terça-feira, 21 de janeiro de 2014

SERÁ QUE NÃO PRECISAMOS DE UM “NEW DEAL” PERMANENTE?

A sociedade ocidental gerou e superou grandes desastres nas primeiras décadas do século XX. As duas guerras mundiais demonstraram os pormenores da capacidade intelectual-destrutiva do ser humano. Após 1945, e pela primeira vez na história, estamos aptos a nos autodestruirmos. Parabéns para a intelectualidade, pêsames para a moral.

Felizmente um conflito de tamanha magnitude fez florescer – mesmo contra a vontade dos governos e empresas – uma necessidade de sobrevivência que culminou com o estabelecimento do Estado de Bem-Estar Social, tão difundido e teorizado por J.M. Keynes anos antes de sua implementação. Um estado que já havia sido colocado em prática após uma outra crise. Uma crise financeira: a queda da Bolsa de 1929.

Com o “New Deal” [1], F.D. Roosevelt [2] se torna o primeiro chefe de estado da História a implementar uma série de mecanismos típicos de um Estado socialista sem recorrer a métodos ditatoriais. Na verdade, pode-se dizer que ele foi o primeiro a implementar políticas socialistas no verdadeiro sentido da palavra – já que a democracia é pré-requisito para se ter um sistema cujo eixo é o SOCIAL (convivência, educação, oportunidades e condições iguais, respeito às diferenças e capacidades, saúde, transporte, cultura, etc). Mas isso é outra história.


Um gesto fraterno para salvar ambos (e todos)
da ruína.
Infelizmente, o “New Deal” só se concretizou por motivos emergenciais. Os EUA – e toda economia do globo, que estava vinculada à nova superpotência – mergulharam numa depressão econômica que ocasionou no caos social de seu próprio povo. Desemprego, desespero e fome são palavras que definem bem o período. ¼ da população perde sua ocupação em poucos dias. Famílias são corroídas. Ninguém ganha, ninguém compra. Ninguém tem nada, ninguém tem medo de perder nada. Ninguém tem medo de perder nada, todos são potencial foco de revolta. Eis o produto de um sistema centrado no negócio, cuja finalidade única é o lucro crescente, custe o que custar.

Os itens do projeto de Roosevelt são quatro e continuam atuais para os dias de hoje e para qualquer sociedade:

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1. Investimento maciço em obras públicas: o governo investiu US$ 4 bilhões (valores não corrigidos pela inflação) na construção de usinas hidrelétricas, barragens, pontes, hospitais, escolas, aeroportos etc. Tais obras geraram milhões de novos empregos;
2. A destruição dos estoques de gêneros agrícolas, como algodão, trigo e milho, a fim de conter a queda de seus preços;
3. O controle sobre os preços e a produção, para evitar a superprodução na agricultura e na indústria;
4. A diminuição da jornada de trabalho, com o objetivo de abrir novos postos. Além disso, fixou-se o salário mínimo, criaram-se o seguro-desemprego e o seguro-velhice (para os maiores de 65 anos).
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Os quatro pilares acima, postos em prática, comprovaram a eficácia de um Estado focado em políticas sociais e (por que não) fraternas.

São políticas que cairiam muito bem num país chamado Brasil (mas não apenas ele). Hoje, ontem e amanhã. Independente do governo.

Embora não fosse a intenção, as reformas adotadas por Roosevelt lançaram as bases do estado keynesiano (do Bem-Estar) e do poder sindical – sem o qual os trabalhadores podem se defender de igual pra igual da exploração. Trata-se de uma atitude que permitiu o desenvolvimento de mecanismos de proteção para as pessoas em situação de vulnerabilidade econômica, evitando que milhões de pessoas caíssem nas garras de instituições e pessoas – ansiosas para se aproveitarem dessa situação de fragilidade, da qual o ser humano frequentemente se dispõe a fazer de tudo para sobreviver.


John Maynard Keynes: o teorizador e
defensor.
A 2a Guerra Muundial surge (paradoxalmente) como um novo catalisador dessa nova postura político-econômica, que iria reforçar a manutenção do Estado de Bem-Estar social na Europa Ocidental e EUA até os anos 1970, quando a Crise do Petróleo foi utilizada (a meu ver) como justificativa para mudanças. Eis a pré-história do Neoliberalismo.


Jimmy Carter proferiu um discurso memorável em 1979 [3] a respeito dos novos tempos que estavam por irromper. Tempos com problemas relacionados à questão energética. Tempos sombrios se o povo de seu país (e do planeta) não se conscientizasse e mobilizasse rapidamente – o que não ocorreu...

O discurso, a grande questão, pode ser resumida como SUSTENTABILIDADE energética.
O EUA estava prestes a entrar na era Reagan, caracterizada por um desmonte do Estado e participação cada vez maior de grandes conglomerados, cuja finalidade era “servir a sociedade”. E para isso, esses conglomerados precisavam de mais “mobilidade”. Era necessário que o Estado servisse esses conglomerados para que estes pudessem servir à sociedade. Um agente intermediário entre Estado e Povo. Para “facilitar” tudo... Dessa forma, os problemas decorrentes da dependência de fontes energéticas não-renováveis* se tornam uma forte justificativa para o desmonte do Estado do Bem-Estar Social. Lentamente. Vagarosamente. Maquiadamente...(e Maquiavelicmanete).

A meu ver é um erro atribuir as falhas de um sistema a algo que não está intrinsecamente relacionado ao modo de operação do mesmo.

Pode-se ter um sistema sócio-cultural eficaz com uma fonte energética insustentável (esse seria o caso do Ocidente dos anos pós-guerra). Nesse ponto eu me pergunto se o caminho mais sensato não seria ouvir os conselhos de Jimmy Carter e começar a pesquisar novas formas de se obter energia e/ou (mais importante) ter como finalidade da existência bens intangíveis e a espiritualidade. No entanto, uma pessoa de bom senso sabe muito bem que a ganância humana é ilimitada, e que portanto o que precisava ser feito não foi porque um grupo de pessoas travestidas de aparatos mastodônticos criaram um problema cuja causa foi desviada para fins escusos. E a partir daí entramos no reinado de Reagan e Thatcher, cujos efeitos são visíveis até hoje. Em seus países e no mundo.

Pode-se contra-argumentar que o Bem-Estar gera uma ampla rede de assistencialismo que induz as pessoas a um estado de inércia. No entanto, basta observarmos os fatos para comprovar a falta de fundamento de tal argumento:

  • O desenvolvimento social dos países europeus e EUA permitiu um período de paz relativa dentro dos mesmos (apesar de que o terceiro mundo continuava a ser explorado, e as ditaduras pseudo-socialistas do oriente fossem norteadas pela burocracia, brutalidade e matéria);
  • Hoje, mais do que nunca, as crises financeiras continuam ocorrendo. Cada vez mais frequentes. E quem paga a conta é quem não a gerou: os trabalhadores e a sociedade. Enquanto quem as causou é socorrido;
  • Os desemprego é cada vez maior, e ao mesmo tempo não se geram alternativas de ocupação do outro lado. E cada vez menos trabalho (do tipo alienado) é necessário. E mais do tipo criativo. No entanto as vagas não são criadas na mesma proporção;

Existem inúmeras atitudes que, se analisadas em sua essência, clamam por um sistema com democratização dos meios de comunicação, priorização dos bens públicos, respeito a questões privadas (sexo, afetividade, sonhos, manias, etc) e liberdade de escolha profissional. Esta última implica que deve haver VALORIZAÇÃO (salários bons, jornada humana, plano de carreira, perspetivas de crescimento profissional) de áreas relegadas ao esquecimento como o ensino, as ciências sociais, a filosofia, as artes, as ciências naturais e mesmo as ocupações não reconhecidas como oficiais que no entanto geram muita riqueza INTANGÍVEL para o seu entorno.

Como último ponto gostaria de enfatizar o seguinte: resolver o problema individual é a primeira coisa a ser feita (é a famosa Reforma Intima) para melhorar o mundo – é a Psicologia em ação. No entanto, como seres sociais, devemos atuar na sociedade como elementos transformadores da mesma. Sem isso há departamentalização e nenhuma interconexão, e portanto não haverá mudança efetiva. Logo, DEBATES, CONFLITOS (saudáveis e conduzido por pessoas sapientes) e INSATISFAÇÃO (bem orientada) são ingredientes fundamentais para edificar uma nova sociedade que anseia por nascer – é a Sociologia em ação.

Mas muitas mudanças se iniciam e não se concretizam. São apenas ondas (os protestos de junho, por exemplo). Talvez isso reflita na postura que os indivíduos tem com o seu meio: hoje as coisas são mais efêmeras. A sensação do momento está à frente da construção sólida. A energia logo se esvai. É a liberdade sem compromisso. É preciso mudar sim. Mas é preciso ORIENTAR essa mudança.

E na fase atual, não vejo como promover progresso sem um órgão público competente conduzido pela sociedade. Um progresso encabeçado por princípios espirituais mas que atue no plano material.

É difícil. Trata-se de reformular todo o aparato estatal, para que este sirva o povo e não um punhado de grupos. É o que F.D. Roosevelt fez.

Quando teremos um “New Deal”?


Referências
[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/New_Deal
[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/Franklin_Delano_Roosevelt
[3] http://www.youtube.com/watch?v=cwCi-fSdvtU

* A longo prazo, pode-se dizer que o petróleo, assim como todas fontes de energia, são renováveis. Agora, considerando as necessidades da sociedade (de um sistema que a controla), que clama por uma rapidez crescente de recursos e energia, o petróleo não é renovável. 

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