quinta-feira, 17 de outubro de 2013

JOHN FANTE E SUA RICA POBREZA

Quando eu estava no colegial nada me deixava mais desanimado do que estudar literatura. Não pelos professores (que eram muito bons e legais), mas simplesmente porque o ensino dessa disciplina se limitava ao âmbito e cultura nacional, cujos temas freqüentemente abordavam questões que eram consideradas de interesse nacional. No entanto - e aí já reside a primeira contradição de tal pensamento - toda obra de Arte deve ser universal, transcendendo quaisquer barreiras culturais ou territoriais. Caso contrário existe risco em se afastar potenciais leitores, divulgadores e (mais grave ainda) escritores.

John Fante (1909-1984)
A minha aproximação com a literatura se iniciou justamente quando eu me encontrava mais distante da mesma e menos estimulado a buscá-la: nos últimos anos da faculdade de engenharia. E um dos autores magnéticos que me fizeram mergulhar de corpo e alma nesse desconhecido mundo foi John Fante.

Quero deixar claro que não quero fazer "chover no molhado" repetindo a incrível homenagem feita por Bukowski a Fante, que está registrada na introdução daquela que talvez seja sua obra mais famosa, "Pergunte ao Pó". No entanto, gostaria (também) de prestar minha homenagem a esse escritor feroz, simples e bem humorado, que em sua pobreza material encontrou toda matéria-prima para criar sua riqueza literária.

Bom, a primeira coisa que aprendi com a leitura é que autores afins estão ligados. Eles geralmente fazem referências a seus colegas mais próximos. É simples. Após você começar a conhecer um deles, vai perceber que logo existe uma fonte inspiradora por trás. Um leva a outro, e assim sucessivamente. Foi assim que conheci John Fante.

Eu estava lendo um livro de Bukowski - não me lembro qual. Num trecho desse livro, ele estava sendo entrevistado, e a pergunta sobre o que o levou a ser escritor e quais os seus autores preferidos foi feita. "John Fante", ele disse. Um cara com coragem, que não enrola. "As palavras me perfuravam.", disse o velho Buk quando abriu pela primeira vez o famoso "Pergunte ao Pó". E é realmente esse o efeito da escrita de Fante. Seus livros são fáceis de serem digeridos e dizem tudo que precisa ser dito. Exprimem os sentimentos mais íntimos do autor e seu universo, transformando todo seu mundo pobre numa arena fascinante. Parece que toda vida do mundo está acontecendo dentro de seu quarto de hotel barato e suas redondezas. O efeito é magnetizante. E assim as páginas correm. Uma após outra, numa espiral de suspense e descobrimento que não se finaliza com a última palavra nem com o último parágrafo nem com o último capítulo.

Em John Fante nunca existe ponto final. Sempre há algo a mais a ser dito. Pelo menos essa é a sensação que ele nos deixa ao finalizar seus livros. Como se ele próprio soubesse que não será ele - nem nenhum de nós - que dará a palavra final. Isso o eleva, deixando as portas do universo da imaginação abertas para o leitor. Seu interesse não é propriamente a escrita. É a vida. A vida real. A magia nas sutilizas desta. E a escrita foi a (melhor) forma que ele encontrou de retratar tudo.

Corroído pela diabetes, perdeu a visão e os membros inferiores nos últimos anos de vida. Mas a mente estava intacta, e assim continuou escrevendo, ditando as palavras que lhe vinham à cabeça para sua esposa, Joyce.

Um dos melhores autores do século XX, Fante retratou a vida das pessoas comuns. Sem enrolações. Direto. E artisticamente. Fui salvo por esse cara. A loucura estava prestes a me dominar e eu tentava encontrar um refúgio naquele último ano de faculdade. Prateleiras e prateleiras de livros. Séculos e séculos de autores não foram capazes de dialogar comigo. Eram todos muito cuidadosos no estilo - assim como os personagens. Parece que as atitudes deles eram todas calculadas. Como se tudo fosse uma enrolação. 90% da trama se resumia a coisas que não precisavam ser ditas. Muitas palavras, pouca emoção. Mas felizmente, quando estava prestes a ser vencido pelo cansaço, surgiram alguns caras que me resgataram. Um desses caras foi John Fante.

Finalmente pude dizer com toda sinceridade: "Aí está um cara que SABE escrever!"





(P.S.: Leiam a dedicatória de Bukowski a Fante na edição da editora José Olympio. É fantástica!)

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