extrair verdades profundas das duas visões (a acadêmica formal e a ecológica inovadora). Somos o ápice da evolução e conseguimos dominar o processo evolutivo se não formos contra as leis profundas da natureza. Caso contrário, indo contra os princípios do Universo, estaremos saindo do eixo diretor e - mesmo retardando o processo de reequilíbrio planetário - dando justificativas fortes para que a Lei re-equilibre todo o planeta, nem que às custas de nossa espécie. 

Os grupos humanos conseguem extrair aspectos da verdade, mas por estarem limitados às suas visões (=conhecimento fragmentário) acabam por se revelarem impotentes na solução:

  • Os geólogos apontaram para os problemas globais, alertando que entramos numa nova Era geológica , o Antropoceno, em que a ação humana está moldando a 'cara' do planeta. Isso nunca ocorreu antes. No entanto, não são esboçadas soluções efetivas para mudar a trajetória em que nos inserimos;
  • Os movimentos verdes na política tentam amortecer os impactos humanos, mas não tocam no cerne da questão: o modo de vida e o modelo de desenvolvimento predominante em todo mundo é incompatível com o resgate da natureza. As mudanças tecnológicas são irreversíveis (fato 1); a biosfera (e partes da geosfera que a sustentam) precisa ser reequilibrada urgentemente (fato 2). O único modo de encontrar uma solução para dois fatos colossais e antagônicos na visão presente é gerar um novo paradigma (=nova forma mental);
  • Já aqueles adeptos das novas tecnologias são levados à visão da singularidade, que destaca que o progresso exponencial da tecnologia (no âmbito da computação, redes, inteligência artificial, robôs e internet das coisas) levará a um novo regime global - que alguns estimam ser por volta de 2045, e que será incompreensível. Por isso foi denominado momento de singularidade. As consequências dessa visão levam a um descarte do ser humano no processo evolutivo, com o artificial tomando conta do natural. Eu já destaquei o porquê dessa visão não estar de acordo com as leis evolutivas, realçando a importância do espírito. Usei o filme Homem Bicentenário para deixar claro como a Arte revela aspectos profundos da Lei de Deus, mostrando que o mais belo reside em elevar o natural - nem que arduamente e ao longo de milênios - do que abraçar as facilidades artificiais [3].
A visão da noosfera leva em conta aspectos substanciais dessas três visões (verde, cósmica e tecnológica), mas coordena-as e adiciona um tempero essencial nesse caldo: a de que o planeta necessita de uma mente pensante (=noosfera). Uma mente que permite lidar com todos os problemas da geosfera (ex.: mudanças climáticas), da biosfera (ex.: perda de biodiversidade) e simultaneamente viabilizando que humanos se tornem globalmente inteligentes, forjando um sistema político que distribua o poder de decisão sabiamente e um sistema econômico que estabeleça justiça social. As consequências dessa organização humana serão inimagináveis para o tipo médio, que vive uma vida limitada e não o sabe (por isso não se sente mal como aqueles que enxergam as possibilidades ao nosso alcance). 

E observamos que o mundo, sem conhecer a obra de Pietro Ubaldi, acaba chegando, pouco a pouco, a grande visão monista do Universo - e logo, de Deus. Essa visão afirma que matéria, vida e mente (humana e tecnológica) devem trabalhar como um sistema coerente evolutivo, como um todo.

A noosfera é importante por vários motivos:

  • Estamos imersos num oceano de informações. Isso não garante orientação. O futuro é incerto e imprevisível, gerando medo e ansiedade, que corroem relações humanas e deixam as pessoas cegas mentalmente: o sentimento se rebaixa a simples emoção; o pensamento se isola para satisfazer instintos baixos. E assim se naufraga tudo que foi construído nos últimos milênios (ou mais...);
  • A facilidade de acesso; o intercâmbio frequente; a velocidade de transmissão; o acúmulo de experiências; tudo isso não garante controle sobre a vida individual - muito menos coletiva. Estamos afogados em informações mas carentes de orientação. O que fazer com tanta tecnologia?
  • Temos uma História fantástica que começa a ser desbravada mais à fundo por pessoas. As plataformas de streaming possibilitam que um ser evoluído assista séries e filmes em telas grandes com home theater. Logo após, é possível buscar imagens e palavras para, a partir de sua formação cultural e acadêmica, por exemplo, gerar material (=textos, livros, músicas, assuntos, cursos, formas de vida, etc.) que pode ser facilmente compartilhado pelo mundo, instantaneamente. Isso é verdadeiro milagre. Mas só o é porque alguns poucos seres (ainda poucos...) fazem uso construtivo dos recursos modernos e potentes. 
Devemos espiritualizar a matéria - e não materializar o espírito.

Isso significa usar cada átimo de sua vida à serviço de algo maior. De pouco em pouco chegamos a uma existência plena de sentido, em que mesmo com as dores do mundo golpeando de tempos em tempos, o ânimo se mantém e o espírito se renova, buscando converter dor em conceitos penetrantes e sentimentos profundos.

A visão da noosfera nos dá uma real esperança, pois direciona a humanidade com base em evidências lógicas que não podem ser contestadas. Ela nos leva a ver todos os problemas de modo integrado, para que assim possamos gerar uma solução efeitva - que é integral. O Prof. Francis Heylighen da Universidade Livre de Bruxelas argumenta que a noosfera tem um potencial imenso para que possamos desenvolver versões pragmáticas dos atributos divinos, que são:

1º) Onisciência = saber de tudo, para que possamos resolver sem deixar uma partícula que provoque regressão;

2º)  Onipresença = estar a todo lugar em qualquer momento (Mecânica Quântica), de modo a termos a visão real do problema;

3º) Onipotência = prover qualquer produto ou serviço (necessário) para qualquer um que necessite, de modo a garantir o funcionamento da civilização;

4º) Onibenevolência = ter como meta a máxima felicidade possível (o melhor) para todos. Não se satisfazer com 'este é menos ruim do que aquele', mas sim apenas com 'o melhor possível'.

Jorge Damas destacou que a os três pilares da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) estão sendo desdobrados na humanidade desde essa época (ver vídeo abaixo a partir dos 49 minutos).

A Revolução Francesa iniciou abrindo os caminhos para a liberdade econômica e política;

A Revolução Russa iniciou o movimento de justiça social, que se traduz em igualdade;

O próximo passo é colocar em marcha as forças que irão imprimir a fraternidade entre os seres.

Liberté, Égalité, Fraternité 

(Liberdade, Igualdade e Fraternidade)

Dois movimentos se iniciaram - o terceiro quer nascer. 

Mas iniciar não é se consolidar. Ainda há um tortuoso caminho a ser percorrido - através de experiências, assimilações e rearranjos - antes que cheguemos à plena liberdade, igualdade e fraternidade. Liberdade político-econômica, igualdade social e fraternidade entre tudo e todos. 

A noosfera se alinha com a gênese desse sentimento de fraternidade. Porque uma fraternidade, para nascer, precisa atuar numa base interconectada, com mentes que consigam ir além das aparências e pensar de modo sistêmico. É preciso que um germe de intuição esteja presente. E assim iniciar-se-à um novo nível evolutivo em nosso planeta.

A gênese da noosfera dará a plataforma para a manifestação do sentimento de fraternidade.

Teilhard argumentava que era necessário três condições para que a esfera de pensamento iniciasse sua formação:

1ª) O advento do ser humano, cuja capacidade de reflexão permite expressão/comunicação simbólica sofisticada, levando a unificação de grupos humanos;

2ª) Igualmente, o ser humano leva a evolução a não ser mais uma mera diversificação de espécies, mas também uma convergência de valores, ideias, informações, saberes, experiências, formando um todo coeso e integrado;

3ª) O ser humano, se tornando uma espécie global (no espaço e no tempo), conquista uma adaptabilidade nunca antes vista.

Reflexão que conduz à unificação.

Evolução através da convergência.

Globalidade que constrói a resiliência.

A hereditariedade passa a englobar mais do que a transmissão genética pais-filhos: ela se torna uma construção cultural, transmissível através de pessoa a pessoa. Assim começamos a chegar cada vez mais próximo do conceito de hereditariedade psíquica que Pietro Ubaldi tão bem explica em sua obra. Com a cultura é possível transmitir informação (valores, métodos, saberes, etc.) sem a necessidade de codificação nos genes (DNA). O processo evolutivo torna-se muito (mas muito) mais veloz. E com isso surge a agilidade e adaptabilidade sem iguais. 

Os computadores e as redes de comunicação estão se tornando num sistema nervoso global, semelhante ao corpo humano com seu cérebro e sistema nervoso. Isso nos torna mais sensíveis porque mais próximos de outras realidades. É possível sentir o outro melhor. Tudo isso acelera o processo de sensibilização do ser. 

A reprodução também acompanha esse compasso de hereditariedade: inicialmente se perpetuava a espécie de forma assexuada, o que diminuía as possibilidades de variabilidade genética (=menos diversidade=menos resiliência=menos possibilidades de criações novas). Com o advento da reprodução sexuada torna-se possível gerar uma biodiversidade cujo ápice está no ser humano, capaz das construções mais fantásticas ou mais horrendas. Para solucionar isso, é necessário aproveitar o que o terceiro tipo de reprodução (cultural) nos oferece): a possibilidade de despertarmos a nossa intuição.

O sistema Terra-Vida-Pensamento deve se tornar um organismo coeso, operando de modo harmônico e orientado a metas superiores. A responsabilidade reside na espécie evolutivamente mais à frente, herdeira de tantas benesses (nós, sapiens). Devemos nos inspirar em organismos vivos. 

Tomemos um bebê: ele é capaz de reagir a dor, regular sua temperatura e respirar. Essa funcionalidade também deve estar presente no planeta todo - mas ainda não está. Porque dependemos delas para reagir à altura dos desafios que se apresentam. 

Fig.6: Um bebê apresenta todas características funcionais que o sistema Terra-Vida-Pensamento 
deve possuir. Assim ele opera perfeitamente (veja que belo sorriso!). 
Com a noosfera o nosso mundo poderá ter esse semblante saudável 

A edificação de uma superestrutura imaterial sempre se inicia com um trabalho rudimentar, no nível mais material. Por isso começamos a comunicação espalhando cabos pelo mundo. O próximo passo foi o uso das ondas eletromagnéticas. Depois vieram os satélites, a fibra óptica, e hoje já vislumbramos o computador quântico. A telepatia começa a ser estudada a sério pela ciência. Mediunidade não é mais tópico para sessões espíritas apenas, mas campo de estudo sério que deve ser enquadrado numa humanidade monista.

Uma criança, à medida que cresce, deve aprender a lidar com suas emoções (intrínsecas a ela); deve aprender a fazer uso das ferramentas da mente; deve distribuir prioridades elementares e avançadas. No nível planetário podemos fazer esse trabalho com redes sociais, plataformas colaborativas, sistemas integrados. A Arte, espalhada de forma ampla, principalmente via música, filmes e séries, pode ser um elemento importante para despertar consciências. 

No ensaio que dará continuação a este iremos finalizar esclarecendo questões sob o prisma do monismo de Ubaldi, tocando em pontos interessantes como:

  • O surgimento da noosfera é iminente?
  • A noosfera se tornará consciente, isto é, terá sua independência?
  • Como preservar a liberdade individual com a construção de um superorganismo como esse?
  • O que a noosfera implica para o ser humano?

Referências:

[1] http://educacao.globo.com/biologia/assunto/genetica/origem-e-evolucao-das-celulas-e-hipotese-de-endossimbiose.html

[2] https://humanenergy.io/projects/what-is-the-noosphere/

[3] https://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2020/04/o-espirito-que-animou-o-artificial.html

[4] UBALDI, Pietro. A Grande Síntese.

terça-feira, 13 de julho de 2021

Dinâmica da evolução (parte 2)

Continuamos a análise da situação presente do ser humano e de seu corpo coletivo. Será focado a parte superior do esquema gráfico S-AS (área hachurada) para que possamos analisar a condição humana presente e futura - nosso destino. Será possível assim perceber com clareza o papel dos pólos de nossa consciência atual (razão e sentimento), como ambos se combinam e co-evoluem no nível intuitivo; e finalmente, como por fim se fundem, naquilo que se conhece como fenômeno místico.

Fig. 1: Ascensão no AS é em espiral. A progressividade retilínea do S adapta-se ao aspecto cíclico do AS.
A fusão dos dois termos é uma espiral. Uma espiral que oscila em seus pormenores, 
revelando os embates locais entre S e AS. E assim, pelas próprias características de nosso universo, 
retomamos conceitos e experiências a título de progredirmos mais em determinados pontos de nossas vidas.

Ubaldi tinha a intuição altamente desenvolvida. Tanto que seu sentimento de todos fenômenos era vivenciado como uma realidade importantíssima, suprema. Compreender o universo e seu papel nele era central. Era toda a motivação dele estudar, se concentrar, viver e sofrer; era o motivo pelo qual tanto se dedicou à Obra. Logo, sua empreitada foi de mente e coração. O professor não era um especialista nos temas em que tratava, mas deu contribuições imensas para a ciência da época e futura - mostrando como as pesquisas deveriam ser conduzidas e qual era o caminho para continuar o avanço na trilha do conhecimento. Ele demonstrou na teoria e na prática (as duas características se fundiam em sua vida) como se deve fazer para obter resultados capazes de alavancar o desenvolvimento da humanidade.

O homem moderno quer provas. Deseja ávidamente explicações detalhadas e métodos. Um roteiro de como fazer as coisas. Tudo deve estar na forma conveniente a seu tipo e não ir além de sua capacidade de assimilar. Ele desejaria evoluir na horizontalidade infinita de uma dimensão a ser superada. É por esse motivo que pedagogas não compreendem a questão da importância do absoluto guiando os relativos, da necessidade de se imprimir uma parcela de divindade nos conceitos ensinados em classe; nas práticas; nas visões; nos gestos e nas filosofias de vida. É por isso que pessoas da área da pesquisa vêm avançando mais em formalismos do que em criações verdadeiramente revolucionárias. Por isso a obra de Ubaldi é para poucos (pouquíssimos), ainda. E por isso esse blog é (ainda) para uma aristocracia do espírito - que já percebeu que a coisa mais importante que a humanidade pode fazer no momento é se melhorar (sensibilidade e compreensão); e pensar sem deixar dogmas e pré-conceitos dominarem o processo (de pensar). No entanto, apesar de tudo, o trabalho não deve jamais parar.

A recompensa por desenvolver todos esses conceitos; por difundi-los; por constantemente retomá-los em nível mais elevado; por trocar ideias e explicar; por trocar vivências e saberes, afetos e teorias; está justamente no próprio ato, que em si já contém a alegria da eternidade e do infinito. 

A alegria do autor consiste em poder realizar o seu trabalho - aquilo para o qual ele veio ao mundo. Nada mais, nada menos. Isso envolve se aprofundar na Obra, relacioná-las com os grupos específicos que mais estão se aprofundando em seus campos, viver com mais qualidade em todos níveis, e imprimir onde puder conceitos profundos, além de desenvolver ideias e escrever. As interações devem servir um propósito superior. Meios para a sublimação! Esse é o eixo central. 

Vamos focar em nosso presente complexo, incerto (para a mente racional) e contraditório. E a partir dele, nos lançar ao futuro.

O determinismo da Lei se torna mais tolerante - menos estreito - à medida que a criatura ascende. Mas as próprias características do AS vão estreitando a liberdade de atuação do ser: esse é o choque dos egoísmos. De tal modo que existe um equilíbrio: as limitações dos egoísmos individuais, de grupos, de povos, de nações, de civilizações, coexiste com o determinismo férreo da Lei. As restrições vem de dois lados: do S que quer o bem da criatura - e do AS que por contradições internas acaba por limitar seu próprio campo de atuação. Um é determinismo ciente - outro é determinismo por limitação de visão.

Em outras palavras: a liberdade desalinhada com a lei, a partir de certo ponto, começa a produzir tamanhas contradições internas que todo o sistema construído pela criatura desaba. Assim foi com as invenções, as teorias, as civilizações, os sistemas econômicos e políticos, as filosofias e as religiões. 

Então a linha verde que se afunila representa um amadurecimento do uso do livre-arbítrio, que cada vez mais tenta se alinhar com a Lei. Em consequência (e naturalmente), a Lei se expande de modo a restituir o estado original do S, que é pleno amor (=liberdade).

Fig. 2: Análise do trecho evolutivo de interesse à humanidade.

Estamos compreendendo de modo cada vez mais profundo a riqueza do diagrama de Queda e Salvação. Vamos dar mais um passo e entender a figura do lado direito da Fig. 2 (acima).

R1 e S1 se referem à razão na base e à sensibilidade na base, respectivamente. A soma de ambas qualidades é 100%. Um ser humano pode ser mais lógico do que sensitivo - ou possuir mais sentimento do que pensamento. Mas o desenvolvimento e consolidação de um pede limitação do outro. É um jogo de soma fixa. Limitado. Na melhor das hipóteses podemos ter um indivíduo que possui um equilíbrio, não pendendo nem muito para a razão nem muito para o sentimento. Mas há momentos na História que demandam uma dose alta de paixão aliada com competência ímpar - ou competência primorosa aliada com sentimento cândido. Nesses casos um mero equilíbrio não resolve a questão.

A partir do ponto em que o indivíduo desperta algo dentro de si, sua moral se eleva sem perda de capacidade intelectual. Persistindo chega-se a um ponto em que ambos se equilibram e começam a ascender conjuntamente, de mãos dadas. Cada vez mais alto...

Tudo isso é explicado aqui [1].

R2 e S2 seriam a razão e sentimento num nível superior, do intuitivo. Nesse nível o intelecto é mais potente e o sentimento é mais profundo. O ser humano consegue ir além do máximo do relativo porque entra em contato com o absoluto. Dessa forma temos uma soma maior do que um (100%). Isso significa que o contato com a Fonte (o S) nos permite potencializar nossas capacidades humanas. Os dois pólos (razão e sentimento), por terem se conectado, vão além de suas possibilidades individuais. Não se trata de mero equilíbrio para se obter uma criatura ponderada, mas de transcender essa balança para chegar a planos de vida mais vastos. 

O intuitivo combina intelecto poderoso com sentimento cândido. É luz e calor (nas palavras de Sua Voz). De modo que não temos mais um jogo de forças de soma um - mas de soma maior do que um. No limite, poderemos ter a genialidade do grande pensador aliada à mais elevada moral. Esse foi o caso de Cristo. Tamanha era sua inteligência que se confundia com uma bondade enorme - tão grande era sua bondade que ofuscava sua genialidade. Isso confunde e encanta. Impressiona e inquieta. Estimula e apavora. Cada qual, de acordo com suas inclinações, seu grau evolutivo, seu contexto, sua genética, responderá de um modo, revelando assim sua íntima constituição psíquica - produto de milênios e reservatório de possibilidades. 

O diagrama abaixo (Fig. 3) mostra a soma das qualidades humanas (que atingiram seu máximo no homem atual) com as qualidades divinas crescentes (que estão nascendo). Resultado: expande-se o que era considerado rígido; dinamiza-se o que era visto como estático; sublima-se o pétreo.

Fig. 3: O poder humano é limitado e constante - o poder divino é crescente e ilimitado. Com a superação do confronto
máximo, inicia-se o aumento gradativo de sentimento e intelecto. Aflora a sensibilidade e potencia-se o pensamento.

Com a hipótese do Potencial Relativo do Gilson Freire, fica fácil perceber que, apesar de todos termos caído no mesmo ponto abissal do AS, cada criatura possui seu próprio ritmo, velocidade, capacidade, de ascensão: enquanto Cristo já atingiu o S, nós ainda temos uma boa caminhada para chegar lá. Então fica compreensível porque de tempos em tempos surgem grandes gênios, santos e heróis. O intercâmbio é necessário porque a diferença existe. O melhor exemplo disso é Jesus, que veio terminar sua jornada e concomitantemente ensinar o roteiro evolutivo para que possamos retornar ao seio do Pai. 

O Evangelho é a quintessência do Novo Testamento. Nele encontramos o modelo de vida a ser adotado para atingirmos o melhor de nós mesmos. Individualmente podemos nos tornar seres fantásticos, sem mais expiações e apenas com missões. Coletivamente seria (será) possível formar o Reino de Deus. 

A compreensão das parábolas exige mais do que intelecto analítico poderoso ou sentimento puro: é imperativo combinar ambos. Uma inteligência bem intencionada com uma moral fundamentada. Nesse aspecto o livro de Huberto Rohden (ao lado) pode ajudar.

Acionar as engrenagens do Alto para que ocorra o fenômeno conhecido como milagre é apenas uma questão de cumprir todos os requisitos para isso. Mas apenas a psicologia do homem puro é capaz de atingir os efeitos fantásticos que o S tem para nos oferecer. 

É uma questão de melhorar interiormente.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Dinâmica da evolução (parte 1)

O trabalho real não pode parar. A civilização velha que está se corroendo, em sua onda crescente de desespero, não deixa ninguém em paz. As formas de coerção das forças do AS são diversas. Seu objetivo: atrasar ao máximo a ascensão. A alegação formal é que 'as vias desconhecidas são perigosas'. De fato o são. Especialmente porque há uma força (natureza involuída dos seres) trabalhando intensamente e constantemente para que esse perigo seja real. Constata-se ao mesmo tempo em que se cria o contexto que justifique sua observação. 

Fig.1: "È necessário ter compreendido que nosso universo não é constituído somente de matéria e energia, 
mas também de psiquismo." Pietro Ubaldi. 

No íntimo, o AS sente que existe um prazo para o seu reino. Em nosso universo, a atuação das forças do AS estão restritas ao espaço-tempo e suas fases características (matéria e energia). E essas fases - assim como suas dimensões características - chegarão a um fim. Isto é, serão superadas. Isso apavora quem se identifica plenamente com sua natureza mais baixa, no nível humano, tornando-a uma criatura inconsciente à serviço do mal. Sabe que o tempo é seu meio e seu inimigo - pois ele permite a agressão mas ao mesmo tempo concorre para sua própria extinção, deixando como produto final apenas o que foi construído de substancial, na eternidade. O uso das coisas é um passo mais próximo para a extinção dos meios. Quem foca na eternidade não tem pressa. Porque,

"Tempo não é importante - apenas a vida é importante" 

Cena de 'O Quinto Elemento' (1997, de Luc Besson)

Percebem? A verdadeira Arte - feita pelos verdadeiros artistas - aponta para uma verdade universal, profunda. Uma verdade resistente a mudanças de superfície, de forma. Uma verdade incompreendida em sua plenitude. Mas que se encaixa perfeitamente nas visões das grandes almas.

Vamos prestar atenção à frase que o alienígena (pacífico, evoluído, bom) profere ao entregar a chave:

"Tempo não é importante - apenas a vida é importante."

Segundo AGS, 'tempo' é a dimensão da forma energia, enquanto 'vida' está relacionada ao psiquismo - que aponta para o espírito.

No momento em que se estabelece a hierarquia entre tempo e vida, fica claro que numa situação extrema devemos focar em preservar o que realmente interessa, que é a vida (portadora do psiquismo), sem se preocupar com o tempo. Em outras palavras: morrer pelo absoluto garante a ascensão do ser, que morre mais cedo na matéria mas eleva em espírito seu nível, renascendo em formas mais elevadas, com maior liberdade para ditar os rumos de sua vida. Vida alinhada com a Lei. 

Na vida o progredir ganha um aspecto muito diverso. Os ciclos são mais curtos. O nível é maior, ou seja, as estruturas, funções, interconexões e objetivos são mais complexos, exigindo uma rede de comunicação diversa. Em suma: no nível orgânico a individuação fica mais pronunciada. A distinção é mais forte, enriquecendo cada reino, cada filo, cada classe, cada ordem, família, gênero e espécie. 

Na espécie humana - ápice da escala evolutiva orgânica do planeta - inicia-se uma jornada rumo à desmaterialização. A diversidade biológica (biodiversidade) é temperada por uma diversidade de perspectivas. Memória, projeção, ética, planejamento, análise, argumentação, estética e moral entram em cena. Brotam de uma base que dá as condições para se fazer algo a mais.

No ser humano surge a energia excedente. Ela possibilita o desenvolvimento do sistema nervoso a níveis muito distintos. As outras espécies ganham em quase todos aspectos da pobre criatura bípede despida de pêlos. No entanto, é no psiquismo incomum que reside a chave para o domínio em todos os campos. E para o início da percepção de si mesmo e da geração de perguntas como 'por quê?', 'para onde?', 'como?', 'quando'?, entre outras. O senso de justiça desperta, gerando uma contradição que acompanha o Homo sapiens desde a aurora da história. Compreendemos tão bem as definições; argumentamos eloquentemente; expressamos os anseios. E no entanto, nos afogamos numa ausência de vivência. É a batalha entre a natureza que nos acompanha por milhões de anos - herdada das outras espécies, como uma tocha que passa de mão em mão na jornada evolutiva - e a cultura que aponta para uma nova consciência. 

O ser humano vêm surfando numa onda evolutiva que se iniciou há muito tempo neste planeta. Todos processos tem um início e um fim; todo entrelaçamento envolve uma união harmônica de ritmos; toda interação tem uma finalidade; todo ser expressa a vontade de ascender. Cada qual no seu nível. Tudo no universo é transformismo. O movimento reina e assume formas distintas:

  •  Na matéria a trajetória é fechada, circular, dando ideia de solidez;
  •  Nas formas dinâmicas a trajetória é ondulatória, com curvatura enorme que dá ideia de reta;
  •  No psiquismo a trajetória é retilínea, não-local, possibilitando a coordenação dos níveis abaixo.

Em todas elas um mesmo comportamento: evoluir. Com que finalidade? Retornar à perfeição. Isso significa extinguir-se como forma para se libertar das dimensões que dominam a forma. 

Nesse momento vou pedir ao leitor para que avance apenas se leu e compreendeu o livro Queda e Salvação, de Pietro Ubaldi. Porque as observações feitas serão baseadas no diagrama dos dois triângulos invertidos do livro, juntamente com toda teoria desenvolvida pelo professor. 

No diagrama gráfico que mostra toda a estrutura do Todo, com Sistema (S) e Anti-Sistema (AS) nos extremos, podemos perceber uma riqueza extraordinária: o diagrama é extremamente simples visualmente. Mas abarca praticamente todo o drama do nosso universo - e de todos universos que formam o multiverso.

Antes de mais nada, é preciso ter clareza: o AS engloba uma infinidade de universos, todos eles sendo:

a) trifásicos,

b) contíguos entre si;

c) em evolução contínua.

Outra observação de suma importância (para evitar desentendimentos e confusões): o sistema de universos contém 'mundos' que não são iguais em seu nível. Isso significa que cada universo possui uma tríade de dimensões distintas. De modo que enquanto em nosso universo existe matéria, energia e psiquismo; em outro menos evoluído haverá dimensões inferiores que não possibilitarão o surgimento do que nós conhecemos e denominamos vida; e em outros mais evoluídos não haverá espaço e tempo, sendo o progresso imaterial, de ordem psíquica e além, sem necessitar de um suporte orgânico. 

Esses são pilares que devem balizar estudos futuros. 

Os dois triângulos de Ubaldi representam o S e o AS. Logo, trata-se do diagrama mais amplo possível. O Céu (S) e a Terra (AS). O infinito e eterno - e o finito e temporário. 

Daqui para frente é especulação da minha parte...(logo, não afirmo, mas levanto possibilidades)

Nosso mundo representa o ponto médio de evolução no cosmos.

Nosso universo representa o o ponto médio na escala evolutiva dos infinitos universos do multiverso.

Ou seja, nós humanos estamos na média da média. O ponto central. O ponto de virada. O ponto decisivo. O ponto de equilíbrio absoluto entre as forças do S e do AS. O ponto de tensão. O ponto decisivo...[1]. 

Motivos pelos quais acredito no que acabei de falar:

1º) O ser humano sempre teve a dúvida como elemento propulsor de decisões;

2º) Somos contraditórios: falamos o que queríamos fazer e agimos de modo a trazer arrependimentos;

3º) Uma decisão fácil observada no futuro se torna um dilema quando vivenciado no presente;

4º) Nossas culturas estão permeadas de práticas horríveis e atos angelicais;

5º) A mente humana é capaz de enumerar mil motivos para justificar um ato vil e outros mil para um ato bondoso;

6º) Nossas teorias científicas, crenças, narrativas e sistemas políticos parecem se sustentar num dualismo que impede a comunicação entre cada um;

E de 'onde' vem esse evolucionismo?

Explico um pouco sobre sua origem num ensaio anterior [2].

E qual a relação entre os tipos de evolução (ex.: genética e cultural)?

Explico essa questão aqui [3].

É preciso ter mastigado e digerido bem todos esses conceitos porque sem eles fica difícil estar na vibração requerida para julgar esses escritos. Compreender é palavra-chave. É através disso que se pode ponderar.

A figura abaixo situa em que nível (eixo vertical) estamos: A3.

Fig.1: Diagrama gráfico posicionando a humanidade e as forças que nos influenciam.

O S é pleno no topo (linha vermelha), enquanto o AS é pleno na base (linha verde). Quando caímos, fomos do S ao AS. Ou melhor: criamos o AS. Mas este permanece 'dentro' do S, sob seu domínio. De forma que está havendo uma cura gradual do câncer que é o nosso universo (e todos os outros). 

A cura da Lei não é a mesma que a cura aplicada pela medicina hodierna: enquanto esta tenta extrair, destruir ou limitar o tecido ou célula cancerígeno, a imanência de Deus reabsorve tudo. Isto é, em nosso universo, a matéria se espiritualiza. Pouco a pouco, seguindo um ritmo pré-estabelecido. Pois tudo que existe é substância divina, de modo que Sua destruição é impossível. 

O triângulo vermelho representa a Lei, que é determinismo sábio que guia o ser.

O triângulo verde representa a liberdade desejada pela criatura, que torna a ascensão curva.

Para tudo não cair no caos completo, na fossa total do AS (=base) a Lei guiará o ser, evitando assim sua destruição. Ela irá balizar seu desenvolvimento. 

Nesse ponto há outra observação que faço: os dois triângulos opostos são mais específicos ao homem, pois não tem sentido falar de livre-arbítrio em nível matéria ou energia, já que as formas físicas e dinâmicas obedecem a um férreo determinismo e não podem sair do mesmo. Logo, a base representa o nível mais elementar da vida (unicelular procarionte), enquanto o topo representa o nível mais avançado do ser (espírito puro). 

O nível A2 representa o tipo involuído ou 'ogro', cuja luta é no nível físico e a sensibilidade é baixa e exige altas doses de estímulos para respostas; o nível A3 representa o nível predominante no presente, isto é, o administrador, o homem intelectual, culto, astuto, da ciência e da razão, que luta no terreno da argumentação, da economia e do psiquismo; o nível A4 representa o evoluído, super-homem do amanhã, que luta no campo das ideias e dos princípios. 

A passagem e características de cada nível já foram explicadas anteriormente [4]. Quem deseja saber mais dos princípios, recomendo a leitura da parte inicial [5].

O conceito de queda do potencial relativo explicado pelo brilhante Gilson Freire em seu magistral volume Arquitetura Cósmica diz que todos caíram no mesmo abismo do AS - partimos do mesmo ponto. Porém, como cada queda foi diferente, o potencial de cada criatura (i.e. aceleração para retornar ao S) é distinta para cada classe (de espírito) e cada espírito. Ou seja, a queda de posição relativa que Ubaldi apresentou no volume O Sistema (sem dúvida um salto imenso) precisa ter uma pequena correção a título de mantermos a coerência de toda visão. É um pequeno ajuste que o Dr. Gilson Freire brilhantemente fez na Obra. 

Como 'lemos' o diagrama após essas explicações?

Eu acredito que nós, neste universo ao atingirmos a plena consciência (consciência místico-unitária), teremos vencido o AS e retornado ao S. Quem está em universos inferiores (em que o tempo ainda inexiste, e mesmo o espaço abaixo), ao superá-los, estaria diante do desafio do nosso. Mas eu entendo que, como o S é uma estrutura hierárquica, a distância (evolução total) que cada criatura deve 'caminhar' (ascender) para retornar ao S é apenas a de seu universo. Ou seja, cada um vencendo em 'seu universo', retorna ao S em sua posição originária.

Todas essas questões não foram esclarecidas pela Obra. Estamos em tópicos avançadíssimos, pautado por questões de profundidade que atordoa a mente até de pessoas sensibilizadas a esses temas. Para o tipo comum tudo isso é inexistente (nem sequer considera futilidade ou loucura) porque ele não faz a menor noção do que se trata. Para o biótipo médio esse esforço está situado no inconcebível. No entanto, há pessoas já trabalhando nesse front. E creio que serão essas visões profundas que irão permitir à ciência progredir - e o ser humano se melhorar. 

Apesar de todos essas tentativas de esboçar o que está além (do monismo ubaldiano), o mais importante é absorvermos os elevados conceitos já apresentados pelo apóstolo da Umbria, coordenando todos sistemas de crenças, correntes de pensamentos e teorias científicas (incluindo da coletividade humana) para construir o caminho da ascensão daqui para frente.

Na continuação da ideia gerada por esse texto irei continuar fazendo uma análise sistemática do diagrama gráfico S-AS, entrando em pormenores que explicam cada caso particular e a evolução do sentimento e do intelecto.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

O cerne da questão

Fig.1: Apenas aquele cuja capacidade intuitiva despertou consegue perceber a centralidade 
da questão de nosso mundo. Após o monismo os paradoxos do passado se tornam infantis, 
e trabalha-se com questões muito mais interessantes, com paradoxos elevadíssimos.

No clímax da crise, o desespero domina, e irmão se vê tentado a degolar irmão, numa dança perpétua pela aniquilação. 

A solução egoísta alivia mas não remedia. Satisfaz os instintos e as consciências infantis. A referência é o sofredor, cujas dores devem ser imitadas por todos em prol do benefício coletivo. Igualar-se na miséria material, mental e espiritual. 

Todos produtores digladiam-se, fazendo farto uso de correntes de pensamentos que mais convém ao grupo. Esses pensamentos estão espalhados. Os meios de comunicação preparam o subconsciente, introjetando narrativas superficiais que entram em ressonância com as pessoas, especialmente aquelas imersas em desespero. Inicia-se a caça às bruxas.

Mas quando se trata dos parasitas que tudo controlam, através dos bancos e da grande mídia, seus elementos constitutivos ficam do lado de fora da contagem - uma contagem que, supostamente, visa estabelecer justiça. Assim, os "ricos" são os pobres que podem ( a muito custo) ter um plano de saúde, uma casa própria, dois carros e viagens.

Os pobres na hierarquia financeira (99%) enxergam a riqueza, compreendem a riqueza, apenas no âmbito de seu mundo. Portanto, apenas julgam e combatem aquilo que está ao alcance da sua psique. 

Imaginar o que é 5 mil, 10 mil, 20 mil, 40 mil reais mensais está dentro de seu imaginário. É tangível. No entanto, subindo nessa escala - dos milhões, das dezenas de milhões,  das centenas de milhões e além... - atinge-se uma barreira conceptual: a partir daí não há mais riqueza, pois não é sequer possível imaginar o que é ganhar milhões e ser dono de bilhões. 

Os (verdadeiros) ricos, se inserindo além da capacidade de imaginação da consciência humana, se colocam na segurança: vivem no reino da bonança pérfida, cujas quantias escapam à mente.

A batalha exige clareza moral e simplicidade sintética. O inimigo não é o irmão que tem alguns direitos e produz ideias, teorias, técnica e tecnologia. Não é o irmão que estimula a reflexão. Não é o irmão que fica em casa no "conforto", que em contrapartida, naturalmente, gera ideias, textos, conceitos, palestras, artigos, e, no limite, novas formas de vida. 

O tormento não é apenas físico: é psíquico! Quanto mais se expande a consciência, maior o tormento íntimo. Vê-se o horror do mundo presente e as potencialidades do mundo futuro. Vê-se a cegueira do irmão, que aceita a narrativa pré-fabricada - entregue num pacote elegante - e entoa hinos de ódio ao próximo porque este não está sendo dilacerado com a mesma barbaridade que alguns. Mas quem sustenta essa lógica?  Por qual motivo? E quem realmente está no conforto? (e sempre esteve).

O trágico é que a responsabilidade é de todos. Essa responsabilidade se distribui numa hierarquia que vê quais as potencialidades e condições de cada um, comparado com o que esse ser está fazendo para despertar a si e aos outros.

Para se gerar algo num nível superior é preciso uma certa dose de segurança. Que pessoa pode dar o melhor de si passando necessidades? Sem teto, sem pão e ameaçado de violação (verbal, física, psicológica), qual será o serviço entregue? Qual será a qualidade? 

Quando os 99% se afogam, o instinto de muitos é agarrar-se ao irmão que se sustenta numa tábua, e afogá-lo, subindo nele. Enquanto isso o navio, cheio de víveres e meios, mas apenas com os 1%, se afasta e assiste. Ao mesmo tempo, a grande embarcação depende dos pequeninos (99%), pois são aqueles que tudo produzem. 

O capital se tornou improdutivo. As próprias estatísticas corroboram essa tese. Ele não mais serve a produção e ao desenvolvimento humano. Serve apenas a si mesmo. E a natureza foi distorcida ao seu limite para satisfazer uma lógica ilógica, de crescimento infinito e sem sentido num mundo finito e que aponta para metas superiores.

A mentalidade humana precisa se adequar às necessidades da nova civilização, cujas bases materiais já se encontram em desenvolvimento.

De nada adianta se mover se a trajetória é circular. 
De nada adianta agir se a ação e irrefletida. 
De nada adianta gritar se o conteúdo é vazio.
De nada adianta empobrecer se o coletivo se degrada.

Quem crê que o rebaixamento do servidor público trará o seu sustento se engana. A história, as estatísticas e o bom senso o demonstra. 

Assim o pobre, que vive o drama diuturno de ter seu pão, seu teto e sua dignidade extraídos de si, legalmente (e imoralmente), cai em tentação e combate o outro pobre, que possui um pouco mais do que deveria ser de todos: emprego, teto, pão, saúde, segurança, cultura e previdência.

Quanta dor e necessária?

O que é preciso para que as pessoas enxerguem a realidade mais à fundo?

O mundo é um emaranhado de fenômenos concatenados em que o Homo sapiens é apenas o apêndice final até o momento. A jornada mal começou.

Em nosso mundo, a fase matéria envelhece e já está consolidada;
A fase energia está se doando para formar a vida - expressão do psiquismo;
A vida evolui de espécie em espécie, atingindo o ápice orgânico no ser humano do presente;
Este ser inicia uma nova jornada, no reino do psiquismo.

Para adentrar na próxima fase, imperativo é expandir a consciência. 

Nos afogamos em formalismos engessantes, burocracias inúteis, hábitos corrosivos. 

Não há espaço (ainda) para o homem do espírito. 
Não há momento (ainda) de atenção para as questões metafísicas e suas relações com toda teia da vida.

Se isso persistir por mais tempo o mundo pagará amargamente. 
A evolução se dará, pelo bem ou pelo mal.

Os mais despertos e os menos despertos sofrerão igualmente.
Mas o lugar reservado a cada um após essa transição será diferente. 

Para que o mundo evolua, mister extrair os elementos que persistem nos métodos velhos - eles serão professores de criaturas menos evoluídas, em outros mundos...

É uma questão de enxergar, escutar, pensar e sentir.

Ficar para trabalhar num mundo regenerativo ou ser professor de feras, num mundo primitivo?
Eis a questão...

terça-feira, 6 de julho de 2021

Do involuído ao evoluído (parte 2)

Continuaremos seguindo a linha mestra que iniciou esses estudos. Agora será vez de conceber o diagrama gráfico que revela a progressão e interação das duas variáveis mais importantes no nível humano: inteligência e moral. São elas que caracterizam a razão (intelecto) e os sentimentos (moral). Ver-se-à que a junção harmônica dessas duas, desenvolvidas até um alto grau, resulta na intuição - nova consciência a ser conquistada pelo ser humano. Veremos agora os pormenores.

Fig.1: Percebendo a beleza do alto, inicia-se a ascensão.

Essa combinação das duas levará à definição de uma determinadas fase de maturação do indivíduo humano. Para classificar o indivíduo, é preciso observar tanto o grau de cada uma (inteligência e moral) em termos absolutos quanto a o delta - isto é, a diferença - entre ambos. Esses dois fatores (grau absoluto e diferença relativa) nos dará um dos quatro tipos evolutivos, cada qual correspondendo a uma fase:

Fase 1: Ignorância completa (involuído ou 'tipo ogro')

Fase 2: Ignorância com boas intenções ('bonzinho tipo moralista')

Fase 3: Conhecimento fragmentado (astuto ou 'bonzinho tipo intelectual')

Fase 4: Conhecimento pleno (evoluído ou tipo pleno)

Cada fase é vivenciada pessoalmente por um tempo relativamente longo: passamos várias existências em cada uma delas, exercitando todas as potencialidades que elas oferecem, aprendendo como usar o que temos e quais as restrições de nosso ser. 

A transição pode levar um tempo considerável também - às vezes se dá numa vida inteira, sendo concatenada através de um período de preparação, outro de desenvolvimento (mudanças intensas e rápidas) e um final, de consolidação

Observando a história do cosmos (escala macro) e a história humana (escala próxima) constatei que a cada salto evolutivo as durações dos períodos estáveis são significativamente menores - em relação ao anterior. Isso se traduz em aceleração evolutiva. Em paralelo, as formas de vida e inteligência que surgem são cada vez mais sensíveis a certos fenômenos, e com isso desenvolvem novas potencialidades que lhes permitem superar situações que julgam incomodas. Na espécie humana isso levou a um ápice evolutivo dentro do paradigma hodierno, que se apresenta no momento planetário atual como inquietação extrema. Essa inquietação se deve a uma incompreensão do fenômeno. O seu significado é a chave. Para 'onde' todo o caos presente aponta. Eis a questão de nosso tempos.  

Tudo me leva a crer que estamos num momento de transição profunda. Vários ciclos se completam, desde a menor até a maior escala. É momento de captar a mensagem do caos. A desorientação generalizada só pode apontar para a necessidade de re-estruturação de tudo que conhecemos; do modo como aprendemos a fazer; dos valores; das prioridades. De tudo. 

O momento histórico é de reconhecimento do indivíduo que vive a fase 4. Isto é, a incorporação dele na sociedade como um membro a ser inicialmente reconhecido, depois estudado, subsequentemente compreendido e finalmente absorvido. Porque se trata do futuro do ser humano - ou o futuro do ser humano. O super-homem de Ubaldi. O intuitivo. Ser capaz de conjugar numa única personalidade alto grau de razão e sentimento, combinados de forma harmônica, resultando numa psique altamente desenvolvida que se reflete na forma de ver o mundo, interpretar e utilizar a dor e se relacionar com o cosmos. 

A junção entre intelecto e moral permitirá ao ser humano um aumento concomitante desses dois pólos, que atingirão níveis nunca antes imaginados. E mais importante: juntos.

O gráfico (Fig.2) mostra como a inteligência e a moral evoluem com o tempo para um indivíduo.

Fig.2: Gráfico relacionando o progredir das duas variáveis humanas mais importantes. 
Fonte: Produção do autor.

A escala de grau evolutivo, assim como de tempo, devem ser lidas em escala logarítmica. Isto é, a cada caminhar linear na figura deve se interpretar não uma soma, mas uma multiplicação de grau por dez na evolução - e algo da mesma ordem de grandeza na dimensão tempo, que não especifiquei na figura. Adicionalmente, dividi as faixas evolutivas em quatro: rudimentar, baixo grau, médio grau, alto grau.

A linha contínua representa a variável moral, enquanto a linha tracejada representa a variável intelectual. 

O gráfico foi obtido após uma profunda imersão nos fenômenos da psique. O autor, observando os tipos humanos ao longo da vida pôde chegar a um esquema conforme apresentado. Após isso, foram feitas análises minuciosas de cada caso para observar se as definições correspondiam às personalidades. Os resultados levam a crer que o esquema possa ser levado em consideração no geral.

Vamos analisar, passo-a-passo, cada fase, observando suas particularidades, seus dramas, seus desafios, suas alegrias e suas dores. Com isso será possível a cada um mapear a si mesmo e se colocar em que momento particular vive nessa vida, nesse momento histórico. Para admitir tudo isso, mister já ter atingido um certo grau evolutivo - ou seja, estar acima das fases mais elementares. Pois uma pessoa que nem sequer começou a se perguntar sobre as questões mais importantes (e fascinantes!) da vida, da evolução, do universo, das origens e do destino, dificilmente irá compreender o esquema que é apresentado. Mas todos chegarão à compreensão. 

Fase 1: Ignorância completa. 

Aqui temos o tipo pré-histórico. O homem de poucas palavras por não saber articulá-las. Uma pessoa fortemente tamásica, presa às coisas mais elementares e sensível aos fenômenos mais brutos. O senso moral está em germe (praticamente invisível) e o intelecto, apesar de maior, é tão rudimentar que lhe permite apenas atuar estritamente baseado no nível sensório. É ação e reação direta, sem perceber desdobramentos de médio ou longo prazo, nem associações coletivas muito grandes. Há no entanto inteligência - e para época em que predomina esse tipo ela é suficiente. Ainda encontramos tipos humanos nesse nível, apesar de raros. É o subnormal.

Fase 2: Ignorância bem intencionada

Aqui há um salto na moral. O senso de respeitar determinadas regras é inflado. O ser vê significado maior em certos dizeres - geralmente relacionado à sua cultura, sua comunidade, seu meio, sua natureza. Surge o tipo religioso dogmático. A pessoa está comprometida com um sistema de crença e valores e crê ter chegado à compreensão absoluta de tudo. Ela vê a importância da moral (aspecto positivo), mas coloca-a como elemento único que deve conduzir a sua vida (aspecto negativo). Assim não desenvolve o intelecto, julgando seu nível de pensamento o suficiente. 

Suas capacidades cognitivas são superiores ao tipo anterior, pois os ensinamentos morais que absorve possuem uma narrativa preenchida com uma certa lógica. Lógica que, apesar de rudimentar e até infantil para os tipos subsequentes, lhe é suficiente e completa. 

Esse ser se considera com a verdade absoluta e não consegue lidar com os paradoxos de seus sistemas. Sua vida é conduzida de forma bem intencionada, mas carece de intelecto para evitar as astúcias do tipo- III e para compreender realidades mais profundas do mundo. Realidades inclusive que, se assimiladas, lhe possibilitariam uma maior densidade de moral - mesmo que com uma diminuição na prática. A humanidade possui uma quantidade razoável de seres nesse grau. Podemos dizer que temos um ser medieval.

Fase 3: Conhecimento fragmentado

Nessa etapa o intelecto explode, atingindo patamares muito elevados. Essa conquista se dá à custa de uma redução (temporária) da moral. Concentra-se as (ainda) poucas forças (= grau moral + grau intelectual) num campo, para que este progrida. O ser percebeu que as narrativas contadas a ele são insuficientes para conquistar o mundo à sua volta. Sua vida clama por mais plenitude, mais esclarecimento. Inicia-se o caminho do progresso.

Podemos denominar o tipo dessa fase de homem da ciência ou homem astuto. Porque na verdade existe uma relação entre a ciência e a astúcia; entre o cálculo e o interesse. Há várias formas de obter um ganho pessoal. E à medida que se evoluiu, a forma de exploração do outro se torna mais sofisticada: parte-se da agressão física (guerras) para a exploração econômica (domínio através dos recursos e serviços) e desta para a manipulação psicológica (mídia, valores propagados). A extração de algo do outro se dá de forma cada vez mais sutil, delicada. Se maldoso por um lado, por outro é bom, pois conduzirá o ser a um beco no qual a única saída aponta para cima. Um novo início - e não uma continuidade de antigas práticas. 

A razão atinge um grau alto comparado àquela do tipo-II. Sua moral é menor, no entanto. Mas essa menor moral é melhor compreendida e contextualizada em sua vida. Esse germe permitirá um próximo salto, como veremos. 

Fase 4: Conhecimento pleno

O tipo racional, sentindo um incômodo profundo na vida, começa a alterar o estado dinâmico de sua psique. O que julgava absoluto e solução de todos problemas (o intelecto altamente desenvolvido) passa a ser visto apenas como um pólo num sistema dipolo, no qual ambos devem crescer e se equilibrar. O sentimento floresce e passa a crescer, dando cada vez mais significado moral aos gestos práticos, ao pensamento, à maneira de ver o mundo.

A ciência não avança porque enfrentamos o problema do mundo com mentalidade dualista: observamos o fenômeno como separado de nosso ser. Não há percepção de que o observador é um fenômeno dentro do fenômeno. Isso fecha as portas para a compreensão dos mistérios da vida. É o que Sua Voz fala em AGS.

Com o aumento exponencial da moral, logo atinge-se uma paridade entre os pólos. O intelecto, que aparentemente chegou em seu zênite, começa a avançar ainda mais. O ser se torna mais inteligente, carreado pelo senso moral profundo. A sensibilidade é alta, altíssima, e é aproveitada da melhor forma. Não se lamentando nem se enervando, mas tensionando a criatividade do ser. A ascensão de ambas leva o ser a um patamar inimaginável.

Começa-se não apenas a ter lampejos de intuição (visões, premonições, etc.), mas a controlá-la, capacitando um trabalho entre razão e intuição. Isso se dá quando se atingiu a fase de estabilização nesse patamar, como Pietro Ubaldi, cuja mediunidade era ativa e consciente. 

Há ainda mais fases nessa jornada, como a fase mística-unitária, que foi arranhada pelo apóstolo da Umbria (relatado no volume Ascese Mística). Mas foge ao escopo desse texto adentrar nesse estágio da evolução -tremendamente elevado para nosso concebível.

Para ficar claro a natureza de cada um dos quatro tipos, foi elaborada uma tabela (Tab.1).

Tab.1: Definições sob várias perspectivas de cada um dos tipos que compõem as fases estudadas.
Fonte: Produção do autor.

Passa-se de uma moral negativa e intelecto negativo (involuído) a uma moral e intelecto positivos (evoluído). Entre esses dois tipos tão citados por Ubaldi, dois elementos de transição: o homem moralista e o homem da razão. 

A visão de mundo (como cada um percebe e sente as coisas que ocorrem ao seu redor) tem como ponto de partida a característica de ser imediata e sensória (tipo-I); passando a ser imediatista e dogmática (tipo-II); adentrando numa fase mais sofisticada, com reflexão das atitudes e cálculo de interesses (tipo-III); até culminar em algo pensado e vivenciado (tipo-IV).

Do ponto de vista sistêmico, podemos ter como foco de mudança de cada tipo: eventos (tipo-I), comportamento (tipo-II), estrutura (tipo-III) e forma mental ou modelos mentais (tipo-IV). Para quem deseja saber melhor sobre essas definições, recomendo a leitura e o estudo de ensaios anteriores, em particular um escrito recentemente [1].

A visão sistêmica dos dois tipos iniciais (I e II) é das partes; a do tipo-III consegue captar as relações; e a do tipo-IV vê o objetivo (telefinalismo). Essas visões conduzem a formas de vida completamente diferente. 

É importante ressaltar que as visões, focos de mudança e características de todos tipos estão presentes nos outros também, só que em graus diferenciados. São concomitantes. Quando classifica-se um tipo está sendo dito que o centro de gravidade de sua natureza está num lugar ou noutro.

O crente dogmático sente uma finalidade e vive de acordo com ela (apesar de ser restrita); o ogro percebe o comportamento dos outros; o homem intelectual também tem suas preocupações imediatas; e o santo também faz uso de sua inteligência. Tudo está relacionado e interage.

Assim se estabelece essa caracterização e relação que vai do involuído ao evoluído, colocando em forma gráfica e com definições mais claras o fenômeno humano.

domingo, 4 de julho de 2021

Do involuído ao evoluído (parte 1)

Fig.1: A evolução realmente substancial de nosso ser nem sequer começou. 
Quando aprendermos a sentir o transformismo que rege tudo e todos, o avanço se dará.

A relação entre inteligência e moral , razão e sentimento, sempre foi conflituosa. A intuição é algo professado por alguns, compreendido por poucos e buscado por raridades. Aqueles que possuem domínio pleno desse tipo de consciência são tão raros que a influência que exercem em nosso mundo é pequena. Pequena não por seu baixo valor, mas pelos imperativos de um mundo que demanda quantidade para considerar. 

Para transformar as coisas no AS é necessário que a qualidade se revista da quantidade. É preciso ter número, ter voz, conseguir comunicar, agir; é necessário ter algo que chame a atenção do poder, seja beleza física, dinheiro, influência, intelecto, títulos, posição social, etc. Mas essa imersão do espírito na matéria deve ser numa dose ideal de tal forma que aquele que está buscando transformação sistêmica não se contamine com o estado de inércia da matéria. Compreender tudo isso é começar a ver tudo de forma mais profunda. E há uma equação que permite dar uma boa ideia do esquema de funcionamento deste - e de todos outros - universo(s).

Grande Equação da Substância (AGS) foi apresentada ao mundo em 1937, quando a primeira edição de A Grande Síntese é publicada e vendida mundo afora. Ela estabelece a relação entre matéria, energia e espírito, três modos de ser da substância única em nosso universo. Esses modos de ser (ou forma) são concomitantes e solidários, caracterizando todos fenômenos, coisas e seres do nosso universo. Universo trifásico. 
Fig.2: A Grande Equação da Substância em seu aspecto dinâmico. Vê-se o ciclo involutivo-evolutivo
de nosso universo trifásico. Cada fase tem uma dimensão que lhe é característica.

Com AGS fica clara a unidade e trindade de nosso universo - e de todos sistemas de universos. É importante lembrar que esses outros universos (criação a, b, c, d,...cada qual trifásica) são contíguos e não se relacionam na malha espaço-temporal, mas sim numa malha evolutiva. O campo Akáshico, muito comentado por Ervin Laszlo no livro 'A Plenitude do Cosmos' [1], é na verdade o substrato que rege o transformismo evolutivo do sistema de universos. O pensador húngaro cita uma dimensão A ('A' de Akáshico, além do espaço-tempo) que in-forma a dimensão M do nosso universo ('M' de Manifesto, no espaço-tempo). Este por sua vez de-forma a dimensão A. Um trabalho conjunto entre dois mundos aparentemente incomunicantes, mas que parece cada vez mais ser o mecanismo evolutivo tanto deste quanto de todos universos que possam vir a existir.

Me parece que a 'dimensão A' seria o meio de atuação do Sistema (S) no Anti-Sistema (AS), para que cada vez mais a matéria se espiritualize, sutilizando-se cada vez mais; e que a 'dimensão M' seria o AS. Então trata-se da imanência divina (dim. A) trabalhando em conjunto com a doença contraída pela criatura (dim. M), numa sucessão de ciclos regeneradores. 

A única incompatibilidade entre o novo paradigma trabalhado por Laszlo e as palavras de Sua Voz (em AGS) está no fato de que os outros universos que precedem e antecedem o nosso serem universos de espaço-tempo (segundo Laszlo). Mas em AGS fica claro que esses ciclos de contração e expansão - que acabam por dar gênese e extinguir universos sucessivos - separam o nosso universo de espaço-tempo (na verdade de espaço-tempo-consciência) de outros universos infra-dimensionais e supra-dimensionais em relação ao nosso.

Fora esse pequeno detalhe, os conceitos apresentados sobre o campo Akáshico são muito próximos à obra de Ubaldi. Mas esse não é o tema central deste ensaio (que será retomado futuramente, quando eu houver compreendido melhor a ideia do pensador húngaro).

Pietro Ubaldi estabelece que: "A dimensão do infinito é a evolução."

Infinito é a ausência das medidas; evolução é o vir-a-ser que assume vários modos em vários universos.

Ou seja, o infinito engloba todas as dimensões, sendo a estrutura que encampa todas as dimensões do AS; e a evolução é o fenômeno que transpassa todos universos, dando ritmo à mudança. Então o 'infinito' seria o aspecto estático mais geral - e a 'evolução' o aspecto dinâmico mais amplo. O conjunto aponta para o princípio diretor, ou aspecto mecânico.

É importante perceber o esquema geral para sermos capazes de atuar melhor em nossa realidade.

A humanidade passa por mudanças globais que envolvem todas esferas. O momento é crítico. Momento de transição planetária, em que devem ser feitas escolhas muito sérias - por cada um e pela coletividade. Vejamos o que alguns dizem a respeito:

"Estamos agora assistindo a uma transformação como jamais se viu, abrangendo, pela primeira vez, quase simultaneamente, todas as culturas em todas as partes do planeta, em função dos extraordinários meios de comunicação. Caminhamos para uma só grande civilização Planetária multicultural e multirracial.

Vieram emergindo ao longo dos últimos séculos, e agora das últimas décadas, as teorias evolucionistas, as leis da genética, a Teoria da Relatividade, a Teoria Quântica, os avanços da psicologia do inconsciente, pondo em xeque os paradigmas lineares e mecanicistas predominantes."

 Fonte: [2] (grifos meus)

A descoberta dos fenômenos muda a maneira como percebemos o mundo. Em consequência, nossas atitudes e atos mudam. Com isso é gerada uma onda de transformação, que age de modo cada vez mais intenso. Há retro-alimentações diversas nessa teia. 

Mas o mais interessante é que essa evolução é feita com base na dualidade, pois apenas no dualismo pode haver evolução - pois estamos num universo decaído (como outros), e a condição de movimento é o bipolo. Isso no entanto não significa que o dualismo é lei suprema do cosmos, mas sim que ele é mecanismo da Lei de Deus para redimir a criatura decaída. 

"O ser humano cria uma consciência baseada na dualidade do “me serve, não me serve”, que vem a se tornar o “é bom, é mau”. Em cima dessa dualidade é que a consciência vai evoluir. Criam-se ideias e valores do bem e do mal, do belo e do feio, do pode e do não pode. Passa a ter o poder de criar imagens explicativas da realidade, cria divindades do bem e do mal, anjos bons e maus, numa projeção fantástica da necessidade de se sentir seguro."

Fonte: [2] (grifos meus)

O monismo representa salto tão grande na humanidade que terá a capacidade de fazer a vida de uma civilização que aceitá-lo um paraíso. O que é visto como milagre hoje será regra num mundo evoluído. 

"É em cima dessa dicotomia que se desenvolvem os princípios filosóficos, as verdades teológicas e as explicações científicas. Alguns poucos sábios e místicos, tais como Buda, Lao-Tsé, Sócrates, Jesus, buscavam passar uma visão mais integradora da realidade, para além dessa dualidade. Mas poucos entenderam suas mensagens, que acabavam, para a maioria, engolidas pelas velhas crenças e valores, controladas por pequenos grupos dominantes pela força bruta (poder civil) ou pelo controle mental (poder religioso)."

Fonte: [2] (grifos meus)

Ressalta-se: poucos entenderam suas mensagens. O tipo médio ainda é pouco evoluído. Ele dita o que é ou não digno de ser repassado via sistema educacional. Eis a causa do progresso se dar tão lentamente - desespero para o evoluído, que se lança de corpo e alma para criar novas formas de vida, teorias, ideias, visões e afetos. Nova comunicabilidade. Não espera as condições - começa a fazer com o que possui.

Queremos obter explicações convincentes para os paradoxos que surgem. Queremos orientação - mesmo que não saibamos disso. 

"A grande busca do ser humano sempre foi obter uma explicação para sua origem e uma visão de mundo que orientasse suas ações. Um grande salto foi dado, no Ocidente, à época chamada iluminista, quando se tentou uma grande explicação racional e se aplicou ao cosmo a visão que aflorava do domínio da tecnologia na emergência da chamada Revolução Industrial. O mundo foi descrito como uma grande máquina. Uma máquina que se pode descrever, quantificar, calcular e, se possível, controlar. É daí que emerge o chamado pensamento mecanicista cartesiano, codificado sobretudo por Newton e Descartes."

Fonte: [2] (grifos meus)

Todas essas mudanças sentidas apontam para uma necessidade de transformação da substância. O ser deve começar a se tornar mais completo. Isto é, deve passar de involuído a evoluído.

Como ocorre essa mudança? O que caracteriza cada tipo? Quais as variáveis envolvidas? Na parte 2 desse estudo serão esclarecidas essas questões.

Abaixo um vídeo de Daniel Kaltenbach [3] que expressa uma visão bem interessante:

Referências

[1] LASZLO, E.  A Plenitude Do Cosmos: A Revolução Akashica Na Ciência E Na Consciência Humana. Ed. Cultrix, 2018.

[2] https://www.cloudcoaching.com.br/lideranca-e-espiritualidade-na-era-da-consciencia/

[3] https://www.youtube.com/watch?v=rFg7OuWuYLA