segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Pietro Ubaldi completando Carl Jung

Carl Gustav Jung foi um pioneiro na área de psicologia. Seu trabalho influenciou vários campos, como a antropologia, a filosofia e a teologia. Baseado em seu trabalho no hospital psiquiátrico, ele chegou a cinco conclusões importantes, como destacado pelo artigo da revista Galileu [1]:

1) Nenhum indivíduo é totalmente introvertido ou extrovertido;

2) Todas as pessoas carregam quatro funções cognitivas principais;

3) O ego é o centro do consciente humano;

4) Todo indivíduo assume uma “máscara” sobre o inconsciente coletivo;

5) “Mesmo uma vida feliz não pode existir sem um pouco de escuridão”.

Fig.1: A porta da iluminação se abre de dentro para fora - e não de fora para dentro.
Não há alo-realização, apenas auto-realização. 

Vamos comentar cada uma das conclusões à luz da obra ubaldiana: 

1) Não há absolutos no relativo - apenas o Absoluto coordenando os relativos

Ninguém é 100% um dos pólos. Inteiramente feio ou belo; supremamente inteligente ou não; falante ou quieto; teórico ou prático; etc. Podemos ter uma predominância de um pólo, mas jamais seremos um pólo apenas. Isso é evidente quando observamos a pessoa e compreendemos o aspecto trifásico de nosso Universo (matéria, energia e espírito). Não podemos separar um do outro. Todos estão presentes em tudo a todo momento - em diferentes proporções e modos, claro. 

Quando estamos teorizando já carregamos em si uma prática (o ato de estudar o conceito, compreendê-lo). E toda prática se apoia numa teoria, que pode ser feita de modo pensado e sujeito a correções (consciente) ou automático e certeiro  (subconsciente). O mesmo vale para todas outras habilidades que exercitamos. 

2) Quatro fatores constroem e definem a personalidade integral

A teoria sobre 'tipos' psicológicos de Jung demonstrou que as pessoas pensam, sentem e experimentam o mundo de maneiras muito distintas. E isso é evidente, pois segundo Pietro Ubaldi cada indivíduo foi influenciado pelo seu meio (geográfico, cultural e familiar), possui sua genética particular (de pai e mãe) e seu nível de consciência (espírito).

O famoso psiquiatra identificou quatro funções psicológicas fundamentais: sensação, pensamento, sentimento e intuição. E elas podem operar tanto através de introvertidos quanto extrovertidos (predominantemente, não totalmente, lembremos). E normalmente apenas uma dessas características é mais dominante - as demais funções são mantidas no inconsciente. Para Ubaldi o inconsciente se subdivide em subconsciente (funções já consolidadas, automatizadas nos instintos) e superconsciente (em estado de germe, em vias de desenvolvimento).

O que Jung chama de dominante é aquela que opera no consciente. Aqui podemos descrever em linhas gerais as quatro funções:

sensação indica a existência de algo.

pensamento estabelece o significado desse algo.

sentimento declara se esse algo nos convém, e se devemos aceitá-lo.

intuição é uma percepção inconsciente das coisas, indicando de 'onde' vieram e 'para onde' estão indo.

Novamente, as definições de Jung são muito consistentes, exceto pela 'intuição', que não está definida claramente - sendo necessário nos apoiarmos na visão de Ubaldi. 

Sensação está para os instintos (zona do subconsciente). Pensamento está para a razão (zona consciente). Sentimento está para a moral (zona do consciente). Intuição está para o desconhecido que engloba tudo conhecido e vai além (zona do superconsciente). Na verdade, ser consciente ou não depende do grau evolutivo da criatura: um ser evoluído pode ser consciente na intuição e inconsciente nas zonas inferiores - e um involuído pode ser consciente na zona da razão e inconsciente na zona da moral e além. 

Quando Jung fala que nascemos com uma herança psicológica e outra biológica, ele se refere a um aspecto individual, interior e progressivo (base espiritual, construção da personalidade via experiências); e outro coletivo, exterior e cíclico-oscilante (base material, através da genética de nossos antepassados). E ele diz que ambas são importantes para determinarmos traços de comportamento.

Ubaldi não apenas está em plena sintonia com o pensamento jungiano, como dá uma visão mais vasta sobre o mesmo, enquadrando todos esses conceitos numa fenomenologia universal. 

O inconsciente coletivo - para Jung - seria o centro do material psíquico, cujo conteúdo é compartilhado por pessoas de todas as épocas, locais e culturas. Logo, esse 'reino' seria algo imaterial, que está além do espaço-tempo. Ele vai se moldando e progredindo à medida que as criaturas que o impulsionam adquirem experiência e avançam evolutivamente. Os rishis chamam (esse inconsciente coletivo) de Akasha. A Ciência começa a abordá-lo, dando o nome de Campo Akáshico. Ervin Laszlo vem desenvolvendo um trabalho muito interessante em relação a isso.

Fig.2: Ervin Laszlo começa a preparar o terreno para uma nova ciência. 
Uma ciência do espírito. Ubaldi deu as diretrizes gerais, supremas. 
Mesmo sem conhecê-lo, grandes almas começam a trabalhar em
prol da divulgação dos princípios contidos na Obra...

3) O ego (eu individualista) é a referência do biótipo médio

O consciente humano do nível evolutivo atual está centrado no ego. Isto é, no interesse de nível individual. No melhor dos casos, um interesse familiar ou de classe social. Isso se traduz numa arquitetura sistêmica pautada em lógicas que viabilizem esquemas de interesse restrito - de curto prazo, com efeitos bem tangíveis e que estimulem o ego. Não à toa temos um algoritmo (político, econômico, social) que reflete a forma mental predominante. 

É preciso 'vencer na vida'. E gozar sempre que se está numa posição boa. Usar as condições para se refestelar nos prazeres e garantir o domínio futuro. Jamais promover o esclarecimento das pessoas. A não ser que isso seja apenas uma aparência para enaltecer a imagem própria e enganar aqueles simples (como as pombas). É assim que a sociedade funciona. Cada estrato social, cada cultura, cada época, se pautou por esse princípio. Nos últimos séculos ele se tornou mais sofisticado: adquirimos um verniz de civilidade, de cultura. Uma primeira aproximação do conhecimento - porém, conhecimento fragmentado.

O nível consciente é aquele que está em atividade, em construção. Que calcula, pensa, erra, refaz, melhora, percebe. Para Jung "o ego fornece direção às nossas vidas conscientes". Traduzindo: ele (nossos interesses restritos) serve de bússola para a nossa operação no nível consciente. 

Sob a ótica ubaldiana percebe-se que esse consciente está em movimento. Ele avança ao longo de experiências de várias existências. E o que muito foi trabalhado, é sedimentado no subconsciente. O que é inútil, não penetra no ser - o que é útil à vida, entra na consciência de profundidade e passa a operar de modo perfeito, automático. Assim o consciente perde 'espaço' na retaguarda. E querendo manter sua amplitude de atuação no espectro, só lhe resta avançar rumo ao que está (também) na profundidade do ser, porém no inconcebível. Um inconcebível cuja conquista garante o domínio no plano consciente. Todo esse dinamismo da personalidade humana é detalhado no volume Princípios de uma Nova Ética (figura abaixo).

Fig.3: Por que o ser humano se comporta de maneira aparentemente inexplicáveis?
Como orientar alguém? Qual a base para educarmos nossos filhos? Como descobrir a essência
de alguém (inclinações, traumas, habilidades e sonhos)? Esse volume explica, em linhas gerais,
tudo isso, fazendo a psicossíntese do ser.

4) Todo indivíduo assume uma persona (=máscara) perante o mundo que lhe é estranho

Esse mundo - na verdade todo o Universo, o AS - é um palco em que o ser não pode vivenciar integralmente sua natureza. Logo, não pode igualar sua essência com sua aparência. Aqui a vida é um jogo cujo sucesso depende do grau de sofisticação da mentira. As sinuosidades, as enganações, podem ser baseadas no medo (tamas), na ambição (rajas) ou na doação (sattva). São níveis diferentes com propósitos muito distintos. Mas o princípio é o mesmo: interesse. Não há desprendimento (das gunas), mas apenas evolução do nível de resultados almejado.

Para podermos atuar, devemos incorporar um papel. Mesmo que a gente sinta que é aquilo que vestimos, que pensamos, que gostamos, que fazemos, a verdade é que nosso Ser está muito além disso tudo. 

Com Ubaldi fica claro que essa natureza - que se manifesta de forma cada vez mais clara, potente, coesa e bela - interage com a forma manifesta (nossa persona) para que a forma exprima melhor o estado atual de consciência do ser. Esse processo é gradual. Irá ser função do meio, da tarefa que foi incumbida ao ser (por ele mesmo ou por forças superiores, a depender do nível evolutivo), dos pais e de seu espírito. 

5)  Uma vida plena necessita de trevas para ser verdadeiramente integral

Esse princípio jungiano se encaixa perfeitamente na Grande Equação da Substância. Como a substância se apresenta em três formas (matéria, energia, espírito) em nosso universo; e cada forma subdividia em outros níveis, e daí por diante, formando as individuações; e essas formas são contíguas, ou seja, estão sempre juntas em todo ser e local e momento; então é possível chegar à conclusão de que uma individuação saudável possui todas formas interagindo em equilíbrio. 


Fig.4: Para chegar ao ápice celestial, é preciso pegar impulso no abismo do inferno.

Dominar os meandros do inferno sem esquecer das maravilhas do céu é a arte e a ciência da vida humana. É Logos guiando Lúcifer. Ou seja, a intuição guiando o intelecto. A moral elevada pautando o uso do intelecto - e o intelecto afiado buscando construir um senso moral elevado. 

Além disso, há ainda a questão do dualismo que, para formar uma unidade, deve combinar de forma harmônica os opostos. Ou seja, não é eliminando um dos pólos que se obtém a unidade - mas desenvolvendo os extremos numa dança rítmica que sempre imprime impulsos para a verticalidade mística. Uma dança que oscila no plano físico e mental, mas cujo produto mais fino (quintessência) é a vetorização para o plano espiritual

Isso é monismo.

Referências:

[1] https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2017/02/6-reflexoes-para-entender-o-pensamento-de-carl-jung.html

[2] UBALDI, Pietro. Princípios de uma Nova Ética.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Parábola do Filho Pródigo, Evolucionismo e a Nova Cosmologia

Allan Kardec fez uma compilação brilhante sobre ensinamentos de um conjunto de espíritos de grau de consciência acima da média. Ele foi um codificador. Isto é, tomou conhecimento do fenômeno de manifestação de espíritos desencarnados, através de estudo minucioso e sério, e com esse conhecimento construiu uma obra de seis volumes estabelecendo a base da doutrina espírita. 

O livro-base é sem dúvida O Livro dos Espíritos (LE). Se trata de um volume com 1019 perguntas feitas pelo pedagogo francês, com respostas de um conjunto de espíritos desencarnados - e comentários pertinentes, esclarecendo ou tornando menos ambíguas algumas respostas. Nesse livros há vários ensinamentos importantes a respeito de diversos tópicos, dentre os quais podemos elencar os principais: Deus, criação, elementos do Universo, princípio vital, a natureza dos espíritos, pluralidade das existências e leis morais.

Vale aqui destacar que apesar de se tratar de uma obra fenomenal, com o esclarecimento de vários pontos e solução de diversos paradoxos das religiões criacionistas-monoteístas, em vários pontos são deixadas lacunas. Há várias passagens explicadas parcialmente ou com respostas do tipo "não o sabemos". Isso no entanto não diminuí a grandeza da obra de Kardec, mas aponta para o aspecto evolucionista da doutrina - que todo seguidor fiel deveria abraçar. 

Como o próprio Kardex afirma, deve-se sempre abraçar uma verdade maior, deixando de lado a verdade menos abrangente. Isso caracterizaria o aspecto evolucionista, dando ao espiritismo o status de espiritualismo evolucionista-monoteísta

O fato de eu classificar a doutrina como monoteísta significa que ela não afirma a plenos pulmões o monismo, isto é, um Deus que é o Criador e a Criação. Um Deus além das dimensões, nem grande nem pequeno, nem sujeito ao transformismo deste Universo (apesar de atuar nele incessantemente através de sua imanência benévola). 

Mas como Gilson Freire sabiamente aponta em seu trabalho, o espiritismo contém germes de um monismo. 

Há passagens no LE que revelam a abertura da doutrina para uma realidade mais vasta. Como se todo o trabalho elaborado pela alma iluminada de Kardec fosse uma preparação de terreno para algo profundo...muito profundo...

Fig.1: Ás vezes vivemos no melhor dos mundos e não percebemos isso. Porque nossa perfeição não é
igual à de Deus (caso contrário seriamos iguais a Ele, acabando com Sua Grandeza e Seu Domínio).
Possuímos a mesma natureza (substância divina) de Deus - mas não a mesma potência (conhecimento das coisas).

De 1850 a 1950 a humanidade (e também o planeta) passou por uma transformação profunda. Foram plantadas as bases de uma nova civilização através de progressos no campo da Ciência e da Espiritualidade. Grandes pensadores, cientistas e artistas surgem, inovando em seus campos. Paralelamente, surge muita coisa vazia, sem conteúdo, além de eventos catastróficos. Mas é em meio aos gritos e pontapés de um mundo barulhento e superficial que operam as almas que preparam o terreno para uma nova civilização, criando as bases conceituais, existenciais, organizacionais, científicas e filosóficas para o mundo dar um passo gigante rumo à libertação.

Foram cem anos de revoluções. Surge a Relatividade Geral e a Mecânica Quântica. Com elas forma-se uma teoria cosmogônica inteiramente nova: a do Big-Bang. Tudo isso é comprovado nas décadas seguintes à formulação de George Gamow. Adicionalmente, Watson e Crick descobrem o DNA, o mecanismo operacional da vida. A computação nasce através das contribuições de Turing e Von Neumann. Na psicologia, Freud e (especialmente) Jung lançam bases para a melhor compreensão da personalidade. 

Em meio a tantos progressos e tantas destruições, as doutrinas espiritualistas-evolucionista se enfraquecem. Pois se revelam incapazes de explicar várias novas descobertas satisfatoriamente. Os paradoxos que já eram percebidos pelos esclarecidos se tornam evidentes. Quem sente o infinito começa a ficar sedento por algo capaz de orientar em meio a tantas descobertas e tantos acontecimentos. São poucos...pouquíssimos. Mas necessitam de um alimento mais substancial.

Pietro Ubaldi desenvolveu sua obra na parte central do século XX: de 1931 a 1971. Foram produzidos 24 volumes que resolvem em grande parte os grandes problemas - não apenas da humanidade, mas de toda a fenomenologia universal. Esse marco inicial foi dado no Natal de 1931, quando o apóstolo de Cristo começa a receber as Grandes Mensagens. Mensagens sublimes que falam direto ao coração. E logo em seguida, para arrastar o mundo frio e cético da ciência e da objetividade, lança A Grande Síntese (AGS), volume monumental escrito nos verões de 1932 a 1935 em Colle Umberto, na Tenuta Santo Antônio. Estavam lançadas as bases de uma obra sem igual, que dá as diretrizes gerais para a solução dos problemas da espécie.

Em 1951, com o lançamento de Deus e Universo, fecha-se o ciclo explicado por Sua Voz em 1932 (AGS). Trata-se da Grande Equação da Substância em seu aspecto cíclico. Com isso fica explicado o fenômeno evolutivo (semiciclo gama >> beta >> alfa) e involutivo (alfa >> beta >> gama) de nosso Universo.

Agora podemos compreender melhor o papel de Kardec e Ubaldi na construção de um conhecimento pleno a respeito dos fenômenos. Não apenas seu transformismo profundo, mas sua gênese (fenomenogonia).

Fig.2: O trabalho de Ubaldi complementa o de Kardec. Enquanto este dá o pontapé inicial para a 
compreensão do Todo, o primeiro parte daí e constrói um edifício conceptual capaz de explicar 
os fenômenos mais díspares.

A Parábola do Filho Pródigo fica mais clara quando percebemos os dois semiciclos de nosso Universo. Com Ubaldi o Cristianismo revive num nível mais alto e a Ciência ganha significado divino - que encanta o ser humano comum, leigo. 

Fomos 'criados' simples e ignorantes (átomo) se considerarmos o ponto de partida este universo material. Mas somos 'criados' à imagem e semelhança de Deus (anjos) se considerarmos o Seu Reino (universo imaterial, além do espaço, do tempo e da relatividade). 

No Absoluto (Sistema = Reino de Deus = Céu) nada verdadeiramente nasce - nem morre. Pois tudo que nasce um dia morre. E o espírito é eterno e infinito, além de todas as escalas humanas e deste universo. Apenas no relativo (Anti-Sistema = Universo material = Terra) as coisas nascem e morrem: civilizações, ideias, teorias, criaturas, planetas, estrelas, galáxias, máquinas, relações.

Vamos entrar com um pouco da Nova Cosmologia para sustentar as afirmativas incisivas.

As três primeiras décadas do século passado consolidaram uma nova ciência. Essa ciência ainda está se desdobrando, com avanços apoiados nela. Ela construiu uma nova história do Universo. Um cosmos em transformação perpétua cuja criação coincide com a gênese do espaço e do tempo, da matéria e da energia. E - mais importante - muitos começam a perceber suas implicações filosóficas e teológicas dessa nova teoria.

A Teoria do Big-Bang se firma a partir da década de 1950. A partir dela muitos físicos teóricos tentam buscar a causa que deu início ao processo evolutivo do cosmos. No entanto, quanto mais se aproxima da singularidade (instante t=0), mais impotente se torna a nossa ciência. Um ponto infinitamente pequeno, de densidade infinita, em que a temperatura é inimaginável e nenhuma lei física aparentemente funciona. Ou seja, as próprias evidências atestam que as leis de nosso Universo tem seus limites. A partir de um ponto elas não são válidas. 

Quem 'criou' essas leis? Por quê?

Fig.3: Uma origem (das leis, do movimento e da forma), que inicia um transformismo, 
que aponta para um destino final. A origem é um mistério para a mente racional e seu produto 
mais elevado, a Ciência. O destino é assombroso para o nível de consciência atual, refém do
contexto, da forma e das aparências. Mas para quem vislumbra o infinito nas coisas, tudo está resolvido.

A Ciência não o sabe. Mas é aceito pela comunidade científica que a teoria possui uma solidez muito grande. Quem afirma é um astrofísico da USP, cujo podcast (curto, de 5 min.) pode ser ouvido aqui [1].

"A noção de que o Universo surgiu numa espécie de grande explosão, sendo originalmente muito quente e denso em algum tempo finito no passado e, desde então, tem se resfriado e continua em expansão atualmente é conhecida como big-bang. Mais do que uma simples ideia, a principal explicação para a origem de tudo que conhecemos é uma teoria muito bem fundamentada em evidências científicas e observação. Sabe-se inclusive, com uma margem mínima de erro, que a idade do Universo é de 13,9 bilhões de anos."
Fonte: [1] (grifos meus)

Observação: sendo o erro máximo dos cálculos de aproximadamente 1%, é razoável estarmos abertos a idades do Universo que variem entre 13,7 e 13,9 bilhões de anos.

O que (e quem) garante(m) essa solidez?

Penzias e Wilson. Eles fizeram observações que comprovam a teoria. O que foi feito por esses dois sujeitos foi, a partir das condições iniciais (teorizadas), captar o 'eco' da expansão inicial, conhecido como radiação cósmica de fundo em microondas

Fig.4: Mapa de 2013 da radiação cósmica de fundo deixada no Big Bang, 
tomada pela nave espacial Planck da ESA, capturou a luz mais antiga do universo. 
Esta informação ajuda os astrônomos a determinar a idade do universo [2].
Crédito: ESA e a colaboração da Planck.

No começo havia um caldo especial composto de quarks e elétrons. Posteriormente, nêutrons, prótons e elétrons - que não conseguiam formar átomos devido às condições de ambiente, com temperatura elevadíssima que impedia a formação da matéria. Até o instante t=1s, a nucleossíntese foi efetivada: a junção entre prótons e nêutrons, via força nuclear forte (com alcance de até 10E-13 metros). No entanto, durante muito tempo, a energia dos fótons (devido às altas temperaturas) impedia a união entre os núcleos e os elétrons. 

A expansão do espaço-tempo trouxe uma diminuição de temperatura, e consequentemente de energia associada aos fótons. Estes não foram mais capazes de impedir a junção de núcleo e elétrons (força eletromagnética). E assim nasce a matéria (t ~380 mil anos), sendo sua primeira forma o átomo de Hidrogênio. 

Essa sopa inicial não era visível, pois a luz não podia atuar dentro dela (os fótons estavam ocupados impedindo a relação entre núcleo e elétrons). Mas assim que a união formou os átomos (equilíbrio de cargas), os fótons, sem nada para 'fazer', ficaram livres para se espalhar pelos quatro cantos do universo.

Essa luz inicial (pós-brilho) é denominada de radiação cósmica de fundo em microondas, e foi prevista pela primeira vez por Ralph Alpher e um grupo de cientistas, em 1948. E foi encontrada por Arno Penzias e Robert Wilson, ambos da famosa Bell Telephone Labs, em Nova Jersey. Essa dupla estava construindo um receptor de rádio em 1964 e obtendo temperaturas superiores às esperadas segundo a NASA. Eles pensaram que a anomalia era devido a pombos e seus excrementos. Então fizeram uma limpeza geral em sua antena - inclusive matando pombos, pelo que parece. Mas o problema persistiu. Daí em diante ficou óbvio que se tratava de algo real, concreto. E que esses eram os registos da 'pré-história' do Universo.

A Radiação Cósmica de Fundo dá várias pistas aos astrônomos. Por exemplo, qual a composição do Universo. Os cosmólogos acreditam que a maioria da matéria e energia do cosmos não pode ser percebida através dos nossos instrumentos. Essa parcela despercebida é denominada matéria escura e energia escura (aprox. 95% de tudo que existe).

A expansão do espaço (=do Universo) se deu muito rapidamente no início - e continua até hoje, e continuará até o seu término. E essa expansão inicial se deu a velocidades maiores do que a da luz. Isso não viola o limite de velocidade de Einstein, pois esse limite está restrito a coisas dentro do universo (não ele em si).

O mais interessante é perceber que a gravitação - uma das quatro forças fundamentais - está intimamente relacionada à matéria, uma vez que é a primeira forma dinâmica (tipo de energia = onda) que surge no cosmos. As ondas gravitacionais, por estarem muito próximas da matéria em termos de origem, são muito difíceis de serem detectadas. Ela é o tipo de energia (gravífica) que serve de base para todas as outras - assim como o Hidrogênio o é para toda a série estequiogenética.

"Como o hidrogênio é o tipo do protozoário monocelular da química inorgânica e o carbono o da química orgânica, assim, a gravitação é a protoforça típica do universo dinâmico."
AGS, Cap. 38

E quando estamos lidando com a gravitação, precisamos compreendê-la no seu sentido mais vasto. Newton iniciou esse estudo. Einstein continuou. E Ubaldi, através de Sua Voz (AGS), forneceu seu significado substancial.

"A primeira gênese de β , a gravitação, aparece, portanto, como forma originária de energia, matriz da qual nascerão, como filhas, todas as outras formas, por meio de distinção e diferenciação no processo evolutivo. Particularizemos. Entendo aqui, como gravitação, não a pequena gravitação de Newton, caso particular ao vosso planeta; mas uma gravitação de sentido mais amplo, que resulta do equilíbrio das forças inversas de atração e repulsão, opostas e complementares (lei de dualidade, que veremos agora); uma gravitação filha direta do movimento, isto é, energia gravífica, filha da energia cinética." 
AGS, Cap. 38 (grifos meus)

Equilíbrio de forças que viabiliza a coesão da matéria e o movimento dos objetos. É a lei de dualidade (princípio universal). Ela é a expressão do movimento no plano energético. Por isso está intimamente relacionada com a dimensão 'tempo'.

Não iremos continuar essa história nem essas descrições. Elas são interessantíssimas se vistas sob o prisma monista. O importante aqui é perceber as relações entre os fenômenos. As derivações e diferenciações. O esquema geral do cosmos. De sua construção. Ou melhor...reconstrução.

Fig.5: Desenvolvimento do nosso Universo. Os períodos não estão em escala. 
Parte-se do caos, da ignorância, para se chegar à vida e com esta à manifestação de uma consciência
de alto grau. E daí, parte-se para a desmaterialização...(o fim?).
Mas será que somos filhos do caos e da matéria? Ou existe uma outra explicação? Uma outra teoria?

Com os fatos apresentados, é possível concluir que nosso Universo é movimento perpétuo. Sua origem está além das manifestações contidas em seu seio - por mais evoluídas que sejam essas manifestações. E ele caminha para seu fim (Lei da Entropia e Radioatividade). Mas ele, sendo manifestação, é apenas um aspecto momentâneo do Absoluto. Uma variação da eternidade. Em que criaturas mais ou menos evoluídas digladiam incessantemente. 

Para completar todos esses avanços da Ciência, mister se faz superar a própria Ciência, espiritualizando-a, conforme já foi dito algures [3]. E por isso a obra de Ubaldi é fundamental. Ela fornece um esquema geral que descreve, em linhas gerais, o íntimo do fenômeno evolutivo (A Grande Síntese) e a nossa origem e destino, causa de nossas dores (Deus e Universo + O Sistema).

Fig.6: Pode-se fugir das grandes questões. 
Mas se não buscarmos compreendê-las, elas sempre irão nos dominar...

A Parábola do Filho Pródigo é a síntese do processo da queda (big-crush), com a criação do caos (big-bang) e de toda a odisséia evolutiva (transformismo incessante), até o retorno ao Pai - cujo Reino não é deste mundo...

Cristo disse tudo de forma simples.

Para quem desejar se aprofundar, uma palestra do Maurício Crispim é esclarecedora:

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Do artificialismo agradável ao realismo inexorável

A humanidade vem seguindo uma trajetória que está se consumindo a uma velocidade vertiginosa. Essa trajetória teve por princípio um tiro (=impulso) inicial. Um ato de grande determinação. Ou melhor: um pensamento. Esse pensamento nada mais foi (e é) do que um paradigma. Um sistema de crenças e valores, apoiado na razão, na objetividade, na sofisticação argumentativa, na busca pelo bem-estar. Um sistema apoiado numa forma mental que se traduz no modo de funcionamento de nossas instituições. E que alimenta elas, justificando sua existência através de desejos alinhados com a razão de existir dessas instituições - que são órgãos de um sistema.

 
Fig. 1: Quanto maior a renda (e patrimônio), maior a contribuição para o aquecimento global.
Pior ainda é saber que o grosso desse consumo-emissão não se traduz em despertar de consciência que gere 
atitudes mais sistêmicas, sínteses mais profundas e atos mais humanos. 

O mundo possui vários regimes. No campo político, eles variam entre uma débil democracia e um corrosivo autoritarismo; no campo econômico, eles oscilam entre um raso coletivismo distributivo e um cruel individualismo produtivo; no campo filosófico, eles se expressam como uma reforma íntima calma que não se intromete no mundo exterior e uma atuação sistêmica que não enxerga o espírito interior que deveria animá-la; no campo científico ele se expressa entre um dualismo que admite dois termos fundamentais e em perpétuo combate e um pseudo monismo que vê a essência numa forma particular - e não em algo que transcende todas as formas. 

Sem dúvida são tempos de perdição. De desorientação. De velocidade. De desempenho financeiro, sexual, acadêmico, social. E de reconhecimentos imediatos. De curtidas e likes e gozos. Tudo isso em combos, de preferência - como os serviços e bens. 

Não há tempo para se pensar no tempo. Não há espaço para admitir novas perspectivas, à fundo, que possam transformar a personalidade. Não há vontade de parar para pensar (de verdade). E muito menos, é inexistente a necessidade de contemplar. Isso (contemplar) virou um desperdício completo. Uma atitude apenas útil para tirar algum proveito momentâneo. Algo distante, sem significado mais profundo. Algo abstrato...

Apesar disso, eu prefiro uma definição mais profunda. Ela nos dá uma ideia mais precisa sobre o ato de contemplar:

Então eu percebo os outros de modo muito diferente. Vejo (sem arrogância alguma) pessoas perdidas - ao menos em sua grande maioria. Sinto a desorientação dos indivíduos. Sinto que o grau de consciência das pessoas só pode expressar esse desespero - de incorporar um aspecto mais profundo da vida - através de reações brutas, dizeres com conteúdo substancial muito diluído. Me preocupo com o próximo. Mas, ao mesmo tempo, pouco posso fazer. Sabe...é uma questão de quantidade, apesar disso ser fundamentalmente ilusório. 

Estamos no Anti-Sistema. O universo é trifásico: possui matéria, energia e espírito (que algumas correntes chamam de mundo físico, mental e espiritual). E todas fases são contíguas. Isto é, coexistem a todo momento, em todo lugar, se relacionando de modo muito especial a depender da consciência individual. E, sendo trifásico, devemos conviver com todos elementos e trabalhar com eles. Eis o porquê da quantidade ser importante para que a qualidade aumente sua importância.

Parece um paradoxo, mas não o é. Basta observar à fundo. Não com a lógica do intelecto, mas com a potência penetrante da intuição, na qual o indivíduo se sente como fenômeno dentro do fenômeno. O cosmos olhando par si mesmo. A humanidade se vendo sob uma perspectiva cósmica. O indivíduo conhecendo sua essência e a causa do transformismo que o anima. 

Vamos falar um pouco sobre economia, tecnologia e ecologia (o tema deste ensaio).

Da Revolução Científica - como consequência esperada - brotou uma outra revolução, seu subproduto: a Revolução Industrial. Ela foi caracterizada pelo quê? Pela transformação de matéria bruta e formas de energia estocadas no planeta através de conhecimentos científicos. A meta foi aumentar a velocidade, diminuir distâncias, comunicar de modo claro, trocando grande quantidade de informações. Trazer mais conforto material. A busca pela eficiência. 

Mesmo feito de modo desordenado e desigual, foi possível levar a muitas pessoas benefícios antes inimagináveis. Na medicina (medicamentos, tratamentos, equipamentos, medicamentos, conhecimentos), no lar (eletrodomésticos, eletroeletrônicos), nas cidades (transportes, saneamento, comunicações), na administração (distribuição, mapeamento, priorização) e por aí vai. Até mesmo surge uma nova arte, o cinema - a sétima arte. E com ele novas possibilidades. Tudo se espalha rapidamente, mesmo que de modo heterogêneo e trazendo germes de futuros problemas.

O problema disso tudo foi o seguinte: os custos de produção sempre foram externalizados. 

O que é isso? (externalização de custos)

O blog do Roberto Moraes, engenheiro e professor titular do IFF, tem uma definição que julgo muito clara:

"Este é o nome pomposo que se dá a todos os gastos que um empreendedor teria para montar seu negócio, e por vias diversas, ele consegue passar a responsabilidade para a gestão pública que reforma vias, desapropria áreas, dá isenção ou descontos de tributos, forma profissionais, etc. Os investidores absorvem custos até a fase de licenciamento, com as chamadas compensações/mitigações ambientais e/ou sociais, para além disso, tudo será sempre muito difícil. O gestor público tem que saber disto, até para compreender e administrar o processo de regulação e de demandas que tendem a surgir cada vez mais de parte a parte. O blog está se referindo ao Açu, mas as referências servem para qualquer grande empreendimento."

Fonte: [3]  (grifos meus)

Isso permite camuflar o preço real de um produto / serviço. Não é preciso dizer que essa camuflagem agrada muito ao consumidor, cujo salário é cada vez mais achatado e o 'preço' de obtê-lo, mais humilhante e tenso. Desse modo o capitalismo encontrou um modo de conseguir se perpetuar, enfrentando pouca resistência por parte da sociedade (que o sustenta).

Chegamos ao ponto em que não é mais possível manter as aparências. Os preços começam a aumentar absurdamente e não há artificialismo que consiga disfarçar. Esse artigo de Umair Haque explica melhor o fenômeno da externalização que se torna internalização de custos [1].

Agora o que vamos observar é a inserção desses custos de produção - acumulados ao longo de décadas e décadas...desde os primórdios da Rev. Industrial - serem passados para nós, consumidores, povo deste planeta. Porque a turma que possui as megacorporações não está disposto a pagar a conta. 

Jeff, Elon, Bill e Cia. não estão interessados num mundo verdadeiramente harmônico e sustentável. Eles querem fugir para Marte ou uma estação espacial enquanto nós nos digladiamos até a morte. Eles estão mais presos à ilusão. Estão presos à forma mental. Ao gozo em sua forma mais sofisticada. E nós, ao nos mantermos inertes e 'focados' em nossas pequenas ocupações, fazemos papel de idiotas. Precisamos agir rapidamente. Cada um precisa aceitar a realidade. Caso contrário, a conta será cada vez mais amarga. Preços subindo como um foguete. E com isso, manter um padrão e vida minimo será um luxo para uma parcela diminuta da humanidade. Sabe...essas coisas como plano médico, medicamentos, transporte, comida decente, energia, água potável, banhos quentes, moradia decente e coisas do tipo. Coisas que todo ser humano teria direito e poderia ser fornecido por um sistema político-econômico minimamente justo. 

As pessoas não conseguem frear toda essa loucura porque elas não compreendem o que está acontecendo de fato. O fenômeno é um mistério para praticamente todos. Mas isso não é o pior. O mais trágico é que ninguém está disposto a mergulhar à fundo nas causas dos males atuais. Porque isso demanda esforço, trabalho duro não reconhecido e - em casos extremos - sacrifício. Essa é a desgraça da espécie humana nos tempos presentes. 

Fig. 2: Lei da causa-efeito. O abuso de um lado gera a privação do outro. E vice-versa. Uma dança 
de desequilíbrio dinâmico é de superfície. É a dança da humanidade, que se desgasta para caminhar 
a passos lentos na direção evolutiva. Uma dança de equilíbrio dinâmico é de profundidade. Ela se move 
de outro modo, adentrando no mistério das coisas, para assim realizar verdadeiros feitos. Feitos eternos e 
unificadores...

E qual é a solução então?

Dou uma dica através de afirmativas que mapeiam o fenômeno:

1) As instituições se enquadram numa lógica sistêmica (todas elas);

2) Elas podem aparentemente funcionar contra essa lógica, mas no fim estão movendo palitos na superfície. A grande coordenação reside na lógica sistêmica;

3) Essa lógica tem metas: consumo, distrações, acumulação, aparências, ganhos efêmeros, forma, gozos e crescimento ilimitado;

4) E essa lógica tem temores: conscientização, simplicidade, síntese, intuição, unificação, significação;

5) A lógica por si só parece ter vida própria. Ela é coordenada pela ideologia dominante. Ideologia que expressa o nível de consciência do grosso da humanidade;

6) A humanidade, em seu baixo grau de consciência, - resultado de um descompasso entre intelecto e moral - sustenta inconscientemente essa lógica sistêmica (cuja estrutura é o sistema em si), sem conseguir relacionar seus males quotidianos com o que gera eles;

7) A forma mental baixa combate o sistema que a gerou. Como estão no mesmo nível (forma mental, causa intangível, e sistema, efeito concreto), eles se retroalimentam. Resultado: revoltas incipientes, revoluções usadas pelos poderes a seu favor, mudanças muito lentas, criação de bodes expiatórios em todos os campos, desde a política até a religião até os ramos do saber. Enquanto isso o ritmo de degradação segue a passos largos. Vamos perdendo o que mais tem importância: relações profundas, trabalhos significativos, simplicidade, capacidade de discernir, capacidade de pensar, autonomia, controle sobre nossas vidas...

Vocês estão vendo o quadro? Essa é a gênese dos males atuais. Uma causa (um pouco mais) profunda. 

Nos acostumamos a um mundo estático, em que o nível atingido é considerado o ideal a ser perpetuado - a todo custo. A ideologia do consumo, do bem-estar e dos gozos discretos, porém intensos. A ideologia da argumentação que se potencia pautada nos interesses individuais. Isso é individualismo. Separatividade. Utilitarismo de superfície. 

Precisamos de uma ciência econômica que esteja à altura dos desafios de nossos tempos. Uma economia radical (que vá à raíz dos fenômenos), sendo capaz de coordenar o processo evolutivo no plano concreto para que o ser tenha possibilidade de realizar as criações eternas, no espírito. 

Umair Haque explica um pouco sobre essa economia radical (acione as legendas em português):

Precisamos de ideais para nos movermos. Ideais que gerem ideias. Ideias que coordenadas entre si formam um quadro claro, tornando a ação da coletividade coordenada. Isso será a evolução da revolução. 

Escutemos palavras de Sua Voz:

"Vossa ciência econômica acredita justificar-se – como se partisse de um originário princípio de justiça – afirmando, com sua premissa hedonística, a presença de um tipo abstrato de homo economicus, como se, na realidade, um aspecto pudesse ser isolado do outro e cada fenômeno não estivesse vinculado a todos os fenômenos na lei universal."

AGS, Cap. 92 (grifos meus)

A ciência econômica hodierna (presente) se baseia num tipo humano puramente interesseiro. Como se não houvesse nada a mais. Nenhum interesse que escapasse dos fenômenos de trocas de bens e serviços visando o bem estar.

"Vossas ciências sociais se baseiam confortavelmente em qualquer mentira cômoda. Melhor seria enfrentardes a verdade, dizendo que, quase sempre, o homem, não apenas como uma hipótese econômica mas também na realidade, é um perfeito hedonista, como consequência da aplicação da sua natureza egoísta no campo dos negócios; que o do ut des não é um equilíbrio de direitos, mas sim uma avaliação de forças para um mútuo estrangulamento"

AGS, Cap. 92 (grifos meus)

A economia do do ut des (dou para que eu pegue algo de ti) visa o interesse imediato puro. Não se trata de um princípio que vise o bem estar de todas as partes, mas sim de uma lógica que faça uma mensuração de forças e deixe o conflito de exploração mais ordenado, mais revestido de civilidade e mais eficiente em sua extração. 

Essa lógica já passou da data de validade. As evidências abundam. É só uma questão de ver....

Ainda não está claro?Annie Leonard explica um pouco melhor:


Não é uma questão de opinião: é uma questão de pensar. De ver com clareza. De perceber o quadro todo - e não apenas fragmentos desse imenso mosaico planetário.

A privação é uma consequência do nosso abuso. Não estamos em equilíbrio dinâmico com o meio nem conosco. Do desequilíbrio interno chegamos ao desequilíbrio com os semelhantes, que em seu conjunto não conseguem se inserir como agentes responsáveis no grande equilíbrio planetário

A criação da noosfera é um fenômeno de despertar de consciência coletiva. Ela é a esfera que conseguirá coordenar as outras esferas (biosfera e geosfera). Ela se forma com a consciência global aumentando. Unificação é o passo. Mas para unificar é precisa que cada um se oriente. Faça isso por conta própria. 

Quem está mais desperto pode apenas mostrar o caminho.

Cabe à própria pessoa, presa na escuridão da ignorância, despertar e trilhar o caminho...

Referências:

[1] https://eand.co/why-everything-is-suddenly-getting-more-expensive-and-why-it-wont-stop-cbf5a091f403

[2] https://eand.co/do-americans-know-what-a-massive-ripoff-american-life-really-is-8804aa6b65fa

[3] http://www.robertomoraes.com.br/2011/03/externalizacao-de-custos.html

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O nascimento de uma ciência qualitativa

A Revolução Científica foi um marco na História recente. Iniciada por Galileu Galilei no século XVII, ela carregou consigo (e carrega até hoje) o método científico, predominantemente indutivo. Um método que se apoia nas quantidades, isto é, em coisas que podem ser mensuradas. Aí temos todo o mundo físico e os domínios que se apoiam nele, como o orgânico, o psíquico e o social. No entanto, à medida que subimos na escala de complexidade, percebemos que esse método vai perdendo força, se tornando uma mera aproximação (e muito ruim) do que se conhece por consciência.

Fig. 1: Não apenas a ciência, mas a religião também sofrerá uma mudança profunda. 
Quem se prende à forma verá nisso a morte de ambas. 
Quem navega na substância e vive o transformismo, verá o nascimento de uma nova civilização.

Para que a ciência moderna nascesse e pudesse dar todo seu rendimento, foi necessário estabelecer alguns pontos. O principal deles foi separar duas coisas: o domínio físico do domínio da consciência. De modo geral:

  • A ciência irá lidar com o mundo físico, composto de propriedades quantitativas
  • A consciência, composta de qualidades, irá ficar fora do domínio da ciência. 

Ou seja, tudo que não é mensurável está fora do âmbito da ciência. Esta só irá se preocupar com quantidades. O reino da qualidade não é objeto de estudo da ciência que nasce. E o próprio Galileu proferiu uma frase que marcou todo o desenvolvimento ulterior da ciência moderna:

"A matemática é o alfabeto que Deus usou para escrever o Universo."

Galileu Galilei

E assim caminhou a ciência, trazendo inúmeros progressos à humanidade no campo do mundo concreto. E com esses sucessos as ciências físicas começaram a galgar degraus, buscando explicar como funcionavam os organismos vivos, as células, os órgãos, os tecidos e os subsistemas do corpo e o corpo como um todo. Mapeamos a botânica e observamos a biosfera. Formulamos teorias para a ciência térmica e eletromagnética. Adentramos no cérebro e buscamos relacionar a origem dos sentimentos e pensamentos - a criatividade - com os impulsos nervosos. Mas justamente aí começamos a falhar, patinando na periferia de um fenômeno que está além dos sentidos e da racionalidade e da objetividade. E assim o método científico começa a derreter em face àquilo que ele pretende desvendar: a natureza da consciência - e a matemática, sua linguagem aliada, se revela impotente, capaz apenas de esboçar aproximações, estabelecendo relações causais.

Isso não significa que a ciência materialista com seus métodos e linguagens não seja capaz de estabelecer aproximações do reino qualitativo. Mas ela por si só não é suficiente. E aí adentramos no que é denominado monismo neutro. O documentário abaixo pode dar uma introdução às questões relacionadas ao estudo da natureza da consciência. 

O monismo neutro afirma que o substrato de toda realidade não é composto nem por mente nem por matéria, mas sim por um terceiro elemento (situado no campo do superpsíquico) que pode ser abordado por abordagens baseadas na mente ou na matéria. Esse elemento desconhecido seria a substância (de Deus).

A teoria integrada da informação da consciência, de Giulio Tononi, propõe que a consciência está correlacionada com a informação integrada ao seu nível máximo, dando uma caracterização matemática à sua teoria. Mas meras correlações não constituem uma teoria da consciência. 

A questão aqui é estabelecer uma ponte entre essa informação integrada ao máximo grau e a manifestação da consciência. E a visão de Galileu não ajuda a avançarmos nesse ponto, já que ela separa ciência de consciência - isto é, uma forma de abordar com o fenômeno em si.

A ciência é hoje materialista. Segundo Ubaldi, amanhã será ciência do espírito. Não no sentido que geralmente nos vem à mente (adivinhações, dogmas, etc.), mas tendo por base de que é necessário transcender os métodos hodiernos através de uma pesquisa que parte do campo interior. Tendo por premissa que a própria ciência é um fenômeno contido no devenir universal, e ela também, para avançar, deve se transformar em algo inteiramente novo, se abrindo para a metamorfose. E para isso é preciso evoluir, ou seja, atingir uma maturação interior capaz de despertar a faculdade intuitiva no ser, e com isso desenvolver um método inteiramente novo - o método intuitivo. 

As correlações podem servir de base. Mas de nada adianta continuar estabelecendo (e reescrevendo) correlações ao infinito, se elas por si só não dão a respostas. No fundo elas são setas que apontam para outro 'lugar'. Setas que apontam para um infinito. 

Se a ciência for se tornar uma ciência do espírito (a ciência da nova civilização), ela deve transcender a ciência de Galileu. A ciência materialista deve se tornar espiritualista. Isso não significa negar todas as leis (descobertas), métodos (desenvolvidos) e ferramentas (usadas) da ciência materialista (séc. XVII a XX), mas a partir de tudo isso e dos paradoxos do nosso século, superar essa forma de ver o mundo, expandindo nossa percepção da realidade. E aí o sentimento, o pensamento sistêmico e a integração tem um papel central. 

Estamos diante de uma era de transformação profunda, cheia de possibilidades se soubermos perceber o que as forças da vida nos apresentam. Devemos avançar com nossa ciência de Galileu, mas desenvolver, sem temor, a ciência de Ubaldi. Um sistema integrado que coloca na vanguarda a ciência do espírito - e na retaguarda a ciência da matéria.

Existe um termo conhecido como panpsiquismo. Ele afirma que tudo que existe é permeado de consciência. Não no sentido tal qual conhecemos no nível humano. E sim no sentido de que tudo obedece a uma lei, em seu nível, e 'busca' cumprir sua função dentro do esquema de nosso Universo. Um cosmos decaído porém em evolução perpétua e incessante. Que segue uma trajetória característica ditada por uma espiral - os movimentos fenomênicos. 

O vídeo (curto) de Russel Brand dá uma ideia desse conceito. Ele explica um pouco sobre a entrevista que ele deu ao Prof. Philip Goff (especialista em panpsiquismo).

A consciência é a raíz de nossa identidade. Sua compreensão pode ser a solução de diversos problemas que afligem nossa sociedade. Essa revolução está em curso e irá não apenas mudar radicalmente nossa compreensão do Universo, mas desvendar nossa própria natureza.

Pietro Ubaldi fala abertamente e com muita propriedade a respeito dessa necessidade da ciência se transformar. Sua Voz, em A Grande Síntese, aponta para essa nova ciência, dizendo que a velha está saturada e não consegue caminhar mais sozinha. É imperativo que surja seu aspecto mais evoluído.

"Vossa ciência lançou-se num beco escuro, sem saída, onde vossa mente não tem amanhã. Que vos deu o último século? Máquinas como jamais o mundo as teve, mas que, no entanto, são apenas máquinas e que, em compensação, ressecaram vossa alma. Essa ciência passou como um furacão destruidor de toda a fé e vos impõe, com a máscara do ceticismo, um rosto sem alma."

AGS, Cap. 1 (grifos meus)

E, mais importante, a ciência sempre teve uma finalidade: tornar-nos melhores. Mesmo sem sabê-lo, essa foi sua função principal. As conquistas de superfície (bem-estar, vencer argumentos, conquistar) são apenas ilusórias que fazem criaturas involuídas se movimentarem em direção à Deus, evoluindo incessantemente através de experiências. 

"A ciência pela ciência não tem valor, vale apenas como meio de ascensão da vida. Vossa ciência tem um pecado original: dirigir-se apenas à conquista do bem-estar material. A verdadeira ciência deve ter como finalidade: tornar melhores os homens. Eis a nova estrada que precisa ser palmilhada. Essa é a minha ciência."

 AGS, Cap. 1 (grifos meus)

Por isso a revelação será redescoberta pela humanidade. Dessa vez a revelação virá através de profetas modernos, como Pietro Ubaldi e tantos outros que já atuam em nosso mundo. Profetas com uma compreensão mais clara, menos presos à forma e à letra. Profetas com astúcia bem usada, força de argumentação, cultura e intelecto, guiados por um senso moral muito sutil que lhes imprime uma trajetória fora do comum. Uma trajetória que revela um destino. Destino glorioso, em que o elemento se destaca e viabiliza a ascensão vertical, isto é, substancial, de nossa espécie. 

"O momento é crítico, mas é necessário avançar. Então – coisa incrível para a construção psicológica que o último século imprimiu em vós – nova verdade vos é comunicada por meios que desconheceis, para que possais descobrir o novo caminho."

AGS, Cap. 1 (grifos meus)

Fig. 2: Não é tempo de esperar. É hora de agir. Tudo que puder ser feito é válido. 
O esforço individual do ser irá atrair outros, que irão se irmanar e crescer, como um único organismo.
Organismo que se tornará a base de uma nova civilização. Civilização do espírito. 

Através de revelações que tocam o íntimo do nervo espiritual humano, a busca será iniciada. É apenas com algo fantástico, incrível, fora de série e inteligentemente ousado que iremos nos sentir estimulados a progredir em nossas vidas. 

Precisamos de um conceito profundo dito da maneira mais poética, científica e musical. Algo expresso através de uma vivência ímpar. Um ato de amor pelo que está para se revelar, para que assim as pessoas fiquem pasmas e façam um novo início - e não continuem a repetir antigos métodos de novos modos. 

Referências:

[1] https://blogs.scientificamerican.com/observations/galileos-big-mistake/

[2] https://medium.com/the-infinite-universe/science-may-not-be-true-dde5e437c303

[3] UBALDI, Pietro. A Grande Síntese.

domingo, 10 de outubro de 2021

A essência da Vida revelada através de muitas vidas - que vêm e vão

A Arte é a mais alta expressão humana do pensamento de Deus. Nossa espécie desenvolveu - baseada em seus sentidos, sensibilidade e técnica - uma maneira de exprimir ideias e sonhos muito especial. Na verdade, apenas o Homo Sapiens possui essa capacidade: de ir além do que percebe objetivamente, pelos sentidos.

A mais recente (e última) das formas de expressão é o cinema, ou a sétima arte. Podemos dizer que se trata daquela mais tecnológica e massificável. Uma faca de dois gumes, que pode ser usada tanto para acelerar um processo de sensibilização do ser humano quanto mantê-lo num estado de ignorância e separatividade. Por esse motivo é muito importante estarmos atentos à nossa própria conduta (o vigiai, dos conselhos do Cristo "orai e vigiai").

É preciso usar as coisas. Nem abusar, nem recusar, mas usar - como dizia Huberto Rohden. 

Abusar é usar mal e em excesso.

Recusar é não usar nada porque não se vê aspectos úteis de algo.

Usar é dar o devido valor a algo, tornando-a meio de ascensão.

Eu uso o cinema para despertar minha consciência. É a forma de arte com que mais convivo e que mais facilmente tenho acesso. Então nada melhor do que fazê-la orbitar em torno do eixo central, foco da minha vida: ascensão do espírito.

Nos últimos anos, com a pandemia, conheci as séries. Várias delas. Séries maravilhosas, de conteúdo e valor, que expressam a vida em seu aspecto mais substancial, através de histórias simples ou grandiosas - mas todas de valor intrínseco. Uma dessas séries (e por enquanto uma das cinco melhores que já assisti) se chama Call The Midwife. 

Fig.1: Uma série sem grandes tramas, ou esquemas complicados, ou feitos que causam impacto direto.
No entanto, uma série plena de valor, repleta de significado e próxima, muito próxima, à vida de cada um de nós.
Uma jornada real e essencial para quem deseja conhecer melhor a si mesmo através dos outros.

Além de ser uma história envolvente, cujo ponto de partida é baseado em relatos reais da enfermeira Jennifer Worth (Jenny) na Londres de finais da década de 1950, ainda temos belíssimos casos de parteiras e freiras, que dia-a-dia realizam um trabalho aparentemente simples, porém de valor inestimável, que causa impacto na vida de quem recebe seus cuidados - e nelas mesmas, moldando as personagens à medida que a série se desenvolve. 

A trilha sonora é uma jóia à parte. Do compositor italiano Maurizio Malagnini (a Itália 'gera' criaturas muito interessantes no campo da música e das artes em geral), sentimos fragmentos do infinito à medida que escutamos a trilha sonora que dá tom a cada momento do seriado. É algo que transmite um sentimento profundo, do íntimo, além do local e das aparências; além da época. É uma música que dá tom ao drama mais agudo de cada personagem; que dá vida àquilo que a simples narrativa (por melhor que seja) não é capaz de exprimir em sua plenitude; que traduz o ímpeto, a esperança, a tristeza, a alegria e o idealismo de cada personagem através de uma determinada combinação musical. 

Vale a pena ouvir o álbum (abaixo).

O ponto de partida é o ano de 1957. O bairro é Poplar (East End), em Londres. Estamos na Nonnatus House. 

"Nonnatus House, midwife speaking" (Casa Nonnatus, Parteira falando)

Essa recepção será repetida por toda série. A marca registada da casa e da série - que orbita em torno dessa casa em que convivem parteiras e freiras cuja meta é uma: trazer ao  mundo da melhor forma possível as crianças que nascem no região. Cada parteira que atende o telefone já revela seu ponto e sua função, como que dando não apenas informação, mas segurança, a quem está do outro lado da linha. 

Estamos numa Inglaterra em que o National Health Service (NHS, o SUS britânico) mal completou uma década. O primeiro sistema de saúde público, universal, gratuito e de qualidade do mundo. E a Casa Nonnatus se insere nesse contexto de transformação nacional. Mas apesar desse avanço histórico, vemos que o quotidiano das parteiras não é nada fácil. 

Há desafios a cada passo. Cada dia novo, cada parto a ser feito, traz um risco, uma possibilidade, e como produto final uma experiência - que pode se arrastar por anos na mente e no coração das parteiras e das freiras, moldando lentamente a percepção de mundo. 

Cada personagem traz uma personalidade muito especial. Não há nada idêntico. Cada tipo possui sua história de vida, seu modo de perceber as coisas, suas crenças e valores, suas virtudes e vícios, suas inclinações e repulsas. Mas todos estão relacionados profundamente, como uma grande família, por meio de um objetivo de profissão, que é justamente melhorar a qualidade de vida das pessoas através da medicina e da humanidade - os atos e gestos simples que fazem toda diferença.

Jenny Lee (Jessica Rayne) é a parteira principal durante as três primeiras temporadas. Junto a ela temos Trixie Franklin (Helen George) e Cynthia Miller (Bryony Hannah), atendendo as pacientes durante o dia e alternando plantões durante a noite. Trixie pode parecer fútil pela sua aparência, mas nela jaz um ser de sensibilidade e dedicado ao trabalho, com princípios. Ela é expansiva e tem facilidade em lidar com todos. Já Cynthia é mais reservada, miúda fisicamente porém enorme em sabedoria das coisas (como fica revelado numa conversa com a Irmã Evangeline numa temporada mais à frente). 

Avançando um pouco (1° epsiódio) chega Chummy Browne (Miranda Hart), uma moça desajeitada e fisicamente grande, porém de enorme coração e doçura ao lidar com tudo e com todos. E também muito competente em seu serviço, como demonstram as primeiras cenas. Sua presença é reconfortante e ela é o elemento que busca animar quando tempestades psíquicas se avizinham.

Como o ambiente que alberga essas enfermeiras especiais é um convento, a presença de freiras é presumível. E elas (freiras) são igualmente interessantes e fantásticas em sua constituição psíquica e comportamentos. A maioria delas é senhoras, exceto por uma: a Irmã Bernadette. Comecemos por ela.

Após a Irmã Julienne (Jenny Agutter), a chefe, responsável pela direção da Casa Nonnatus, Bernadette é a mais calma. Ver-se-à que ambas possuem uma afinidade em certos pontos. Além de sua paciência, Bernadette é meticulosa e ponderada e jovem. Sua juventude, beleza e propósito de vida, a colocam em dúvida a respeito de sua vocação. Isso fará com que ela se transforme, revelando um aspecto central da natureza humana: a busca pela realização de sua missão no mundo. 

Julienne é ponderada, mitiga conflitos e sempre está trabalhando árduamente. Ela é o modelo perfeito de chefe, que exerce autoridade sem ser autoritário. Que convive lado a lado com seus subordinados. Se diverte e se entristece junto aos dramas e alegrias de cada um. É a voz da razão e da sabedoria. É conservadora até o ponto em que não trava completamente o dinamismo progressista dos outros. É exemplo e equilíbrio.

A Irmã Evangeline (Pam Ferris) é muito competente, porém durona. Direta como uma flecha, ela sempre vai direto ao ponto, resolvendo questões - mesmo que às vezes com falta de delicadeza. Seu passado foi difícil e isso explica sua personalidade inalterável, porém muito segura. E essa segurança que gera confiança em suas pacientes, tornando-a um exemplo.

Por último, mas não menos importante, temos a querida Irmã Monica Joan (Judy Parfitt), a anciã da turma, que foi uma das primeiras parteiras qualificadas na Inglaterra. Seus mais de 80 anos não a impedem de proferir exclamações muito certeiras, ou afirmações muito profundas, ou mesmo perguntas muito importantes. Ela não atua como parteira devido à sua idade avançada. Considerada senil (ao menos em parte), ela se aposentou e ficou ao cuidado das irmãs. Muitos dos alívios cômicos da série vem através dela. Seus interesses por livros, por doces e temas filosóficos, caracterizam sua personalidade. Ela é excêntrica, fora do comum, fora do padrão. Mas é justamente isso o que a torna especial. Seu comportamento revela a beleza dessa fase avançada da vida, em que pode-se falar mais abertamente e ao mesmo tempo viver mais sinceramente. 

Fig.2: As enfermeira Barbara e o pároco Tom. Unidos por afinidade. Um amor bonito. 
Sem conflitos internos - desafiado pelas circunstâncias externas.

Todos personagens estão centrados nos nascimentos. A vinda de seres ao mundo. A encarnação de almas que devem evoluir na matéria, através de experiências (às vezes muito árduas, como será visto em muitos episódios), para de alguma forma espiritualizar um pouquinho mais o mundo. Através de gestos, atos, contribuições e trabalho. Através de expansão de sua sensibilidade e aprofundamento de sua compreensão das coisas. 

Mas a morte também faz parte da vida dessas profissionais. E é através das idas (para o 'outro lado') de certas pessoas que nos sentimos um com os personagens. Desenvolve-se o senso de empatia. A dor do outro é a nossa dor. E isso nos envolve com a série. É a vida real, sem idealismos ilusórios (=fantasia), mas guiada por um idealismo de profundidade, que se manifesta de modo muito discreto na superfície. 

A partir de cada episódio o espectador é encorajado a fazer pequenas investigações a respeito de várias questões abordadas: a função da medicina, o aborto, a criação dos filhos, adoção, doenças, consequências da falta de conhecimento sobre coisas, nascimentos problemáticos, violência doméstica, aceitação, efeitos da guerra, formação de casais, convivência com o outro, culturas distintas, métodos distintos, influências do mundo da política, da economia e da tecnologia, entre muitos outros. 

Adicionalmente a tudo isso, a série vai se dinamizando, mantendo seu ritmo com a entrada e saída de personagens - por motivos mais ou menos agradáveis. E as novidades são muito enriquecedoras. Personagens muito singelas, humanas e cheias de vida. 

Fig.3: As enfermeiras Anderson, Franklin, Phyllis e Dyer.
Revelando a essência da Vida através das vidas que vem e vão.

Comentemos brevemente sobre algumas delas.

A jovam Barbara (Charlotte Ritchie) tem os modos recatadas de filha de pároco. Mas muito determinada em seu ofício. Uma pessoa idealista na medida. Alguém que não chama a atenção mas cuja ausência seria sentida de forma muito forte pelos outros. 

Patsy (Emerald Fennell), que chega com pouca experiência com partos, mas muito eficiente. Uma moça com inclinação sexual diferente, que ama de outra forma uma pessoa que não poderia ser amada (numa sociedade dos anos sessenta, fortemente conservadora). 

Phyllis (Linda Bassett), mulher de certa idade, muito metódica e experiente. Solteira, passando uma impressão inicial de pessoa fria e distante. Robótica. Mas à medida que os acontecimentos se dão, a sua personalidade se revela e observamos uma pessoa muito próxima às suas colegas. 

Há outras, maravilhosas, como as enfermeiras Lucille Anderson e Valerie Dyer. Deixo de falar para não me estender, mas a presença de ambas é de importância vital para a série. 

Mas talvez o mais interessante (para mim ao menos) seja a gênese e a trajetória do casal dos Turners. Uma família que começa com um pai viúvo (Dr. Patrick) e seu filho (Timothy), que vai aumentando e se moldando à medida que a vida apresenta as circunstâncias adequadas. E o ponto de partida reside justamente em Shelagh, uma mulher que muda sua vida abruptamente porque sente que seu destino é criar uma família.

Os pacientes possuem igualmente seu valor. Alguns deles ficam presentes por um certo tempo, se relacionando com esse devenir dos personagens principais. Pessoas ricas em histórias e fortes em valores. 

São almas que se influenciam e se reforçam. Almas em evolução, que revelam a essência da vida através das vindas (partos) e idas (mortes). Almas simples, sinceras e determinadas.

Abaixo, a trilha In the mirror, que revela a transformação de uma das personagens.

Referências:

[1] https://valkirias.com.br/call-the-midwife-e-o-olhar-multidimensional-sobre-as-mulheres/

[2] https://www.imdb.com/title/tt1983079/

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

A origem dos milagres

A vida é muito curta. As existências terrenas, incontáveis, são tantas para cada indivíduo que se perdem na estrada do tempo que passou - e se projetam no tempo que virá. E toda condição atual que um indivíduo vive foi forjada através de seus próprios atos. Atos executados baseados em comportamentos que se apoiavam numa forma mental. Essa forma mental nasce na consciência, em seu íntimo, e se baseia numa visão, num sentimento, próprio do espírito. Algo consolidado através das experiências da vida. Então, é apenas vivendo profundamente, sentindo e compreendendo, que será possível caminharmos na única dimensão que interessa: para o Alto. Não um 'alto' espacial, mas algo diferente. Uma ascensão evolutiva, rumo ao infinito, ao eterno e ao Absoluto...

O cinema é, para mim, um meio muito interessante de auxiliar no processo de despertar. Essa relação (eu e a sétima arte) se iniciou há mais de vinte anos. Minha personalidade muito diferenciada não conseguia encontrar no mundo compreensão por parte das pessoas, e para suprir essa solidão terrena me senti impelido a mergulhar na vastidão da imagem e do som. 

Fig.1: O cinema turco demonstra compreender para que serve a sétima arte.

Filme após filme, fui ganhando a capacidade de filtrar as mensagens. À medida que os anos passavam e meu ser amadurecia, me orientava melhor e buscava por coisas mais substanciais: obras com maior impacto, cheia de significados; de riqueza de detalhes de uma época; que esmiuçavam personagens desconhecidos pelo publico (mas vitais para o progresso humano); que extraíam o melhor de mim através de uma trilha sonora profunda e viva, aliada a um roteiro que expressava um princípio superior. Roteiro: alma de um filme. Música: forma mais elevada de arte, capaz de tocar a alma...

O cinema tem a vantagem de combinar várias formas de representação e tecnologias. Ele permite a produção em série de conteúdo vazio, mas ao mesmo tempo viabiliza a difusão global de obras que ecoam pela eternidade. 

Ontem assisti um filme turco chamado 'Milagres do Amor'. É baseado numa história real. A história de um homem chamado Aziz. Um homem que nasceu com uma deficiência: seu corpo tinha uma forte paralisia muscular, de modo que seus movimentos eram restritos e sua fala, quase inexistente. Homem que, por desígnios do destino, acabou se casando com uma bela e boa moça de sua aldeia, Mizgin

Esse destino pareceu cruelíssimo à bela jovem, que poderia ter uma vida mais plena com uma pessoa saudável. E isso é o que o espectador sente nas cenas iniciais. O choque é forte e o sentimento de injustiça é grande. 

Aziz vivia numa pequena aldeia da Turquia da década de 50. Ele teve contato com um professor - homem muito bom - que fundou uma escola nessa vila. Esse professor, desde o início, este ao seu lado, ajudando o rapaz deficiente a levar sua vida limitada - mas nunca limitante. 

Quando o casal se muda para uma vila maior, começamos a ver a vida do casal inserido numa comunidade (como todas) que não compreende o significado dos acontecimentos e a situação dos outros. Há preconceito, crianças que caçoam da lentidão de Aziz, colegas de Mizgin desincentivam a situação da moça - segundo eles uma coitada. Para muitos, o jovem com paralisia muscular que andava torta e lentamente, que não podia movimentar seus membros superiores quase nada, que não conseguia esboçar um sentimento ou pensamento plenamente através da fala, que não expressava facialmente em sua plenitude o sentimento profundo que ele tinha por certas pessoas...essas pessoas não viam o ser que residia dentro do corpo, dentro da forma. Mas Mizgn, com o passar dos anos, foi percebendo com clareza crescente qual era sua função naquele contexto (aparentemente) infeliz.

Fig.2: Aziz e Mizgin no cinema. Vontade de estar ao lado daquele que dá sentido à sua vida...

Naquela nova moradia o nosso protagonista encontra bons amigos. Um grupo de pessoas sem preconceitos que se dedica a ajudá-lo. Tudo isso movido pela bondade daquele professor, que devido ao seu magnetismo interior, consegue, sem esforço algum, passar as vibrações de seu íntimo, tornando seus amigos amigos de Aziz. Pessoas dispostas a se dedicar em ajudá-lo a vencer essa doença aparentemente incurável.

Observamos uma trajetória de dez anos, indo do início da década de 60 até 1972. Partimos de um casal muito unido que, apesar disso, sofre preconceitos do mundo. Um casal com destino definitivamente selado. Destino sem perspectivas. Sem mudanças substanciais. E terminamos com duas revelações: milagres existem (1) e devemos cumprir todos os requisitos para eles se materializarem (2).

O amor de Mizgin evolui exponencialmente - graças à junção de sua vida jungida com a vida de Aziz. E isso, juntamente com outros fatores, repercute em efeitos. 

Uma dedicação que se inicia na forma de piedade, transforma-se numa dedicação por perceber uma missão em sua vida e finaliza por se tornar um verdadeiro amor. Um amor que se expressa na gratidão de sempre ter estado ao lado de Aziz. Um amor que evolui progressivamente, ao lado da dedicação férrea e da bondade inesgotável de um homem que jamais deixou de ser bom - apesar de tudo. 

Existe um fenômeno de realimentação no plano moral que possui em seu íntimo uma dinâmica muito peculiar. Uma orquestração muito bem feita, orgânica e composta por uma miríade de pequenos gestos, acontecimentos, reações e reflexões; composta por expressões sinceras e perseverança inabalável. 

Fig.3: O nascimento do filho de Aziz traz mudanças profundas em sua vida. Ele (filho)
pode ser visto como o produto materializado do ato de amor que flui de alma para alma...

As etapas de progressão do sentimento perante aquele incapaz se manifestam em fases: protege-se o deficiente por obrigação; depois, por senso moral (mesmo sem a vontade); mais acima, protege-se por senso de missão; e indo além, não mais se protege o deficiente, mas ajuda-se o ser preso num corpo desbaratado a cumprir seu destino. Passamos a jungir nosso sentido de vida com o sentido de vida daquele que sempre apoiamos. Inicialmente sem saber exatamente o porquê - e finalmente compreendendo tudo. 

Os milagres existem. Mas é preciso cumprir todos os requisitos para sua efetivação. Ou, em outras palavras, é imperativo acionar as alavancas do Alto para que as comportas do Céu atuem no plano material.

Fig.4: O professor e sua família, no cinema. Após cumprir sua nobre missão, uma nova jornada...

No filme "Milagres do Amor" observamos a evolução da sociedade de um vilarejo turco. A comunidade, seus hábitos, seus costumes, suas ocupações. Pessoas simples, como nós. O cinema tem papel de destaque, pois um dos homens, amigo do professor e de Aziz, é dono de um estabelecimento e através de seu cinema muitas experiências ocorrem. 

Há várias referências a filmes clássicos que marcaram a época. E ao formidável e astro Kirk Douglas, na época em seu auge (o grande Spartacus para as pessoas da vila). E Aziz, ao entrar em contato com essa arte, se encanta e passa a aprender com o dono, seu amigo, a técnica e a arte de exibir películas para as pessoas. Lembra-nos um pouco o belíssimo Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore. De fato, em ambos os filmes, chorei de emoção.

E assim, através de belíssimas produções, observo de modo cada vez mais profundo como a Lei de Deus opera - e como grandes almas contribuem para expressar seu funcionamento, através de histórias tão reais quanto belas. 

Para quem deseja conhecer a origem dos milagres, é preciso assistir a esse filme. 

Para saber mais: http://www.mundoespirita.com.br/?materia=mucize-milagre

sábado, 2 de outubro de 2021