quinta-feira, 14 de outubro de 2021

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Do artificialismo agradável ao realismo inexorável

A humanidade vem seguindo uma trajetória que está se consumindo a uma velocidade vertiginosa. Essa trajetória teve por princípio um tiro (=impulso) inicial. Um ato de grande determinação. Ou melhor: um pensamento. Esse pensamento nada mais foi (e é) do que um paradigma. Um sistema de crenças e valores, apoiado na razão, na objetividade, na sofisticação argumentativa, na busca pelo bem-estar. Um sistema apoiado numa forma mental que se traduz no modo de funcionamento de nossas instituições. E que alimenta elas, justificando sua existência através de desejos alinhados com a razão de existir dessas instituições - que são órgãos de um sistema.

 
Fig. 1: Quanto maior a renda (e patrimônio), maior a contribuição para o aquecimento global.
Pior ainda é saber que o grosso desse consumo-emissão não se traduz em despertar de consciência que gere 
atitudes mais sistêmicas, sínteses mais profundas e atos mais humanos. 

O mundo possui vários regimes. No campo político, eles variam entre uma débil democracia e um corrosivo autoritarismo; no campo econômico, eles oscilam entre um raso coletivismo distributivo e um cruel individualismo produtivo; no campo filosófico, eles se expressam como uma reforma íntima calma que não se intromete no mundo exterior e uma atuação sistêmica que não enxerga o espírito interior que deveria animá-la; no campo científico ele se expressa entre um dualismo que admite dois termos fundamentais e em perpétuo combate e um pseudo monismo que vê a essência numa forma particular - e não em algo que transcende todas as formas. 

Sem dúvida são tempos de perdição. De desorientação. De velocidade. De desempenho financeiro, sexual, acadêmico, social. E de reconhecimentos imediatos. De curtidas e likes e gozos. Tudo isso em combos, de preferência - como os serviços e bens. 

Não há tempo para se pensar no tempo. Não há espaço para admitir novas perspectivas, à fundo, que possam transformar a personalidade. Não há vontade de parar para pensar (de verdade). E muito menos, é inexistente a necessidade de contemplar. Isso (contemplar) virou um desperdício completo. Uma atitude apenas útil para tirar algum proveito momentâneo. Algo distante, sem significado mais profundo. Algo abstrato...

Apesar disso, eu prefiro uma definição mais profunda. Ela nos dá uma ideia mais precisa sobre o ato de contemplar:

Então eu percebo os outros de modo muito diferente. Vejo (sem arrogância alguma) pessoas perdidas - ao menos em sua grande maioria. Sinto a desorientação dos indivíduos. Sinto que o grau de consciência das pessoas só pode expressar esse desespero - de incorporar um aspecto mais profundo da vida - através de reações brutas, dizeres com conteúdo substancial muito diluído. Me preocupo com o próximo. Mas, ao mesmo tempo, pouco posso fazer. Sabe...é uma questão de quantidade, apesar disso ser fundamentalmente ilusório. 

Estamos no Anti-Sistema. O universo é trifásico: possui matéria, energia e espírito (que algumas correntes chamam de mundo físico, mental e espiritual). E todas fases são contíguas. Isto é, coexistem a todo momento, em todo lugar, se relacionando de modo muito especial a depender da consciência individual. E, sendo trifásico, devemos conviver com todos elementos e trabalhar com eles. Eis o porquê da quantidade ser importante para que a qualidade aumente sua importância.

Parece um paradoxo, mas não o é. Basta observar à fundo. Não com a lógica do intelecto, mas com a potência penetrante da intuição, na qual o indivíduo se sente como fenômeno dentro do fenômeno. O cosmos olhando par si mesmo. A humanidade se vendo sob uma perspectiva cósmica. O indivíduo conhecendo sua essência e a causa do transformismo que o anima. 

Vamos falar um pouco sobre economia, tecnologia e ecologia (o tema deste ensaio).

Da Revolução Científica - como consequência esperada - brotou uma outra revolução, seu subproduto: a Revolução Industrial. Ela foi caracterizada pelo quê? Pela transformação de matéria bruta e formas de energia estocadas no planeta através de conhecimentos científicos. A meta foi aumentar a velocidade, diminuir distâncias, comunicar de modo claro, trocando grande quantidade de informações. Trazer mais conforto material. A busca pela eficiência. 

Mesmo feito de modo desordenado e desigual, foi possível levar a muitas pessoas benefícios antes inimagináveis. Na medicina (medicamentos, tratamentos, equipamentos, medicamentos, conhecimentos), no lar (eletrodomésticos, eletroeletrônicos), nas cidades (transportes, saneamento, comunicações), na administração (distribuição, mapeamento, priorização) e por aí vai. Até mesmo surge uma nova arte, o cinema - a sétima arte. E com ele novas possibilidades. Tudo se espalha rapidamente, mesmo que de modo heterogêneo e trazendo germes de futuros problemas.

O problema disso tudo foi o seguinte: os custos de produção sempre foram externalizados. 

O que é isso? (externalização de custos)

O blog do Roberto Moraes, engenheiro e professor titular do IFF, tem uma definição que julgo muito clara:

"Este é o nome pomposo que se dá a todos os gastos que um empreendedor teria para montar seu negócio, e por vias diversas, ele consegue passar a responsabilidade para a gestão pública que reforma vias, desapropria áreas, dá isenção ou descontos de tributos, forma profissionais, etc. Os investidores absorvem custos até a fase de licenciamento, com as chamadas compensações/mitigações ambientais e/ou sociais, para além disso, tudo será sempre muito difícil. O gestor público tem que saber disto, até para compreender e administrar o processo de regulação e de demandas que tendem a surgir cada vez mais de parte a parte. O blog está se referindo ao Açu, mas as referências servem para qualquer grande empreendimento."

Fonte: [3]  (grifos meus)

Isso permite camuflar o preço real de um produto / serviço. Não é preciso dizer que essa camuflagem agrada muito ao consumidor, cujo salário é cada vez mais achatado e o 'preço' de obtê-lo, mais humilhante e tenso. Desse modo o capitalismo encontrou um modo de conseguir se perpetuar, enfrentando pouca resistência por parte da sociedade (que o sustenta).

Chegamos ao ponto em que não é mais possível manter as aparências. Os preços começam a aumentar absurdamente e não há artificialismo que consiga disfarçar. Esse artigo de Umair Haque explica melhor o fenômeno da externalização que se torna internalização de custos [1].

Agora o que vamos observar é a inserção desses custos de produção - acumulados ao longo de décadas e décadas...desde os primórdios da Rev. Industrial - serem passados para nós, consumidores, povo deste planeta. Porque a turma que possui as megacorporações não está disposto a pagar a conta. 

Jeff, Elon, Bill e Cia. não estão interessados num mundo verdadeiramente harmônico e sustentável. Eles querem fugir para Marte ou uma estação espacial enquanto nós nos digladiamos até a morte. Eles estão mais presos à ilusão. Estão presos à forma mental. Ao gozo em sua forma mais sofisticada. E nós, ao nos mantermos inertes e 'focados' em nossas pequenas ocupações, fazemos papel de idiotas. Precisamos agir rapidamente. Cada um precisa aceitar a realidade. Caso contrário, a conta será cada vez mais amarga. Preços subindo como um foguete. E com isso, manter um padrão e vida minimo será um luxo para uma parcela diminuta da humanidade. Sabe...essas coisas como plano médico, medicamentos, transporte, comida decente, energia, água potável, banhos quentes, moradia decente e coisas do tipo. Coisas que todo ser humano teria direito e poderia ser fornecido por um sistema político-econômico minimamente justo. 

As pessoas não conseguem frear toda essa loucura porque elas não compreendem o que está acontecendo de fato. O fenômeno é um mistério para praticamente todos. Mas isso não é o pior. O mais trágico é que ninguém está disposto a mergulhar à fundo nas causas dos males atuais. Porque isso demanda esforço, trabalho duro não reconhecido e - em casos extremos - sacrifício. Essa é a desgraça da espécie humana nos tempos presentes. 

Fig. 2: Lei da causa-efeito. O abuso de um lado gera a privação do outro. E vice-versa. Uma dança 
de desequilíbrio dinâmico é de superfície. É a dança da humanidade, que se desgasta para caminhar 
a passos lentos na direção evolutiva. Uma dança de equilíbrio dinâmico é de profundidade. Ela se move 
de outro modo, adentrando no mistério das coisas, para assim realizar verdadeiros feitos. Feitos eternos e 
unificadores...

E qual é a solução então?

Dou uma dica através de afirmativas que mapeiam o fenômeno:

1) As instituições se enquadram numa lógica sistêmica (todas elas);

2) Elas podem aparentemente funcionar contra essa lógica, mas no fim estão movendo palitos na superfície. A grande coordenação reside na lógica sistêmica;

3) Essa lógica tem metas: consumo, distrações, acumulação, aparências, ganhos efêmeros, forma, gozos e crescimento ilimitado;

4) E essa lógica tem temores: conscientização, simplicidade, síntese, intuição, unificação, significação;

5) A lógica por si só parece ter vida própria. Ela é coordenada pela ideologia dominante. Ideologia que expressa o nível de consciência do grosso da humanidade;

6) A humanidade, em seu baixo grau de consciência, - resultado de um descompasso entre intelecto e moral - sustenta inconscientemente essa lógica sistêmica (cuja estrutura é o sistema em si), sem conseguir relacionar seus males quotidianos com o que gera eles;

7) A forma mental baixa combate o sistema que a gerou. Como estão no mesmo nível (forma mental, causa intangível, e sistema, efeito concreto), eles se retroalimentam. Resultado: revoltas incipientes, revoluções usadas pelos poderes a seu favor, mudanças muito lentas, criação de bodes expiatórios em todos os campos, desde a política até a religião até os ramos do saber. Enquanto isso o ritmo de degradação segue a passos largos. Vamos perdendo o que mais tem importância: relações profundas, trabalhos significativos, simplicidade, capacidade de discernir, capacidade de pensar, autonomia, controle sobre nossas vidas...

Vocês estão vendo o quadro? Essa é a gênese dos males atuais. Uma causa (um pouco mais) profunda. 

Nos acostumamos a um mundo estático, em que o nível atingido é considerado o ideal a ser perpetuado - a todo custo. A ideologia do consumo, do bem-estar e dos gozos discretos, porém intensos. A ideologia da argumentação que se potencia pautada nos interesses individuais. Isso é individualismo. Separatividade. Utilitarismo de superfície. 

Precisamos de uma ciência econômica que esteja à altura dos desafios de nossos tempos. Uma economia radical (que vá à raíz dos fenômenos), sendo capaz de coordenar o processo evolutivo no plano concreto para que o ser tenha possibilidade de realizar as criações eternas, no espírito. 

Umair Haque explica um pouco sobre essa economia radical (acione as legendas em português):

Precisamos de ideais para nos movermos. Ideais que gerem ideias. Ideias que coordenadas entre si formam um quadro claro, tornando a ação da coletividade coordenada. Isso será a evolução da revolução. 

Escutemos palavras de Sua Voz:

"Vossa ciência econômica acredita justificar-se – como se partisse de um originário princípio de justiça – afirmando, com sua premissa hedonística, a presença de um tipo abstrato de homo economicus, como se, na realidade, um aspecto pudesse ser isolado do outro e cada fenômeno não estivesse vinculado a todos os fenômenos na lei universal."

AGS, Cap. 92 (grifos meus)

A ciência econômica hodierna (presente) se baseia num tipo humano puramente interesseiro. Como se não houvesse nada a mais. Nenhum interesse que escapasse dos fenômenos de trocas de bens e serviços visando o bem estar.

"Vossas ciências sociais se baseiam confortavelmente em qualquer mentira cômoda. Melhor seria enfrentardes a verdade, dizendo que, quase sempre, o homem, não apenas como uma hipótese econômica mas também na realidade, é um perfeito hedonista, como consequência da aplicação da sua natureza egoísta no campo dos negócios; que o do ut des não é um equilíbrio de direitos, mas sim uma avaliação de forças para um mútuo estrangulamento"

AGS, Cap. 92 (grifos meus)

A economia do do ut des (dou para que eu pegue algo de ti) visa o interesse imediato puro. Não se trata de um princípio que vise o bem estar de todas as partes, mas sim de uma lógica que faça uma mensuração de forças e deixe o conflito de exploração mais ordenado, mais revestido de civilidade e mais eficiente em sua extração. 

Essa lógica já passou da data de validade. As evidências abundam. É só uma questão de ver....

Ainda não está claro?Annie Leonard explica um pouco melhor:


Não é uma questão de opinião: é uma questão de pensar. De ver com clareza. De perceber o quadro todo - e não apenas fragmentos desse imenso mosaico planetário.

A privação é uma consequência do nosso abuso. Não estamos em equilíbrio dinâmico com o meio nem conosco. Do desequilíbrio interno chegamos ao desequilíbrio com os semelhantes, que em seu conjunto não conseguem se inserir como agentes responsáveis no grande equilíbrio planetário

A criação da noosfera é um fenômeno de despertar de consciência coletiva. Ela é a esfera que conseguirá coordenar as outras esferas (biosfera e geosfera). Ela se forma com a consciência global aumentando. Unificação é o passo. Mas para unificar é precisa que cada um se oriente. Faça isso por conta própria. 

Quem está mais desperto pode apenas mostrar o caminho.

Cabe à própria pessoa, presa na escuridão da ignorância, despertar e trilhar o caminho...

Referências:

[1] https://eand.co/why-everything-is-suddenly-getting-more-expensive-and-why-it-wont-stop-cbf5a091f403

[2] https://eand.co/do-americans-know-what-a-massive-ripoff-american-life-really-is-8804aa6b65fa

[3] http://www.robertomoraes.com.br/2011/03/externalizacao-de-custos.html

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O nascimento de uma ciência qualitativa

A Revolução Científica foi um marco na História recente. Iniciada por Galileu Galilei no século XVII, ela carregou consigo (e carrega até hoje) o método científico, predominantemente indutivo. Um método que se apoia nas quantidades, isto é, em coisas que podem ser mensuradas. Aí temos todo o mundo físico e os domínios que se apoiam nele, como o orgânico, o psíquico e o social. No entanto, à medida que subimos na escala de complexidade, percebemos que esse método vai perdendo força, se tornando uma mera aproximação (e muito ruim) do que se conhece por consciência.

Fig. 1: Não apenas a ciência, mas a religião também sofrerá uma mudança profunda. 
Quem se prende à forma verá nisso a morte de ambas. 
Quem navega na substância e vive o transformismo, verá o nascimento de uma nova civilização.

Para que a ciência moderna nascesse e pudesse dar todo seu rendimento, foi necessário estabelecer alguns pontos. O principal deles foi separar duas coisas: o domínio físico do domínio da consciência. De modo geral:

  • A ciência irá lidar com o mundo físico, composto de propriedades quantitativas
  • A consciência, composta de qualidades, irá ficar fora do domínio da ciência. 

Ou seja, tudo que não é mensurável está fora do âmbito da ciência. Esta só irá se preocupar com quantidades. O reino da qualidade não é objeto de estudo da ciência que nasce. E o próprio Galileu proferiu uma frase que marcou todo o desenvolvimento ulterior da ciência moderna:

"A matemática é o alfabeto que Deus usou para escrever o Universo."

Galileu Galilei

E assim caminhou a ciência, trazendo inúmeros progressos à humanidade no campo do mundo concreto. E com esses sucessos as ciências físicas começaram a galgar degraus, buscando explicar como funcionavam os organismos vivos, as células, os órgãos, os tecidos e os subsistemas do corpo e o corpo como um todo. Mapeamos a botânica e observamos a biosfera. Formulamos teorias para a ciência térmica e eletromagnética. Adentramos no cérebro e buscamos relacionar a origem dos sentimentos e pensamentos - a criatividade - com os impulsos nervosos. Mas justamente aí começamos a falhar, patinando na periferia de um fenômeno que está além dos sentidos e da racionalidade e da objetividade. E assim o método científico começa a derreter em face àquilo que ele pretende desvendar: a natureza da consciência - e a matemática, sua linguagem aliada, se revela impotente, capaz apenas de esboçar aproximações, estabelecendo relações causais.

Isso não significa que a ciência materialista com seus métodos e linguagens não seja capaz de estabelecer aproximações do reino qualitativo. Mas ela por si só não é suficiente. E aí adentramos no que é denominado monismo neutro. O documentário abaixo pode dar uma introdução às questões relacionadas ao estudo da natureza da consciência. 

O monismo neutro afirma que o substrato de toda realidade não é composto nem por mente nem por matéria, mas sim por um terceiro elemento (situado no campo do superpsíquico) que pode ser abordado por abordagens baseadas na mente ou na matéria. Esse elemento desconhecido seria a substância (de Deus).

A teoria integrada da informação da consciência, de Giulio Tononi, propõe que a consciência está correlacionada com a informação integrada ao seu nível máximo, dando uma caracterização matemática à sua teoria. Mas meras correlações não constituem uma teoria da consciência. 

A questão aqui é estabelecer uma ponte entre essa informação integrada ao máximo grau e a manifestação da consciência. E a visão de Galileu não ajuda a avançarmos nesse ponto, já que ela separa ciência de consciência - isto é, uma forma de abordar com o fenômeno em si.

A ciência é hoje materialista. Segundo Ubaldi, amanhã será ciência do espírito. Não no sentido que geralmente nos vem à mente (adivinhações, dogmas, etc.), mas tendo por base de que é necessário transcender os métodos hodiernos através de uma pesquisa que parte do campo interior. Tendo por premissa que a própria ciência é um fenômeno contido no devenir universal, e ela também, para avançar, deve se transformar em algo inteiramente novo, se abrindo para a metamorfose. E para isso é preciso evoluir, ou seja, atingir uma maturação interior capaz de despertar a faculdade intuitiva no ser, e com isso desenvolver um método inteiramente novo - o método intuitivo. 

As correlações podem servir de base. Mas de nada adianta continuar estabelecendo (e reescrevendo) correlações ao infinito, se elas por si só não dão a respostas. No fundo elas são setas que apontam para outro 'lugar'. Setas que apontam para um infinito. 

Se a ciência for se tornar uma ciência do espírito (a ciência da nova civilização), ela deve transcender a ciência de Galileu. A ciência materialista deve se tornar espiritualista. Isso não significa negar todas as leis (descobertas), métodos (desenvolvidos) e ferramentas (usadas) da ciência materialista (séc. XVII a XX), mas a partir de tudo isso e dos paradoxos do nosso século, superar essa forma de ver o mundo, expandindo nossa percepção da realidade. E aí o sentimento, o pensamento sistêmico e a integração tem um papel central. 

Estamos diante de uma era de transformação profunda, cheia de possibilidades se soubermos perceber o que as forças da vida nos apresentam. Devemos avançar com nossa ciência de Galileu, mas desenvolver, sem temor, a ciência de Ubaldi. Um sistema integrado que coloca na vanguarda a ciência do espírito - e na retaguarda a ciência da matéria.

Existe um termo conhecido como panpsiquismo. Ele afirma que tudo que existe é permeado de consciência. Não no sentido tal qual conhecemos no nível humano. E sim no sentido de que tudo obedece a uma lei, em seu nível, e 'busca' cumprir sua função dentro do esquema de nosso Universo. Um cosmos decaído porém em evolução perpétua e incessante. Que segue uma trajetória característica ditada por uma espiral - os movimentos fenomênicos. 

O vídeo (curto) de Russel Brand dá uma ideia desse conceito. Ele explica um pouco sobre a entrevista que ele deu ao Prof. Philip Goff (especialista em panpsiquismo).

A consciência é a raíz de nossa identidade. Sua compreensão pode ser a solução de diversos problemas que afligem nossa sociedade. Essa revolução está em curso e irá não apenas mudar radicalmente nossa compreensão do Universo, mas desvendar nossa própria natureza.

Pietro Ubaldi fala abertamente e com muita propriedade a respeito dessa necessidade da ciência se transformar. Sua Voz, em A Grande Síntese, aponta para essa nova ciência, dizendo que a velha está saturada e não consegue caminhar mais sozinha. É imperativo que surja seu aspecto mais evoluído.

"Vossa ciência lançou-se num beco escuro, sem saída, onde vossa mente não tem amanhã. Que vos deu o último século? Máquinas como jamais o mundo as teve, mas que, no entanto, são apenas máquinas e que, em compensação, ressecaram vossa alma. Essa ciência passou como um furacão destruidor de toda a fé e vos impõe, com a máscara do ceticismo, um rosto sem alma."

AGS, Cap. 1 (grifos meus)

E, mais importante, a ciência sempre teve uma finalidade: tornar-nos melhores. Mesmo sem sabê-lo, essa foi sua função principal. As conquistas de superfície (bem-estar, vencer argumentos, conquistar) são apenas ilusórias que fazem criaturas involuídas se movimentarem em direção à Deus, evoluindo incessantemente através de experiências. 

"A ciência pela ciência não tem valor, vale apenas como meio de ascensão da vida. Vossa ciência tem um pecado original: dirigir-se apenas à conquista do bem-estar material. A verdadeira ciência deve ter como finalidade: tornar melhores os homens. Eis a nova estrada que precisa ser palmilhada. Essa é a minha ciência."

 AGS, Cap. 1 (grifos meus)

Por isso a revelação será redescoberta pela humanidade. Dessa vez a revelação virá através de profetas modernos, como Pietro Ubaldi e tantos outros que já atuam em nosso mundo. Profetas com uma compreensão mais clara, menos presos à forma e à letra. Profetas com astúcia bem usada, força de argumentação, cultura e intelecto, guiados por um senso moral muito sutil que lhes imprime uma trajetória fora do comum. Uma trajetória que revela um destino. Destino glorioso, em que o elemento se destaca e viabiliza a ascensão vertical, isto é, substancial, de nossa espécie. 

"O momento é crítico, mas é necessário avançar. Então – coisa incrível para a construção psicológica que o último século imprimiu em vós – nova verdade vos é comunicada por meios que desconheceis, para que possais descobrir o novo caminho."

AGS, Cap. 1 (grifos meus)

Fig. 2: Não é tempo de esperar. É hora de agir. Tudo que puder ser feito é válido. 
O esforço individual do ser irá atrair outros, que irão se irmanar e crescer, como um único organismo.
Organismo que se tornará a base de uma nova civilização. Civilização do espírito. 

Através de revelações que tocam o íntimo do nervo espiritual humano, a busca será iniciada. É apenas com algo fantástico, incrível, fora de série e inteligentemente ousado que iremos nos sentir estimulados a progredir em nossas vidas. 

Precisamos de um conceito profundo dito da maneira mais poética, científica e musical. Algo expresso através de uma vivência ímpar. Um ato de amor pelo que está para se revelar, para que assim as pessoas fiquem pasmas e façam um novo início - e não continuem a repetir antigos métodos de novos modos. 

Referências:

[1] https://blogs.scientificamerican.com/observations/galileos-big-mistake/

[2] https://medium.com/the-infinite-universe/science-may-not-be-true-dde5e437c303

[3] UBALDI, Pietro. A Grande Síntese.

domingo, 10 de outubro de 2021

A essência da Vida revelada através de muitas vidas - que vêm e vão

A Arte é a mais alta expressão humana do pensamento de Deus. Nossa espécie desenvolveu - baseada em seus sentidos, sensibilidade e técnica - uma maneira de exprimir ideias e sonhos muito especial. Na verdade, apenas o Homo Sapiens possui essa capacidade: de ir além do que percebe objetivamente, pelos sentidos.

A mais recente (e última) das formas de expressão é o cinema, ou a sétima arte. Podemos dizer que se trata daquela mais tecnológica e massificável. Uma faca de dois gumes, que pode ser usada tanto para acelerar um processo de sensibilização do ser humano quanto mantê-lo num estado de ignorância e separatividade. Por esse motivo é muito importante estarmos atentos à nossa própria conduta (o vigiai, dos conselhos do Cristo "orai e vigiai").

É preciso usar as coisas. Nem abusar, nem recusar, mas usar - como dizia Huberto Rohden. 

Abusar é usar mal e em excesso.

Recusar é não usar nada porque não se vê aspectos úteis de algo.

Usar é dar o devido valor a algo, tornando-a meio de ascensão.

Eu uso o cinema para despertar minha consciência. É a forma de arte com que mais convivo e que mais facilmente tenho acesso. Então nada melhor do que fazê-la orbitar em torno do eixo central, foco da minha vida: ascensão do espírito.

Nos últimos anos, com a pandemia, conheci as séries. Várias delas. Séries maravilhosas, de conteúdo e valor, que expressam a vida em seu aspecto mais substancial, através de histórias simples ou grandiosas - mas todas de valor intrínseco. Uma dessas séries (e por enquanto uma das cinco melhores que já assisti) se chama Call The Midwife. 

Fig.1: Uma série sem grandes tramas, ou esquemas complicados, ou feitos que causam impacto direto.
No entanto, uma série plena de valor, repleta de significado e próxima, muito próxima, à vida de cada um de nós.
Uma jornada real e essencial para quem deseja conhecer melhor a si mesmo através dos outros.

Além de ser uma história envolvente, cujo ponto de partida é baseado em relatos reais da enfermeira Jennifer Worth (Jenny) na Londres de finais da década de 1950, ainda temos belíssimos casos de parteiras e freiras, que dia-a-dia realizam um trabalho aparentemente simples, porém de valor inestimável, que causa impacto na vida de quem recebe seus cuidados - e nelas mesmas, moldando as personagens à medida que a série se desenvolve. 

A trilha sonora é uma jóia à parte. Do compositor italiano Maurizio Malagnini (a Itália 'gera' criaturas muito interessantes no campo da música e das artes em geral), sentimos fragmentos do infinito à medida que escutamos a trilha sonora que dá tom a cada momento do seriado. É algo que transmite um sentimento profundo, do íntimo, além do local e das aparências; além da época. É uma música que dá tom ao drama mais agudo de cada personagem; que dá vida àquilo que a simples narrativa (por melhor que seja) não é capaz de exprimir em sua plenitude; que traduz o ímpeto, a esperança, a tristeza, a alegria e o idealismo de cada personagem através de uma determinada combinação musical. 

Vale a pena ouvir o álbum (abaixo).

O ponto de partida é o ano de 1957. O bairro é Poplar (East End), em Londres. Estamos na Nonnatus House. 

"Nonnatus House, midwife speaking" (Casa Nonnatus, Parteira falando)

Essa recepção será repetida por toda série. A marca registada da casa e da série - que orbita em torno dessa casa em que convivem parteiras e freiras cuja meta é uma: trazer ao  mundo da melhor forma possível as crianças que nascem no região. Cada parteira que atende o telefone já revela seu ponto e sua função, como que dando não apenas informação, mas segurança, a quem está do outro lado da linha. 

Estamos numa Inglaterra em que o National Health Service (NHS, o SUS britânico) mal completou uma década. O primeiro sistema de saúde público, universal, gratuito e de qualidade do mundo. E a Casa Nonnatus se insere nesse contexto de transformação nacional. Mas apesar desse avanço histórico, vemos que o quotidiano das parteiras não é nada fácil. 

Há desafios a cada passo. Cada dia novo, cada parto a ser feito, traz um risco, uma possibilidade, e como produto final uma experiência - que pode se arrastar por anos na mente e no coração das parteiras e das freiras, moldando lentamente a percepção de mundo. 

Cada personagem traz uma personalidade muito especial. Não há nada idêntico. Cada tipo possui sua história de vida, seu modo de perceber as coisas, suas crenças e valores, suas virtudes e vícios, suas inclinações e repulsas. Mas todos estão relacionados profundamente, como uma grande família, por meio de um objetivo de profissão, que é justamente melhorar a qualidade de vida das pessoas através da medicina e da humanidade - os atos e gestos simples que fazem toda diferença.

Jenny Lee (Jessica Rayne) é a parteira principal durante as três primeiras temporadas. Junto a ela temos Trixie Franklin (Helen George) e Cynthia Miller (Bryony Hannah), atendendo as pacientes durante o dia e alternando plantões durante a noite. Trixie pode parecer fútil pela sua aparência, mas nela jaz um ser de sensibilidade e dedicado ao trabalho, com princípios. Ela é expansiva e tem facilidade em lidar com todos. Já Cynthia é mais reservada, miúda fisicamente porém enorme em sabedoria das coisas (como fica revelado numa conversa com a Irmã Evangeline numa temporada mais à frente). 

Avançando um pouco (1° epsiódio) chega Chummy Browne (Miranda Hart), uma moça desajeitada e fisicamente grande, porém de enorme coração e doçura ao lidar com tudo e com todos. E também muito competente em seu serviço, como demonstram as primeiras cenas. Sua presença é reconfortante e ela é o elemento que busca animar quando tempestades psíquicas se avizinham.

Como o ambiente que alberga essas enfermeiras especiais é um convento, a presença de freiras é presumível. E elas (freiras) são igualmente interessantes e fantásticas em sua constituição psíquica e comportamentos. A maioria delas é senhoras, exceto por uma: a Irmã Bernadette. Comecemos por ela.

Após a Irmã Julienne (Jenny Agutter), a chefe, responsável pela direção da Casa Nonnatus, Bernadette é a mais calma. Ver-se-à que ambas possuem uma afinidade em certos pontos. Além de sua paciência, Bernadette é meticulosa e ponderada e jovem. Sua juventude, beleza e propósito de vida, a colocam em dúvida a respeito de sua vocação. Isso fará com que ela se transforme, revelando um aspecto central da natureza humana: a busca pela realização de sua missão no mundo. 

Julienne é ponderada, mitiga conflitos e sempre está trabalhando árduamente. Ela é o modelo perfeito de chefe, que exerce autoridade sem ser autoritário. Que convive lado a lado com seus subordinados. Se diverte e se entristece junto aos dramas e alegrias de cada um. É a voz da razão e da sabedoria. É conservadora até o ponto em que não trava completamente o dinamismo progressista dos outros. É exemplo e equilíbrio.

A Irmã Evangeline (Pam Ferris) é muito competente, porém durona. Direta como uma flecha, ela sempre vai direto ao ponto, resolvendo questões - mesmo que às vezes com falta de delicadeza. Seu passado foi difícil e isso explica sua personalidade inalterável, porém muito segura. E essa segurança que gera confiança em suas pacientes, tornando-a um exemplo.

Por último, mas não menos importante, temos a querida Irmã Monica Joan (Judy Parfitt), a anciã da turma, que foi uma das primeiras parteiras qualificadas na Inglaterra. Seus mais de 80 anos não a impedem de proferir exclamações muito certeiras, ou afirmações muito profundas, ou mesmo perguntas muito importantes. Ela não atua como parteira devido à sua idade avançada. Considerada senil (ao menos em parte), ela se aposentou e ficou ao cuidado das irmãs. Muitos dos alívios cômicos da série vem através dela. Seus interesses por livros, por doces e temas filosóficos, caracterizam sua personalidade. Ela é excêntrica, fora do comum, fora do padrão. Mas é justamente isso o que a torna especial. Seu comportamento revela a beleza dessa fase avançada da vida, em que pode-se falar mais abertamente e ao mesmo tempo viver mais sinceramente. 

Fig.2: As enfermeira Barbara e o pároco Tom. Unidos por afinidade. Um amor bonito. 
Sem conflitos internos - desafiado pelas circunstâncias externas.

Todos personagens estão centrados nos nascimentos. A vinda de seres ao mundo. A encarnação de almas que devem evoluir na matéria, através de experiências (às vezes muito árduas, como será visto em muitos episódios), para de alguma forma espiritualizar um pouquinho mais o mundo. Através de gestos, atos, contribuições e trabalho. Através de expansão de sua sensibilidade e aprofundamento de sua compreensão das coisas. 

Mas a morte também faz parte da vida dessas profissionais. E é através das idas (para o 'outro lado') de certas pessoas que nos sentimos um com os personagens. Desenvolve-se o senso de empatia. A dor do outro é a nossa dor. E isso nos envolve com a série. É a vida real, sem idealismos ilusórios (=fantasia), mas guiada por um idealismo de profundidade, que se manifesta de modo muito discreto na superfície. 

A partir de cada episódio o espectador é encorajado a fazer pequenas investigações a respeito de várias questões abordadas: a função da medicina, o aborto, a criação dos filhos, adoção, doenças, consequências da falta de conhecimento sobre coisas, nascimentos problemáticos, violência doméstica, aceitação, efeitos da guerra, formação de casais, convivência com o outro, culturas distintas, métodos distintos, influências do mundo da política, da economia e da tecnologia, entre muitos outros. 

Adicionalmente a tudo isso, a série vai se dinamizando, mantendo seu ritmo com a entrada e saída de personagens - por motivos mais ou menos agradáveis. E as novidades são muito enriquecedoras. Personagens muito singelas, humanas e cheias de vida. 

Fig.3: As enfermeiras Anderson, Franklin, Phyllis e Dyer.
Revelando a essência da Vida através das vidas que vem e vão.

Comentemos brevemente sobre algumas delas.

A jovam Barbara (Charlotte Ritchie) tem os modos recatadas de filha de pároco. Mas muito determinada em seu ofício. Uma pessoa idealista na medida. Alguém que não chama a atenção mas cuja ausência seria sentida de forma muito forte pelos outros. 

Patsy (Emerald Fennell), que chega com pouca experiência com partos, mas muito eficiente. Uma moça com inclinação sexual diferente, que ama de outra forma uma pessoa que não poderia ser amada (numa sociedade dos anos sessenta, fortemente conservadora). 

Phyllis (Linda Bassett), mulher de certa idade, muito metódica e experiente. Solteira, passando uma impressão inicial de pessoa fria e distante. Robótica. Mas à medida que os acontecimentos se dão, a sua personalidade se revela e observamos uma pessoa muito próxima às suas colegas. 

Há outras, maravilhosas, como as enfermeiras Lucille Anderson e Valerie Dyer. Deixo de falar para não me estender, mas a presença de ambas é de importância vital para a série. 

Mas talvez o mais interessante (para mim ao menos) seja a gênese e a trajetória do casal dos Turners. Uma família que começa com um pai viúvo (Dr. Patrick) e seu filho (Timothy), que vai aumentando e se moldando à medida que a vida apresenta as circunstâncias adequadas. E o ponto de partida reside justamente em Shelagh, uma mulher que muda sua vida abruptamente porque sente que seu destino é criar uma família.

Os pacientes possuem igualmente seu valor. Alguns deles ficam presentes por um certo tempo, se relacionando com esse devenir dos personagens principais. Pessoas ricas em histórias e fortes em valores. 

São almas que se influenciam e se reforçam. Almas em evolução, que revelam a essência da vida através das vindas (partos) e idas (mortes). Almas simples, sinceras e determinadas.

Abaixo, a trilha In the mirror, que revela a transformação de uma das personagens.

Referências:

[1] https://valkirias.com.br/call-the-midwife-e-o-olhar-multidimensional-sobre-as-mulheres/

[2] https://www.imdb.com/title/tt1983079/

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

A origem dos milagres

A vida é muito curta. As existências terrenas, incontáveis, são tantas para cada indivíduo que se perdem na estrada do tempo que passou - e se projetam no tempo que virá. E toda condição atual que um indivíduo vive foi forjada através de seus próprios atos. Atos executados baseados em comportamentos que se apoiavam numa forma mental. Essa forma mental nasce na consciência, em seu íntimo, e se baseia numa visão, num sentimento, próprio do espírito. Algo consolidado através das experiências da vida. Então, é apenas vivendo profundamente, sentindo e compreendendo, que será possível caminharmos na única dimensão que interessa: para o Alto. Não um 'alto' espacial, mas algo diferente. Uma ascensão evolutiva, rumo ao infinito, ao eterno e ao Absoluto...

O cinema é, para mim, um meio muito interessante de auxiliar no processo de despertar. Essa relação (eu e a sétima arte) se iniciou há mais de vinte anos. Minha personalidade muito diferenciada não conseguia encontrar no mundo compreensão por parte das pessoas, e para suprir essa solidão terrena me senti impelido a mergulhar na vastidão da imagem e do som. 

Fig.1: O cinema turco demonstra compreender para que serve a sétima arte.

Filme após filme, fui ganhando a capacidade de filtrar as mensagens. À medida que os anos passavam e meu ser amadurecia, me orientava melhor e buscava por coisas mais substanciais: obras com maior impacto, cheia de significados; de riqueza de detalhes de uma época; que esmiuçavam personagens desconhecidos pelo publico (mas vitais para o progresso humano); que extraíam o melhor de mim através de uma trilha sonora profunda e viva, aliada a um roteiro que expressava um princípio superior. Roteiro: alma de um filme. Música: forma mais elevada de arte, capaz de tocar a alma...

O cinema tem a vantagem de combinar várias formas de representação e tecnologias. Ele permite a produção em série de conteúdo vazio, mas ao mesmo tempo viabiliza a difusão global de obras que ecoam pela eternidade. 

Ontem assisti um filme turco chamado 'Milagres do Amor'. É baseado numa história real. A história de um homem chamado Aziz. Um homem que nasceu com uma deficiência: seu corpo tinha uma forte paralisia muscular, de modo que seus movimentos eram restritos e sua fala, quase inexistente. Homem que, por desígnios do destino, acabou se casando com uma bela e boa moça de sua aldeia, Mizgin

Esse destino pareceu cruelíssimo à bela jovem, que poderia ter uma vida mais plena com uma pessoa saudável. E isso é o que o espectador sente nas cenas iniciais. O choque é forte e o sentimento de injustiça é grande. 

Aziz vivia numa pequena aldeia da Turquia da década de 50. Ele teve contato com um professor - homem muito bom - que fundou uma escola nessa vila. Esse professor, desde o início, este ao seu lado, ajudando o rapaz deficiente a levar sua vida limitada - mas nunca limitante. 

Quando o casal se muda para uma vila maior, começamos a ver a vida do casal inserido numa comunidade (como todas) que não compreende o significado dos acontecimentos e a situação dos outros. Há preconceito, crianças que caçoam da lentidão de Aziz, colegas de Mizgin desincentivam a situação da moça - segundo eles uma coitada. Para muitos, o jovem com paralisia muscular que andava torta e lentamente, que não podia movimentar seus membros superiores quase nada, que não conseguia esboçar um sentimento ou pensamento plenamente através da fala, que não expressava facialmente em sua plenitude o sentimento profundo que ele tinha por certas pessoas...essas pessoas não viam o ser que residia dentro do corpo, dentro da forma. Mas Mizgn, com o passar dos anos, foi percebendo com clareza crescente qual era sua função naquele contexto (aparentemente) infeliz.

Fig.2: Aziz e Mizgin no cinema. Vontade de estar ao lado daquele que dá sentido à sua vida...

Naquela nova moradia o nosso protagonista encontra bons amigos. Um grupo de pessoas sem preconceitos que se dedica a ajudá-lo. Tudo isso movido pela bondade daquele professor, que devido ao seu magnetismo interior, consegue, sem esforço algum, passar as vibrações de seu íntimo, tornando seus amigos amigos de Aziz. Pessoas dispostas a se dedicar em ajudá-lo a vencer essa doença aparentemente incurável.

Observamos uma trajetória de dez anos, indo do início da década de 60 até 1972. Partimos de um casal muito unido que, apesar disso, sofre preconceitos do mundo. Um casal com destino definitivamente selado. Destino sem perspectivas. Sem mudanças substanciais. E terminamos com duas revelações: milagres existem (1) e devemos cumprir todos os requisitos para eles se materializarem (2).

O amor de Mizgin evolui exponencialmente - graças à junção de sua vida jungida com a vida de Aziz. E isso, juntamente com outros fatores, repercute em efeitos. 

Uma dedicação que se inicia na forma de piedade, transforma-se numa dedicação por perceber uma missão em sua vida e finaliza por se tornar um verdadeiro amor. Um amor que se expressa na gratidão de sempre ter estado ao lado de Aziz. Um amor que evolui progressivamente, ao lado da dedicação férrea e da bondade inesgotável de um homem que jamais deixou de ser bom - apesar de tudo. 

Existe um fenômeno de realimentação no plano moral que possui em seu íntimo uma dinâmica muito peculiar. Uma orquestração muito bem feita, orgânica e composta por uma miríade de pequenos gestos, acontecimentos, reações e reflexões; composta por expressões sinceras e perseverança inabalável. 

Fig.3: O nascimento do filho de Aziz traz mudanças profundas em sua vida. Ele (filho)
pode ser visto como o produto materializado do ato de amor que flui de alma para alma...

As etapas de progressão do sentimento perante aquele incapaz se manifestam em fases: protege-se o deficiente por obrigação; depois, por senso moral (mesmo sem a vontade); mais acima, protege-se por senso de missão; e indo além, não mais se protege o deficiente, mas ajuda-se o ser preso num corpo desbaratado a cumprir seu destino. Passamos a jungir nosso sentido de vida com o sentido de vida daquele que sempre apoiamos. Inicialmente sem saber exatamente o porquê - e finalmente compreendendo tudo. 

Os milagres existem. Mas é preciso cumprir todos os requisitos para sua efetivação. Ou, em outras palavras, é imperativo acionar as alavancas do Alto para que as comportas do Céu atuem no plano material.

Fig.4: O professor e sua família, no cinema. Após cumprir sua nobre missão, uma nova jornada...

No filme "Milagres do Amor" observamos a evolução da sociedade de um vilarejo turco. A comunidade, seus hábitos, seus costumes, suas ocupações. Pessoas simples, como nós. O cinema tem papel de destaque, pois um dos homens, amigo do professor e de Aziz, é dono de um estabelecimento e através de seu cinema muitas experiências ocorrem. 

Há várias referências a filmes clássicos que marcaram a época. E ao formidável e astro Kirk Douglas, na época em seu auge (o grande Spartacus para as pessoas da vila). E Aziz, ao entrar em contato com essa arte, se encanta e passa a aprender com o dono, seu amigo, a técnica e a arte de exibir películas para as pessoas. Lembra-nos um pouco o belíssimo Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore. De fato, em ambos os filmes, chorei de emoção.

E assim, através de belíssimas produções, observo de modo cada vez mais profundo como a Lei de Deus opera - e como grandes almas contribuem para expressar seu funcionamento, através de histórias tão reais quanto belas. 

Para quem deseja conhecer a origem dos milagres, é preciso assistir a esse filme. 

Para saber mais: http://www.mundoespirita.com.br/?materia=mucize-milagre

sábado, 2 de outubro de 2021

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Do pensamento sistêmico à síntese unitária (parte 1)

O pensamento sistêmico é algo inteiramente novo em nossa civilização. Novo em termos de compreensão. Novíssimo em termos de vivência. Mas uma característica instintiva antiga, muito antiga. Algo que desde os primórdios de nossa espécie já era executado de modo inconsciente - e que hoje está sendo sistematizado, organizado e estruturado de tal forma a abordar os problemas que despontam de forma eficaz e eficiente. Trata-se de uma das principais características do Homo Sapiens. Uma qualidade que nos permitiu chegar ao domínio do planeta e, pela primeira vez, traçar nosso próprio destino de destruição ou ascensão.

Fig. 1: Razão e Sentimento; Lógica precisa e Inspiração criativa; Ciência e Arte; Análise e SínteseComo tudo no Universo, o cérebro também apresenta dualidade. Mas os opostos devem colaborar entre si para se auto-reforçarem. Assim o cientista se torna inspirado e expressivo - e o artista se torna científico e lógico.  Figura: https://idosos.com.br/remedios-para-tratar-a-depressao/

Há seres que são usinas de ideias, potência de expressão, caldeirão de criatividade e elevação de sentimento. São os gênios de todos os campos e tipos: artistas, cientistas, inventores, chefes, líderes, místicos, pensadores, heróis. Esses expoentes construíram o seu próprio destino, com exercícios de maturação e experimentação ousada que perpassam os milênios. 

Uma existência não basta. Uma experiência pessoal não é suficiente. Um ponto de vista, insuficiente. É preciso ir além. E para rasgar o véu que estabelece os limites da coragem e da criatividade, imperativo é fazer o melhor uso daquilo que foi dado à nossa espécie - e daquilo que foi árduamente conquistado pelo esforço individual. 

Desde a nossa origem (aprox. 150 mil anos a.C.) até o início da Revolução Agrícola (10.000 a.C.), passamos de um pequeno aglomerados de criaturas fracas e indefesas, sem nenhuma característica que nos permitisse nos afirmar no mundo, na África Central, até uma comunidade espalhada pelos quatro cantos do planeta, dominando as intempéries e as espécies - e destruindo toda forma de vida que ameaçasse diretamente nossa existência. Tamanha eficiência em propagar nossa espécie se deve a algo mais do que o domínio do fogo, de um caminhar erecto ou de processos digestivos mais aptos a fornecerem mais energia ao sistema nervoso - que pôde se desenvolver mais.

Segundo o historiador israelense Yuval N. Harari [1], há 70 mil anos começamos a fazer coisas que nos destacaram muito de nossos semelhantes (do gênero Homo, os Neanderthais e Erectus): inventamos coisas inimagináveis até então que permitiram o início do domínio do planeta. Esse domínio via difusão geográfica seria o primeiro passo para o domínio total (e perigoso) que exercemos nos tempos atuais.

Fig. 2: A expansão do Homo Sapiens pelo globo foi rápida e definitiva. 
O que causou essa proliferação? O que consolidou nossa espécie?
Fonte: [1]

Diz Harari que, entre 70 mil e 30 mil anos atrás, testemunhamos a invenção de lâmpadas a óleo, barcos, flechas, agulhas e diversos aparatos. Os primeiro objetos dignos de serem rotulados de arte surgem nesse período; a estratificação social surge (divisão de classes); o comércio desponta (economia rudimentar); o senso de continuidade da existência após a morte, de um criador, de um poder central, se traduz nos túmulos, nos rituais fúnebres e nas religiões. Estavam sendo fincadas as bases para o surgimento de civilizações. 

A maioria dos pesquisadores explica esses avanços devido ao aumento das habilidades cognitivas. Um aumento que teria sido uma verdadeira revolução: a Revolução Cognitiva, nas palavras de Harari. 

Não se sabe ao certo o que causou essa revolução. Os fatores determinantes continuam um mistério. A antropologia e biologia apontam para um acaso. No entanto, num universo regido por um princípio único que se manifesta através de várias leis, sabemos que o acaso é apenas uma interpretação que damos devido à nossa incapacidade de abarcar um fenômeno em todos seus momentos - da gênese até o desfecho. Logo, existe uma causa. E essa causa reside nos princípios do psiquismo, que rege a evolução das formas.

Em A Grande Síntese é construída a linha de continuidade que estabelece uma íntima relação causal entre psiquismo, função é órgão:

"Também no campo psíquico, a função cria o órgão, que, neste caso, é constituído pelos hábitos e qualidades. Com o constante exercício, surge imperceptivelmente a nova característica, que afinal se estabiliza com nitidez." 

AGS, Cap. LXI 

Então podemos casar o trabalho do historiador israelense (efeitos) com a revelação de Sua Voz, captada por Ubaldi (causa), consolidando o princípio de uma verdadeira Teoria Unificada e Aplicada

"Assim vão sendo gradualmente fixadas as conquistas realizadas pela evolução, que, desenvolvendo seus princípios, distinguindo-os e multiplicando os por diferenciação, opera no mundo dos efeitos uma verdadeira criação. Mas é sempre o absoluto que se manifesta no relativo; a causa única que se multiplica em seus efeitos. Nascerão então órgãos e instintos, novas funções e novas capacidades." 

AGS, Cap. LXI  (grifos meus)

Todo esse princípio que cria funções novas, que se plasmam em órgãos capazes de executá-las, tem uma finalidade. Qual seria ela?

Sabe-se que o homem é um animal social. Essa característica reside em seu âmago, de modo que só podemos buscar explicação para esse fato mergulhando em sua essência. Oras, se naturalmente nos socializamos (de um modo ou de outro, mesmo vivendo isoladamente), isso significa que existe uma necessidade...um ganho com essa associação, em que múltiplos elementos diferenciados criam algo diferente, que traz vantagens gerais para o grupo - e vantagens particulares para cada pessoa. 

Exemplo: pagar impostos. 

Custo: pagar uma quantia de seus rendimentos a uma entidade (Estado) .

Benefícios: financiar serviços de interesse universal (mesmo que alguns não reconheçam); garantir a todos acesso a eles, e com um mínimo de qualidade, de tal modo que a pessoa possa dedicar mais tempo, energia e criatividade em questões mais específicas, potenciando sua qualidade de vida e produtividade no trabalho.

A questão que cada um pode fazer a si mesmo é: Uma sociedade que se pretende desenvolvida pode funcionar sem um sistema de coleta e distribuição ordenada de recursos? Procure exemplos disso na História e ficará claro que se trata de um progresso.

A questão das quantias coletadas de cada segmento, do tipo de distribuição, dos setores a serem priorizados, das variações momentâneas (ex.:época de emergências), é um tópico importante, mas secundário. O ponto aqui é a importância capital da tributação. 

Então nossa sociabilidade permite chegar à criação de um sistema tributário, por exemplo. Que potencia as capacidades do corpo coletivo, primeiramente; e aumenta a qualidade de vida das famílias, posteriormente. A primeira finalidade desse sistema foi financiar guerras; depois, se tornou em possuir domínio econômico e tecnológico; e logo adiante, também controlar setores e a informação. Em meio a esse progredir de astúcia, nasce o senso moral, inicialmente de superfície, de justiça social. A vida do povo começa a ser digna de ser vivida. O século XX, em meio a tantas catástrofes, trouxe em seu seio o os princípios de uma nova civilização. Em pouco tempo a criação dos gênios começa a ser canalizada de forma a trazer mais benefícios coletivos. E assim a humanidade caminha, tornando os caminhos menos árduos, sem sabê-lo.

Voltemos a Harari.

A cooperação é essencial para o crescimento do grupo (quantidade dos membros e qualidade das relações). Mas além disso (e mais importante, segundo Harari), o que nos distingue de todas outras espécies é criarmos histórias de coisas que não existem:

"Muito provavelmente, tanto a teoria da fofoca quanto a teoria do leão perto do rio são válidas. Mas a característica verdadeiramente única da nossa linguagem não é sua capacidade de transmitir informações sobre homens e leões. É a capacidade de transmitir informações sobre coisas que não existem. Até onde sabemos, só os sapiens podem falar sobre tipos e mais tipos de entidades que nunca viram, tocaram ou cheiraram." 

Sapiens: uma breve história da humanidade. Parte 1, Cap. 2. (grifos meus)

 Aqui uma ressalva:

"...que nunca viram, tocaram ou cheiraram" no relativo. No Anti-Sistema. Mas que, do ponto de vista do Absoluto (Sistema), já 'viram', 'tocaram' e 'cheiraram'. E é justamente por essa memória longínqua de um universo ideal, em que todos possuíam uma perfeição (uma perfeição perdida), que nós podemos falar sobre coisas 'inexistentes'.

Nada que não esteja no ser em estado latente (potencial) pode ser realizado (transformado e formado). (ver primeira referência com grifos).

É o ideal que nos move. Sempre foi e sempre será assim. E o ideal é ficção até o momento de realização completa. Por isso é preciso insistir. Mas ideal não é uma fantasia. É uma realidade que está soterrada no âmago do espírito. A fantasia, por outro lado, é um interesse egoísta calcado em sensações transitórias que tende a causar males (câncer, desentendimentos, guerras, crimes, fome, etc.). 

A construção da intersubjetividade é um passo na conquista da dimensão consciência. Todo esse processo de conquista é um lento desenrolar. É uma trajetória de potência crescente, de massas, que arrasta povos e funde-os - inicialmente via guerras e abusos, posteriormente via astúcias econômicas e propagandísticas, até um intercâmbio de conhecimento, com troca de experiências e interação de afetos. É com o homem que desponta a razão que permite interpretar a realidade de um modo completamente diferente, que vai além do mundo sensório, criando ideias no plano extra-físico. E com isso surge a necessidade do uso de símbolos que apontem para essas ideias. É preciso comunicá-las, reordená-las, associá-las, numa linguagem apropriada ao conceito que se capturou, para que haja um dinamismo intenso na interação. Esse oscilar causado por intercâmbios constrói a grande escada ascensional, que nas fases primitivas se dá através de sangue e suor, mas que no futuro se dará através de uma alegre colaboração.

O pensamento sistêmico é, portanto, algo muito antigo. Mas a compreensão dele - sua sistematização e classificação dos diversos aspectos, sua aplicação nos diversos ramos do saber - é algo muito recente: é no século XX que Ludwig von Bertalanffy criou a Teoria Geral de Sistemas. Esse indivíduo começou a perceber a importância de estruturarmos nosso mundo do trabalho e estudos e pesquisa de um modo completamente novo, pautado por uma visão sistêmica das coisas:

"Bertalanffy fez os seus estudos em biologia e interessou-se desde cedo pelos organismos e pelos problemas do crescimento.

Os seus trabalhos iniciais datam dos anos 20 e são sobre a abordagem orgânica. Com efeito, Bertalanffy não concordava com a visão cartesiana do universo. Colocou então uma abordagem orgânica da biologia e tentou fazer aceitar a ideia de que o organismo é um todo maior que a soma das suas partes.

Criticou a visão de que o mundo é dividido em diferentes áreas, como física, química, biologia, psicologia, etc. Ao contrário, sugeria que se deve estudar sistemas globalmente, de forma a envolver todas as suas interdependências, pois cada um dos elementos, ao serem reunidos para constituir uma unidade funcional maior, desenvolvem qualidades que não se encontram em seus componentes isolados."

Fonte: [3] (grifos meus)

A partir desse impulso foram surgindo vários ramos da ciência de sistemas. Esses ramos aplicam, cada um a seu modo, com sua linguagem, metodologia e objetivo, os princípios sistêmicos em seu campo de pesquisa. 

Cada área do conhecimento já possuía em si as evidências que apontavam para os princípios contidos na Teoria Geral de Sistemas. As ferramentas eram adaptáveis a esse contexto maior; os métodos, em sua maioria, poderiam ser aproveitados; o conhecimento de cada especialista, ganhar novo significado. Bastava uma orientação geral, mais vasta, capaz de compreender o fenômeno em seu âmago e a partir de causas profundas extrair uma linha de continuidade até os efeitos. Isso dá ao grupo uma visão mais profunda do que significa o fenômeno que é objeto de pesquisa. Os experimentos passam a ser organizados mais coerentemente. E desperdícios (antes vistos como atos importantíssimos) passam a ser reduzidos - se não eliminados. 

Existe uma classificação dos sistemas que irei abordar, apenas a título de revelar o quão abrangente é o campo:

  • Biológico
  • Anatômico
  • Ecológico
  • Sistemas vivos
  • Sistemas conceptuais
  • Acoplamento humano-ambiente
  • Econômico
  • Energético
  • Informacional
  • Legal
  • Multi-agente
  • Não-linear
  • Operacional
  • Planetário
  • Político
  • Social
  • Etc.

Cada campo possui uma abordagem. Mas todos se norteiam por um princípio. Esse princípio é universal. Ele é portanto de interesse de todos, a todo momento.

O vídeo abaixo, do canal Kurzgesagt – In a Nutshell dá uma ideia central em ciência de sistemas, que é justamente o conceito de emergência - que no título foi muito bem exemplificado como o modo como coisas estúpidas acabam por se tornarem inteligentes se jungidas de uma maneira específica. Trata-se de relação entre as partes.


Compreendido esse tipo de ciência nova podemos facilmente chegar à visão unitária do ser humano e do Universo. 

Basta desenvolver o conceito até suas últimas consequências.

Referências

[1] HARARI, Yuval Noah. Sapiens: uma breve história da humanidade. L&PM Pocket. 2018. 

[2] UBALDI, Pietro. A Grande Síntese. 1937.

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Ludwig_von_Bertalanffy

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Dos Mitos da Criação à Visão Unitária do Universo [PALESTRA]

Palestra realizada em 16.09.2021 de forma remota.

Objetivo: apresentar de forma audiovisual a odisséia humana em busca da unificação dos conceitos, das teorias, dos povos, baseado em referências renomadas, tendo por norte o monismo de Pietro Ubaldi.

Essa palestra é apenas o início de um projeto de grande envergadura que tenho em mente. À medida que esse ousado plano for tomando forma, 



sábado, 11 de setembro de 2021

Economia do colapso

Nosso sistema econômico fracassou. Basta ter olhos para ver: os resultados são evidentes. 

Fig.1: Forças imponderáveis dirigem a História. Na superfície julgamos ter o controle das coisas. 
Mas quem crê nisso se ilude. No final das contas, apenas quem percebe a Lei é capaz de conduzir sua vida da melhor maneira. Esse ser obedece ao único Patrão de verdade: Deus.

Nossa civilização é incapaz de lidar com um vírus. Por quê? Simplesmente pelo fato de não termos desenvolvido as estruturas adequadas para enfrentar as ameaças - criadas pelo nosso próprio modo de existir como espécie. 

Que estruturas (ou lógicas sistêmicas) seriam essas?

Tudo aquilo que garante a todo ser humano um fluxo contínuo de bens e serviços essenciais à vida e ao desenvolvimento psíquico:

  • Saúde universal de qualidade;
  • Creches e cuidado infantil;
  • Aposentadoria;
  • Pensão;
  • Renda universal;
  • Mobilidade urbana multimodal;
  • Matriz energética predominantemente renovável;
  • Saneamento básico;
  • Agricultura orgânica;
  • Moradias decentes para todos;
  • Centros de pesquisa;
  • Segurança alimentar;
  • Acesso à cultura;
  • Democratização dos meios de comunicação;
  • Etc.
Eu poderia continuar. Mas já é possível ver o quadro. Nós não temos uma nação no planeta que seja capaz de atender a todas essas necessidades sem de alguma maneira (direta / indireta) levar vantagem sobre algum ponto do planeta, sugando seus recursos - sejam eles materiais, energéticos, biológicos, financeiros, humanos ou culturais.

Claro: alguns países se saíram mais ou menos bem nessa busca por um modelo mais humano, mais decente. A Noruega, por exemplo. Ou a Dinamarca. Ou a Islândia. Ou algum país nessa linha. Mas se trata de um modelo particular, incompleto, que apesar de tudo depende do mundo e sofre os efeitos da economia global - mesmo que isso reflita de modo mais amortecido e lento. 

É incompleto porque não fornece os serviços essenciais públicos em toda sua plenitude, por melhor que sejam. Basta viver um certo tempo num dos países citados como menos ruins e perceber-se-á (tendo um certo grau de consciência de profundidade) que não foi atingido o ponto máximo de organização humana. Digo mais: a questão da interconexão geopolítica, climática e ecológica se faz tão evidente nos dias atuais que o fracasso da média planetária significa uma queda no abismo de todos os povos e suas economias - alguns antes, outros depois; uns de forma mais dolorosa, outros menos...mas a queda é geral e dura.

Nos acostumamos com a ideia de que qualquer um (especialmente aquele que não faz parte de nosso grupo, ideologia, raça, nação e coisas do tipo), para sobreviver, isto é, ter acesso às necessidades básicas da vida, deve doar todo seu tempo, energia e criatividade para satisfazer o interesse de quem domina. Domínio ontem exercido pela força, e hoje pela astúcia. E a narrativa para justificar toda essa extração desmedida é simples: deve-se merecer para obter.

Está tudo muito bem costurado. Qualquer um numa posição de domínio, por menor que seja, tende a apelar para as grandes afirmações das Escrituras Sagradas, chispas, de luz de Iluminados encravadas no papel. Verdades profundas inabaláveis que se propagam pela esteira do tempo, como uma onda empolgante, que inspira e arrasta. O problema é que as afirmações contém apenas a Grande Verdade - mas não os caminhos que relacionem o Absoluto com o mais concreto relativo. E nesse caminho relacional (Absoluto-relativo), a criatura escolhe aquele de maior interesse para ele. 

É preciso ter em mente que sempre foram feitas muitas coisas maléficas a partir da bandeira de verdades universais e admiradas. E muitos males se sustentam por anos, décadas e séculos (até milênios) porque o ser humano não é capaz de compreender à fundo a fenomenologia universal. Assim o mal se perpetua e ninguém consegue explicar os porquês. Não sabendo os porquês, os métodos de solução se perdem no labirinto do intelecto e do individualismo, e por conseguinte não resolvem. 

Fig.2: Adquirir um pensamento sistêmico seria o primeiro passo para as pessoas a se integrarem. 
Mas isso por si só não basta: é preciso sentir o aspecto sistêmico do universo.
 E finalmente, o aspecto unitário (monismo), que se traduz em perceber o telefinalismo do ser.
Fonte: [2]

Umair Haque é um escritor e economista que me interessa muito. Ele enxerga muito bem a falência de nossa forma mental no campo coletivo. Um de seus últimos artigos trata justamente da questão do colapso [1]. Em suma, a própria Ciência Econômica explica porque nossa civilização irá entrar em colapso - se não agirmos pra valer nessa década. 

Vou trazer aqui alguns conceitos elementares de economia para dar uma ideia da insanidade da mentalidade do tipo-médio.

Segundo Umair, existem três pontos vitais na condução de uma economia:

1º) A relação Consumo-Investimento;

2º) O tipo de investimento: se para utilidades ou inutilidades;

3º) O tipo de distribuição: se equitativa ou desigual.

Uma civilização que consuma mais do que investe não terá futuro. Além disso, à medida que ela se aproxima de seu término o convívio entre seus elementos ficará cada vez mais tenso, doloroso e mortal. É possível perceber isso hoje em dia com a ascensão do fascismo em vários pontos do globo; com a desintegração das famílias; com as altas taxas de suicídio; com o elogio à imbecilidade; com a superficialidade nas relações; com a incapacidade de síntese. 

A economia global é 75% consumo e 25% investimento. Isto é, consumimos três vezes mais do que investimos. Para ser sustentável, essa relação deveria ser 1:1. E a nação com a maior economia do globo, mais influente (devido ao baixo grau de consciência coletivo), puxa a média para baixo: os EUA são 80% consumo, 20% investimento. E com isso fica coroado a falência do modelo econômico hodierno. 

Consumir é importante e necessário, sim. No entanto, ele deve estar pareado com a capacidade de investir. E investir significa tudo que dará frutos no futuro, seja ele próximo ou distante. É a possibilidade de continuar o desenvolvimento humano. De abrir brechas para tentarmos coisas novas, que nos elevem para um patamar de vida mais digno, com maiores realizações em todos campos: arte, ciência, religião, filosofia, administração, afeto,...Ou seja, investir e consumir são dois lados de uma mesma moeda - que aponta para evolução. Elas precisam estar em equilíbrio.

Podemos até ter um nível de investimento maior do que o de consumo (ex.: China, com proporção 70:30). Mas isso pode ser prejudicial para a sociedade, que poderia ter melhores condições básicas de vida. A Europa, no geral, tem um equilíbrio (50:50), e isso se reflete no grau de qualidade de vida que as famílias possuem. Pergunte a qualquer pessoa sã onde ela prefere viver, trabalhar e criar uma família: nos EUA, na Europa ou na China? (estou falando em motivos concretos, de estruturas sistêmicas, e não em termos de afinidades amorosas ou culturais)

Fig.3: Três aspectos para avaliar a sustentabilidade e eficiência de uma economia. Em balões rosa as percentagens
ideais das quantias a serem direcionadas.
Fonte: Produção do autor. Baseado em: [1]

No entanto, essa não é a solução completa (proporção C-I saudável). É preciso que o investimento seja em coisas úteis, isto é, que gerem riqueza.

Riqueza é tudo aquilo que é útil no presente - ou poderá sê-lo no futuro. Frutas, grãos, escolas, laboratórios, hospitais, teorias, livros, filmes (bons!), músicas (decentes!), artigos, projetos, máquinas (construtivas!), etc. 

Aplicativos que alienam e segregam não são úteis; tampouco livros permeados de ódio e mal escritos, músicas que afloram os instintos, mísseis, tanques, armas; ideias emborcadas; e tudo nessa linha. 

Falo de utilidade em seu sentido mais amplo, universal, extrapolando os limites do utilitarismo econômico. Afirmo um utilitarismo vital, que perpassa o nível do concreto, adentrando no campo do intelecto, do sentimento e - mais alto - do espírito, situado no abstrato. 

Nesse quesito até a rica e idosa Europa decai. Quantas pessoas não são reféns de acessórios que mais travam a inspiração do que a liberam? Quantos não podem ir além por estarem ofuscados por obrigações e métodos que aprenderam a buscar e segurar? Nesse campo o mundo todo cai ainda mais um pouco...se aproximando do fundo do poço...

Mas ainda não acabaram as análises econômicas: resta a questão da distribuição. Nesse quesito algumas nações se recuperam um pouco. Mas como já foi dito, o que interessa - para a sobrevivência de todos como civilização minimamente decente - é a média global. E com isso antevê-se a ruína. 

O nível de desigualdade no mundo cresce. O acesso aos meios básicos de vida exigem peripécias infindáveis e inumeráveis de todos. Uma humilhação perpétua para poder comer, beber, deitar...Sempre sob a alegação de que devemos dar duro antes de merecermos algo. E os fatos saltam aos olhos: há algo de errado, apesar das grandes narrativas da mídia. Há algo que a humanidade (ainda) não foi capaz de captar. Algo de essencial...para sua sobrevivência como civilização...

E ainda eu colocaria um quarto fator: o arranjo sistêmico.

Podemos fazer mais para todos (em termos de qualidade e quantidade) simplesmente com uma organização sistêmica que gere sinergia. É uma questão de relação mais do que de técnica. De como usar o que se tem - e não criar novos elementos para solucionar desarranjos funcionais. 

Eu falo sobre essa questão em meus cursos. Naqueles mais técnicos, de modo mais indireto. Nos mais sistêmicos e filosóficos, de modo mais direto. Tudo adaptado ao contexto, claro. Mas a transmissão ocorre a todo momento, em todo lugar, de forma cada vez mais majestosa, segura e criativa. 

O arranjo sistêmico trata justamente de procurar meios de nos organizarmos de modo mais inteligente com o que já temos - em termos de conhecimento, tecnologia, habilidades e cultura. Mas para isso ocorrer é necessário estarmos de acordo em pontos fundamentais. 

Que pontos seriam esses?

Precisamos partir das mesmas premissas (princípios norteadores) e desejar os mesmos fins (meta suprema). Devemos ser sinceros quando afirmamos algo. Não podemos mais falar em ecologia e igualdade e progresso e etc. da boca para fora e na prática nos colocarmos à serviço de uma lógica que vai contra tudo isso (mesmo que disfarçadamente, de forma muito elegante). É preciso começar a pensar, a refletir; a não ter medo de sentir e conviver com a dor.

Não há uma fórmula mágica. Nem uma receita complexa, acessível a poucos. É só uma questão de maturação interior.

Percebendo isso começamos a caminhar de verdade.

É isso.

Referências:

[1] https://eand.co/why-economics-says-our-civilization-is-going-to-collapse-b3bc6fc8973e

[2] https://gestaosistemica.files.wordpress.com/2011/02/roda-do-pensamento-sistemico1.jpg